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Verilerin Çözümlenmesi ve Yorumlanması

3. YÖNTEM

3.4 Verilerin Çözümlenmesi ve Yorumlanması

Os trabalhadores entrevistados, após terem sido devidamente orientados quanto aos objetivos do estudo e que concordando em participar, assinaram o Termo de Consentimento Livre Esclarecido, conforme Resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde/ Ministério da Saúde (ANEXO). No caso de menores de 18 anos, os pais ou responsáveis assinaram a autorização.

5. RESULTADOS

A população estudada contempla 87 produtores rurais das lavouras cafeeiras localizados na zona rural de Cacoal, região agrícola do Estado de Rondônia. A análise dos dados deu-se de forma exploratória, tendo em vista avaliar a dinâmica da utilização de agrotóxicos pelos trabalhadores rurais em lavouras cafeeiras daquele município. Foram considerados os indicadores sócio-demográficos (sexo, idade, nível de instrução, relação de trabalho, ocupação), a estrutura agrária das propriedades (área em hectares, agrotóxicos utilizados), as práticas de trabalho relacionadas aos usos de agrotóxicos (tempo de exposição, tipo de contato, orientação de uso, emprego do receituário agronômico. (SOARES, 2003).

Os resultados da análise descritiva são apresentados na Tabela 1. Nela é feito um levantamento do perfil dos entrevistados focalizando o sexo, a faixa etária, a escolaridade, a relação com a terra e o tempo de trabalho com agrotóxicos. Dos 87 (oitenta e sete) trabalhadores entrevistados, 63 (72,4%) são proprietários dos estabelecimentos rurais, 8 (9,2%) parceiros / arrendatários, 13 (14,9%) meeiros, 2 (2,3%) trabalhadores fixos assalariados e, 1 (1,2%) empreiteiro de serviços. Observa-se que o principal tipo de relação com a terra é o de "proprietário". Por se tratar de uma região de colonização recente, ainda predomina a pequena propriedade fundada essencialmente na mão de obra familiar.

Os homens constituem 97,7% (85) do total do universo pesquisado, o que se traduz, logicamente, na predominância da mão-de-obra masculina na lavoura e, conseqüentemente, na aplicação de agrotóxico nos cafezais. A maioria das pessoas tem entre 31 e 45 anos (41,4%), sendo que apenas 16,1% está acima dos 60 anos. Desta maneira, a média de idade do

universo pesquisado é de 44,08 anos (desvio padrão DP = 13,73). Portanto, os dados apontam para uma população rural eminentemente masculina, condizente com a média nacional dos trabalhadores rurais, e relativamente jovem, o que, em tese, permitiria trabalhar com a hipótese de uma possível estagnação daquele que foi definido como o êxodo rural da população jovem.

Tabela 4: Distribuição dos trabalhadores em lavouras cafeeiras no município de Cacoal-RO, segundo o gênero, faixa etária, escolaridade, situação na lavoura e tempo de trabalho com

agrotóxicos (2006). n %

Agricultores entrevistados

87 100,0 Homens 85 97,7 Mulheres 2 2,3

Faixa Etária

15 – 30 anos 15 17,2 31 – 45 anos 36 41,4 41 – 60 anos 22 25,3 61 – 75 anos 14 16,1

Escolaridade

Analfabeto 11 12,6 Realiza Leitura 8 9,2 1º a 4ª série incompleto 17 19,5 1º a 4ª série completo 32 36,8 5ª a 8ª série incompleto 6 6,9 5ª a 8ª série completo 7 8,1

Ensino Médio incompleto 2 2,3

Ensino Médio completo 3 3,5

Superior completo 1 1,1

Situação na lavoura

Proprietário 63 72,4 Parceiro/Arrendatário 8 9,2 Meeiro 13 15,0 Empregado fixo/Agregado 2 2,3 Empreiteiro de serviços 1 1,1

Tempo de trabalho com agrotóxicos

0 – 10 anos 34 39,1 11 – 20 anos 28 32,2 21 – 30 anos 19 21,9 31 – 40 anos 1 1,1 41 – 50 anos 1 1,1 Não respondeu 4 4,6 Total 87 100,0

