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Os conceitos de legibilidade ou sentido82, construção da imagem, estrutura e identidade, e imaginabilidade desenvolvidos por Lynch (1997), sendo o primeiro também estudado por Bentley (1999), podem ser aplicados à cidade de Ouro Preto, no intuito de investigar a qualificação da sua paisagem. O primeiro está relacionado à facilidade com que as formas que constituem a cidade possibilitam sua apreensão pelas pessoas. Esta qualidade visual permite, portanto, a identificação clara dos elementos que compõem a cidade, como seus marcos, bairros, entre outros. Lynch (2007, p. 127) descreve o conceito de legibilidade como sendo “a união entre a forma do ambiente e os processos humanos de percepção e de cognição”.

“Ainda que a clareza ou a legibilidade não seja, de modo algum, o único atributo importante de uma bela cidade, é algo que se reveste de uma importância especial, quando consideramos os ambientes na escala urbana de dimensão, tempo e complexidade” (LYNCH, 1997, p. 3).

Uma clara imagem de uma cidade pressupõe um ambiente ordenado, a partir do qual este se torna um “vasto sistema de referências” (LYNCH, 1997, p. 5). Apesar de esta qualidade estar diretamente dependente das experiências do observador, existem algumas características que podem ser designadas como constantes, ou seja, para um mesmo lugar, pessoas distintas o avaliam através de características significativas e fundamentais (LYNCH, 2007), como é o caso do núcleo histórico de Ouro Preto. Esta cidade se apresenta como um verdadeiro labirinto de sobe e desce de ladeiras, porém possui a qualidade visual da legibilidade, uma vez que suas formas urbanas associadas às da natureza, como, principalmente, o relevo, possibilitam a apreensão e a identificação de sua paisagem, como um objeto distinto e memorável. Esta paisagem é composta por uma série de elementos que facilitam a sua associação e conseqüente identificação do espaço urbano: um oratório em uma esquina, um passo ao final de uma via, uma rua íngreme com escadas, uma ponte, um largo, um chafariz, um córrego, a linha férrea e até mesmo uma montanha – Morro de Santa Quitéria - como demarcação clara da divisa entre dois bairros – Antônio Dias e Pilar.

A partir da integração destes elementos é realizada a construção da imagem de uma cidade que passa pelas fases de identificação do objeto, estrutura83 e, por último, o reconhecimento do significado que o objeto transmite. Se a imagem captada possui todas as qualidades

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A legibilidade é tratada por Lynch (1997) em sua obra “A imagem da cidade” e, posteriormente, este conceito será desenvolvido pelo mesmo autor como uma componente específica da qualidade do sentido, assim como a congruência e a transparência, no livro “A boa forma da cidade”, LYNCH (2007, p. 135).

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De acordo com Lynch (2007, p. 131), “a identidade e a estrutura são os aspectos da forma que nos permitem reconhecer e padronizar o espaço e o tempo por si próprios.”

analisadas é possível inferir que esta é dotada da característica de imaginabilidade84, ou seja, é “uma cidade altamente “imaginável”, nesse sentido específico (evidente, legível ou visível), pareceria bem formada, distinta, digna de nota; convidaria o olho e o ouvido a uma atenção e participação maiores” (LYNCH, 1997, p. 11), como é o caso de Ouro Preto. 85

Além de todas as qualidades da paisagem urbana analisadas, esta se pauta, ainda, em propriedades como: estímulo, ritmo, significado ou expressividade e prazer sensorial, o que requer também a participação do observador. Através, principalmente, das aberturas nas fachadas, o ritmo pode ser lido como uma constante na paisagem do núcleo histórico na escala da via, e, numa escala mais ampla, os telhados marcam esta cadência, pois estes estão geralmente implantados no mesmo sentido. O estímulo é uma propriedade proporcionada principalmente pelos elementos surpresas, gerados pela associação do traçado orgânico com o relevo acidentado. Este último possibilita a criação de cenários inesperados, que instigam o observador a percorrer sempre um pouco mais do percurso, à procura de desvendar o mistério camuflado atrás da dinâmica topográfica. Dentro desta paisagem estimulante, estão, intrínsecos, a sua expressividade e o seu significado, uma vez que

[...] as imagens de maior valor são aquelas que mais se aproximam de um forte campo total: densas, rígidas e vivas; que recorrem a todos os tipos de elementos e características formais sem uma concentração limitada; e que podem ser agrupadas tanto hierárquica quanto continuamente, conforme a ocasião exigir (LYNCH, 1997, p. 100).

