1. BÖLÜM
3.4. Verilerin Analizi
A política instaurada a partir da década de 60, como resposta ao esgotamento da política de substituição de importações, tomou a modernização do setor agrário como
primordial ao desenvolvimento dos demais setores nacionais, pois sua modernização resultaria no aumento da produção e produtividade que garantiriam o crescimento econômico de uma forma sustentável.
Os militares, assim que tomaram posse do poder político nacional, traçaram novos rumos à economia nacional. A partir de então, um novo projeto nacional passou a ser desenvolvido com a mobilização de capitais nacionais (principalmente do setor primário) e internacionais, por meio de empréstimos realizados (OLIVEIRA, 2010, p. 11). A agricultura passou a ser entendida como um setor essencial ao desenvolvimento nacional em virtude da capacidade de expansão de seus ganhos e de arrecadação de divisas que financiariam os demais setores. Em meados de 1960,
Cabia ao Estado forte engendrar as reformas entendidas como meios primordiais para se implantar uma economia verdadeiramente capitalista e de mercado no país. A pressão do governo em aprovar o Estatuto da Terra partia da análise de que a agricultura era parte fundamental desse processo e, por isso, deveria desenvolver-se em sincronia com os demais setores ativos da economia nacional. Entretanto, para atingir tal expectativa, fazia-se urgente eliminar as barreiras que impediam seu pleno desenvolvimento. (DE SALIS, 2008, p. 109).
Os militares começaram a institucionalizar leis e promulgar decretos de maneira que as barreiras fossem diluídas. O planejamento era criar incentivos que possibilitariam o desenvolvimento econômico, mas de maneira prioritária, o setor agrícola.
1.4.1 O Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG)
Em 1964, tendo por meta reduzir o processo inflacionário e a retomada do crescimento, o governo do marechal Castelo Branco juntamente ao Ministério do Planejamento, sob a responsabilidade de Roberto de Oliveira, trouxe ao conhecimento público o Plano de Ação Econômica do Governo (PAEG) (1964-1966).
O plano, consoante os ideais liberais que nortearam a ação golpista, inicia-se reafirmando o respeito às leis de mercado, mas pregando a necessidade da presença governamental para melhorar a distribuição da renda e da riqueza dentro do mesmo mercado (GONÇALVES NETTO, 1997, p. 127).
Os objetivos apresentados pelo PAEG eram:
x Acelerar o ritmo de desenvolvimento, que fora interrompido nos anos iniciais da década, em virtude do esgotamento do modelo de substituições de importações; a contenção do processo inflacionário;
x Melhorar das condições de vida da população, procurando diminuir as diversas formas de desníveis econômicos e sociais (regionais, setoriais, etc.);
x Corrigir os déficits do balanço de pagamento (BRASIL, 1964, p.15).
O PAEG pode ser considerado o início de uma gestão muito mais comprometida em preparar o terreno legislativo para que as mudanças previstas pudessem ser implantadas. Sua introdução buscava a resolução de cinco problemas: “a ficção da moeda estável na legislação econômica; a desordem tributária; a propensão ao déficit orçamentário; as lacunas do sistema financeiro; os focos de atrito criados pela legislação trabalhista” (SIMONSEN; CAMPOS, 1974, p. 119).
Este programa introduziu uma série de reformas estruturais visando à modernização e adequação dos mecanismos financeiros à situação econômica então vigente, desde o início da década de 1960, na qual se observa os déficits públicos expressivos e uma redução do grau formal do sistema financeiro na economia. Desta vez foram implementadas reformas fundamentais: fiscal, monetária, trabalhista, habitacional, agrária e de comércio exterior (ABREU, 2009, p.51).
A agricultura foi considerada atrasada em relação aos demais setores da economia. Assim, urgia promover mudanças que a tornassem capaz de cumprir com suas obrigações.
x Fornecer matérias-primas ao mercado urbano-industrial;
x Garantir parte substancial das divisas, para o financiamento das crescentes importações necessárias à retomada desenvolvimentista;
x Absorver parte da mão de obra que chegava anualmente ao mercado de trabalho (BRASIL, 1967, p. 95).
A educação era apontada como meio de se atingir as expectativas em relação ao setor primário, principalmente no sentido de facilitar o processo de modernização do campo.