Reveladores são os dados referentes ao grau de instrução, uma vez que, em tese, contribuem para regular e iluminar as relações de trabalho e, dentre elas, o manejo de produtos considerados prejudiciais à saúde como é o caso dos agrotóxicos. Constata-se, assim, que 21,8% dos entrevistados são analfabetos ou apenas sabem ler, 56,3% têm até no máximo a 4ª série e somente 6,9% possuem o ensino médio ou superior. Proporcionalmente, os empreiteiros de serviços, meeiros e empregados fixos / agregados possuem níveis de escolaridade ainda mais baixos. Talvez este último dado possa ser explicado a partir da mobilidade espacial e social destas categorias. Conclui-se, então, que mais de 78% dos trabalhadores pesquisados detêm um grau de escolaridade considerado inapropriado para qualquer padrão de sociedade minimamente democrática.

A associação entre o número de trabalhadores envolvidos no uso e aplicação de agrotóxico (96,5% do total) e o grau de escolaridade (média de pouco mais de três anos) aponta para um descompasso entre a chamada “modernização” e as relações de trabalho a que ainda são relegados ou submetidos amplos setores da população. Desta forma, o grau de escolaridade é revelador da pertença a determinadas classes sociais e, ao mesmo tempo, um indicador das reais possibilidades de emancipação.

No que se refere ao tempo de trabalho com agrotóxico 39,1 % trabalharam até 10 anos e 56,3 % dos trabalhadores mais de dez anos, percebesse que a prática da utilização de agrotóxico nas lavouras

cafeeiras é bem maior que a média de anos de escolaridade. Conclui-se que a importância ao trabalho e muito maior e mais relevante que o grau de escolaridade.

Tabela 5: Distribuição dos trabalhadores em lavouras cafeeiras no município de Cacoal-RO, segundo a faixa etária e a escolaridade (2006).

Variáveis Proprietário Parceiro/ Arrendatário Meeiro Empregado fixo/agregado Empreiteiro de serviços total

Faixa Etária (anos)

(p=0,64) % % % % % % 15 -30 11.1 62.5 23.1 0.0 0.0 17.2 31 - 45 42.9 25.0 38.5 50.0 100.0 41.4 46 - 60 27.0 0.0 30.8 50.0 0.0 25.3 61 - 75 19.0 12.5 7.7 0.0 0.0 16.1 Escolaridade (p=0,43) Analfabeto 9.5 12.5 23.1 0.0 100.0 12.6 Realiza Leitura 9.5 12.5 7.7 0.0 0.0 9.2 1º a 4ª série incompleto 23.8 12.5 0.0 50.0 0.0 19.5 1º a 4ª série completo 33.3 25.0 61.5 50.0 0.0 36.8 5ª a 8ª série incompleto 7.9 12.5 0.0 0.0 0.0 6.9 5ª a 8ª série completo 7.9 12.5 7.7 0.0 0.0 8.0

Ensino Médio incompleto 1.6 12.5 0.0 0.0 0.0 2.3

Ensino Médio completo 4.8 0.0 0.0 0.0 0.0 3.4

Superior completo 1.6 0.0 0.0 0.0 0.0 1.1

Os dados contidos na Tabela 4 traçam o perfil dos sujeitos da pesquisa na ótica das relações com a terra e, conseqüentemente, das relações de trabalho. Assim, 72,4% do total são proprietários do estabelecimento rural, 9,2% são parceiros ou arrendatários, 14,9% são meeiros, 2,3% são trabalhadores fixos assalariados e 1,2% são empreiteiros de serviços. Como apontado acima, a condição de "proprietário" é predominante e se explica com base no modelo de ocupação regional cujo processo foi implantado e regulado pelo Estado (INCRA) através dos projetos de colonização. Desta maneira, o uso de agrotóxicos aparece como uma deliberação pessoal e individual uma vez que a maioria dos lavradores o aplica em suas propriedades. As conseqüências também, tanto as ambientais como as sociais e de saúde acabam se configurando como de

responsabilidade daquelas mesmas deliberações. Com isso, um certo tipo de modernização imposto por um modelo de desenvolvimento que aparece como impessoal, personaliza as responsabilidades das várias formas de degradação ambiental e de deterioração das condições de saúde dos sujeitos sociais envolvidos.

