O Brasil atualmente é visto como exemplo no combate ao trabalho infanto-juvenil. Os programas sociais do Governo Federal, segundo o Jornal de Brasília de 27 de outubro deste, como o Bolsa Família e o Educação Tutorial (PET) pela Organização Internacional do Trabalho como modelos que devem ser seguidos.
Não obstante tais ações, pelo esforço de erradicar o trabalho infanto-juvenil, os governos do Brasil, Bolívia, Equador, Paraguai e Timor Leste, com o apoio da OIT e da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), assinaram no dia 26 de outubro último, um projeto de cooperação que tem por objetivo, através do recebimento de U$$ 2 milhões, por cerca de dois anos, a execução de programas estratégicos tendentes a acabar com a exploração do trabalho de crianças e adolescente. Pelo projeto, os governos dos cinco países se comprometeram a erradicar o trabalho infantil até 202086.
Segundo o jornal Cinform Online, a diretora do Programa Internacional para Erradicação do Trabalho Infantil, Michele Jankanish, elogiou o desempenho do Brasil no combate ao trabalho infantil. “Como parte do movimento pelo fim do trabalho infantil, o Brasil foi além. Essa cooperação por meio dos projetos firmados hoje é que permitirá o diálogo e o respeito pelas diferenças”, afirmou.
Tais atitudes, conforme revelou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio, divulgada no último mês de setembro pelo IBGE, refletem diretamente nas estáticas nacionais: o número de trabalhadores de 5 a 17 anos diminuiu no país em 2008 em relação ao ano anterior. O estudo publicado anualmente traz uma radiografia da situação econômica brasileira, com informações sobre população, migração, educação, trabalho, família, domicílio e rendimentos.
Em 2008, segundo o Pnad, 141 mil crianças de 5 a 9 anos de idade trabalhavam no Brasil, menos que as 158 mil que trabalhavam no ano anterior. Simultaneamente, o número de jovens na escola aumentou de um ano para o outro. Ainda de acordo com o Pnad, a taxa de escolarização (porcentual de pessoas de determinada faixa etária que estão na escola) das pessoas de 5 a 17 anos saltou de 92,4% para 93,3% em 2008.
Contudo, tais números ainda são alarmantes para um país que deseja realmente acabar com o trabalho infanto-juvenil num curto período de tempo. Afinal, uma em cada dez pessoas com idade de 5 a 17 anos trabalhava no Brasil em 2008. Para a Secretária executiva do Fórum Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil, Isa Maria de Oliveira, a redução do número de trabalhadores infantis não representa um motivo de comemoração87. “São reduções pouco expressivas que vêm ocorrendo de forma lenta e pouco significativa, muito aquém tanto do ponto de vista da lei, já que até 14 anos toda forma de trabalho é contra a alei, quanto do ponto de vista dos compromissos internacionais que o Brasil assume”, alertou Isa em entrevista concedida à Agência Brasil neste ano.
Faz mister salientar que o percentual de crianças e adolescentes que trabalham no Ceará cresceu em 2008 e deixou o Estado no topo da lista nacional. Com 13,59% da população de 5 a 17 anos descrita como ocupada, ele ficou em terceiro lugar, superado apenas por Tocantins (15,17%) e Piauí (15,07%). Em 2007, o Ceará estava em nono lugar, com 13,35% da população nessa faixa etária trabalhando.
No que diz respeito à qualificação profissional, é mais preocupante ainda saber que existem inúmeros profissionais que então no mercado com pouca ou quase nenhuma qualificação, tanto no que diz respeito ao ensino formal, quando no que compete à especialização profissional, dadas as exigências impostas pelo mercado de trabalho na atualidade.
É fato que as atuais transformações no mundo do trabalho exigem dos trabalhadores um novo perfil profissional, em função do desenvolvimento tecnológico acelerado e da formação de mercados sem fronteiras, sujeitos a uma concorrência cada vez maior. No entanto, o perfil dos trabalhadores conforme fora traçado pela PNAD/2001 coloca-os numa situação em que dependem do apoio direto da iniciativa privada e dos órgãos públicos para obterem a formação profissional necessária aos tempos atuais, visto que a maioria está inserida em famílias de baixa renda.
Nesse aspecto, o Governo Federal propôs o Plano Nacional de Qualificação (PNQ) que objetiva, dentre outras coisas, contribuir para promover a integração das políticas e a articulação das ações de qualificação social e profissional do Brasil e, em conjunto com outras políticas e ações vinculadas ao emprego, ao trabalho, à renda e à educação, deve promover gradativamente a universalização do direito dos trabalhadores à qualificação88.
Houve também a implantação do Projeto Escola de Fábrica que tem por objetivo incluir jovens de baixa renda no mercado de trabalho por meio de cursos profissionalizantes em unidades formadoras no próprio ambiente das empresas, gerando renda e inclusão social. A meta inicial quando da sua criação, em 2005, era implantar 558 espaços educativos, envolvendo 700 empresas credenciadas, com um investimento de R$ 25 milhões, divididos em bolsa-auxílio mensal para os participantes - estudantes com renda familiar de até 1,5 salários mínimos per capita e matriculados na rede pública regular do ensino básico ou nos programas educacionais do governo federal.
Além dessas ações, também foi criado o Programa Nacional de Inclusão de Jovens (Projovem), instituído pela Lei no 11.129, de 30 de junho de 2005, destinado a jovens de 15 (quinze) a 29 (vinte e nove) anos, com o objetivo de promover sua reintegração ao processo educacional, sua qualificação profissional e seu desenvolvimento humano. Ele se desenvolve por meio de quatro modalidades distintas, quais sejam: a) o Projovem Adolescente – Serviço
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KASSOUF, Ana Lúcia (coord.). Legislação, trabalho e escolaridade dos adolescentes no Brasil. Brasília: OIT, 2004, p. 74.
Socioeducativo; b) o Projovem Urbano; c) o Projovem Campo – Saberes da Terra; e d) o Projovem Trabalhador.
A execução e a gestão do Projovem dão-se por meio da conjugação de esforços da Secretaria-Geral da Presidência da República e dos Ministérios da Educação, do Trabalho e Emprego e do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, observada a intersetorialidade, sem prejuízo da participação de outros órgãos e entidades da administração pública federal89. Mas, mesmo com todas essas ações, um dos pontos cruciais dentro das políticas
públicas do atual Governo é a inexistência de um programa de inserção do jovem no mercado de trabalho como aprendiz de forma mais direta e eficaz no Brasil e de um orçamento suficiente e específico para esse fim. Falta uma promoção mais efetiva para a implementação da Lei da Aprendizagem, um programa diferenciado de capacitação profissional de jovens de forma a despertar uma maior conscientização dos empresários e uma fiscalização mais inteligente, que seja formativa e educativa. Sem falar é claro, num projeto específico aos milhares de jovens atletas espalhados pelo país.
Lembra o Grupo técnico para elaboração de propostas de políticas públicas para adolescentes de baixa escolaridade e baixa renda que:
O financiamento das políticas para implementar os direitos da criança e do adolescente vem sendo condicionado por um orçamento restrito em função da crise econômica e dos compromissos internacionais assumidos pelo governo brasileiro. Ao mesmo tempo, grande parte do chamado Orçamento Criança, autorizado pelo Congresso Nacional, não vem sendo executado em função do congestionamento dos recursos pelo Tesouro Nacional. Sem uma efetiva rede de proteção social, face aos compromissos da política econômica atual, pouco poderá ser feito para se efetivar esses direitos90.