GEREÇ VE YÖNTEM
3.2 Verilerin Toplanması
O que chama atenção na implantação do Curso de Gestão de Pequenas Empresas, entre outras coisas, é o fato deste integrar o pacote das primeiras medidas anunciadas pela secretária Maria Helena, nos primeiros meses de sua gestão, o que é divulgado ainda em 2007 para passar a vigorar em 2008. E, considerando os parceiros envolvidos, a medida deve ter demandado uma cuidadosa articulação prévia conforme pode ser deduzido com a leitura da notícia publicada no site da secretaria da Educação de São Paulo, em 23/11/2007:
“Ensino Médio em SP terá curso profissionalizante de Gestão de Pequenas Empresas
Os estudantes de Ensino Médio do Estado terão a partir de 2008 uma novidade proporcionada pela Secretaria de Estado da Educação: cursos profissionalizantes gratuitos em Gestão de Pequenas Empresas. A pasta definiu que estas duas modalidades serão oferecidas a alunos do 3º ano[...] Os dois cursos técnicos serão semipresenciais, no modelo Tele Curso Técnico, em parceria com a Fundação Paula Souza, referência na área. Inicialmente serão oferecidas 50 mil vagas. A pasta, que estuda a forma de seleção dos alunos que poderão participar, pretende ampliar a oferta gradativamente. Certificados pela Paula Souza em parceria com a Fundação Roberto Marinho, os cursos terão duração de três semestres, com certificação parcial a cada semestre. Para que isso seja possível, a grade curricular do Ensino Médio está sendo reformulada[...]”. (Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, site, 23/11/2007)
Esta iniciativa, porém, mesmo tendo sido divulgada como se tratando de uma conquista para os estudantes do Ensino Médio, por iniciar o atendimento da demanda por profissionalização gratuita, neste nível de ensino, foi alvo de críticas feitas por estudiosos que questionaram a relevância deste curso para os alunos das escolas públicas estaduais. Uma destas críticas é a feita por Ana Paula Corti, assessora da ONG Ação Educativa que, inicialmente apresenta a fundamentação legal da nova medida:
“Segundo a Resolução 92 de 19/12/2007[...] fica estabelecido que o ensino médio terá sua organização curricular orientada por dupla finalidade:
I- Curso de sólida formação básica, que abre ao jovem efetivas oportunidades de consolidação dos conteúdos estudados ao longo do ensino médio, objetivando a preparação para prosseguimento dos estudos em nível superior;
II- Curso de formação básica e profissional, centrado no desenvolvimento de competências para o mundo produtivo que assegura ao jovem sua inserção no mercado de trabalho, mediante a aquisição de determinada habilitação profissional.” (CORTI, 2008, pág. 1)
155 Corti, no texto intitulado “Profissionalização no Ensino Médio: novos discursos e Velhas Práticas?”, que apresenta a Resolução acima, resume considerações expostas pelos participantes do seminário Mudanças na Educação Paulista: Gestão, Currículo e Profissão Docente, realizado em março de 2008. Neste texto são apresentadas partes das opiniões emitidas por alguns dos participantes deste seminário, como a professora da UNESP, Maria Sylvia Simões Bueno e a subeditora da Revista Educação, Beatriz Rey.
