3.GEREÇ VE YÖNTEM
3.4. Verilerin Analizi
O Ministério Público deverá obrigatoriamente intervir em rescisórias em razão do interesse público da lide. O interesse é presumido por proteção à coisa julgada.
Este órgão inicialmente surgiu para defender os interesses do Estado, mas há muito atua representando e defendendo os valores da sociedade. Com o advento da Lei Constitucional de 1988, a instituição ganhou maior destaque e importância na defesa dos direitos sociais e da ordem jurídica como um todo. Pode-se afirmar que hoje o ente é um grande defensor do interesse social, sendo o mais atuante legitimado ativo para o exercício das ações coletivas em nosso país.
Sabemos que para fazer valer o que determina a Constituição, a instituição tem o poder-dever de intervir no processo seja como fiscal da lei ou como autor.
No primeiro caso, o art. 82 do CPC exige a intervenção do Ministério Público, sob pena de nulidade do processo, nas causas em que há interesse de incapazes, naquelas onde se discute o estado da pessoa, pátrio poder, tutela, curatela, interdição, casamento, declaração de ausência e disposições de última vontade, e nas ações que envolvam litígios coletivos pela posse da terra rural, bem como nas demais causas em que há interesse público evidenciado pela natureza da lide ou qualidade da parte.
Em se tratando de processos coletivos, a própria natureza do direito defendido já faz presumir o interesse social do direito sob seu resguardo, tanto que o microssistema coletivos confere legitimidade para este ente, que, se não exercida, atrai a intervenção obrigatória do órgão, sob pena de nulidade processual (art. 5º, § 1º da LACP c/c art. 84 do CPC).
do recurso interposto pelo MP. (REsp 244.375/PB, Rel. Ministro José Arnaldo da Fonseca, Quinta Turma, julgado em 04.06.2002, DJ 01.07.2002 p. 370).
Vale apontar o entendimento da jurisprudência no sentido de que a intervenção tardia do Ministério Público no processo não causará nulidade acaso isto não implique em prejuízo ao interesse público: “a repetição, esta sim, poderia ser prejudicial ao interesse especialmente protegido423”. Isto porque, como exposto,
a decretação da nulidade, ainda que absoluta, está relacionada a certos princípios, dentre eles o do prejuízo424. Assim, não havendo dano ao bem tutelado, não há razão para a repetência do ato.
No que concerne ao Ministério Público agindo como autor de ações coletivas, sua legitimidade se extrai da própria Constituição Federal, na medida em que exerce as funções do art. 129. Além disso, é a lei o meio hábil a conferir legitimidade, desde que compatível com o ordenamento constitucional.
Neste sentido, tendo a lei exigido a participação do MP, seja como fiscal ou como parte (§ 1º do art. 5º da Lei 7.347) em todas as ações civis públicas425, parece que, mesmo sendo intimado para intervir como fiscal da lei, uma vez que o ente também poderia ter demandado na qualidade de autor, pode o MP atuar com amplitude de ações de conduta, na qualidade de assistente litisconsorcial da parte.
Significa que cabe ao MP agir utilizando todas as possibilidades/“poderes” que a lei confere, não se limitando ao papel de fiscal da lei. Tendo verificado que o objeto da lide translada o interesse particular, é pertinente que o órgão atue como autor, inclusive emendando a inicial, requisitando produção de provas, etc., a fim de torná-la uma ação coletiva mais efetiva e capaz a correta entrega do bem lesado a seus titulares.
Vale anotar a valorosa crítica, com a qual concordamos, que Greco Filho tece a respeito da separação das funções do Ministério Público no processo:
Todo aquele que está presente no contraditório perante o juiz é parte. Portanto, dizer que o Ministério Público ora é parte ora é fiscal da lei não define uma verdadeira distinção de atividades, porque seja como autor ou como réu, seja como interveniente eqüidistante a autor e réu, o Ministério Público, desde que participante do contraditório, também é parte426,427.
423GRECO FILHO, Vicente. Direito processual civil brasileiro, v. 2, p. 46.
424 No mesmo sentido, NERY JR., Nelson. Código de Processo Civil comentado, 8. ed, p. 1.428. 425 Preceito que pode ser aplicado a todas as ações coletivas. O Código de Defesa do Consumidor interage com a LACP, formando o que a doutrina chama de microssistema, visto que a parte processual, é aplicada na defesa em juízo de quaisquer direitos difusos, coletivos ou individuais homogêneos.
