3. Yöntem
3.6. Verilerin Çözümlenmesi
O território mesopotâmico do IV milénio a.C. assistiu à chegada e emergência de dois grandes grupos populacionais que iriam marcar, de forma indelével, a sua história futura: os Semitas e os Sumérios. As populações pré-existentes, que deixaram a sua marca nas culturas materiais precedentes, foram absorvidas por estes, talvez através de um processo gradual de miscigenação; ou através de um isolamento que se traduziu no seu ocaso. O facto é que pouco ou nada sabemos destes grupos autóctones36 que, ao longo do IV milénio a.C., se viram ofuscados pela chegada, acção e relação dos Semitas e Sumérios.
Como se processou a interacção entre estes dois grupos? Quais as suas idiossincrasias e de que forma estas contribuíram para o seu relacionamento? No fundo, que variáveis estão contidas nesta equação? Recorrendo à metáfora matemática, acreditamos que a decomposição de cada parte nos permitirá, por fim, visualizar o todo.
Comecemos então pelos Semitas: sendo provavelmente oriundos da Península Arábica, percorreram o Levante até entrarem no território mesopotâmico, seguindo o curso do Eufrates. Nesta área setentrional, foram-se instalando, abandonando progressivamente o seu estilo de vida nomádico, mas sem se sedentarizarem completamente. Ao longo do IV milénio a.C., podemos classificá-los como
36 O contributo de Gil Stein e Rana Özbal, e de outros investigadores que se dedicam ao estudo das
culturas materiais prévias ao advento sumério, oferecem novas pistas sobre as actividades destes grupos populacionais. No entanto, como Jean Bottéro reconhece, um conhecimento ontológico mais profundo é difícil, senão impossível. Destes grupos, para além da cultura material, ficou para a história «seule une poignée de vocables, et en particulier des toponymes irréductibles au sumérien et au sémitique». Jean Bottério, Samuel Noah Kramer, op. cit., pp. 28-29.
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seminómadas, pois conjugaram as suas tradições errantes com um estilo de vida que já se adaptava a uma instalação mais permanente, onde as actividades ligadas à transumância se complementavam com a actividade agrícola. Como vimos, a segunda metade do IV milénio a.C. assistiu ao declínio das cidades a norte, até então em desenvolvimento; mas viu também o florescimento de novas comunidades rurais, mais pequenas e dispersas ao longo das margens do Tigre e do Eufrates superiores. Os contactos com os seus vizinhos meridionais foram sendo efectuados, não só pela complementaridade económica, como pela convivência no mesmo espaço. Relembre- se que, com o estabelecimento dos entrepostos comerciais da cultura de Uruk, os Sumérios deslocaram-se para norte, ao mesmo tempo que, ao serem recrutados para trabalhar no sul, os Semitas impuseram-se, gradualmente, na região aluvial.
Abrimos aqui um parêntesis para reforçar uma posição que temos vindo a tomar: o nomadismo puro, ou seja, sem nenhum recurso às actividades agrícolas ou às comunidades sedentárias, não existiu no território mesopotâmico37. Pelo contrário, houve sempre uma profícua interacção e complementaridade entre estes dois modos de vida, sem que se possa classificar um como superior ao outro. Esta chamada de atenção afigura-se importante pois, como Bertille Lyonet alerta, «nomads or pastoralists are most of the time still considered in an extreme way- totally illiterate dwellers dealing exclusively with animal husbandry - so that any new text or inscription, architectural, or agricultural feature has to be the hallmark of sedentary people without any connections to nomads except for fighting or eventually controlling them38».
Na transição do IV para o III milénio a.C., os Semitas adoptaram a vivência urbana, criando as suas próprias cidades-estado, onde o dimorfismo social que os caracterizava se evidenciou. Durante muito tempo, a historiografia assumiu este primeiro momento de edificação de cidades a norte, pelas populações seminómadas,
37 Segundo Khazanov este tipo de nomadismo existiu num determinado período de tempo, nalgumas
zonas específicas, como as estepes da Eurásia, o Sahara ou no interior Asiático. Cf. Anatoly M. Khazanov, «Specific characteristics of Chalcolothic and Bronze Age Pastoralism in the Near East», in Jeffrey Szchuman (ed.), op. cit., p. 121.
38 Bertille Lyonnet, «Who lived in the third-millennium “round cities” of Northern Syria», in Jeffrey
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como seguindo o modelo das cidades-estado sumérias, algo que estudos histórico- arqueológicos recentes colocam em causa.