No início do texto, Corti informa sobre a forma de cumprimento dos artigos da Resolução citada, e seus limites:
“Para cumprir a finalidade I, está prevista a oferta de seis aulas semanais de uma disciplina de apoio curricular para o 3º ano do ensino médio, cuja função é revisar os conteúdos trabalhados ao longo dos anos anteriores e preparar os alunos para o ingresso no ensino superior. Já para a finalidade II, fica prevista a oferta de cursos profissionalizantes a alunos do 2º ano do ensino médio, em parceria com o Centro Paula Souza. Há apenas uma habilitação profissional oferecida para os alunos da rede estadual em 2008, denominada “Técnico em Gestão de Pequenas Empresas”, dividida nos módulos “assistente de planejamento”, “gerente administrativo” e “técnico em gestão de pequenas empresas”. (CORTI, 2008, pág. 1)
Tanto Corti como os demais expositores deste seminário, conforme revela o texto, observarão a timidez da iniciativa, coerente com a política implementada nesta área, até aquele momento, pelo governo do Estado de São Paulo, conforme informado por Corti e Bueno:
“Vale lembrar que a rede paulista de escolas técnicas, apesar de ser a maior do país, atendeu apenas 246.656 pessoas em 2007, um número baixo se comparado à população atendida pelo ensino médio no Estado, que foi de 1.718.692 jovens. As matrículas na educação profissional paulista vêm diminuindo nos últimos anos, bem como as matrículas no ensino médio regular, queda que tem como um dos fatores explicativos, conforme a professora Maria Silvia, a dissociação entre ensino técnico e ensino médio, decretada no governo Fernando Henrique Cardoso (Decreto 2.208/1997). Curioso, e lamentável, é que mesmo após revogação do citado Decreto pelo governo Lula, em 2004, reabrindo a possibilidade de um ensino médio integrado , o Estado de São Paulo não promoveu nenhuma medida efetiva neste sentido”. (CORTI, 2008, pág. 1 e 2)
Do exposto acima no texto, cabe a ressalva de que a mencionada queda nas matrículas da educação profissional, informada pela autora, será revertida com o Programa de Expansão das Escolas Técnicas que terá início em seguida e que será objeto de próximo tópico desta dissertação. Quanto à não integração entre o Ensino Técnico e o Ensino Médio, apesar da abertura propiciada pelo Decreto 5.154/04, esta de fato ainda não ocorreu em São Paulo, com o Governo do Estado tendo preferido manter, até o momento, estes ensinos desarticulados. E o que causa estranhamento, inclusive para os participantes do seminário citado, é que as
156 poucas ações articuladas destas áreas, resultem em situações do tipo analisada, sujeitas a justificados questionamentos.
Um primeiro questionamento foi feito por Beatriz Rey: por que a habilitação profissional escolhida foi “Técnico em Gestão de Pequenas Empresas”? Há indicadores mostrando que esta é uma demanda do mercado de trabalho e ou dos jovens que estão no ensino médio? (CORTI, 2008, pág. 2)
Não sendo do conhecimento dos presentes neste seminário dados oferecidos pelo governo sobre a demanda para tal curso, a opinião destes é praticamente unânime:
“Para Maria Sylvia e para vários participantes do seminário, a oferta daquele curso técnico não responde a uma demanda real, nem do mercado de trabalho, nem da população juvenil. Na verdade, trata-se de uma habilitação que responde mais: 1) à precariedade da infra-estrutura das escolas, que não dispõem de laboratórios, recursos didáticos e materiais adequados a outras habilitações de ensino profissional (a formação dos alunos será em regime semipresencial); e 2) a uma concepção ideológica fortemente ligada ao empreendedorismo, cuja visão é de que, num mundo sem empregos, a responsabilidade por conseguir um espaço é dos indivíduos bem como a responsabilidade por seus fracassos”. (CORTI, 2008, pág. 2)
Percebemos, então, no último trecho citado, que a implantação deste curso, no entendimento de Corti e Bueno, com o qual concordamos, mesmo sendo compatível com a insuficiência de condições para instalação de outros cursos que pudessem requerer mais investimentos, também tinha sintonia com este ideário que tem a noção de empreendedorismo em alto valor. Por razão da importância deste conceito do empreendedorismo entre as concepções gerais que marcam este período do predomínio do neoliberalismo, é conveniente dedicar alguma atenção maior a este assunto.
2.6.12.1. O Uso do Empreendedorismo na Disseminação da Ideologia Neoliberal
Já tínhamos visto que este conceito do empreendedorismo estava presente desde o governo de Geraldo Alckmin, no Estado de São Paulo, entre 2001 e 2006, como uma das marcas de sua administração. E pelo que observamos pelo próprio exemplo da implantação do Curso de Gestão de Pequenos Negócios, por Maria Helena G. de Castro, em 2008, este conceito permaneceu valorizado na administração posterior do Governador José Serra que assumiu em 2007. Mas como esta noção de empreendedorismo é compreendida?
No estudo sobre este tema nós utilizamos principalmente das informações e análises contidas no texto “Empreendedorismo e Vulnerabilidade dos Trabalhadores Empobrecidos”
157 escrito por Aguinaldo Luz de Lima e Lisete Regina Gomes Arelaro, que, por sua vez, utilizam a definição de empreendedorismo apresentada por R.D. Hisrich e M.P. Peters, no livro Empreendedorismo, de 2004.
