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Em meados dos anos 80, o termo letramento passa a circular no Brasil, e, concomitantemente, em países como França, Portugal, Estados Unidos e Inglaterra, com vistas ao reconhecimento e nomeação de práticas mais complexas de leitura e escrita que aquelas resultantes da aprendizagem do sistema de escrita, mais especificamente, a alfabetização.

Soares (2009) destaca, no entanto, que a emergência de práticas sociais de leitura e escrita como questão fundamental em tais países atendem a demandas divergentes e aponta como fator diferencial os conceitos de alfabetização e letramento. Nos países desenvolvidos, o conceito de letramento relaciona-se à falta (e consequente necessidade) de habilidades de leitura e escrita em suas dimensões sociais, destacando-se sua utilização para as atividades com fins profissionais. Nas palavras de Soares, o conceito pretende dar conta de

um problema relevante no contexto da constatação de que a população, embora alfabetizada, não dominava as habilidades de leitura e escrita necessárias para uma participação efetiva e competente nas práticas sociais e profissionais que envolvem a leitura e a escrita (SOARES, 2003, p.3).

Já no Brasil, tais termos, frequentemente, se sobrepõem. Conforme Soares (2003, p.4),

O despertar para a importância e necessidades de habilidades para o uso competente da leitura e da escrita tem sua origem vinculada à aprendizagem inicial da escrita, desenvolvendo-se basicamente a partir de um questionamento do conceito da alfabetização.

Fato marcante do enraizamento do conceito de letramento no de alfabetização pode ser encontrado nos censos demográficos. De acordo com a autora (ibidem), até o Censo de 1940, vigorava o conceito de alfabetizado para aquele que soubesse ler e escrever o próprio nome; já no de 1950, o conceito foi ampliado, passando a ser considerado

38 alfabetizado aquele capacitado para ler e escrever um bilhete simples, ou seja, exercer uma prática de letramento situada.

Kleiman, em Os significados do letramento: uma perspectiva sobre a prática social

da escrita (1995, p. 18-19), define letramento como “um conjunto de práticas sociais que

usam a escrita, como sistema simbólico e como tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos”. Sem estabelecer uma dicotomia entre os dois termos, a autora diferencia alfabetização de letramento, caracterizando a primeira como uma prática de letramento que se dá, em geral, na esfera escolar, e o segundo como o “conjunto de práticas de uso da escrita que vinham modificando profundamente a sociedade, mais amplos que as práticas escolares de uso da escrita, incluindo-as porém” (KLEIMAN, 2005, p. 21).

Em artigo posterior, a autora (2010, p. 377) compreende o conceito como “o conjunto de práticas sociais nas quais a escrita tem um papel relevante no processo de interpretação e compreensão dos textos orais ou escritos circulantes na vida social”. Em relação ao letramento escolar, Kleiman (ibidem, p. 378) afirma que

O conceito de letramento está tendo um certo impacto no ensino da língua escrita na escola, daí que uma questão de destaque nesse contexto seja a das implicações curriculares do letramento, tal qual inferidas por aqueles que atuam na esfera acadêmica, por um lado, e por aqueles que atuam nos anos iniciais do ensino fundamental – o primeiro ciclo – visando à alfabetização do aluno, por outro.

A autora esclarece que, no contexto de alfabetização, o conceito de letramento parece ter recebido maior influência, alcançando conotações divergentes em relação àquelas que assume na esfera acadêmica. Na escola, observa-se, muitas vezes, uma ressignificação do termo, que passou a ser interpretado como uma nova metodologia para o ensino da escrita, ocasionando certo falseamento dicotômico: “ou a criança é alfabetizada pelo método tradicional ou é “letrada” pelo “novo método” do letramento” (KLEIMAN, 2010, p.378). Com base nas afirmações da autora, é possível afirmar que, no meio escolar, houve um revozeamento do conceito, ressignificando-o, o que o fez adquirir novo sentido nessa esfera de atividades. Entretanto, Kleiman (2010) argumenta que o letramento não pode ser compreendido como um método, “um conjunto de estratégias didáticas para o ensino inicial da escrita” (2010, p. 379). De tal forma, afirma que a alfabetização é uma prática de letramento que pode envolver diferentes gêneros, estratégias e tecnologias. Nesse sentido, o trabalho de alfabetização inicial pode ser

39 promovido pelo viés dos estudos do letramento, o que implica a mobilização de práticas discursivas representantes de diversos segmentos sociais.

