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3. YÖNTEM

3.3. Verilerin Analizi

no 5

o

Congresso Nacional do MST

Helena Martins1

Introdução

A

s dinâmicas da comunicação, hoje, potencializam uma nova organização das relações sociais no mundo globalizado. Distintos as- pectos da vida, das configurações identitárias às relações produtivas, passam por mutações; as regras do poder confundem-se cada vez mais com o controle da informação; questões ligadas à visibilidade e à re- presentação ganham destaque em meio às disputas políticas. Tendo em vista esse cenário, neste artigo, parte da dissertação de mestrado na qual analisamos as estratégias de comunicação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), indagamos como as interven- ções dos movimentos sociais são potencializadas, quando realizadas também nas esferas da cultura e, em particular, da comunicação.

1 Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UnB. Mestra em

Comunicação Social pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFC. É jornalista vinculada à Empresa Brasil de Comunicação. E-mail: [email protected].

O estudo deste caso, selecionado por conta da relevância do mo- vimento, da diversidade de produtos comunicativos desenvolvidos e do enfrentamento à criminalização empreendida pela mídia hegemônica, possibilita o confronto de uma experiência concreta à hipótese de que a cultura e a comunicação, mais que instrumentos ou meios, tornaram-se espaços de disputa estratégicos para a concretização de um projeto de transformação social. O MST é exemplar também por ser uma das maiores organizações políticas brasileiras, a qual desperta tanto o apoio quanto a crítica de setores que podem interpretá-la como vitoriosa, vio- lenta, importante, perigosa etc. Diante das significações construídas sobre o movimento, muitas têm sido as formas perseguidas para se afirmar uma identidade e até a necessidade da sua existência, a começar pelas ações que se tornaram características, a exemplo das ocupações, até a produção de meios de comunicação próprios dos Sem Terra,2 como jornal, site,

revista, programas de rádio, vídeos, ações propagandísticas etc.

As experiências realizadas pelos demais movimentos sociais, de modo geral, se comparadas às construídas pelo Movimento Sem Terra, podem ser consideradas pontuais e reativas, o que confere a este estudo certa peculiaridade. Diante deste cenário, à luz de entrevistas e docu- mentos publicados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, analisamos as estratégias de comunicação desenvolvidas em um mo- mento específico: o 5o

Congresso Nacional do MST, ocorrido em 2007. Tal recorte permite-nos questionar: 1. Como as ações no campo da co- municação inscrevem-se nas disputas políticas por hegemonia; 2. Quais os objetivos das estratégias de comunicação adotadas; 3. Como se dá a produção dos materiais; 4. Se as mudanças no âmbito das tecnologias re- percutem na produção de comunicação e nos modos de atuação do MST. Para tanto, analisamos parcela da produção comunicativa relacio- nada ao Congresso, cuja elaboração deu-se entre janeiro e junho de 2007, com a veiculação pelo site mst.org.br, pelo Jornal Sem Terra (JST) e pela

Revista Sem Terra (RST). Tal corpus comporta: 53 notícias e três entre-

vistas veiculadas no site, seis edições do JST e quatro da RST. Partindo do entendimento de que o jornalismo não é um reflexo objetivo da rea-

2 A expressão “Sem Terra” faz referência aos/às integrantes do Movimento dos

COMUNICAÇÃO DA TERRA: vivências e práticas comunicacionais do MST no Brasil 51

lidade, para investigar o material, formulamos um questionário que nos possibilitou estabelecer o confronto entre as matérias publicadas, nossos questionamentos e as problemáticas advindas das perspectivas teóricas que fundamentam este trabalho. Utilizando a metodologia da análise de conteúdo, mapeamos as produções e, em seguida, questionamos: o tema da matéria; a presença do MST no título das mesmas; o que é defendido prioritariamente; o que é denunciado; quais fontes são ouvidas; se há a citação de pesquisas ou dados estatísticos; se o ângulo adotado é de con- flito ou solução; e qual a autoria dos textos. Assim, discutimos as estra- tégias da comunicação do 5o

Congresso do MST e as possibilidades de construção de visões de mundo contra-hegemônicas a partir dessas ações.

Realizado a cada cinco anos, o Congresso Nacional é considerado a instância deliberativa máxima do movimento (MST, Caderno de Formação N. 30, 1998, p. 41). Nele, são compartilhadas análises de conjuntura; apro- vadas resoluções sobre estratégia; escolhidas as bandeiras de luta e a pa- lavra de ordem que norteará as ações do período seguinte. Em geral, a preparação desse momento tem início dois anos antes, quando são fomen- tadas, na “base”, discussões sobre os temas do encontro. Ocorrido entre os dias 11 e 15 de junho de 2007, em Brasília, o último Congresso teve como lema “Reforma Agrária: por Justiça Social e Soberania Popular”. Dele participaram cerca de 18 mil pessoas, dentre as quais representantes de 24 estados, além de 181 integrantes de delegações internacionais vindas de 31 países e que ali manifestaram apoio à luta por Reforma Agrária.

Do ponto de vista simbólico, o encontro tem a função de afirmar uma cultura própria, por isso existem as místicas que resgatam a his- tória coletiva dos participantes, os espaços para violeiros, a troca de produtos regionais. Todos esses elementos contribuem para fortalecer o cimento ideológico que unifica a pluralidade de sujeitos em torno do MST. Por outro lado, há um inegável aspecto midiático. O dia a dia dos dirigentes, a montagem da cena e os elementos escolhidos para sua composição são expressões da negociação operada entre a gramática das mídias e o fazer político da sociedade contemporânea.3

3 Na dissertação intitulada “Comunicação e contra-hegemonia: a produção comunicativa

como estratégia política do MST”, essas dinâmicas são detalhadamente estudadas. O trabalho está disponível em: <http://www.teses.ufc.br/tde_busca/arquivo.php?codArquivo=8230>.

Neste trabalho, a análise de ações inscritas no entrecruzamento entre cultura e política, no bojo de uma ação que pretende ser trans- formadora, é problematizada teoricamente a partir das formulações de Antonio Gramsci (1978, 2002). Segundo ele, a hegemonia de um grupo político dá-se pela combinação entre coerção e consenso, para o qual contribuem os aparelhos privados de hegemonia, como escolas, igrejas, partidos e meios de comunicação, visto que auxiliam na difusão de va- lores e visões de mundo. Para tanto, também é necessária a formação de um bloco histórico fruto da produção de alianças de classes e frações de classes e que seja capaz de dirigir a sociedade. Em diálogo com tal ponto de vista, questionamos as inter-relações entre política, cultura e comunicação, entendendo as práticas comunicativas como integrantes das relações sociais mais amplas, leitura que é fruto da apropriação que ora fazemos do conceito de hegemonia.

Como categoria dinâmica, a ideia e o próprio regime da hege- monia comportam os dissensos, as contradições, a construção do que o teórico britânico Raymond Williams (1979) entende como contra-hege- monia. Tal perspectiva apresenta as possibilidades de a luta ideológica estar alinhada a um projeto antagônico de classe em relação ao projeto da burguesia. Mais que expressar uma crítica, portanto, a contra-hege- monia coloca-se na esteira de um processo de contraposição e supe- ração da atual organização social. A partir dessa ideia, questionamos se a prática do Movimento Sem Terra, especificamente no que tange às es- tratégias de comunicação, conforma-se como contra-hegemônica, apre- sentando ou não a possibilidade de ruptura com a sociedade do capital.

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