Lima e Arelaro nos apresentam esta definição e o contexto em que este conceito adquiriu maior importância:
“O empreendedorismo foi concebido no campo teórico da administração de empresas capitalistas. Na década de 1990, diante das discussões sobre desemprego e informalidade no mercado de trabalho, a conversão de trabalhadores empobrecidos em empreendedores, foi apresentada como possibilidade de compensar os “perdedores” do processo de globalização econômica. Neste estudo utilizamos a definição de Hisrich e Peters (2004), que abordam o empreendedorismo, como um processo individual de criar algo diferente e com valor, dedicando o tempo e o esforço necessários, assumindo os riscos financeiros, psicológicos e sociais correspondentes e recebendo as conseqüentes recompensas da satisfação econômica e pessoal”. (LIMA E ARELARO, 2011, pág. 1)
Quando é lembrado que a oferta do Curso de Gestão de Pequenos Negócios priorizou as áreas de maior vulnerabilidade social das regiões metropolitanas de São Paulo, parece que esta opção cumpriu a lógica de “compensar os perdedores” preparando os alunos do Ensino Médio destas regiões para a provável informalidade ou desemprego. Mas não deixa de também parecer estranho, trabalhar com estes jovens que já vivem situações de risco e que não possuem nem salário , nem capital, o estímulo para que assumam ainda mais “riscos financeiros, psicológicos e sociais” como se os que já enfrentam não fossem o suficiente. Neste sentido, o estudo de Lima e Arelaro (2011), indica o quadro econômico, instalado na década de 90, no auge da implantação do receituário neoliberal na economia, e que fez aumentar bastante esta população que vive situação tida como de risco.
Citando dados elaborados por Paul Singer, e apresentados em Globalização e Desemprego, no ano de 1998, Lima e Arelaro analisam estes dados que Singer extraiu da Pesquisa de Emprego e Desemprego na Grande São Paulo (FONTE: SEADE/DIFESE):
“O desemprego mais que dobrou entre 1989 e 1993, e permaneceu no mesmo alto patamar em 1993-1995. A proporção dos trabalhadores informais ou desempregados, em relação à população economicamente ativa que já era alta em 1989, 35,9%, subiu nove pontos porcentuais e chegou, em 1993, a 44,1% e manteve- se em 44,8%, em 1995. Com a explosão do desemprego e sua manutenção em índices elevados, os trabalhadores tornam-se vulneráveis e concordam em trabalhar abrindo mão de direitos sociais. Desta forma, aceitam ser assalariados não registrados mantendo uma relação de emprego clandestina, na qual o empregador não cumpre a legislação trabalhista (não pagamento de Férias, 13º Salário, Aviso Prévio, etc.) nem recolhe as contribuições sociais (contribuição previdenciária, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço e outras). Outra parte dos trabalhadores expulsos das relações de assalariamento, formal ou informal, busca por conta própria sua subsistência econômica, inserindo-se no setor informal da economia”. (LIMA e ARELARO, 2011 pág. 4)
158 E é neste quadro apresentado acima que ganha corpo a proposta de preparar os trabalhadores para tais situações com formação que propiciasse também recursos “materiais e psicológicos” para o resgate de autoconfiança desta população ((LIMA E ARELARO, 2011 pág. 6).
A discussão surgida sobre esta formação, porém, revelou uma divergência quanto aos efeitos mais significativos destas iniciativas. Neste sentido, os mesmos autores acima citados apresentam estes efeitos:
“Se por um lado permitiu o aparecimento de experiências de políticas compensatórias ou de resistência e reação, a partir dos próprios trabalhadores pelas de experiências de economia solidária; por outro lado, também, permitiu, o reforço do discurso neoliberal da época, por meio da proposição de alternativas fundamentadas na doutrina individualista [...]. Na visão neoliberal, o desemprego e a informalidade seriam oportunidades para o desenvolvimento e consolidação do empreendedorismo, por intermédio do desenvolvimento da mentalidade e do comportamento do indivíduo empreendedor, que permitiria uma expansão da atividade econômica e a redução do desemprego, com a criação de novas empresas apoiadas em um segmento empresarial de pequeno porte”. (LIMA e ARELARO, 2011, pág. 6 e 7)
Sendo, portanto, dois os efeitos possíveis, o que determinaria que o tipo de resultado fosse numa ou noutra direção?
