Pautado na ‘natureza da vida’, Santo Agostinho questiona o que seria o mundo no qual a criatura é introduzida através do nascimento que a determina originariamente. Segundo Arendt, esta questão em Santo Agostinho parte da determinação do ser conduzida a partir da concepção grega113, ou seja, daquilo que é sempre, que tem permanência.114 O universo da totalidade ordenadora não é a origem do homem, mas
109 AGOSTINHO, Santo. De civitate Dei XI, VI, apud ARENDT, Hannah. O Conceito de Amor em... op.
cit., p. 73, nota 32. Si enim discernitur aeternitas et tempus, quod tempus sine aliqua mobili mutabilitate
non est, in aeternitate autem nulla mutatio est: quis non videat quod tempora non fuissent, nisi creatura firet, quae aliquid aliqua motione mutaret, cuius motionis et mutationis cum aliud atque aliud, quae simul esse non possunt; cedit ataque succedit, in brevioribus vel productioribus morarum intervallis tempus sequeretur?
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ARENDT, Hannah. O Conceito de Amor em... op. cit. p. 74. 111 Ibidem. p.74.
112 ARENDT, Hannah. O Conceito de Amor em... op. cit., p. 74.
113 “Na tradição grega, o ser é o cosmos na sua totalidade, permanece idêntico a ele mesmo independentemente da variabilidade das suas partes.113” Enquanto o universo é simultaneidade (simul) as suas partes nascem e desaparecem, são descontínuas e sucedem-se, de forma que ditas partes não têm condições de abranger e nem de apoderar-se do conjunto simultâneo, de forma que é “a partir desse caráter inapreensível do simul que se compreende a temporalidade específica da parte.113” O tempo existe porque a parte é uma sucessão. O tempo é sucessão daquilo que é, ou seja, simultaneidade113. Sendo esta a eternidade que estrutura o universo para os gregos. Nascendo e morrendo, cada parte, realiza-se no universo através do tempo, de forma que a vida pode ser cortada em partes, o que possibilita o caráter irreversível e único de cada acontecimento. O universo é que confere constituição às partes e estas só têm
sentido por sua incorporação no todo. O universo, este ser que “[...] não é nem a soma das coisas
singulares, não é nem a potência criadora que, a partir do fora, assim fará as criaturas, mas sim a substância eterna [...] a harmonia das partes.113” Ele é o que abrange, ele é o presente eterno que “[...] contém de uma vez só o caráter temporal e perecível das partes.113”
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28 sua ordem superior; é uma estrutura eterna regida segundo leis que são impressas em cada indivíduo como parte.115“A parte só existe para a beleza (pulcbritudo) do universo e nunca para ela mesma. O si, enquanto coisa singular, está simultaneamente encerrado e perdido na simultaneidade (simul) do universo, permanecendo eternamente idêntico a si próprio.”116 Ao ates (ante), no sentido do Criador, Santo Agostinho dá orientação claramente diferente da perspectiva grega à problemática do conceito de mundo (mundus) e à relação retrospectiva que permite compreendê-la.117 A este respeito diz ele que:
Ora, da mesma maneira que a semente era invisivelmente e simultaneamente tudo o que se desenvolvia na árvore, também se deve pensar que o mundo, quando Deus criou simultaneamente todas as coisas, abrangia simultaneamente tudo o que foi feito nele e com ele [...]118 Por conseguinte, tu não podes ver o todo apenas por um só olhar. E quando tu te voltas para ver, vês as partes.119 Se a beleza desta ordem não se torna atraente para nós, é porque, inseridos no mundo como partes porcausa da nossa condição mortal, não podemos apreender o conjunto ao qual os detalhes que nos ofendem se ajustaram, todavia, com toda a conveniência e harmonia queridas.120 É pois o comparar esta (a eternidade sempre imóvel) à perpétua mobilidade dos tempos que ela verá que é aí incomparável; que a duração, por mais longa que seja, só é longa pela sucessão de quantidade de movimentos que não podem desenvolver-se simultaneamente, enquanto que na eternidade não há de todo sucessão; está tudo presente ao mesmo tempo, o que não pode ser o caso do tempo; ela verá que todo o passado é apanhado pelo futuro, que todo o futuro segue o passado, que todo o passado e o futuro têm o ser e provêm do eterno presente.121
115 O mau seria aquilo o que ao se retirar desta harmonia predeterminada desobedece a lei eterna impressa em cada homem.
116 ARENDT, Hannah. O Conceito de Amor em... op. cit., p. 77. 117
Ibidem. p.75-78.