426 GRECO FILHO, Vicente. Direito processual civil brasileiro, v. 2, p. 155 e seg.
427 No mesmo sentido, Hugo N. Mazzilli, A defesa dos interesses difusos em juízo, p. 312. Esta também já foi a orientação da jurisprudência em outros casos: AÇÃO POPULAR – Exceção de
Mas afinal, o que é interesse público? Não é questão pacífica a definição de interesse público. Etendemos estar superada a dicotomia público-privado, já que na atual sociedade tornou-se difícil distinguir o que é exatamente uma relação pública e privada428.Vicente Greco Filho lembra que esta expressão já quis significar interesse
das pessoas jurídicas de direito público, mas esta interpretação já está superada, somente se verificando a presença de membro do MP quando “estivesse em jogo um algum bem social indisponível transcendente, isto é, acima dos interesses individualizados das partes429”.
Mas, estamos certos que muitas vezes o interesse do Estado pode se contrapor com os anseios da sociedade. Neste sentido, como salienta Patricia Miranda Pizzol430, o processo civil tradicional não atende mais aos anseios de uma proteção coletiva, que determinadas situações demandam, quando ultrapassado o direito singularmente visto.
Desta maneira, detectado interesse coletivo na resolução de conflitos que envolvam lides de consumo, ambientais, de proteção ao deficiente, ao idoso, etc., as regras processuais aplicadas devem ser diferenciadas, para assegurar a efetividade do direito defendido.
Neste particular, parece útil comentar, brevemente, a distinção que por vezes se faz entre interesse público primário e secundário. Para o professor Mazzilli, o primário diz respeito ao bem geral, enquanto o secundário, ao modo pelo qual os órgãos da administração vêem o interesse público. No entanto, afirma que já se acredita no esvaziamento do conceito de interesse público primário, dada a
impedimento – Argüição em face do representante do Ministério Público, porque este ATUA como representante do Ministério Público, autor de ação civil pública de igual objeto da ação popular – Argüição improcedente – O exercício da representação ministerial, em ambas ações, é ditado por interesses convergentes que, na ação popular ultrapassa a simples função de fiscal da lei, chegando à assistência ao autor popular e à substituição processual, sempre voltada para a realização do interesse público – Lei n. 4.717/65 – Recurso improvido. (Agravo de Instrumento n. 49.390-5 – Jundiaí – 8ª Câmara de "Julho/97" de Direito Público – Relator: José Santana – 5.11.97 – v.u.)
428 Hodiernamente, não se consegue mais destacar atividades essencialmente privadas ou públicas, visto que a inter-relação de ambas é uma constante. Na concepção de Pietro Perlingieri (Perfis do
Direito Civil: introdução ao Direito Civil Constitucional. Tradução de Maria Cristina de Cicco. 2. ed. Rio
de Janeiro: Renovar, 2002), a questão da proximidade atual do público ao privado, acaba por influenciar os interesses coletivos: “As dificuldades de se traçar linhas de fronteira entre o direito público e privado, aumentam, também, por causa da cada vez mais incisiva presença que assume a elaboração dos interesses coletivos como categoria intermediária (tome-se, como exemplo, o interesse sindical ou das comunidades)”.
429 GRECO FILHO, Vicente. Direito processual civil brasileiro v. 2, p. 158.
430 A tutela antecipada nas ações coletivas como instrumento de acesso à justiça. In: Processo e
conflituosidade muitas vezes presentes nas questões que envolvem o direito coletivo.431
No que concerne à possibilidade de atuação do MP Estadual na Justiça Federal e vice-versa, a atribuição do Ministério Público nem sempre coincide com a distribuição da competência no âmbito jurisdicional, e assinala: não há qualquer vedação constitucional ou legal a que o Ministério Público estadual possa atuar na Justiça Federal, desde que comprove a legitimidade processual, vale dizer, a pertinência do pedido com o seu âmbito de atuação institucional.
Destarte, o interesse público e social está associado aos interesses básicos e fundamentais da sociedade432, a tudo aquilo que o legislador pretende proteger objetivando o bem estar da coletividade em geral. Também, “tem-se interpretado a existência do interesse social quando o interesse individual homogêneo refere-se diretamente aos direitos sociais espelhados no art. 6º da CFRB/88”433.