Em termos de extensão, a soma das propriedades objeto da pesquisa perfaz um total de 5.874 hectares. Destes, 4.165 ha. (70,9%) possuem algum tipo de cultura. O cultivo de café ocupa um total de 744 ha. (17,86% da área cultivada), as lavoras de subsistência contemplam 165 ha. (3,96% da área cultivada) e o restante, ou seja, 3256 ha. (78,18% da área que contempla algum tipo de cultura) são tomados pelas pastagens. As propriedades investigadas possuem uma média de 67,52 ha (DP = 52,54) e uma área média cultivada de 47,9ha (DP = 42,78) respectivamente. Deste quadro, fica patente que o modelo implantado ou que acabou se impondo é o da pecuária, em progressiva extensão, e o do café. À margem disso, subsistem as culturas básicas de sustento.

Os dados revelam que todos aqueles que usam agrotóxicos (96,5% do total pesquisado), têm contato direto com o produto no seu uso e manejo. Tabela 6

Tabela 6: Caracterização dos trabalhadores agrícolas estudados em relação aos

agrotóxicos, no município de Cacoal-RO (2006).

n %

Utilizam agrotóxicos na propriedade

Sim 84 96,5

Não 03 3,5

Periodicidade de aplicação na cultura cafeeira

1 a 3 vezes por ano 74 88,2

4 a 6 vezes por ano 6 7,1

Meses de uso mais intensos de agrotóxicos

Janeiro a março 79 90,8

Abril a julho 4 4,6

Outubro a dezembro 4 4,6

Os agrotóxicos mais usados pelos agricultores de Cacoal-RO são, pela ordem, o Roundup (60,9%), o Glifosato (34,5%) e o Gramoxil (28,7%).

Dos 10 tipos de agrotóxicos aplicados pelos trabalhadores, 30% eram extremamente tóxicos (classe toxicológica 1), 40% altamente tóxico (classe 2), 10% medianamente tóxicos (classe 3) e 20% pouco tóxico (classe 4), classificações essas feitas pelo SAI- Sistema de Informações sobre Agrotóxicos (Anvisa). Isso revela que 70% dos agricultores que utilizam agrotóxicos têm contato direto com produtos extrema ou altamente tóxicos.

Tabela 7 : Agrotóxicos mais utilizados pelos agricultores do município de

A hipótese acima levantada ganha maior consistência diante dos dados relativos às medidas de segurança mobilizadas pelos agricultores no manuseio dos produtos tóxicos. Com efeito, embora a maioria deles considere importante a utilização de meios de proteção, foi constatado que apenas 24,1% deles utilizam luvas, roupas impermeáveis e máscaras. È como se tivessem conhecimento da periculosidade do produto, talvez por ouvido dizer, mas lhes faltasse a consciência dos riscos aos quais se expõem na hora de sua utilização.

Considerando os equipamentos de proteção mais apropriados para a manipulação e aplicação de produtos químicos, 89,7 % dos agricultores investigados declararam não fazer uso de luvas, 87,4% não fazer uso de máscaras e 95,4 % nunca ter utilizado roupas impermeáveis. Em relação aos dados apontados na Tabela 1 segundo os quais 79,3% dos informantes usam botas e 95,4% chapéu, importa atentar para o fato de que podem não ser necessariamente consideradas medidas de segurança ou de proteção uma vez que fazem parte da vestimenta tradicional dos trabalhadores rurais da região. Independentemente da relação que o agricultor possa ter com a terra, sendo proprietário, meeiro, arrendatário ou outro, a pesquisa revelou que não havia ninguém que fizesse uso completo e correto dos EPI’s mais específicos para a proteção dos trabalhadores.

Outro elemento relevante para a caracterização do processo estudado é o tempo de exposição dos agricultores ao agrotóxico. Os 87 entrevistados informaram as horas/dia de exposição a agrotóxicos e 84 informaram os dias/mês. Onde 62,1% dos indivíduos afirmaram trabalhar com agrotóxicos até oito horas/dia e 65,5% trabalhar de três a dez dias/mês. As médias de exposição de horas/ dia e dias/mês foram de 9,5 (DP = 1,92) e 7,8 (DP = 4,43), respectivamente.

Tabela 8: Uso de equipamentos de proteção pelos trabalhadores agrícolas estudados em relação aos agrotóxicos, no município de Cacoal-RO (2006).

