3. YÖNTEM
3.4. Verilerin Analizi
O argumento de Bonjour, apresentado acima, mostra que a epistemologia naturalizada perde as ferramentas necessárias para lidar com os problemas da epistemologia
clássica. Apesar de ter mencionado acima o ceticismo – o mais persistente dos problemas clássicos –, irei agora expor mais detidamente o argumento cético conforme apresentado por um importante autor contemporâneo, Barry Stroud. Num capítulo intitulado “Epistemology Naturalized”, no seu livro “The Significance of Philosophical Scepticism”, Stroud apresenta algumas observações céticas acerca da teoria de Quine. A conclusão será que o argumento de Quine não consegue evitar um ataque direto e definitivo contra a validade do discurso científico. Stroud diz:
Muito foi trazido pela descrição de Quine da gênese de nossa teoria do mundo. Mas em nenhuma parte de sua estória ele explica como eliminamos a possibilidade de que nossos dados sensórios sejam meramente produtos de um sonho ou de um demônio maligno ou de alguma outra fonte incompatível com o objeto físico ‘hipótese’. Isto sugere que o quer que seja o que a epistemologia naturalizada de Quine pretenda fazer, ela não pode responder à questão mesma que se provou tão difícil para os epistemólogos tradicionais136.
A questão é tão velha quanto a própria epistemologia: como saber que nesse momento não estamos totalmente enganados acerca de todas as nossas experiências? Esse argumento toma formas distintas, como se perguntar se estamos sonhando, se a insanidade nos alcançou ou se os deuses estão nos enganando. A maioria dos modernos lidou mais ou menos intensamente com essas questões e tentou gerar uma resposta satisfatória para ela. Fazia parte do desafio epistemológico vencer a questão cética, e para vencer tal adversário era necessário desenvolver um método para justificar nossas crenças. Esse é um jogo um
136 “So much is borne out by Quine’s account of the genesis of our theory of the world. Nowhere in his story
does he explain how we eliminate the possibility that our sensory date are merely the products of a dream or of an evil demon or of some other source incompatible with the physical object ‘hypothesis’. That suggests that whatever Quine’s naturalized epistemology is meant to do it could not answer the very question that proved so difficult to the traditional epistemologist.” Stroud, pg. 221
tanto intrincado: se aceitarmos o desafio cético temos que aceitar desenvolver uma teoria normativa, e vice-versa, uma teoria normativa para ser verdadeira deveria (modernamente) ser capaz de vencer o desafio cético. Como Quine abandona a teoria normativa, ele rejeita também o desafio cético.
Isso quer dizer que a questão cética foi respondida? Não. Sobre o problema da indução colocado por Hume, Quine diz que esse é o “impasse humano”, que não podemos vencê-lo. Podemos simplesmente abandonar a questão cética? Essa é uma possibilidade, mas que o ceticismo não vê como razoável. É possível, mesmo depois da epistemologia naturalizada, perguntar se estamos delirando. E por mais estranha e difícil que seja essa questão, Stroud pensa que é essencial passar por ela, por uma razão apenas: podemos estar efetivamente insanos agora. Quine prefere simplesmente abandonar essa questão, mas isso não resolve o desafio cético. Do ponto de vista estritamente teórico, a epistemologia naturalizada simplesmente não toca no maior problema da epistemologia tradicional, que é o desafio cético.
Mas seria uma injustiça dizer que Quine não toca o problema cético. Sua mais incisiva ofensiva contra o ceticismo se dá no artigo “The Nature of Natural Knowledge”, onde ele diz o seguinte:
(...) as dúvidas céticas são dúvidas científicas (...) A epistemologia é melhor vista, então, como um empreendimento interno às ciências naturais. A dúvida cartesiana não é o modo de se começar137 (...)
137 “(…) skeptical doubts are scientific doubts. (…) Espistemology is best looked upon, then, as an enterprise
within natural science. Cartesian doubt is not the way to begin.”Quine. The nature of natural knowledge. Pg. 68.
