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Ao final desta pesquisa, nosso trajeto de análise permite tecer algumas considerações sobre a potencialidade que nosso objeto inaugura, tanto no próprio gênero doc, quanto decorrente do suporte web.

HayMotivo é um texto coletivo, polifônico, ao dar a palavra a 33 diretores/produtores

num só projeto. É uma produção autofinanciada, uma vez que seus diretores/produtores não tiveram apoio financeiro algum para produzir seus vídeos. É um texto engajado, mas, sobretudo independente, ao dar voz aos intelectuais e permitir que se expressem de forma livre e sem censura. É um projeto original, inédito na história do audiovisual, ou pelo menos desconhecemos qualquer documentário (ou filme de ficção) produzido simultaneamente por tantos diretores diferentes.

Denunciar os problemas da realidade, decorrentes da injustiça social em uma sociedade globalizada, é o sonho da maioria dos intelectuais engajados e de muitos documentaristas do Brasil, da América Latina e do mundo. Promover a mudança! Hoje em dia, esse sonho não é utopia. HayMotivo.com demonstra como os intelectuais têm agora na internet um objeto-suporte poderoso para exercitar a crítica social. Com iniciativa e determinação, é possível reunir forças para denunciar os problemas de uma sociedade. O acesso facilitado aos meios de produção, já que hoje os equipamentos de filmagem têm custo mais baixo em relação a décadas passadas, e a fácil disseminação de conteúdo (como um vírus) oferecida pela internet garantem tanto a produção da denúncia quanto a sua divulgação instantânea e abrangente.

HayMotivo é um texto político, mas sobretudo criativo, que torna evidente o potencial

da produção audiovisual alternativa para alterar o destino político de um país, a Espanha contemporânea. Para realizar uma prática edificante, necessária e indispensável, proporcionando um exercício consciente de cidadania, esse grupo de diretores/produtores “aceita o conflito como base da comunicação”, conforme aponta Vilches (2003, p. 146), saindo do consenso, do lugar comum, da “informação oficial”, para apresentar todos os motivos passíveis de crítica na sociedade espanhola. HayMotivo remonta uma função básica da comunicação e dos meios de comunicação: informar com qualidade e gerar debate social. Dessa forma, HayMotivo é um convite à participação em uma forma de vida crítica e não alienada.

A particularização dos subtemas, o tratamento artístico da pauta e a variação de estilo autoral tornam o documentário HayMotivo um produto midiático instigante, agregado de valor artístico. A duração de cada vídeo (em média três minutos), uma “exigência” do ambiente web, garante a participação igualitária de seus diretores/produtores, reafirmando a internet como único espaço essencialmente democrático dos meios de comunicação. Embora a materialidade da internet seja discutível (como discorremos no Capítulo 2), esse objeto-

suporte virtual exige mudanças que apontam novas práticas e estratégias de produção e

recepção de conteúdo audiovisual, questões que HayMotivo.com soube empregar com desenvoltura.

Na aplicação do percurso gerativo da expressão (Fontanille), demonstramos que

HayMotivo apresenta as práticas da combinação, depoimento, colagem e monólogo, dentre

outras, para comunicar de modo eficiente o conteúdo crítico articulado por formas que atraem o internauta/telespectador, ao explorar os diversos recursos técnicos e artísticos disponíveis para a produção em ambiente web. Por esse motivo, consideramos que a internet afeta de modo contundente as propriedades sensíveis e materiais dos níveis anteriores (figuras-signo,

texto-enunciado), como dos posteriores (práticas, estratégias e formas de vida) de HayMotivo, analisado em perspectiva englobante. Assim, as práticas de HayMotivo

pertencem a outras artes, como a literatura, o cinema de ficção, o teatro e as artes plásticas. Todas com a finalidade de suscitar a atenção de seu público-alvo.

No nível técnico (ou da expressão), a não-sincronia entre áudio e visual, a utilização alternada de áudio (narração em off ou som ambiente) em oposição ao silêncio, a montagem a partir de imagens de arquivo e as tomadas em planos contrastantes, somadas à utilização de figuras retóricas no nível artístico, constroem o que ousamos chamar de sintaxe concessiva, uma forma de confundir o espectador pelo inusitado, pelo estranhamento, tão caro à literatura. Uma forma infalível de captar a atenção, instigar a curiosidade e seduzir o espectador. A análise dos quatro vídeos (Capítulo 3) demonstrou essa construção concessiva, considerada a mais “preciosa” na gramática tensiva, por ser mais viva, elevada e intensa (DINIZ, 2008, p. 132).

A concessão, quando aplicada na construção de vídeos para a internet, requer riqueza de repertório e capacidade de síntese do diretor/produtor. Nos vídeos de HayMotivo.com o internauta encontrará um produto audiovisual complexo, elevado, sofisticado, que incita a reflexão, e , ao mesmo tempo, extremamente conciso e condensado, características exigidas pelo formato Youtube, o site hospedeiro no qual HayMotivo.com se propagou velozmente.

Os vídeos de HayMotivo surpreendem o espectador. Suas informações representam o contraponto (o oposto ou o conflito) das informações noticiadas nos veículos de comunicação de massa. Representam a outra voz, a voz que desconstrói o instituído. Assim, informações inusitadas passam ao domínio público. Essa possibilidade de intervenção só é possível na internet, onde essas denúncias são independentes, livres de censura e permanecem vivas e instantâneas, com a disseminação rápida da informação.