Variáveis

n Luvas (%) Mascaras (%) Roupas de Proteção (%) Idade em anos P=0,32 P=0,38 P=0,35 16 30 15 0 1,2 0 30 44 34 4,6 4,6 4,6 44 58 21 1,2 8,1 0 58 72 17 2,3 2,3 0 Escolaridade P=0,53 P=0,16 P<0,001

Analfabeto ou Fundamental incompleto 73 5,7 11,5 1,2

Fundamental Completo ou mais 14 3,5 3,5 3,5

Compreensão Rótulo P=0,10 P=0,028 P=0,30 Sim 68 10,3 17,2 4,6 Não 19 0 0 0 Recebe Orientação P=0,25 P=0,51 P=0,28 Não 45 4,6 10,3 1,2 Sim 42 6,9 6,9 2,3

Exposição ao produto (dias/mês) P=0,74 P=0,67 P=0,58

Até 2 dias 12 1,2 2,3 0

3 a 10 dias 57 8,1 12,6 3,5

Mais de 11 dias 14 2,3 2,3 0

Não respondeu 4 0 0 0

(Teste de regressão linear simples)

Com relação aos casos de intoxicação, 17,2% dos entrevistados disseram já ter se intoxicado com esses produtos pelo menos uma vez. Foi feita uma analise de regressão linear múltipla para verificar a influencia de alguns fatores socioeconômicos sobre essas intoxicações. Para isso adotou-se como variáveis independentes a idade, o nível de escolaridade, a leitura de

rótulos, o uso de EPI, orientação e tempo de uso de agrotóxicos e os casos de intoxicação como variável dependente.

Tabela 9: Influência dos fatores socioeconômicos sobre os casos de intoxicação nos trabalhadores agrícolas estudados, no município de Cacoal-RO (2006).

Variável Coeficiente angular p

Idade -0,0038 0,235

Escolaridade -0,1477 0,227

Leitura de rótulos -0,0397 0,727

Uso de EPI -0,0555 0,537

Recebe Orientação 0,0103 0,921

Tempo de uso de agrotóxicos 0,0627 0,174

Teste de Regressão Linear Múltipla

As variáveis apresentadas na tabela 6, escolaridade, leitura de rótulo, uso de EPIs e recebimento de orientações todas foram codificadas como dicotômicas, ou seja, foram divididas sempre em dois grupos. Por exemplo, os que têm o hábito da leitura de rótulo, formam um grupo e os que não têm o mesmo hábito formam outro grupo. Por ser uma variável continua, a idade não foi alterada e a variável relacionada ao tempo de uso foi dividida em categorias (1 para o tempo de 0 a10 anos, 2 para 11 a 20 anos, 3 para 21 a 30 anos e 4 para mais de 30 anos).

Os principais sintomas relatados pelos trabalhadores estão relatados no quadro abaixo:

Quadro 3 :Sinais ou sintomas relatados pelos entrevistados durante ou após a preparação ou aplicação dos agrotóxicos no município de Cacoal – RO (2006).

Já apresentaram

Sinais ou Sintomas Sim % Não %

Cefaléia 36 41.4 51 58,6

Falta de Apetite 10 11.5 77 88,5

Dorme mal 25 28.7 62 71,3

Assusta-se com facilidade 13 14.9 74 85,1

Tremores nas mãos 12 13.8 75 86,2

Nervosismo/preocupação 60 69.0 27 31,0

Má digestão 17 19.5 70 80,5

Tristeza 10 11.5 77 88,5

Dificuldade em tomar decisões 26 29.9 61 70,1 Falta de interesse pelas coisas 13 14.9 74 85,1

Baixa estima 12 13.8 75 86,2

Cansaço excessivo 23 26.4 64 73,6

6. DISCUSSÃO

A falta de utilização de equipamentos de segurança e o uso inadequado dos agrotóxicos vêm sendo apontados como a causa principal dos problemas de intoxicação. As situações de risco e a alta probabilidade dos agricultores adoecerem decorrem de um lado da própria toxicidade dos produtos e, do outro, do tempo de exposição. Desta forma, ainda que o produto tenha baixo nível de toxicidade, caso haja uma exposição prolongada, é alto o risco de contaminação, assim como o inverso também é verdadeiro, ou seja, se o grau de toxicidade é elevado, mesmo que o tempo de exposição seja curto, é alto o risco de contaminação.