Já em contexto acadêmico, conforme a autora (2010), o conceito de letramento adota uma concepção ampla do termo, admitindo os variados usos sociais da leitura e escrita e incluindo-os no ensino e compreensão da língua escrita, fato que implica reflexões metodológicas para seu ensino. Nessa esfera, uma dicotomia entre alfabetização e letramento é refutada.

Em relação à abordagem escolar para o ensino da língua escrita, concordo com Kleiman (2010) em sua defesa de que esta pode ser associada a uma perspectiva sociocultural do letramento, de modo que o professor assuma anseios e necessidades de sua turma em relação aos usos da escrita, concebendo-os como oportunidades de trabalho significativas. Assim, tal atitude implica o reconhecimento de que, mesmo sendo o sistema formal de escrita o objeto de trabalho, este não deve, necessariamente, constituir-se como eixo estruturador do programa, que deve pautar-se pela prática social. A autora (ibidem) esclarece que, na perspectiva escolar do letramento, a orientação de atividades deve voltar-se a “práticas em que a leitura e a escrita são ferramentas para agir socialmente” (ibidem, p. 379). Nesse sentido, adverte, oportunamente, que

práticas escolares de aprendizagem e uso da língua escrita, ainda que “estritamente escolares”, são também práticas sociais, sendo que muitas delas [...] tomam por base práticas sociais e, portanto, recontextualizam as práticas com as quais os alunos convivem fora da escola, tornando-as mais significativas para eles (ibidem, p. 379).

Entretanto, ainda que as práticas escolares de aprendizagem da escrita, em alguns momentos, tomem por base práticas sociais, o currículo dominante, marcado por uma programação rígida e segmentada de conteúdos e balizado por uma concepção tradicional de ensino de escrita, que reflete a historicidade cultural e social desta instituição, é apontado por Kleiman (ibidem) como uma das dificuldades para a implementação de uma concepção de escrita para a vida social. Segunda a autora, a escola tende a tratar a linguagem como mero objeto de estudo, focalizando suas regras e estruturas, fato que tende a obliterar sua função na constituição das relações sociais. Contudo, Kleiman (2010) não defende o abandono dos conteúdos escolares considerados relevantes; ao contrário, considera viável abordá-los junto com os alunos na construção do conhecimento sobre a língua, a partir da prática social. Segundo a autora (2007, p.5)

40 A prática social como ponto de partida e de chegada implica, por sua vez, uma pergunta estruturante do planejamento das aulas diferente da tradicional, que está centrada nos conteúdos curriculares: “qual a sequência mais adequada de apresentação dos conteúdos?”. (grifo da autora)

Assim, considerando a prática social o principal eixo estruturador do currículo, a autora propõe a seguinte questão como orientadora para o planejamento das atividades: “quais os textos mais significativos para o aluno e sua comunidade”?,(KLEIMAN, 2007, p. 6). Tal perspectiva curricular implica um movimento que vai da prática social para o conteúdo, ou seja, com base nessa questão, o currículo, visando à apropriação dos gêneros, seria desenvolvido efetivamente. Sendo o letramento do aluno função primordial da instituição escolar, esse precisa ser o estruturador curricular.

A própria autora (ibidem) destaca que, em uma instituição cujo princípio é a reflexão analítica, são esperados entraves na implementação de uma abordagem social. Entretanto, esclarece que tais dificuldades podem ser amenizadas por meio dos projetos de letramento, conforme discutirei na subseção 1.7. Outras propostas para o ensino da

Benzer Belgeler