A realidade que circunda as instituições de ensino desde a educação básica até o ensino superior, no quesito relações interpessoais, não é das melhores, pois cada vez mais a violência, a transgressão, a inversão de valores e a corrupção dominam a sociedade em que estamos inseridos. Essas mazelas sociais adentram nas salas de aula de nossos educandários transformando, muitas vezes, o local de ensino e de aprendizagem em um ringue de lutas, literalmente falando. A mídia, quase todos os dias, noticia casos de agressões de alunos aos seus professores e agressões de alunos ao patrimônio, mostrando atitudes comportamentais de total desrespeito. E o professor no meio deste caos social? Bem, o professor torna-se, segundo Zagury (2006), um refém deste sistema que aí está posto.
Esta subcategoria traz, através dos depoimentos dos alunos pesquisados, uma realidade contrária à destacada por Zagury (2006), pois mostra que é possível termos boas relações em sala de aula, utilizando este espaço para seu fim maior: ensinar e aprender. As respostas que deram embasamento à minha afirmação,
surgiram a partir da questão 8 que perguntou como o estudante percebeu a relação professor – aluno nas aulas de seus professores empreendedores. Podemos averiguar através das afirmações dos sujeitos participantes que, na instituição onde foi realizada a pesquisa, não temos reféns.
As colocações a seguir corroboram minhas afirmações, E116: “Professores sempre muito dispostos e atentos para ajudar a quem precisa e ensinar muito mais, uma relação de companheirismo”; E5:“Como se fosse no ensino fundamental onde você não é apenas mais um aluno”; E178:“É uma relação mais família”, “Os professores são mais acessíveis”; E204:“Professores sempre solícitos”; E238:“Uma parceria, onde estavam sempre dispostos a ajudar seja na vida profissional, pessoal ou acadêmica”; E244: “Era bem melhor que nas outras disciplinas”; E174:“Uma relação amiga, irreverente, atenciosa, ótima”; E175: “Ótima a relação, todos conversam sem interromper o outro, cada um fala o que pensa sem medo e medo era uma coisa que eu sentia na hora de falar e hoje não sinto mais”; E56: “Muito boa, pois o professor está sempre disposto a ajudar”; E40:“Foi uma boa relação, pois os professores se comunicavam diretamente com os alunos”; E245:“Com respeito e fornecendo as explicações necessárias”; E41:“Muito boa, tive o privilégio de ter professores que, além de serem professores, são amigos dos alunos”; E120: “É lado a lado, ou seja, sem se colocar em um pedestal como muitos fazem”.
Inicio minha análise trazendo os dizeres de Simka (2004) para aproximá-los da última afirmação apresentada no parágrafo anterior:
De maneira geral, as interações entre professores e alunos ocorrem, no espaço acadêmico, sob uma temperatura próxima a zero, de uma frieza infernal. Porque muitos mestres não têm a sensibilidade de tratar o aluno como ele deve ser realmente tratado: não como alguém portador de um registro acadêmico número 000, mas como uma pessoa especial, singular, que merece toda a atenção do mundo, mesmo que o mestre faça parte da constelação (aquela espécie de professores arrogantes, que se consideram acima dos demais ou aqueles que se acham, no dizer de uma aluna, “a última bolacha do pacote) (p.50).
O autor traz à discussão um cenário que deve ser erradicado dos ambientes escolares e universitários o mais breve possível. Trago Mosquera (1987) para
enriquecer a reflexão, pois o orientador desta tese pesquisa sobre o mal-estar e o bem-estar na docência há algum tempo e salienta que o modelo de sociedade em que estamos inseridos impele as pessoas para o individualismo, o que, de certo modo, acaba acentuando a tendência daqueles que se voltam exacerbadamente para si. No entender do autor: “[...] pessoas com direção interna têm desempenhos que as caracterizam e individualizam; já no caso dos indivíduos dirigidos para os outros, estes têm outros tipos de comportamento e de ação” (p.51).
Continuando nesta linha de pensamento, Mosquera e Stobäus (2003) apontam para a necessidade de questionarmos:
Quem são os outros? Quem é a pessoa que está ao meu lado? Por que estabelecemos distância com ela? Por que estabelecemos empatia por ela? Que é que nos aproxima e o quê é que nos faz rechaçar as pessoas?Por quê temos tanto medo das pessoas? Talvez mais, por que nos incomodam tanto aquelas pessoas diferentes? (p.209)
Os depoimentos dos alunos sobre as relações vivenciadas com seus professores empreendedores é completamente diferente do cenário trazido por Simka (2004), mas vão ao encontro do bem-estar docente pesquisado por Mosquera (1987), já que acredito que professores empreendedores são indivíduos dirigidos para os outros, pois são pessoas automotivadas,com claros objetivos de vida, realizando suas tarefas com prazer, com alegria e com emoção. São pessoas entusiasmadas que, ao agir, ao se comunicarem com seus pares, exteriorizam bem- estar, estimulando solidariedade e aproximação.
Postulo a idéia de que a afetividade é um motor que leva ao empreendedorismo, tornando saudáveis as relações interpessoais nas salas de aula de professores empreendedores. Seligman (2004, 2005), defensor da psicologia positiva, destaca a importância e as características do cultivo de emoções positivas, de virtudes e de forças pessoais, especialmente quando a vida apresenta dificuldades. Para ele, as pessoas não só querem a superação do que há de negativo e rotineiro nelas; também buscam vidas plenas de sentido: “[...] querem
mais que apenas corrigir suas fraquezas; querem vidas cheias de significado, e não somente um dia depois do outro até a morte” (SELIGMAN, 2004, p. 11).
Desta forma, o autor convida a uma mudança de foco, a olhar para a pessoa a partir dos pressupostos da psicologia positiva. Sem negar as dificuldades que a vida apresenta, uma postura otimista, seja pessoal ou institucional, é de grandíssima necessidade para recuperar o melhor de cada ser humano.
Consideramos a Psicologia Positiva mera mudança de foco da psicologia do estudo de algumas das piores coisas da vida para o estudo do que faz a vida valer a pena. Não vemos a Psicologia Positiva como uma substituição do que já houve, mas como uma extensão e complementação (SELIGMAN,2004, p. 293).
Como consequência, o cultivo das emoções positivas traz as mais variadas benesses. Estudos comprovam que “Existem evidências claras de que a emoção positiva funciona como previsão de saúde e longevidade, que são bons indicadores de reservas físicas” (SELIGMAN, 2004, p. 550). O autor problematiza a importância de vida autêntica promotora de bem-estar, ancorada em forças e virtudes que, por sua vez, apontam para algo maior, além de uma vida agradável, além de vida boa, para se chegar à vida significativa, resultado de atitude altruísta. Como o próprio autor afirma: “Uma conseqüência do envolvimento que os indivíduos felizes têm com os outros é seu altruísmo” (SELIGMAN, 2004, p. 59). Do contrário: “A vida comprometida tão somente consigo mesmo é uma vida estéril. Os seres humanos requerem um contexto de significado e de esperança” (SELIGMAN, 2005, p. 369).
Acredito que professores empreendedores seguem, consciente ou inconscientemente, os ensinamentos de Mosquera e de Seligman, tornando suas salas de aulas redutos onde o acolhimento, o afeto, o interesse e a compreensão estarão presentes em todos os momentos, embasando a construção da aprendizagem sugerida por Rogers e já citada neste trabalho. E assim, dentro desse contexto, não encontraremos mais professores como os trazidos por Simka.
4.5 CATEGORIA 4 – EMPREENDEDORISMO TRANSFORMANDO A EDUCAÇÃO