Dentro dessa ordem de ideias, a estratégia para a modernização da agricultura há de repousar fortemente na educação. Educação no seu sentido mais genérico, que significa prover o habitante do quadro rural com um mínimo de escolaridade, elevar- lhe os padrões culturais pela via de extensionismo e transmitir-lhe uma tecnologia nova pela demonstração (BRASIL, 1967, p. 108).
Assim, o PAEG poderia organizar, por meio de suas reformas legislativas, a política econômica nacional possibilitando um melhor desempenho nos anos posteriores.
De Salis (2008), em sua tese de doutorado, apresentou uma importante ideia do que foi o início do governo militar. Se existia um consenso em aceitar a necessidade de desenvolver a agricultura nacional, o método de se promover as mudanças era totalmente divergente. Existiam divergências no interior do aparato militar e entre o que os militares pretendiam e o que a classe política entendia que deveria ser feito.
Analisando o Estatuto da Terra, lei que previa a modernização rural e a Reforma Agrária, De Salis (2008, p. 221) explica que este instrumento se adequava ao Plano de Ação Econômica (PAEG) e, portanto, não se tratava de uma manobra política para acalmar as reivindicações esquerdistas nacionais. No entanto, o reformismo castellista foi mal visto por parte dos integrantes das forças armadas nacionais e pelos civis que apoiaram a instituição do governo militar em 1964.
Essas divergências sobre o método e a implantação de leis capazes de impulsionar o desenvolvimento rural postularam-se como entraves aos planos de desenvolvimento. As mudanças instituídas eram tidas como prejudiciais pelos integrantes mais retrógrados da economia brasileira. Veremos, mais adiante, que essa realidade exigiu, por parte dos governantes militares, pulso firme para que a legislação necessária fosse aprovada.
1.4.2 Programa Estratégico de Desenvolvimento (1968-1970)
Na administração de Costa e Silva, foi lançado o Programa Estratégico de Desenvolvimento (1968-1970). Nesse período, o Ministro do Planejamento era o senhor Hélio Beltrão. Esse programa serviu de diretriz para a elaboração do Plano Trienal e, segundo Gonçalves Neto (1997, p. 129) e Mielitz Neto (2010, p. 53), ele é suficiente para entender a relação entre o novo governo e a agricultura.
O Programa Estratégico de Desenvolvimento, por sua vez, enfatizou a importância do desenvolvimento das pesquisas científicas e tecnológicas. Para a agricultura encontramos dois aspectos importantes em seu texto: “a busca pela elevação da produção e da produtividade agrícola e a ruptura das barreiras do abastecimento” (BRASIL, 1967, p. 17). Para obter um aumento significativo em relação à produção, o governo esperava promover
a revolução tecnológica na Agricultura, cujo papel, no próximo estágio de desenvolvimento, se mede não apenas pela sua contribuição direta ao crescimento do produto mas também pela criação de mercado mais amplo para a produção industrial. A política agrícola terá por objetivo não somente elevar a taxa de crescimento do setor (a níveis da ordem de 5% ao ano) como moderar as flutuações a curto prazo da renda agrícola e o consequente impacto desestabilizador sobre os preços e sobre as taxas de expansão do produto nacional (BRASIL, 1967, p. 40).
A determinação do Governo estava pautada em desenvolver uma agricultura de mercado, com ênfase nos produtos tipo exportação (MIELITZ NETO, 2010, p.53). Para tanto, era postulado o fortalecimento e a especialização do crédito rural.
Depois da morte de Costa e Silva e a posse de Emílio Garrastazu Médici, o Governo lançou o plano de Metas e Bases para a Ação do Governo. A preocupação naquele período era com o progresso e a distribuição de renda, afinal, a economia nacional encontrava-se em pleno “milagre econômico” e a inflação encontrava-se em patamares mais simpáticos.
