A motivação para escrever esse subcapítulo originou do meu profundo espanto, mal-estar e sensação de desmaio quando um agente penitenciário convidou-me para ir a sua sala para ver umas fotografias. Sentado em uma cadeira, ele ligou o microcomputador, e sorrindo indagou-me: — Você tem medo? Eu respondi: — Depende. Em seguida, fez outra pergunta: — Você está vendo aquele rapazinho ali fazendo café? — Sim! Então agora você vai ver o que ele é capaz de fazer.
Recordo-me de ter visualizado umas 10 fotos83 de dentro da sala do setor de prontuários. Embora alguns reeducandos comentassem comigo que durante o tempo em que estavam reclusos, presenciaram alguns presos chutando a cabeça do traidor durante uma partida de futebol; ou cortando-a com uma serra para depois colocarem-na em cima de um banquinho de madeira, por exemplo; não me deixou tão apreensiva e tensa quanto ao fato de visualizar aquelas fotografias.
Deixo claro que não pretendo causar no leitor qualquer sensação de desconforto ou beirar o sensacionalismo, pois ter acesso a esse tipo de material implicaria em uma série de procedimentos éticos e burocráticos que fugiriam ao escopo do meu objetivo na época. Logo, o que descrevo foi fruto do que minha memória filtrou e absorveu daquelas imagens.
Naquelas fotografias pude ver três policiais militares e cães no fundo de uma quadra de futebol. Havia três corpos decapitados, incinerados e estendidos no chão ensangüentado. Dois deles com as cabeças colocadas em cima de tambores queimados. Cabos de vassouras enfiados dentro dos ânus. Balões de feliz aniversário amarrados nos punhos e troféus entre os dedos das mãos. A primeira cabeça tinha os olhos perfurados, sendo que no olho direito uma rosa feita de papel crepom
servia de adorno; no esquerdo uma baga de cigarro. Boca entreaberta com a língua dilacerada. No outro tambor uma cabeça escalpada. O terceiro corpo não tinha a cabeça decepada, porém havia inúmeras escoriações espalhadas por todo o dorso e abdômen.
Vi essas imagens de vários ângulos e perspectivas à medida que o agente penitenciário teclava enter. Apesar de trêmula quis vê-las, atentamente. Ao termino da exibição esse agente fez sua última pergunta: — Agora, você entende o que eu estou dizendo? Não disse nada. Afinal, o que deveria responder a ele? Creio que eu não seria a única a ficar impressionada e extasiada com aquelas imagens.
De pronto fiz os seguintes questionamentos: por que nas rebeliões que os traidores eram mortos? Qual significado de se esfacelar os crânios, de torturar, queimar, decorar e condecorar os corpos com diversos objetos (bexigas, enfeites artesanais, etc.)? Qual o sentido de exibir os corpos e as cabeças dos traidores nos pátios para que outros presos e atores sociais (polícia, jornalistas, agentes penitenciários, etc.) presenciem tais cenas dramáticas? Por que o inimigo foi completamente destruído? Quais motivos de tantas escoriações nos corpos? De incinerarem os corpos mesmo depois de já o terem mutilado (cortar a língua, furar os olhos, etc.)? Quais seriam as conexões existentes entre essas mortes e o PCC? Que sentido lógico perpassaria a essas mortes e quem se beneficiaria com elas? Quem consumiria os corpos mutilados, escoriados e decapitados? Seria um banquete para alimentar quem e como?
O antropólogo Carlos Fausto (2002) em seu artigo – Banquete de Gente – levantou a seguinte questão: como diferenciar entre “comer como e com alguém” e a noção difundida de que “comer alguém”, pois essa última desencadearia um processo de transformação. De acordo com esse antropólogo tratava-se de uma resposta simples, pois “é preciso separar cuidadosamente as duas operações”. Ou seja, comer e dar de comer para gerar o parentesco é diferente do comer para identificar-se ao outro ingerido, pois a caça tem que ser produzida como comida, já que ela não é
“naturalmente” um objeto. Em outras palavras, é preciso reduzir um animal sujeito à condição de objeto-inerte, é preciso “desagentivá-lo” (p. 16).
Recordo-me que uma das fotografias registrava uma frase que fora escrita na lousa com giz branco: “Foi feito o pedido deles. Trair o PCC é cabeça na bandeja”. De posse dessas imagens somadas às observações realizadas em campo, situei essas mortes na segunda operação apresentada por Fausto, ou seja, de que o modo como os traidores foram mortos e, posteriormente, queimados, refletiriam a necessidade de torná-los próprios para o consumo.
E como isso seria feito? Ora, só se tornaria possível mediante as marcas nos corpos e imputando-lhes dor, sublinhando o pertencimento a uma categoria de pessoas tida como “inimigos”. Como se tratavam de legítimos traidores não haveria razões de poupá-los da morte, e sim de transformá-los em um corpo-objeto. Novamente, podemos ver que é pelo corpo que o PCC reconhece a inserção de uma pessoa como membro filiado, como irmão ou primo, por exemplo. Daí a importância fundamental dada aos processos corporais, como nesse caso aqui, da imolação.
O banquete do PCC condensou dois tipos de vítimas. A primeira, a vítima maldita – representada por aquele preso que mente, trai ou não se enquadra nos padrões exigidos pela disciplina do PCC, ou seja, pertencem a oposição. Tratava-se do corpo de um traidor – vestido na pele do inimigo –, que infringiu ou não se enquadrou na ordem moral e nos códigos de conduta. Corpo que envergonhou e desonrou o Partido, logo, deveria ser eliminado violentamente do convívio. Daí resultou o corpo mutilado, escoriado, a cabeça decepada e as vísceras arrancadas. Foram completamente destruídos pela incineração.
Contudo, equivocada estaria se pensasse que o corpo imolado não possuiu sentido utilitário. Com os produtos desses corpos se fabricam pessoas. Com o odor do sangue, da carne queimada, do cheiro dos corpos nus amontoados no pátio, dotados de agência transformativa, tivemos o fortalecimento dos preceitos disciplinares do PCC.
O segundo tipo de vítima englobou todos que ali estiveram, ou seja, mais de mil homens em processo de luta e sofrimento com a finalidade de pôr fim às opressões e aos maus-tratos aos irmãos do PCC. Temática que retomo no subcapítulo 3.2. – Castigos, Sofrimento e Justiça de Deus.
Em resumo, vimos neste capítulo que o sofrimento desindividualizou os presos, pois movimentou toda a população aos confins da “liminaridade”. Este estado produziu a crença que só por meio do sacrifício se libertariam do inferno e alcançariam à paz. As marcas, as cicatrizes, os machucados, os cortes e os ferimentos conferidos ao corpo, e que foram obtidos porventura durante o corre-corre no pátio, no percorrer as galerias ou na transposição do corredor polonês foram vistos pelos presos como inerentes ao espírito de luta, coragem e solidariedade. Enfim, o corpo foi sede e morada do sofrimento.
Após a destruição completa ou parcial dos presídios Estado de São Paulo, a paz foi negociada entre o suposto líder do PCC – o Marcola –, e os membros representantes da esfera estatal. Mas, conforme pude aferir pelos dados de campo não tardaria para que os policiais devolvessem com a mesma moeda, ou seja, os presos seriam castigados, enquadrados, enfim repreendidos. Temática que abordo no próximo capítulo.
Capítulo 3
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