De acordo com Lênin, a tese sobre um suposto “capitalismo organizado” não passava de uma ideologia que mascarava, sob o manto da organização racional dentro dos muros da fábrica, o “agravamento do caos que caracteriza todo o sistema da produção capitalista”.162 O desequilíbrio entre indústria e agricultura, a miséria das massas, o caráter beligerante da
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Ibid., pp. 84-85.
161 Ibid., capítulo sobre “O desmoronamento”, pp. 107 e seguintes. 162
política do Estado imperialista, as crises de superprodução e o acirramento das lutas de classes demonstram que a tese acerca de um “capitalismo organizado” não poderia resistir a uma confrontação com os fatos, como demonstraram também Rosa Luxemburgo e Nikolai Bukharin.
A crítica pequeno-burguesa distinguia-se da apologia do imperialismo apenas na forma, pois o conteúdo de ambas era visceralmente reacionário. O trabalho de Lênin sobre o imperialismo foi redigido justamente num contexto de acirradas polêmicas entre os revolucionários marxistas, de um lado, e as tendências oportunistas no seio do movimento operário, de outro; em praticamente todos os capítulos do livro, é possível encontrar referências de Lênin ao pensamento pequeno burguês daquela época, que tendia a “contaminar” os sindicatos de trabalhadores e seus partidos políticos através da defesa do “nacional-chauvinismo”.
O conteúdo deste tipo de “crítica” do imperialismo era reacionário, como demonstrou Lênin, porque representava uma pretensão impossível de ser realizada: o retorno a uma época onde predominava um tipo de competição considerada “livre, pacífica e honrada”. O sonho romântico do pequeno burguês pressupunha ainda a possibilidade de se eliminar o caráter parasitário dos investimentos especulativos, revelando um desejo de retorno a uma época em que o desenvolvimento do capitalismo girava em torno dos investimentos produtivos, ou seja, na produção de mercadorias.163
Ocorre que a concorrência, como Marx já havia demonstrado, conduz inexoravelmente à concentração e ao monopólio. Justamente por isso, Lênin afirmou que a expressão “social- imperialista” era bastante apropriada para definir alguns líderes do Partido Social-Democrata alemão: tais eram “socialistas de palavra e imperialistas de fato”.164 Em síntese: a tendência reformista no seio do movimento operário vislumbrava a possibilidade, num momento de
decomposição do capitalismo, de eliminar a fome e a miséria das massas, sem destruir o próprio sistema capitalista (que produzia e vinha acentuando cada vez mais as suas próprias
contradições).
O estudo de Lênin sobre o imperialismo tinha um objetivo bem definido: combater as tendências oportunistas no interior do movimento operário, cujo mais destacado representante foi Karl Kautsky. Este, de acordo com Lênin, representava a “pior espécie” de oportunismo, já que a idéia central de sua teoria repousava na esperança de uma paz entre os povos e nações do mundo, tornada possível justamente em função da concentração do poder econômico em
163 Ibid., pp. 24 e 49-50.
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torno dos trustes e cartéis.165 O pensamento de Kautsky, na prática, implicava a elaboração de uma estratégia política que consistia na acomodação do movimento operário à política imperial do Estado burguês. Este tipo de análise, apesar da fraseologia em defesa do pacifismo, na prática convertia-se justamente no seu contrário; pois o autor, ainda que implicitamente, sugeria que o movimento operário deveria aderir àquela mesma estratégia política pretendida pelo capital financeiro: os trabalhadores de todo o mundo deveriam renunciar à luta pela emancipação de toda a sociedade, ignorando o internacionalismo
proletário para abraçar a causa nacionalista, a xenofobia e o preconceito étnico-racial.
Para chegar a estas “conclusões”, Kautsky teve que ocultar as principais contradições daquela etapa do desenvolvimento capitalista. O autor, ao enfatizar as diversas formas de luta entre os trustes e cartéis, ignorou completamente o fato de que o conteúdo mesmo das lutas econômicas e políticas – cujo estudo permitiria denunciar o caráter de classe das mesmas – não poderia ser suprimido, enquanto continuasse existindo o capitalismo.166 O “renegado Kautsky”, cujos equívocos Lênin atribuía à má-fé e não à ignorância, escondia o fato – constatável empiricamente – de que o recurso à violência impunha-se como um “procedimento” absolutamente necessário para a afirmação dos interesses da oligarquia financeira. A tendência em converter a disputa econômica dos trustes e cartéis numa guerra entre os Estados, como afirmou Lênin, era uma característica essencial da “etapa superior do capitalismo”, sendo ineliminável dentro da estrutura da sociedade burguesa.
Exatamente o oposto era defendido por Kautsky. O mais destacado representante da Segunda Internacional afirmou que a tendência de expansão do capital poderia ser “melhor realizada” sem a agressão de uns Estados contra outros: “no es por medio de los métodos violentos del imperialismo, sino por la democracia pacífica” que se pode ampliar de modo mais proveitoso o comércio entre as nações.167 Kautsky entendia que os países imperialistas poderiam conquistar os mercados (incluindo o acesso às matérias-primas) dos países dependentes e coloniais sem empregar a força militar: as matérias-primas “poderiam ser” livremente adquiridas no mercado, razão pela qual Kautsky considerava a política colonial desnecessária, justamente por ser “cara e perigosa”.168
Lênin notou que Kautsky, ao tratar da questão do imperialismo, destacava alguns aspectos secundários (“o imperialismo é um produto do capitalismo industrial altamente desenvolvido” etc.) e os isolava de seus aspectos essenciais, que eram colocados à margem. A
165 Cf. Ibid., p. 73-4. 166 Cf. Ibid., p. 74. 167 Cf. Ibid., p. 112. 168 Cf. ibid., p. 82.
existência do capital financeiro e o processo de exportação de capitais, dois dos “cinco traços fundamentais do imperialismo”, não eram levados em consideração pelo renegado marxista alemão, que ignorou igualmente o fato de que a tendência de anexação de territórios aplicava- se também às relações entre as regiões industriais, e não apenas às relações entre estas e as sociedades “agrárias”.169 Lênin ressaltou ainda que Kautsky interpretava o imperialismo não como uma etapa no desenvolvimento do capitalismo, mas tão-somente como uma dentre outras políticas possíveis na era dos trustes e cartéis. “Resulta que los monopolios en la economia [de acordo com Kautsky] son compatibles con el modo de obrar no monopolista, no violento, no anexionista en política”.170
Desta interpretação errônea sobre o caráter da política do capital financeiro, resulta a teoria do superimperialismo ou “ultraimperialismo” de Kautsky. Esta teoria consistia em demonstrar a possibilidade objetiva de não apenas eliminar a luta entre os Estados imperialistas, mas, sobretudo a virtualidade de celebrar uma união entre todos eles. Supondo que o surgimento dos trustes e cartéis criava as condições necessárias para celebrar a paz entre os povos e nações de todo o mundo, Kautsky estava, na prática, fornecendo argumentos que serviam não aos interesses da classe operária, e sim aos reacionários. Mas não se tratava, disse Lênin, de ignorância acerca dos problemas decorrentes da estrutura monopolista do capitalismo, e sim da “conveniência de parecer ingênuo” (quando se tratava de falar de um provável pacifismo imperialista) para servir, deliberadamente, aos interesses da oligarquia financeira.171 A idéia de um ultraimperialismo pacífico, de acordo com o revolucionário russo, não passava de um “consolo arqui-reacionário” que nutria falsas esperanças para as massas exploradas.