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Já pode ser considerado "lugar comum" apontar para uma crise do setor pesqueiro nacional. Pequenos produtores mobilizam-se por crédito, formas de comercialização mais adequadas aos seus interesses e questionam sobremaneira a queda brusca nas capturas de pescado. Grandes armadores alardeiam a crise em que se encontram e a incapacidade de renovação de suas frotas. A indústria equilibra-se como pode em seus custos operacionais. Como indícios de uma crise serão apontados elementos da atividade pesqueira considerados relevantes para bem caracterizá-la. Aqui cabe uma observação já consagrada, a de que é na crise que existe a possibilidade de geração do novo, uma vez que esta comporta os elementos de sua própria superação. Estas podem ser palavras de consolo, uma vez que na trajetória do setor pesqueiro as crises serviram para a perpetuação e reprodução da situação de exploração dos trabalhadores da pesca e dos recursos naturais. Esta teria algo de diverso?

2.1.1.PRODUÇÃO E SOBREPESCA

Se através do aspecto produtivo pode-se caracterizar a crise de um setor, no caso da atividade pesqueira ela é bem clara. A queda da produção foi da ordem de 23 % entre fins dos anos 80 e meados dos anos 90, passando da faixa de 900.000 toneladas para 700.000 tomando por base as estatísticas da pesca divulgadas pelo IBAMA em 1997.13

Aliada a queda de produção observa-se uma queda de produtividade das principais pescarias, que via de regra aumentam o esforço de pesca sem correspondência nas capturas.

Temos acumulado saldos deficitários na balança comercial de pescado nos anos de 1990 (saldo negativo de U$ 136.350.000 ) , 1991 ( - U$ 97.843.000 ) , 1992 ( - U$

13 Até fins dos anos 80 as Estatísticas da Pesca eram anualmente divulgadas pelo IBGE. Apesar da

periodicidade estas eram criticadas em virtude do campo de amostragem e do critério de diferenciação entre pesca artesanal e industrial. Com a passagem desta atribuição para o IBAMA, o setor permaneceu cerca de meia década sem informações oficiais, supridas com as estatísticas divulgadas a partir de 1995 realizadas pelo

26.167.000 ), 1993 ( - U$ 104.644.000 ) e 1994 ( - U$ 121,901.000 ) (DIAS NETO, 1996 ). Observa-se ainda uma situação precária de produtores, frotas e industrias.14

Se, por um lado, a pesca extrativa tem apresentado queda em seu desempenho, por outro, a aqüicultura tem apontado com boas perspectivas para o setor. Sua participação na produção de pescado cresceu de 2,5% para 12% entre 1990 e 1997 (DPA, 1999) revelando um campo potencial para incremento da produção, ainda que seja muito baixa a utilização atual dos recursos da aqüicultura. Esta atividade é de especial interesse para a pesquisa em Geografia, pois traz novas problemáticas, tais como a da territorialização da produção aquícola e a questão da apropriação privada de recursos e ambientes naturais de uso comum.

A queda de produção e produtividade na pesca extrativa é acompanhada do aumento na pressão sobre os estoques pesqueiros, gerando situações de sobrepesca e mesmo colapso nas pescarias.

PAIVA (s.d.) em trabalho componente do Programa REVIZEE - Recursos Vivos da Zona Econômica Exclusiva, realiza um Levantamento do Estado da Arte da Pesquisa dos Recursos Vivos Marinhos do Brasil, apresentando, em suas Conclusões Gerais e Recomendações, uma súmula da situação dos estoques pesqueiros explorados pela indústria no Brasil, agrupando os recursos pesqueiros em 25 categorias e apresentando sua situação atual: 1 recurso em colapso de pesca; 13 em sobrepesca; 2 em declínio; 5 em equilíbrio; 1 em situação limitada; e 3 em situação incerta (Figura 7).

14 No Rio Grande, já em 1981, antes porém da abertura maciça das importações, 11 industrias pesqueiras

sediadas neste município, apresentavam sérias dificuldades de liquidez financeira e níveis baixíssimos, quando não irrisórios, de rentabilidade ( Branco Jr., 1981).

FIGURA 7 - SÚMULA DAS SITUAÇÕES DOS ESTOQUES EXPLOTADOS PELAS PESCAS INDUSTRIAIS AO LONGO/LARGO DA COSTA DO BRASIL Segundo PAIVA (s.d.)

2.1.2.FIM DO PEIXE OU DO PESCADOR ?

Uma outra perspectiva para a análise da crise do setor pesqueiro corresponde às possibilidades de reprodução do pescador. Ameaçado por vários processos em sua reprodução física, social e econômica, entre eles a queda de produtividade do trabalho, a cadeia de intermediação do pescado, os usos conflitivos do espaço litorâneo e ribeirinho, é comum afirmativas oriundas de pescadores refletindo situações onde, antes do peixe, o que irá acabar é o próprio pescador.

Ainda que tais afirmativas possam refletir reminiscências de outros tempos: tempo "dos antigos", "da fartura", tempos que guardam por vezes um forte componente mítico, o fato é que em algumas áreas do litoral o pescador é um sujeito social em processo de redefinição de sua atuação, frente aos usos novos que se impõem aos seus espaços de morada, vida e trabalho. Em trabalhos anteriores foi apontado o surgimento de categorias de pescadores relativamente novas, como o pescador-caseiro ou o pescador-marinheiro-de- embarcações-de-recreio, em especial no Litoral Norte de São Paulo (CARDOSO, 1996).

Dialeticamente, outras áreas continuam a fornecer braços e pernas para as pescarias, em função de uma baixa oferta de trabalho em outros setores, transferindo para o trabalho na pesca uma força de trabalho que não encontra em terra opções para sua reprodução. A entrada na pesca passa a ser a única opção de um contingente significativo de trabalhadores, por exemplo, em áreas urbanas, onde a propriedade privada não fechou o acesso a mangues, costeiras e canais de maré, fornecedores de alimento e renda. 15

Falar, neste contexto, em fim de pesca ou do pescador é negar a concretude do setor, mesmo com suas recorrentes crises, e dos sujeitos sociais envolvidos, agentes produtores de renda, alimento e emprego dentro de uma sociedade nacional e mesmo global. Negar o setor pesqueiro é ignorar uma parcela da sociedade brasileira, e por vezes a Geografia assim o tem feito16. Não obstante, os geógrafos tem a possibilidade de resgatar esta dívida.

15 Estimativas oficiais apontam para um total de 800.000 empregos diretos gerados pelo setor pesqueiro,

envolvendo cerca de 4.000.000 de pessoas que direta ou indiretamente dependem do setor, o que corresponde a algo em torno de 2 a 3% da população brasileira (DIAS NETO, 1996).

16 Em 1992 por ocasião do IX Encontro Nacional de Geógrafos, este autor contestava a ausência de uma

analise do setor pesqueiro em livros didáticos renomados, inclusive sob o rótulo de Geografia Crítica, na comunicação livre intitulada " E o mar na Escola ? "

Benzer Belgeler