Para o setor agrícola, sua importância consistia em um capítulo denominado “Revolução na Agricultura e Abastecimento”. Segundo esse texto, o Governo pretendia:
Na década de 70, um movimento renovador, de profundidade, no Setor Agrícola. Isso significará, principalmente, dotar a Agricultura brasileira de um sistema de apoio, financeiro e fiscal, capaz de produzir a transformação tecnológica e o fortalecimento acelerado de uma agricultura de mercado, sensível aos estímulos de preços; realizar a expansão de áreas, principalmente através da ocupação de espaços vazios, no Centro-Oeste (na zona dos Cerrados), no Norte e nos vales úmidos do Nordeste; converter em realidade a Reforma Agrária, nas áreas em que o sistema de propriedade da terra constituir obstáculo ao aumento de produtividade e à melhoria de condições do trabalhador rural; transformar o Brasil em importante exportador de carne e outros produtos agrícolas não tradicionais; efetivar a modernização do sistema de comercialização de produtos agrícolas, notadamente nos grandes centros urbanos (BRASIL, 1970, p. 89).
Interessante é notarmos a presença do termo Reforma Agrária. Ele está presente no texto, mas é bem claro que seria utilizado somente em casos extremos, optando sempre que possível pelo programa de colonização.
1.4.4 I Plano Nacional de Desenvolvimento (1972-1974)
Em 1971, foi lançado o I Plano Nacional de Desenvolvimento (PND). Esse plano tinha como objetivos principais elevar a nação brasileira ao patamar de país desenvolvido, duplicar a renda per capita e expandir a economia com taxas de 8% a 10% anuais.
Previa-se um crescimento agrícola brasileiro de 7% ao ano. Para as regiões eram realizadas provisões separadamente: desenvolver uma agricultura empresarial no Centro-Sul; tornar viável a agricultura nordestina; redistribuir terras no Norte; e, de modo geral, modernizar as estruturas de comercialização e de distribuição produtos agrícolas (GONÇALVES NETO, 1977, p. 133).
Embora admitindo que o processo de desenvolvimento seja acionado pelos setores diretamente produtivos, indústria e agricultura, e que desníveis de crescimento entre os dois possam ocasionar problemas ao processo com um todo, este é o primeiro plano a não apresentar problemas estruturais na agricultura e a não apontar o setor como retardatário. Fala-se em modernizar e dinamizar setores, mas estes não são tratados como gargalos no processo de desenvolvimento (MIELITZ NETO, 2010, p.53).
Outro ponto importante do planejamento foique o termo Reforma Agrária nem sequer foi lembrado. A política agrícola fundamentar-se-ia na seguinte maneira:
x No sistema, já montado, de incentivos discais e financeiros ao aumento da produção, ao investimento, à comercialização e à transformação tecnológica no setor agrícola.
x Na disseminação do uso de insumos modernos, de forma diversificada para o Centro-Sul e Nordeste, atentos os seus efeitos sobre a absorção da mão de obra. x No programa, já em curso, de pesquisa agrícola em grande dimensão, a fim de obter, para os produtos básicos do Centro-Sul e do Nordeste, os resultados alcançados, por exemplo, no caso do trigo (BRASIL, 1971, p. 25).
1.4.5 II Plano Nacional de Desenvolvimento (1975-1979)
Após a posse de Ernesto Geisel, foi elaborado, sob a responsabilidade do ministro João Paulo dos Reis Veloso, o II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND). Dessa vez, os objetivos já eram bem mais modestos: controlar a inflação renascente; resolver o problema do balanço de pagamentos; promover uma política de distribuição de renda; preservar a ordem política e social e realizar o desenvolvimento sem deteriorar o padrão de vida e os recursos naturais (BRASIL, 1974, p. 28-9).
Dentro daquele novo quadro econômico, entendia-se que a agricultura e a pecuária eram fundamentais para que a nação mantenha um alto índice de crescimento, visto que, ambas tinham correspondido satisfatoriamente aos incentivos realizados. Foi retomada também nesse plano a ideia de Brasil como supridor de produtos agrícolas.
Aquele novo papel na estratégia significa, de um lado, contribuição mais significativa à expansão do PIB, com menor preço para o consumidor, maior renda para o agricultor e melhor padrão de vida para o trabalhador.
Significa, de outro lado, efetivar a vocação do Brasil como supridor mundial de alimentos, matérias-primas agrícolas e produtos agrícolas industrializados (BRASIL, 1974, p. 41).
Assim como no I PND, a Reforma Agrária também foi esquecida no planejamento do II PND. Com a manutenção dos incentivos fiscais e financeiros, a agricultura, a agroindústria continuou a ser estimulada na ótica da disseminação da empresa rural.