Se a dúvida remete a um problema tratado em uma teoria científica, a resposta então deve ser dada por esta teoria, causando um avanço teórico e não uma paralisação do conhecimento como o ceticismo parece exigir. Um exemplo de questão cética que nasce de uma tese científica é aquela que mostra a deficiência de nossas percepções e que leva a uma falta de confiança no aparelho perceptivo; a dúvida só existe porque temos uma teoria (mesmo que incipiente) da percepção. Tal procedimento aponta antes para uma melhor descrição da percepção do que para uma tentativa de justificação da mesma.
Stroud responde a este argumento de Quine assim:
A origem científica de nossas questões originais ou dúvidas nada poderia então, fazer para mostrar que a resposta para nossa questão, ou resolução de nossas duvidas, pode ser encontrada no estudo empírico do conhecimento humano como um fenômeno observável no mundo físico138.
O ponto de Stroud é que mesmo que uma teoria da percepção explique perfeitamente como temos uma ilusão, isso não resolve a questão de se nesse exato momento estamos sendo enganados por uma ilusão. Quando o ceticismo surgiu no início da filosofia, as pessoas tinham boas teorias da percepção e sabiam quando alguém delirava. O que o cético mostra é que o problema não é saber o que é a ilusão, mas se eu, nesse momento, estou delirando ou não. Digamos que eu seja um cientista e desenvolva uma teoria acerca da percepção humana – mas depois de um tempo eu acabo curado de uma esquizofrenia (que eu não sabia que possuía) e descubro que não desenvolvi teoria nenhuma e estava apenas delirando acerca de uma teoria sobre a percepção? Afinal, como justificar nossas teorias?
138 “The scientific origin of our original question or doubts would therefore do nothing to show that the
answer to our question or resolution of our doubts can be found in an empirical study of human knowledge as an observable phenomenon in the physical world” Stroud, 229
Ocorre que, por não conseguir refutar o cético, a posição de Quine acaba por deixar o ceticismo alcançar as próprias teorias científicas. Segundo Stroud, a ciência, sendo uma atividade essencialmente descritiva, não pode justificar a si mesma, mas deve se limitar a descrever o funcionamento do objeto. Quem poderia verificar e atribuir a justificação à ciência seria apenas a epistemologia. Esse não é um empreendimento necessariamente “feito de fora” da ciência, mas é necessária certa distância, para que seja feita uma avaliação dela, para então dizer que a ciência é uma boa fonte de explicação do mundo. Mas, como a epistemologia naturalizada se torna parte das ciências, ela deixa o desafio cético de fora, sem solução. Reagir ao desafio cético às ciências era tarefa essencial da epistemologia. Sem epistemologia independente das ciências, como responder a ele?
Resultado
Contra Quine, Bonjour afirma que é necessário permitir a entrada dos argumentos a priori na investigação filosófica. Somente com eles poderemos realmente responder às questões clássicas da epistemologia que não são sequer tocadas por Quine. Stroud mostra que a posição de Quine não evita que as dúvidas gerais, que ameaçavam a filosofia, entrem com toda a energia no discurso cientifico e, portanto na própria epistemologia naturalizada. Assim, o conhecimento cai sob o desafio cético, sem as antigas trincheiras epistemológicas. Pode ser que a conclusão obrigatória aqui seja que a epistemologia naturalizada não é uma forma de epistemologia, mas antes seu fim ou seu abandono. Dito isto, como ficam os problemas da antiga epistemologia? E as questões não resolvidas? Vou resumir as questões mais relevantes, duas questões proeminentemente contemporâneas e duas tradicionais:
1. Devemos abandonar realmente a normatividade? E se a abandonarmos, como o conhecimento poderia ser pensado?
2. A evidência para as teorias é um conceito normativo? Experiências podem contar realmente como evidência ou razão para as teorias?
3. A epistemologia é um tipo de conhecimento melhor que outras áreas? Por que preferi-la?
4. O desafio cético ainda existe? Ele precisa ser resolvido? Como?
Na próxima seção, irei mostrar como Quine poderia responder a cada uma dessas quatro questões.
3.3. Respostas Quineanas
Como disse acima, existem quatro questões gerais que tentam refutar a epistemologia naturalizada. A partir de agora irei mostrar rapidamente como as respostas a tais questões seriam formuladas. É importante deixar claro que Quine forneceu respostas muito vagas a elas, e o que tentarei abaixo é muito mais uma interpretação de seus textos do que uma explicação literal de sua posição.