Mais adiante, Lynch (1997) sugere algumas qualidades que podem ser aplicadas ao design urbano e podem ser observadas na prática, no núcleo histórico de Ouro Preto. A primeira qualidade é a singularidade, ou clareza da figura plano de fundo, que pode ser exemplificada pelos limites presentes no centro - como as pontes - e pelo contraste existente entre a massa construída - representada pela arquitetura civil e as igrejas, assim como, as montanhas. Este atributo está associado a outro, denominado clareza de junção, cujo conceito perpassa os limites das ligações e costuras presentes no tecido urbano.

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O conceito de imaginabilidade analisado por Lynch (1997, p. 12) “não conota, necessariamente, alguma coisa fixa, limitada, precisa, unificada ou regularmente ordenada, embora às vezes possa possuir tais qualidades. Também não significa evidente relance, óbvio, ostensivo ou explícito. O ambiente total a ser modelado é extremamente complexo, enquanto a imagem óbvia logo se torna enfadonha e capaz apenas de chamar a atenção para um número limitado de características do espaço vital.”

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Na citação a seguir, Lynch (1997, p. 103) está se referindo à cidade de Florença: ”a cidade não é de modo algum perfeita, mesmo no sentido restrito da imaginabilidade; nem todo o seu sucesso visual se deve apenas a essa qualidade. Mas parece haver um prazer simples e automático, um sentimento de satisfação, presença e certeza, que decorre da simples contemplação da cidade ou da possibilidade de caminhar por suas ruas.” Esta observação pode ser aplicada à cidade de Ouro Preto, pois sua paisagem urbana se apresenta de forma clara e ao mesmo tempo instigante, devido aos elementos que compõem sua estrutura física, possibilitando a associação dos mesmos.

A simplicidade da forma está relacionada ao aspecto visual dos componentes da cidade, sendo que o autor considera as formas associadas ao quadrado e ao retângulo como elementos que facilitam a associação à imagem como um todo, e por parte do observador. Porém, em Ouro Preto as formas quadradas e até mesmo retangulares são raras, com exceção da Praça Tiradentes, que tende ao retângulo, pois o tecido urbano é orgânico; no entanto, a apreensão da forma é possibilitada através da presença de elementos que favorecem a identificação dos espaços, ou seja, sua imaginabilidade, como analisado anteriormente.

A qualidade da continuação pode ser observada no alinhamento frontal das construções, no ritmo das aberturas nas fachadas das edificações, além do tipo de telhado e dos materiais utilizados para sua composição, sendo estas as “qualidades que sugerem a atribuição de uma identidade única” (LYNCH, 1997, p. 118). A topografia acidentada possibilita, principalmente, a formação do predomínio de uma área sobre a outra, atributo que colabora para a leitura e compreensão do espaço urbano, em seus diversos níveis hierárquicos. O relevo também é um dos principais responsáveis por outra qualidade, a diferenciação direcional, que está presente na paisagem de Ouro Preto devido à existência de inúmeras vias com “assimetrias, gradientes e referências radiais que diferenciam uma extremidade da outra” (LYNCH, 1997, p. 118). Como exemplo pode-se citar a rua Cláudio Manoel, devido à gradação sugerida pelas fachadas que acompanham o relevo e que tem, em uma de suas extremidades, a presença de um passo como ponto de referência.

O alcance visual é outra qualidade que mais se aplica a Ouro Preto, uma vez que a somatória da implantação das edificações com o traçado orgânico e com o sítio natural favorece o estabelecimento de panoramas com sobreposições de planos, com profundidade de visão e, também, articulação de elementos e concavidade que possibilitam a exposição de formas que estão distantes do campo de visão do observador.