Durante a pesquisa nas respostas ao questionário pude perceber que todos os agricultores possuem o mínimo conhecimento do que é, dos benefícios, quanto ao uso de EPI’s

A articulação dos dados da pesquisa com as observações e percepções revela que as práticas de manejo dos agrotóxicos e o uso dos instrumentos de proteção estão relacionados à questão da escolaridade e do conhecimento / consciência mais do que à relação dos agricultores com a terra e, eventualmente, à dimensão própria ou diretamente econômica. Desta maneira, pode-se inferir que os problemas de saúde decorrentes do uso intensivo de agrotóxico têm por base uma questão econômica, ou seja, a integração das lavouras de café às formas modernas de produção e aparecem ou se apresentam como “uso inapropriado” ou falta de adequação / educação à nova ordem. Assim, o que, a rigor, se apresenta como elemento integrador ao novo modelo de produção – o uso de agrotóxico – mobiliza, para o seu uso, setores de baixa escolaridade uma vez que os sujeitos sociais são expostos a situações de risco. Nesta lógica, pode-se dizer que o “moderno” precisa do “atrasado” e este último é funcional àquele.

A questão da toxicidade não se esgota na sua intensidade ou no seu alto ou baixo grau. É necessário considerar a própria dimensão toxicológica que os diversos agrotóxicos possuem, ainda que alguns deles possam ser catalogados como de baixa toxicidade. As seqüelas decorrentes da exposição de produtos de alta toxicidade se revelam de imediato, ao passo que as conseqüências da exposição de produtos de baixa toxicidade se manifestam a médio e longo prazo. Em qualquer um dos dois casos há danos à saúde, da população e do meio ambiente. Conclui-se, então, que se há problemas de exposição ou de toxicidade do veneno, as probabilidades de adoecer são grandes.

Além da questão relacionada à consciência quanto aos perigos representados pelo manejo e uso dos agrotóxicos, outro ponto que interfere diretamente na efetiva intoxicação dos agricultores é o aspecto da proteção, representada pelos Equipamentos de Proteção Individual – EPI’s.

A maioria dos estudos realizados com agricultores usuários de produtos agrotóxicos atesta que estes últimos têm ciência da necessidade de uso de EPI’s. Apesar disso, boa parte deles não os utilizam e, na eventualidade, o fazem de forma parcial ou inapropriada: usam apenas as botas ou somente as luvas ou unicamente a máscara. Geralmente alegam que mesmo com a utilização dos equipamentos não estariam totalmente imunes aos riscos de contaminação (ALBUQUERQUE et al., 2004).

Quanto ao uso de EPI’s vimos que 94,5% dos agricultores usuários de agrotóxicos usam chapéu. Esta prática não se configura necessariamente como uma medida de proteção, uma vez que na região, dada a elevada temperatura e ao sol forte, uso de chapéu é comum.

De um modo geral os agricultores justificam o não uso de roupas impermeáveis por causa do intenso calor existente na região. Alegam que tais roupas provocam fadiga. Da mesma forma, as mascaras dificultam a respiração e aumentam o cansaço. Constituem fatores que diminuem o rendimento na aplicação dos agrotóxicos. Ainda para justificar sua prática, qual seja, o não uso de instrumentos de proteção na aplicação dos pesticidas, os agricultores chamam em causa seu custo. Alegam que os EPI’s são caros e elevavam o custo inviabilizando produção. Também neste aspecto é possível notar como o elemento “custo - benefício”, aqui expresso na “produtividade”, típico do mercado moderno, foi incorporado pelos agricultores que o aplicam mesmo em prejuízo de suas condições de saúde.

Outra dimensão da questão, que apesar das aparências mais imediatas não está em contradição com aquilo que foi anteriormente exposto, indica que a abordagem da segurança na utilização dos agrotóxicos não deve menosprezar ou até ocultar o fato de que parcelas de agricultores que manuseiam os produtos tóxicos nem sempre se constituem em proprietários das áreas onde aqueles insumos são aplicados. Alguns são empregados, arrendatários ou outros, Às vezes, os empregados e funcionários vivem em precárias condições de trabalho, tendo baixa

remuneração pelos serviços prestados e não tendo acesso às informações básicas relacionadas aos custos, utilidade e necessidade do uso dos EPI’s Também é notório o despreparo da classe patronal, insuficientemente preocupada com a saúde de seus empregados. Isto os leva a não disponibilizar, como seria de seu dever, os equipamentos, vestimentas e meios adequados capazes de diminuir a exposição dos aplicadores aos agrotóxicos (POLASTRO, 2005)