Na passagem da teoria à prática, realizamos um vídeo experimental, intitulado

Brincadeira de criança. Na impossibilidade de um projeto mais ousado, como foi HayMotivo.com, procuramos aplicar alguns recursos identificados nas análises, sobretudo

aqueles apresentados no Quadro de Categorias (Capítulo 4), quando da produção de nosso docweb. Dentre os recursos mais instigantes utilizados em Brincadeira de criança, apontamos a não-sincronia entre áudio e visual, a utilização de imagens de arquivo, a alternância entre som ambiente e silêncio e trilha sonora eufórica e disfórica, as figuras retóricas da anáfora, oxímoro, ironia, gradação e principalmente a concessão.

A concessão é o recurso artístico mais precioso de nosso vídeo, estabelecido na fala da menina: “Eu quero ser a Isabela, ela aparece toda hora na televisão!” O anseio da menina é perturbador, pois está construído na concessão e foi decisivo na escolha de nossa pauta, a motivação para apurarmos os fatos. No vídeo, tentamos construir a concessão. A criança, aparentemente bem educada e instruída, surpreende o internauta/telespectador ao desejar ser a menina morta. O contraste entre a fala da menina e as imagens de reconstituição do fato garante certa intensidade e ritmo ao vídeo.

No plano do conteúdo, Brincadeira de criança faz uma crítica à mídia brasileira, com ênfase no Caso Nardoni. Representa nossa denúncia ao tratamento midiático concedido ao fato e que levou a garota ao desejo de ser Isabela. A denúncia que fazemos em nosso vídeo não pretende sugerir uma censura aos meios de comunicação de massa, ao contrário, nossa intenção é instigar a reflexão, o debate a respeito do poder da mídia sobre a criança, um ser em formação; o debate sobre a necessidade ou não do controle social de conteúdo, a classificação indicativa dos programas conforme a faixa etária; sobre a responsabilidade dos pais em permitir qualquer conteúdo às crianças; sobre o fazer-jornalístico responsável, preocupado com os efeitos do que é dito e representado, sobretudo na TV, dentre outras mídias.

Para publicar esse vídeo no Youtube.com, tivemos que dividi-lo em três partes, ratificando a necessidade de concisão para a produção de conteúdo para o ambiente web. A

divisão de nosso docweb em três atos (cada um de aproximadamente 3 minutos) permitiu gerar três endereços de vídeo independentes.

Ao realizar um trabalho teórico e prático, acreditamos que nossa pesquisa possa contribuir efetivamente para os estudos comunicacionais e de ciências da linguagem. Nesse sentido, destacamos nosso referencial teórico, a semiótica francesa, que mais uma vez se mostrou uma metodologia lógica e clara para a análise de objeto de pesquisa audiovisual, sempre tão complexo, afastando-nos de uma leitura “intuitiva” e vinculada ao senso comum. Isso porque, como aponta Beividas (2006, p. 19) em seus estudos sobre semiótica e cinema, por um longo período os críticos e teóricos do cinema não problematizaram a linguagem cinematográfica de forma aguda e sistemática, como o faz a semiótica.

Haymotivo.com é um projeto inusitado, criativo e importante, que evidencia o

potencial da internet no quadro político. O resultado prático proporcionado pelo lançamento de HayMotivo.com no ambiente web foi a mudança no rumo das eleições de 2004, na Espanha: o partido da situação, o PP (de centro-direita) foi derrotado pelo partido de oposição, o PSOE (de centro-esquerda). Esse potencial da internet no quadro político vem ganhando força nas disputas eleitorais em compasso com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação. Nas últimas eleições dos EUA (2008), por exemplo, os candidatos Barack Obama e John McCain utilizaram a internet como estratégia de campanha decisiva na corrida presidencial. A partir de sites, listas de email e do Youtube, desenvolveram novas maneiras de arrecadação de fundos e de abordagem do eleitor.

O potencial da internet é tão valioso que, recentemente, no dia 16 de setembro, o Senado Federal brasileiro aprovou o projeto PLC 141/ 09, que altera a Lei eleitoral, autorizando o uso da internet sem limitações nas eleições de 2010 no Brasil. Os candidatos poderão ter sites e blogs até 48 horas antes da votação, e quem por ventura se sentir ofendido terá direito de resposta, como prevê a legislação para outros meios de comunicação.

O potencial da internet já demonstrou sua eficiência na revitalização do próprio gênero documentário, que vem acusando importância crescente, jamais experimentada, na história do audiovisual brasileiro. Prova disso é o volume e a qualidade das produções e a consolidação de estudos críticos de documentários, em notável ascensão.

O gênero “renasceu”, ganhou fôlego, ao migrar para o ambiente web, esse espaço considerado utópico, numa sociedade onde os homens são “livres, capazes de se emancipar por eles mesmos”, conforme aponta Wolton (2003, p. 86). Só com essa liberdade a realização e divulgação de documentários críticos, engajados e ao mesmo tempo artísticos tornam-se

possíveis. Se não houvesse o ambiente web, HayMotivo não existiria, o que seria uma pena, pois a história da Espanha seria talvez outra. Não esqueçamos que o documentário, de fato, modificou a realidade política e o destino do país.

Considerando a ausência de censura e a fácil disseminação de conteúdo na web, seus diretores realizaram um documentário “verdadeiro” (jamais foram questionados os aspectos criticados), “necessário e legítimo”, com força estética e crítica que, segundo Almodóvar, funcionou como uma “patada a los genitales del partido que está en el poder”. Nesse “espaço de abertura, esse faroeste”, segundo Wolton, que representa o ambiente web, a liberdade reina poderosa. Toda vez que o homem adquire liberdade, inevitavelmente vem a pergunta: o que fazer com ela? Os cineastas de HayMotivo souberam o que fazer e, completa o mesmo autor: “é essencial que se preserve isso”.

Em uma sociedade de redes informacionais, sociais e comunicacionais, o documentário ressurge no suporte da web para formar, informar e provocar todos os internautas/telespectadores com apenas um clique, dispostos a mudar. Há motivos!

Benzer Belgeler