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III. BÖLÜM

3.4. Verilerin Toplanması

Conforme mostrou-se anteriormente7, houve, no início da imprensa feminina,

algumas revistas dirigidas e escritas por mulheres com tendência “progressista”, ou seja,

que defendiam os direitos da mulher, sobretudo o direito à educação. Essa foi uma tendência geral das revistas femininas também em outros países. Nos Estados Unidos, a

revista Ladie’s Magazine, de 1828, pertencia a Sarah Hale (1788-1879), que pretendia

lutar por uma vida melhor para as mulheres. Segundo Buitoni (2009), a filosofia da editora centrava-se em três pontos: entretenimento, esclarecimento e serviço. O periódico tratava de feminismo sem mencionar questões diretamente ligadas à política, defendendo apenas o direito da mulher à educação, considerado um pré-requisito para os demais.

Dessa maneira, o discurso feminista aparecia de forma tímida nos periódicos. Era

muito raro ver as redatoras assumindo explicitamente esse posicionamento – elas

preferiam evitá-lo. Até mesmo a reivindicação do direito à educação vinha, por vezes,

acompanhada de “desculpas”, que justificavam a reclamação de que não era pelo fato de

poderem se educar que as mulheres deixariam de lado os papéis domésticos que lhes

cabiam, como o cuidado com a casa e os filhos, como se verifica na revista A Mensageira (1897-1900), analisada por Andrade (2012). Na revista Paulistana, por exemplo, que surgiu em São Paulo em 1927, dirigida por Guilherme de Almeida, encontra-se um artigo

sobre mulher e política intitulado “Ambição das mulheres”, em que sua autora, a

Condessa de Noailles, “previne contra o feminismo exaltado, apelando para que suas

companheiras de sexo desenvolvam suas virtudes naturais de mulher” (BUITONI, 2009,

p. 67). Ou seja, os padrões de beleza, comportamento e funções sociais eram vistos como algo natural, não eram questionados.

Algumas outras pautas feministas permearam esporadicamente certas publicações, como o jornal Voz feminina, de Diamantina, fundado em 1900, que em 1901 lançou uma campanha pelo voto feminino encabeçada por suas proprietárias, três moças de família tradicional. Ainda assim, vê-se que se tratava de um feminismo elitista, característico da época, em que ainda se vivia a primeira onda feminista8.

Outro exemplo aconteceu no jornal anarquista Terra Livre, em sua edição de 29 de julho de 1906, na qual três costureiras escreveram um texto de indignação que convocava as demais mulheres a lutar contra os patrões exploradores e por jornadas de trabalho menores. No entanto, vê-se que essa ocorrência não estava ligada a uma revista feminina, mas sim a um jornal com teor político anarquista que abriu espaço para essa manifestação em específico.

Há que se citar também o caso de Bertha Lutz (1894-1976), advogada e bióloga que escrevia para a Revista da Semana. Em 1918, Bertha já havia escrito um texto no qual

afirmava que a “emancipação estava na educação da mulher e do homem” (BUITONI,

2009, p. 60); na década seguinte, foi presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e liderou o movimento pelos direitos da mulher defendendo, principalmente, o voto feminino. Segundo Buitoni (2009, p. 60): “Eleita deputada, Bertha desenvolveu

importante atuação na década de 1930”.

Um expoente foi a revista paulista Renascença, publicada em 1909 (MARTINS, 2008), caracterizada por Buitoni (2009) como feminina e de tonalidades anarquistas. Sua diretora, Maria Lacerda de Moura, pode ser considerada uma pioneira feminista: ela lutava contra o analfabetismo e pensava na emancipação da mulher, tendo escrito duas obras que discutiam a condição feminina: Em torno da educação (1918) e Renovação (1919). Também publicou dois ensaios na revista gaúcha O Corymbo, fundada por duas

8 A história do movimento feminista, bem como suas principais vertentes são abordadas mais detalhadamente no Capítulo 2 desta dissertação.

irmãs: “Feminismo” (1921) e “A mulher brasileira e os problemas sociais” (1922). Maria Lacerda foi uma das primeiras brasileiras a começar a pensar a desigualdade de gêneros como parte de uma estrutura social mais ampla, política e econômica, imprimindo em

seus textos um caráter crítico mais consistente com o passar do tempo: “Em que consiste

a emancipação feminina? De que vale o direito de voto para meia dúzia de mulheres no Parlamento, se essas mesmas continuam servas em uma ordem social de senhores e

escravos, exploradores e explorados, patrões capitalistas e assalariados?” (LEITE, 1979,

p. 9 apud BUITONI, 2009, p. 70).

Contudo, Maria Lacerda de Moura ainda tinha ressalvas com o termo “feminismo”, pois considerava que a exploração de gênero, na verdade, estava diretamente relacionada à exploração do trabalhador, desconsiderando a especificidade das pautas femininas, conforme pode ser visto no texto apresentado na edição número 2 da revista, de 1909:

Primeiramente, Renascença não é revista essencialmente feminina ou feminista: é Revista de Arte e Pensamento. A nossa Directora, de fato, é propagandista da emancipação racional da mulher, entretanto os seus últimos trabalhos vão além: emancipação feminina é um elo da corrente emancipadora de todo o gênero humano. (MOURA apud BUITONI, 2009, p. 73).

Mesmo assim, conforme, Buitoni (2009, p. 73): “Maria Lacerda Moura tentava

editar uma revista não alienante, porque considerava ‘deseducativas’ as outras revistas

femininas e mundanas”. Mas como a imprensa feminina é um universo permeado por

infinitas contradições, até a revista Renascença, que tinha uma proposta de se diferenciar, cedeu aos apelos comerciais, publicando em sua edição número 1, de 1909, o retrato da “mulher mais bela do Brasil”, ganhadora de um concurso de beleza promovido por outras revistas femininas. O texto da revista ressalta que não se pretende falar de seus atributos físicos, mas sim de traços de seu perfil psicológico, numa tentativa de desobjetificar a modelo.

É válido citar, nesta pequena amostra, um texto publicado por Patrícia Galvão

(1910-1962), a Pagu, no jornal O Homem do Povo, de 28 de março de 1931, chamado “A

mulher do povo: a baixa da alta”, no qual a autora ironiza a burguesia com seu humor

cáustico. Nas palavras de Buitoni (2009, p. 83): “Frases curtas, críticas ferinas, o temperamento vanguardista de sua autora [...]. O resultado é um discurso moderno, ágil,

desmistificador, fruto de uma pioneira talvez solitária. Mas nem por isso menos valioso”.

Dessa maneira, é possível observar que os pontos de contato entre o feminismo e as revistas femininas aconteceram em poucos momentos e continuam acontecendo de

maneira um tanto quanto questionável. Em revistas contemporâneas, o feminismo acaba sendo mais um produto a ser oferecido, que está na moda, e não uma ideologia propriamente dita. De modo geral, no que diz respeito às revistas femininas mais comuns, não segmentadas ou dirigidas especificamente a um público feminista ou de esquerda, por exemplo, é possível considerar a análise de Buitoni (2009, p. 198):

Divulga-se o feminismo porque está na moda – mais uma que veio dos países desenvolvidos – e não porque se pretende defender os direitos da mulher ou promover transformações em nosso contexto social. O feminismo está nas páginas da imprensa feminina como está a discoteca, o homossexualismo (sic), a malha colante, as estátuas chinesas, o bambu, que virou cana-da-índia e depois virou novamente bambu. Apenas um signo a mais da modernidade de aparência.

Benzer Belgeler