118 AGOSTINHO, Santo. De Genesi ad Litteram V, 45, apud ARENDT, Hannah. O Conceito de Amor
em... op. cit., p. 76, nota 40. Sicut autem in ipso grano invisibiliter erant omnia simul, quer per tempora in arborem surgent: ita ipsemundus cogitandus est, cum Deus ominia creavit, habuisse simul omnia, quae in illo cum illo fa ta sunt [...]
119AGOSTINHO, Santo. Sermones CXVII, apud ARENDT, Hannah. O Conceito de Amor em... op. cit., p. 76, nota 41. Uno ergo aspectu Tatum videre non potes. Et quandium versas ut videas partes dides. 120 AGOSTINHO, Santo. De Civitante Dei XII, IV. Apud ARENDT, Hannah. O Conceito de Amor em...
op. cit., p. 76, nota 41. Cuius ordinis decus nos propterea non delectat, quoniam parti eius pro conditione nostrae mortalitatis intexti universum, cui particulae, quae nos offendunt, satis apte decenterque conveniunt, sentire non possumus.
121 AGOSTINHO, Santo. Confessiones XI, 13, apud ARENDT, Hannah. O Conceito de Amor em... op.
cit., p. 77, nota 43. Et videat longum tempus, nisi ex multis praetereuntibus motibus, qui simul extendi nom possunt, longum non fieri; nona utem praeterire quidquam in aeterno, sed totum esse praesens; nullum vero tempus Tatum esse praesens: et videat omne praterium propelli ex futuro, et omne futurum ex praeterito consequi; et omne prateritum ae futurum ab eo quod semper est praesens, creari et execurrere.
29 Tudo o que se realiza no mundo é em parte obra divina e em parte humana. “Nós somos por nossa vontade parte que se apodera daquilo que advém ao mundo.”122 O mundo é o lugar daquilo que advém, os homens, e fora dele está o que faz advir, ou seja, Deus. Mas o mundo também é constituído pelos homens. Para Agostinho, o mundo são todos aqueles que o amam (dilectores mundi). O conceito de mundo é duplo, sendo por um lado criação de Deus (o Céu e a Terra) e por outro o mundo humano (pelo habitar e pelo amar (diligere)).123 No mundo humano “o homem faz o mundo e faz-se a si mesmo pertencendo ao mundo.” Os pecadores (todos os homens) são chamados mundanos porque amam o mundo e habitam-no. Diz Arendt que:
O que advém pela nossa vontade é conduzido pelo amor do mundo (dilectio mundi) [mundo dos homens], pelo que o mundo, a fabrica
Dei [mundo a partir da criação de Deus], torna-se a pátria totalmente
natural do homem. A própria vida que se instala naquilo que é dado pela criação onde toma lugar nascendo faz da criação o mundo por este meio. Tornar o mundo mundano, amar o mundo, funda-se no facto de ser do mundo (de mundo).124
Nesta concepção de mundo a criatura é considerada na sua mortalidade concreta, que seria o que Arendt chama de vida no mundo e com o mundo, onde o homem participa de sua constituição . Nesta vida há sim um princípio e um fim. Aí, efêmero é o humano, pois perde tanto o mundo em que foi introduzido quanto aquilo que construiu. Diz Arendt:
Porquanto, mesmo se a criatura constituiu o mundo, constituiu-o sempre fundando-se na fabrica dei, no mundo tal qual como ela o encontra já aí, criado, e somente daí resulta a possibilidade de constituir uma vez mais o mundo num sentido explícito. Na morte deixa-se a fabrica dei tanto como o mundo.125
122 ARENDT, Hannah. O Conceito de Amor em... op. cit., p. 78.
123 M. Heidegger em L’être-essentiel d’un fondement ou ‘raison’ – Questions I (Wom Wesen des
Grundes, trad. Gallimard-Tel, 1968, p. 116) E. Husserl, Festschrift, p. 86-87, Halle, 1929 – esboçando a
história do conceito de mundo faz alusão a Santo Agostinho. Heidegger também distingue em Agostinho dois significados de mundo: o mundo e o ente criado (ens creatum), o que abrange a obra de Deus, portanto o Céu e a Terra, e de outro lado o mundo compreendido como dilectores mundi. De forma que Heidegger só interprete este último significado como sendo: “o ‘mundo’ significa, pois, o ser-aí humano no seu conjunto, e este como a qualificação decisiva com a qual ele (Dasein) se põe e se mantém diante do ser-aí humano.” Arendt já interpreta o caráter duplo de mundo em Agostinho não só esclarecendo a respeito do mundus como habitare corde in mundo.
124 ARENDT, Hannah. O Conceito de Amor em... op. cit., p. 80. 125
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