FIGURA 97 - A qualidade do alcance visual na cidade. Fonte: Acervo da autora, 2009.

FIGURA 98 - A permeabilidade visual. Fonte: Acervo da autora, 2009.

As qualidades da permeabilidade, diversidade e caráter são desenvolvidas por Bentley (1999) e estão diretamente ligadas aos espaços presentes em Ouro Preto. A permeabilidade pode ser definida “pela facilidade de acesso físico e visual a um espaço público e a possibilidade de escolha de caminhos dentro dele, permitindo que o mesmo possa ser utilizado e freqüentado por todos” (PANCHONI, 2007, p. 14). Na cidade, a acessibilidade física é dificultada devido à topografia acidentada, o que não permite grandes adaptações para acesso a todos os espaços por pessoas portadoras de necessidades especiais. Já a acessibilidade visual é garantida a partir dos pontos mais altos, o que possibilita vislumbrar principalmente as áreas de fundo de vale da cidade. Além disso, os espaços urbanos em Ouro Preto oferecem a possibilidade de escolha de caminhos para acessá-los, qualidade que é permitida principalmente devido ao traçado orgânico. A matriz de Nossa Senhora do Pilar, por exemplo, pode ser acessada por três vias principais – rua Conselheiro Santana, rua Antônio Albuquerque e rua Rodolfo Bretas - além das secundárias.

A qualidade da diversidade (BENTLEY, 1985) está pautada na variedade de uso que um espaço pode oferecer, seja através de atividades econômicas, culturais e sociais. Esta característica garante a atração e conseqüente apropriação do espaço por diferentes grupos sociais, com diferentes demandas. A praça Tiradentes reflete esta qualidade, à medida que abriga usos comerciais, de serviço e lazer nos edifícios que a delimitam, além de o espaço livre da praça ser apropriado por diferentes grupos, como estudantes e turistas, para fins de lazer, descanso, apreciação, encontro, manifestações, estudo, entre outros.

O caráter86 é uma qualidade que diz respeito à identificação do espaço em relação aos demais, é a característica que o torna único, em meio ao tecido urbano, como um todo. Para avaliação de um espaço segundo seu caráter, Bentley (1999) define alguns aspectos relativos à história do lugar, ao ambiente construído - que inclui mobiliário urbano, pavimentação, iluminação, edifícios, o entorno dos espaços, entre outros – ao sítio natural, e à forma e função, além de seu contexto no tecido onde está implantado. A preocupação com o caráter do ambiente é expressa nas recomendações da Nova Carta de Atenas (CONSELHO EUROPEU DE URBANISTAS, [200-], p. 11):

O entorno urbanístico desempenhou tradicionalmente um importante papel educacional e cultural na vida de seus cidadãos. O conceito de cidade como motor da civilização é o que foi se formando ao longo dos séculos e é o que expressa o caráter físico de todas as cidades históricas. Infelizmente, os efeitos modernos trazidos por esta intensa urbanização diminuiu a integridade cultural da cidade, degradou sua estética e prejudicou a

homogeneidade do tecido urbano. O planejamento urbanístico

desempenha um papel específico na hora de assegurar a qualidade de

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De acordo com Panchoni (2007, p. 14), “caráter é a qualidade própria de espaços que possuem atributos responsáveis pela sua personalidade e distinção.”

desenho que respeite o caráter da cidade, sem que por ele seja diminuída a criatividade da arquitetura nem a organização e gestão dos espaços entre edifícios.

No núcleo histórico da cidade de Ouro Preto, o caráter é uma das qualidades mais marcantes deste tecido urbano, uma vez que cada praça, rua ou edifício estão imbuídos da história de sua formação, são representantes de um passado que soube utilizar-se de seu sítio natural para valorizar suas formas construídas e vice-versa. Além disso, a heterogeneidade das formas dos espaços urbanos, assim como a relação entre os espaços construídos e as áreas livres reforçam o caráter da cidade.

Benzer Belgeler