A Tabela 1 indica que 72,4% dos agricultores que aplicam pesticidas são proprietários do imóvel e, mesmo assim, não fazem uso dos EPI’s. Como já foi acentuado, esta realidade parece se contrapor à tese acima exposta e também defendida por Polastro que focaliza o descaso do patronato com as condições de vida dos empregados para explicar essas práticas dos aplicadores de agrotóxicos. dos em Na realidade socio-cultural em estudo isso se apresenta como uma contradição a Polastro ao qual apresenta o descaso do patronato com os aplicadores de agrotóxicos. No contexto da realidade sócio-cultural em estudo, com muita probabilidade os fatores que contribuem para que os próprios agricultores proprietários utilizem as mesmas práticas dos não proprietários é, de um lado, a falta de informação e, do outro, a necessidade de integração ao modelo de produção preponderante. Fica evidente a associação entre a baixa escolaridade, o baixo índice de leitura do rótulo (r= -0,28 e p=0,008) e o baixo índice de uso de EPI’s (r= -0,23 e p= 0,03). Escolaridade, acesso a informações e orientações técnicas, bem como os demais indicadores econômicos e agrícolas não estiveram associados a intoxicações.

Conforme reza a Lei Federal nº 7.802 de 11 de julho de 1989 no seu art. 14, a responsabilidade administrativa, civil e penal pelos danos causados à saúde das pessoas e ao meio ambiente, quando a produção, comercialização, utilização, transporte e destinação de embalagens vazias de agrotóxicos, seus componentes e afins, não cumprirem o disposto na legislação pertinente, cabem:

Alínea f, ao empregador, quando não fornecer e não fizer manutenção dos equipamentos adequados à proteção da saúde dos trabalhadores ou dos equipamentos na produção, distribuição e aplicação dos produtos.

Há uma legislação que ampara aqueles que manuseiam produtos agrotóxicos, seja qual for a categoria profissional à qual pertencem. Contudo, é notório que somente a força da lei não basta para que se tenha uma prática de segurança e proteção à saúde do trabalhador. Um dos processos a ser implementado esta diretamente relacionado à educação.

A utilização sistemática e eficaz dos EPI’s só poderá se tornar práxis na medida em que os usuários dos produtos agrotóxicos tomarem consciência de sua real eficácia e perceberem na prática seus benefícios em termos de melhoria das condições de saúde. A consciência disso passa pela educação que contempla também a escolarização. Não será apenas ou tão somente o rigor normativo expresso em “rótulos” que levará os agricultores a usarem tais equipamentos.

As dificuldades que os agricultores encontram para ter acesso às unidades de saúde, a não capacitação das equipes de saúde de lidar com problemas decorrentes da exposição aos agrotóxicos, , os diagnósticos incorretos, a escassez de laboratórios de monitoramento biológico e a inexistência de biomarcadores precoces e/ou confiáveis constituem alguns dos fatores que determinam o subdiagnóstico e o sub-registro.

Os dados revelam e caracterizam o problema exposto. Dos usuários de agrotóxicos, 17,8% afirmaram terem sofrido intoxicação. Destes, 40% foram diagnosticados por médicos, 13% por farmacêuticos e o restante, o seja, 47% por eles próprios. Em apenas um caso houve registro no CAT (Comunicação de Acidente do Trabalho) junto ao INSS.

São evidentemente diversos os contextos e as situações em que os trabalhadores rurais desenvolvem suas atividades. Esses aspectos, logicamente, se traduzem em específicas condições de vida, tato quantitativas como qualitativas e, conseqüentemente, interferem na saúde. As questões levantadas devem conscientizar e se transformar em objetos de preocupação da

sociedade em geral e, de maneira especial, das autoridades sanitárias. São inúmeros os agricultores que trabalham em lavouras de café que usam agrotóxicos de forma inadequada. Muitos o fazem há bastante tempo. Sendo que na maioria das vezes, como destacado, não são colocadas em prática as medidas de segurança – falta de EPI’s, ou não uso por razões de temperatura elevada e fadiga -, faz-se necessário a adoção de medidas de orientação e de

Benzer Belgeler