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Esta pesquisa é de natureza qualitativa porque apresenta uma característica interpretativa, com o pesquisador envolvido em uma experiência intensiva com os participantes. Ela busca compreender o fenômeno em um contexto específico e se justifica na afirmação de Strauss e Corbin (1990) de que a pesquisa qualitativa deve ser usada para se entender um fenômeno sobre o qual pouco se sabe. Nesse caso, o fenômeno é a interação de professores em formação em um ambiente virtual, durante um estágio supervisionado de caráter colaborativo em uma escola de Ensino Fundamental.

Dentre as características principais da pesquisa qualitativa, como descritas por Bogdan e Biklen (1982); Lincoln e Guba (1985) e Patton (1990), destaco o uso do ambiente como fonte de dados, o foco nos processos emergentes da pesquisa e a posição do pesquisador como instrumento humano de coleta de dados. Essas características não são, segundo Patton (1990), incontestáveis. Elas servem de base para apontar uma direção para a forma mais adequada de coleta de dados.

Naturalmente, a perspectiva etnográfica é central neste estudo. A escolha da perspectiva etnográfica deve-se a dois motivos. Em primeiro lugar, porque há um envolvimento na “vida” de um grupo por um período de tempo, observando o que acontece e o que é dito no ambiente onde as interações do grupo ocorrem, e questionando informações que vão se transformar em dados (HAMMERSLEY; ATKINSON, 1995). Em segundo lugar, porque esta pesquisa está inserida no paradigma da complexidade, e concebe o ambiente onde as interações acontecem como um sistema dinâmico e auto organizável, em interação com

outros ambientes e sistemas. Ela descreve eventos inter-relacionados e mutualmente estruturais, e isso caracteriza uma abordagem complexa da etnografia, como explicam Kuhn e Woog (2005). Para esses autores,

Na etnografia, a inter-relação entre o contexto, o fenômeno, o momento, a atividade humana e a produção de sentido são reconciliadas para análise. O elo entre a ciência da complexidade e a etnografia é criado porque, na linguagem da complexidade, ambientes e produções culturais humanas são sempre complexos e dinâmicos (KUHN; WOOG, 2005, p.140).

Paiva e Rodrigues-Júnior (2007) afirmam que a metodologia etnográfica está de acordo com a ciência da complexidade, uma vez que a observação e a descrição de sistemas adaptativos, não lineares e auto-organizáveis é o objetivo final do estudo. O fenômeno, segundo eles, é entendido a partir do envolvimento do pesquisador com o contexto de pesquisa – o pesquisador passa a fazer parte dele –, e não a partir da análise separada desse contexto. Os autores lembram ainda que, como a visão subjetiva do pesquisador está presente nas notas e observações, ele afeta o sistema e é afetado por elementos da cultura investigada. Os dados em uma investigação de natureza complexa, ainda segundo Paiva e Rodrigues- Júnior (2007), estão disponibilizados de forma não linear, e a interligação dinâmica de eventos e fenômenos no ambiente da pesquisa pode ser percebida pelo pesquisador. Como diz Agar (2004), descobrir as conexões é o objetivo final do etnógrafo.

A investigação realizada está inserida em um contexto culturalmente situado, sem limites reais e concretos, mas amplo e sem fronteiras nas interações e trocas, como ressalta Hine (2000), o que o caracteriza como um sistema adaptativo complexo. Esse contexto, a

internet, é basicamente “uma maneira de transmitir bits de informação de um computador

para outro”, segundo a mesma autora, mas que detém uma vida social e discursiva autêntica e interativa. A internet é um “artefato cultural moldado por processos sociais na produção e no uso” (HINE, 2000, p.39) e não se instala como um espaço físico. Pelo contrário, a autora explica que a Internet se organiza em torno de uma conexão e por isso transforma o conceito de deslocamento que a etnografia traz embutido em si. O deslocamento físico passa a ser substituído pelo deslocamento experimental. Na internet, vista como contexto cultural neste trabalho, em vez de apenas um artefato tecnológico, a ordem é a mobilidade, de acordo com Hine (2000), e a noção de campo como um lugar concreto se desfaz quando pensamos que a cultura é algo que vai além das fronteiras do espaço físico.

A etnografia, segundo Hine, “oferece a promessa de se aproximar da compreensão de como as pessoas interpretam o mundo e organizam suas vidas” (HINE, 2000, p. 42). A autora pontua que ela produz uma autêntica compreensão de uma cultura com base nos conceitos que emergem do estudo realizado. Uma etnografia virtual, segundo ela, tem a mesma definição e forma da etnografia tradicional, mas detalha maneiras nas quais a tecnologia é vivenciada e experimentada. Para que isso aconteça, é necessário que o pesquisador também tenha muita competência no uso da internet e bom conhecimento do ambiente virtual, uma vez que ele vai transitar pelos espaços da pesquisa para sua coleta e reflexão sobre os dados. Sem uma experiência técnica e cultural do uso da internet, corre-se o risco de dados serem perdidos ou mal interpretados.

A potencialidade de arquivamento que a internet oferece é um ponto positivo para um pesquisador: ele tem a chance de voltar aos registros sempre que precisar. Mendes (2009) atenta para o fato de que a coleta de dados na pesquisa em um ambiente online oferece ao pesquisador a possibilidade de acompanhar o andamento da pesquisa à medida que os dados surgem no ambiente, fazendo alterações no curso da investigação. A análise dos dados pode começar nesse momento em que eles começam a se fazer presentes, e isso representa um ponto positivo no sentido de ganho de tempo para o pesquisador durante o trabalho.

Hine (2000) destaca que essa exposição dos dados no meio virtual, porém, é um grande problema no que diz respeito ao sigilo necessário em uma pesquisa em relação aos participantes dela. Quando esse banco de dados do pesquisador está em um meio online aberto, não protegido por uma senha de acesso, os dados reais, como nomes, datas e informações diversas ficam acessíveis a qualquer um que queira esse acesso. O anonimato do informante na web é, portanto, impossível neste caso. A solução, segundo a autora, está na necessidade de o pesquisador aplicar uma sensibilidade etnográfica aos problemas éticos em potencial. No caso desta pesquisa, o ambiente era restrito à professora pesquisadora e aos professores em formação que participaram do trabalho. Assim, o anonimato foi mantido.

Assim, propondo uma pesquisa social transdisciplinar, informada pela Ciência da Complexidade, apresento o contexto da investigação.

Benzer Belgeler