Bertille Lyonet, analisando as cidades de planta circular dos inícios do III milénio a.C., próprias do território setentrional mesopotâmico, apresenta uma nova proposta: os grupos que as criaram integravam um complexo sistema socioeconómico, em que intercalavam uma vivência nas estepes, de modo a levar a cabo a prática da transumância e uma instalação em zonas mais propícias à prática agrícola, nos vales dos rios. Aqui, edificavam as suas cidades com um propósito bem definido: armazenar, em grandes silos, os produtos agrícolas produzidos, sendo que as habitações seriam usadas esporadicamente (a autora defende que a maioria da população viveria em tendas ou abrigos). Estas cidades poderiam funcionar, ainda, como centros religiosos (onde eram erigidos templos e efectuados os rituais), políticos (com a residência oficial do líder do grupo/grupos) e económicos (para além dos silos, seria o espaço eleito para se efectuar o comércio). De notar, ainda, a existência de necrópoles que sugere uma ligação profunda ao território, se atentarmos ao milenar culto aos mortos, inerente ao homem, quer seja nómada ou sedentário. Esta sua teoria é criticada por outros autores, que apontam a dimensão e o nível de sofisticação destas cidades como algo que não se conjuga com a visão acima apresentada39.
Um dos exemplos mais conhecidos e estudado para estas primeiras cidades- estado a norte é Mari, cujo primeiro nível de ocupação data de c. 2900-2500 a.C. Jean- Claude Margueron defende que, nesta época, Mari assumia-se já como uma cidade- estado, uma capital, cuja população se encontrava completamente sedentarizada, apontando vários argumentos: a) a sua incrível dimensão, cujo diâmetro seria de cerca de 1900 metros; b) a existência de canais para fornecimento de água, algo que implicaria um elevado número de habitantes; c) o nível de sofisticação do edifício principal, que serviria como palácio real (e não como um armazém de produtos agrícolas); d) os vestígios de que ali eram realizadas actividades metalúrgicas permanentes e, por isso, não compatíveis com a vivência seminómada; e) a existência de um canal de navegação, que funcionaria para as trocas comerciais, tanto com as
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regiões mais a norte, como com o sul da Mesopotâmia40. No entanto, Bertille Lyonet contra-argumenta, apresentando a sua interpretação sobre os dados arqueológicos para Mari I, defendendo que este primeiro momento da cidade serviria os mesmos propósitos às populações seminómadas, já acima apresentados41.
Para o presente, não é a discussão entre a funcionalidade específica de Mari I ou se a sua população era seminómada ou já totalmente sedentarizada que interessa, mas sim o facto de existirem novas propostas sólidas que questionam a edificação das primeiras cidades-estado semitas, a norte, como cópia quase absoluta do modelo sumério42. Ao aceitarmos estas novas perspectivas, adicionamos um factor importante à originalidade semita e ao seu contributo singular para a construção da civilização mesopotâmica43.
Nesta caracterização geral dos Semitas, entre o IV e III milénios a.C., devemos ainda evidenciar que a sua migração não constituiu um acto isolado. Pelo contrário, os grupos semitas foram chegando ao território mesopotâmico em vagas sucessivas, sendo que umas se afirmaram mais marcantes que outras (como por exemplo a chegada dos Amorritas, a partir de c. 2400 a.C.). Assim, para além de terem mantido contacto com o seu local de origem, facto que permitiu renovar e consolidar a sua identidade, conseguiram manter um fluxo populacional constante, direccionado para o território mesopotâmico, que se materializou, como Bottéro salienta, em novos fôlegos à sua vida e ao seu progresso cultural na área44.
Quanto aos Sumérios, estes emergiram na zona aluvial mesopotâmica nos inícios do IV milénio a.C., existindo muitas dúvidas acerca da sua proveniência. A certeza que temos é que, independentemente do local de onde partiram, este grupo
40 Cf. Jean-Claude Margueron, Mari metropole de l’Euprate au IIIe millenaire av. J.-C.,Paris, Éditions
Picard. 2004, pp. 70 e sg.
41 Cf. Bertille Lyonet, «Who lived in the third-millennium “round cities” of Northern Syria», in Jeffrey
Szchuman (ed.), op. cit., pp. 182-186.
42 Esta visão é transmitida por Bottéro, que descreve os assentamentos sumérios e semitas da mesma
forma, sem dúvida tomando de exemplo a organização urbana suméria. Cf. Jean Bottéro,
Mésopotamie…, pp. 135-136.
43 Veremos, mais adiante, outros contributos semitas, que não levantam tantos problemas, pois estão
perfeitamente enraizados na tradição historiográfica, desde as últimas décadas do século XX.
