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3.4. Verilerin Toplanması ve Analizi

3.4.1. Verilerin Toplanması

Em Brasília, desde oito de abril de 1980, busquei retomar meu curso de Letras e fiz outro vestibular para a Universidade de Brasília. Se, em 1973, já sentia o descompasso entre mim e os outros estudantes, pode-se imaginar a distância em que me sentia dos calouros do segundo semestre de 1980. Distanciamento que incluía também agora os professores, com uma única exceção: Antônio Salles Filho, professor de sintaxe.

Não havia comparação possível entre meu curso de Letras, na UFBA, e a tragédia construída pelo reitor Azevedo na UnB. Foram três constrangidos semestres até a conclusão do curso, rapidinho, graças ao reconhecimento de meus créditos na UFBA. A agitação estudantil que encontrei na UnB nos inícios dos anos oitenta não me dizia absolutamente nada, no sentido de provocar meu engajamento25.

Trabalhando duro no setor gráfico, apenas entrava e saía da universidade, o mais discretamente possível. Enquanto aguardava o reconhecimento dos créditos que cumprira em

25

Mais adiante, em 1984, já aluno do mestrado, organizaria, juntamente com Nelson Inocêncio e outros, um núcleo de estudantes negros, responsável pela primeira comemoração de 20 de Novembro na UnB, com a participação de estudantes africanos. Além de faixas e panfletos, juntamos mesas no Bandeijão e almoçamos juntos (cerca de 30 estudantes). A cena era inédita, o espanto foi geral.

Salvador, fiz “Introdução à Sociologia” (com Ana Maria Fernandes) e aproveitei para escrever meu primeiro texto em prosa sobre a questão racial, inspirado mesmo pela realidade da UnB, na qual os negros visíveis ou eram africanos, ou estavam cuidando de grama e jardins, no Bandejão servindo comida, na limpeza dos banheiros e nos postos mais modestos da administração.

Trabalhava na gráfica Alvorada, limpava fitas, e fazia um bico de revisão na Revista das Organizações das Cooperativas Brasileiras (OCB), onde tive meu primeiro texto publicado em Brasília, um comentário sobre o Prêmio Cruz e Souza. Ao chegar, trabalhei também por alguns meses no balcão da Livraria Galilei, propriedade de um grupo diversificado de esquerdistas.

Ao chegar à revista do CNPq (Revista Brasileira de Tecnologia), em 1981, onde fui, simultaneamente, revisor, assistente de redação e editor de texto, conheci Elmodad, carioca chegada também há pouco tempo à cidade, vinculada ao MNU local e foi ela quem me apresentou aos demais militantes (Graça Santos, Nélson Inocêncio, Jacira Silva, professor Cid e outros).

Ainda tenho algumas hesitações, mas frequento as reuniões, sou designado para proferir palestra em evento e, aos poucos, o tema racial, de uma perspectiva negra, vai se impondo também como objeto de estudo e leitura e, mais importante, vai, em retrospectiva, reorganizando toda a minha vida até ali.

Os episódios de minha infância, as relações familiares e de vizinhança, os medos, as inseguranças, as barreiras no mercado de trabalho, tudo se reorganizava agora de outra perspectiva. Finalmente, aos trinta anos, foi como se montasse um quebra-cabeça e não somente com peças que refletiam a realidade externa, rostos, afetos e desafetos, as situações concretas vividas, mas meus sonhos de fuga, meus devaneios, meus anseios de expressão.

Eu poderia, e devo isso ao MNU, ter virado um estudioso do negro. Do negro, lá ele, como se diz na Bahia, quando quem fala quer se eximir de qualquer responsabilidade numa situação determinada. O outro que não eu. Mas aceitar entrar na roda em Brasília fez toda diferença para mim. Foi isso que me permitiu desvelar o que se ocultava a meus próprios olhos em minha vida até ali.

Ter a pele clara não seria daí em diante mais nenhum impedimento para mim (não me imobilizaria mais, é o que quero dizer). O que eu compreendia ao ocupar meu lugar na roda se

vinculava, como consciência de mim, à necessidade de agir para mudar as coisas à minha volta. E me descubro, a partir daí, criativo e atuante de um modo que rejeitava toda contemplação ou isolamento. Anseio por encontrar as pessoas e reuni-las, provocar o momento de reconhecimento que havia me transformado.