Se podemos, por nós mesmos, iniciar uma resposta para esta indagação, arriscamos a opinião de que a própria pergunta, ao falar em direção, indica a resposta. Ou seja, talvez o que seja determinante, seja a “direção” do processo. E a direção deste processo de formação, que também é de organização, depende, por outro lado da intenção deste condutor, seja um governo, seja uma organização privada. Se é assim, torna-se importante conhecer os sujeitos que estão induzindo ou conduzindo a implementação desta formação:
“A defesa do empreendedorismo não foi uma ação localizada em determinado país, mas foi componente da globalização do modelo neoliberal, reforçada por agências multilaterais, como o Banco Mundial e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento – PNUD, da Organização das Nações Unidas – ONU.
O Banco Mundial em seu Relatório “Globalização, crescimento e pobreza: a nova onda da globalização e seus efeitos econômicos”, publicado em 2002, reconhece que a globalização gerou países “perdedores” e “ganhadores”, defendeu que seria necessário reduzir e amortecer o impacto negativo do processo de reforma, a fim de integrar as economias dos países “perdedores” ao restante do mundo.
Considerando a “necessidade de proporcionar assistência social adequada ao mercado de trabalho mais dinâmico em uma economia aberta”, o Banco Mundial propôs para os “perdedores”, um programa de ação visando a construir uma economia mundial de inclusão, destacando o incentivo ao empreendedorismo, como forma complementar as demais iniciativas de “amparo social”. (LIMA e ARELARO, 2011, pág.7)
159 Pelo relato de Lima e Arelaro, percebemos que há sim a ação de importantes sujeitos, um deles o Banco Mundial, que disseminam para os “perdedores” da globalização, a orientação de uma política de atenuação, que seria ao mesmo tempo uma estratégia de “redução de danos” e propagação dos valores ideológicos do neoliberalismo
“O Banco Mundial ao considerar que a ajuda aos trabalhadores deve ser um processo individual, reforça a idéia de que a mudança social e a econômica dependem da mudança da mentalidade e do comportamento do indivíduo. Como as perdas são inevitáveis, o empreendedorismo precisa ser desenvolvido por meio de ações que visem a confortar os pobres, no sentido de consolar com palavras, recompensas, promessas, etc. e não com projetos de redistribuição de renda que signifique diminuição de exploração do trabalho e do lucro do capital”. (LIMA e ARELARO, 2011, pág.7 e 8)
Temos, portanto, que o empreendedorismo cumpre também uma função ideológica de deslocar a atenção do enfrentamento coletivo do modelo econômico que concentra riquezas para intervenções situadas em âmbitos menores, geralmente individuais. E no indivíduo seria buscada a justificativa para as intervenções que resultassem no sucesso ou naquelas que resultassem no fracasso:
“Os valores e crenças do empreendedorismo reproduzem a mesma visão conservadora norte-americana que se tornou predominante a partir da década de 1980, que responsabiliza os indivíduos pela sua condição de vida, em razão de seu comportamento e seus valores. A culpabilização das pessoas que se encontram em condições socioeconômicas precárias, parte da premissa que esta situação é um problema das próprias pessoas, “fruto de sua própria e única (ir) responsabilidade”. (LIMA e ARELARO, 2011, pág. 10)
Confrontados com os argumentos expostos acima, fica difícil desvincular a escolha justamente do Curso de Gestão de Pequenas Empresas, entre as dezenas de possibilidades que integram o cardápio profissional disponível pelo Centro Paula Souza, parceiro da Secretaria da Educação, na implantação deste curso, da ofensiva ideológica geral “empreendida” pelo Neoliberalismo, através dos seus aparelhos de propagação. Diante, porém, da variedade de aparelhos, privados e estatais, disponíveis para a prestação de tal serviço ao capital, ou melhor, ao ideário neoliberal, vale conhecer melhor a instituição escolhida para implantar o curso de Gestão de Pequenos Negócios nas escolas de Ensino Médio de São Paulo, o Centro Paula Souza.