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Embora as considerações técnicas e simbólicas algumas vezes funcionem com propósitos cruzados, a formação dos contratos no mundo real geral- mente implica simultaneamente ambos. Qualquer consideração verdadei- ramente satisfatória deve ser “mista”, pelo menos no sentido de especificar as condições de oportunidade que determinam onde um conjunto de pro- cessos acaba e o outro começa. No entanto, os contratos podem misturar os elementos técnicos e simbólicos em um sentido mais radical, também: em algum ponto entre atuar como projeto de governança e atuar como gesto ritual, os contratos podem atuar como roteiros padronizados.

Como o roteiro de uma peça, um contrato serve a diversos propósitos que são simultaneamente práticos e expressivos. Primeiro, o contrato,

como roteiro, invoca sentidos narrativos familiares, permitindo (e encora- jando) os atores a contemplar, ensaiar e modificar suas falas antes que a

performance comece. Mesmo se todos compreenderem que muitas cenas na nova produção serão interpretadas de improviso, uma leitura prévia pode ressaltar temas, sugerir possíveis dinâmicas do enredo e dar aos atores uma chance de ou entrar no personagem, ou determinar que são errados para o papel. Segundo, um contrato, de novo como roteiro, fornece um enredo “tido como certo” para manter a performance, mesmo diante de um impro- viso substancial. Realmente, quanto maior o caráter extemporâneo da produção e quanto maior o número de atores, maior a importância de se ter documentos referenciais cognitivamente manipuláveis, que liguem as partes individuais a um todo coerente e lógico. Finalmente, ao esboçar identidades, expectativas e hábitos, um roteiro contratual pode modelar e coordenar comportamentos ao convidar os atores a “encenarem” pronta- mente papéis reconhecíveis,78 mesmo na ausência de sanções prontamente

executáveis. A maioria das performances teatrais, afinal, prossegue sem emendas, apesar de que poucos atores ameaçariam ajuizar uma ação contra seus colegas de elenco por “quebra de papel”.

Embora a pesquisa acadêmica prévia raramente adote tal perspectiva dramatúrgica, relances encorajadores dos contratos como roteiros apa- recem na literatura empírica. Macaulay sugere que o problema central na maioria das transações “não é de honestidade, mas de alcançar um acordo que ambos os lados entendam”.79 Roteiros contratuais resolvem

esse problema ao organizar cenas parecidas – “a revisão”, “o primeiro recital”, “o atraso da produção,” e assim por diante – em narrativas coe- rentes, estruturadas em torno de temas culturais familiares. Ademais, mantendo a afirmação de que contratos roteiros fornecem pontos de referência para o gerenciamento de palco de produções complexas com muitos atores, Macaulay nota que mesmo quando padrões de dever e repa- ração são essencialmente não contratuais, um contrato razoavelmente detalhado pode, não obstante, provar-se bastante valioso “como um ins- trumento de comunicação dentro de uma grande corporação”.80 Nova-

mente consistente com a metáfora dramatúrgica, Macaulay relata que as partes contratantes devotam um esforço substancial para planejar uma

performance – para a edição do roteiro – mas muito pouco esforço para planejar sua execução.81

As observações feitas, evidentemente, não são prova definitiva do modelo dramatúrgico; no entanto, elas ajudam a ilustrar sua plausibilidade bem como seu potencial para reunir considerações técnicas e simbólicas em uma única descrição. Se as partes numa transação coordenam suas expectativas, identidades e rotinas por intermédio de meios essencialmente narrativos, então a formação do contrato pode ser tanto simbólica como técnica. “Roteiros contratuais” modelam sim a estrutura técnica da relação de troca, mas eles a modelam simbolicamente – não pela imposição de san- ções materiais, mas por invocarem esquemas culturais.

Iv. a

MacrodInâMIca dos regIMes contratuaIs

Por mais importante que a microdinâmica da formação dos contratos possa ser, nem os artefatos técnicos, nem os simbólicos surgem isolados dos processos sociais mais amplos. Assim, ao lado do estudo de instrumentos contratuais particulares, uma perspectiva artefatualista também convida a uma consideração macroscópica de regimes contratuais mais largos. Em vez da busca de uma explicação para a documentação de uma tran- sação individual, essa segunda linha de investigação busca explicar os padrões na distribuição das características da documentação no tempo e no espaço. Assim como os doutrinalistas são capazes de descrever tanto regi- mes jurisprudenciais como posições individuais, e os relacionalistas descrevem tanto regimes de produção como trocas individuais, os arte- fatualistas podem descrever tanto regimes contratuais como documentos individuais. A ideologia liberal de mercado tende a retratar cada contrato como um acordo único e independente, mas, de fato, a linguagem contratual frequentemente exibe impressionantes continuidades de uma transação para outra (e algumas vezes também impressionantes descontinuidades). Essas continuidades e descontinuidades são elas próprias fatos sociais dignos de explicação. A perspectiva dos contratos como artefatos destaca essa dinâmica no nível sistêmico, forçando os pesquisadores a abordarem a questão de quando, por que e como o formato de um contrato pode afe- tar o formato de outro.82

Embora a literatura acadêmica devote relativamente pouca atenção a este nível de análise, a metáfora do contrato como artefato permite – ou mesmo encoraja – a extrapolação de outras tradições das ciências sociais, nas quais a pesquisa sobre artefatos convencionais cada vez mais abraça visões macrossistêmicas. A sociologia das organizações, particularmente, promete diversos insights: os teóricos organizacionais não apenas produziram uma quantidade considerável de literatura sobre a introdução, desenvolvi- mento e difusão de novos produtos e práticas, como também ofereceram os “produtos e práticas” em questão envolveram frequentemente muitos componentes contratuais. Ainda que raramente concebidos nesses termos, os instrumentos financeiros, as políticas trabalhistas, as garantias aos minoritários e as alianças interorganizacionais tão comuns nesses estudos são, em parte, artefatos contratuais. Estendidas para a esfera sociológico- jurídica, as proposições da literatura organizacional sugerem uma ampla gama de disposições técnicas, simbólicas e mistas da macrodinâmica dos regimes contratuais.

Benzer Belgeler