Desde 1968, ao encontrar Luiz Orlando e Roberto Santos, eu percorrera uma longa trajetória não apenas na direção de agentes coletivos, como o são as entidades de movimento negro. Mas principalmente para resolver a tensão de minha própria definição como ativista negro. Agora, finalmente, eu podia usufruir de um sentido de realidade que me preenchia de um modo até então desconhecido e estimulava minha iniciativa criadora.

Em 1982, vivi um episódio que não esqueço e que associo sempre a essa ruptura que se consolida em mim no início dos anos 80. Estava em Brasília há mais de dois anos e não havia ainda transferido meu título de eleitor - coisa que somente fiz em 1986, na campanha da Constituinte.

Na véspera de minha viagem a Salvador, para votar, fui a uma festa no Cruzeiro, onde morava Jacira Silva, então companheira do MNU. A festa ficou conhecida como o “bota fora da Jacira”, que deixava a casa dos pais para morar sozinha. Festa superanimada, com disco novo de Gilberto Gil (“um banda um”).

Apareceu alguém vendendo camisetas do PT da Bahia, de Salvador para ser mais preciso. Uma camiseta amarela, com a estrela vermelha, onde se lia “PreTos 82”, causando algum rebuliço. Adquiri uma e no dia seguinte botei a camisa amarela para viajar, na correria, porque o vôo da Vasp era oito e cinco da manhã.

Chego atrasado, sou dos últimos a embarcar e ao entrar no avião me dou conta de que sou portador de grandes novidades. Acho que as informações que levava no peito ainda causam algum espanto hoje. Não a estrela vermelha, assimilada há tempos a novos significados. Mas o apelo à politização dos negros.

O que sentia, enquanto buscava meu assento em meio a olhares perplexos, era novo para mim também. Eu punha para fora decisões que custaram um tempo enorme se revolvendo, avançando lentamente, recuando, retomando o caminho da rua, da expressão pública.

Eu sentei com a certeza de que voltava a Salvador para fazer o que devia ser feito. E voltava outro.

Capítulo II

A DISPUTA PARTIDÁRIA

1. Comissão do negro do PT-DF

No primeiro semestre de 1984, por força de um relacionamento afetivo, me aproximara do PT e uma de suas dirigentes, Arlete Sampaio, que fizera Colégio da Bahia e fora expulsa após o AI-5, no final de 1968, me provocara numa conversa informal sobre a possibilidade de fazer movimento negro no interior do partido.

O MNU do DF, ao contrário de outras seções do MNU no país, demonstrava de modo intenso suas reservas quanto à filiação partidária e se colocava mais distante do debate político que se intensificava no período.

Quais seriam os desdobramentos práticos de uma consciência negra que buscasse alterar relações de poder? Construir um partido negro? Juntar-se a uma proposta partidária de alteração da realidade injusta e fazer valer suas exigências específicas?

Não tinha respostas para essas questões e, vencendo velhas resistências à filiação partidária, aceitei o convite.

Após a filiação, comecei imediatamente a reunir pessoas negras no interior do partido, para a criação da Comissão do Negro do PT-DF26. Em agosto, o núcleo primeiro da Comissão estava organizado e redigimos uma carta de apresentação a ser distribuída nacionalmente, nos diretórios regionais.

Serão três anos de intenso ativismo. Lançamos e consolidamos uma comissão partidária, cuja atuação tornou-se um marco não apenas no universo partidário regional: propôs e articulou a realização em Brasília do I Encontro Nacional do Negro do PT; editou tablóide de oito páginas, numa época em que o partido no DF tinha apenas um mimeógrafo a álcool; participou com candidatura própria do processo constituinte; esteve à frente das principais manifestações

26 Carlos Roberto Nascimento (Carlão), Didi (Edvaldo Santos), João Carmelino, Vera Araújo, Regina Célia

Adami Santos (mais tarde, após a campanha eleitoral, namoramos e estamos casados há 27 anos), Cecília Luli, Célio Luiz dos Santos,Juarez, Hércules Ribeiro, Ivonete Nunes, Eduardo Mariano e muitos outros.

públicas e campanhas contra o apartheid e pela libertação de Mandela realizadas no DF27; sua articulação alcançava mais de uma centena de pessoas, envolvendo diversas cidades-satélites.

Ao contrário de muitas instâncias partidárias, de existência mais formal que real, a Comissão do Negro era viva e trazia para a sede do PT, para espanto das tendências, debates e exposições sobre a temática racial, sempre com grande afluência de público. Criamos os “Encontros de Formação”, para aprofundamos a reflexão e o debate político, fortalecendo a perspectiva que se opunha ao apagamento da questão racial nos processos da luta de classes.

Benzer Belgeler