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Cf. Jean Bottéro, «Religiosité et raison en Mésopotamie», in Jean Bottéro, Clarisse et al. (eds.), op. cit., p. 28.
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cortou as ligações com a sua origem. Ao contrário dos Semitas, não assistimos a novas vagas de populações sumérias na Mesopotâmia, algo que funcionou contra si próprios: sem renovação, acabaram por se dissolver na maioria semita, sendo que na viragem do III para o II milénio a.C., era praticamente impossível encontrar grupos ou indivíduos exclusivamente sumérios. No entanto, a sua língua e os seus traços culturais mantiveram-se vivos ao longo de toda a história mesopotâmica45.
Protagonistas da cultura material de Uruk, os Sumérios desenvolveram o seu estilo de vida urbano num ritmo acelerado. As suas cidades-estado rapidamente se tornaram auto-suficientes e prósperas, conjugando a produção de excedentes, proveniente da actividade agrícola e da criação de gado, com o comércio interno e externo. Por volta de 3300 a.C., o seu sistema económico era de tal forma complexo, que imperou a necessidade de encontrar um meio para registar os seus infinitos dados. E, assim surgiu, pela primeira vez, a escrita.
Bottéro considera esta invenção como um elemento capital no destino da humanidade, pois representa uma verdadeira revolução do espírito humano: num primeiro momento, o homem conseguiu “isolar” o seu pensamento e reproduzi-lo em pictogramas, que o ajudavam a relembrar os seus feitos, as suas ideias; num segundo momento, o homem foi capaz de libertar o pictograma do objecto que designava, criando novos significados para o mesmo signo46. Noutra obra, o mesmo autor explora esta revolução mental: escrever não é um acto natural ao homem, não é um fenómeno próprio à sua natureza, como comer ou ver, por exemplo. Pelo contrário, tal como as expressões artísticas, escrever é uma realidade cultural que se vai sobrepondo à natureza humana, de modo a tornar a sua existência mais agradável. A escrita permite ainda ultrapassar o tempo e o espaço, cristalizando o discurso oral, possibilitando uma partilhada e difusão ad æternum. O autor considera que se a língua
45 Sublinhe-se que o sumério, enquanto língua falada, acaba, de igual modo, por desaparecer, sendo
suplantado pela língua semita acádica. No entanto, sobrevive na escrita, nos textos literários, religiosos e sapienciais, chegando mesmo ao século I a.C. À semelhança da literatura redigida em latim, no ocidente europeu medieval e moderno, os textos sumérios foram alvo de cópias, num constante processo de edição e exegese, ao longo dos séculos. Cf. Jean Bottéro, «Religiosité et raison en Mésopotamie», in Jean Bottéro et al. (eds.), op. cit., pp. 28-30.
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O autor dá o exemplo de flecha e vida, ambas representadas por ti, em sumério. Cf. Jean Bottéro, Au
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é fluente e contínua, a escrita é consistente e autónoma, tornando-se ainda um objecto material que pode ser analisado de várias formas e ângulos: ideias, temas, imagens, palavras, etc.47. Por tudo isto, Bottéro insiste repetidamente em classificar esta invenção como uma revolução do espírito humano e atribui uma enorme importância aos seus inventores: os Sumérios.
De pictogramas que representavam objectos, passou-se para signos que representavam objectos, ideias e sons, sendo que rapidamente a escrita evoluiu para um sistema, cujos signos em forma de cunha estão na origem do seu nome: o cuneiforme48. Assim, de listas ligadas à contabilidade e gestão das cidades-estado, o cuneiforme foi sendo aprimorado de forma a permitir a transmissão do pensamento metafísico do homem mesopotâmico: surgem, então, os textos religiosos, míticos, sapienciais, poéticos, etc. Com a invenção da escrita surgiu um novo ofício especializado, o do escriba. A sua educação era pautada pelo estudo e cópia incessante de um vasto curriculum, que integrava desde catálogos de signos e listas de sinónimos, a tratados gramaticais e textos literários de referência49. Concluída a sua formação, os escribas especializavam-se numa determinada área (económica, administrativa,
47 Consideramos ser interessante notar a posição do autor em torno da oralidade. «Il y a d’abord le
langage organisé: la langue, à la fois l’expression et le prolongement de la pensée, l’instrument le plus parfait de la communication, de l’échange avec les autres, le lien social sans doute le plus foncier, le plus solide, qui nous tire de notre solitude naturelle et nous assure un contact étroit, presque entier, avec les autres (…)». Jean Bottéro, «Religiosité et raison en Mésopotamie», in Jean Bottéro et al. (eds.), op. cit., p. 35.
No entanto, a língua está limitada à nossa entourage, pois implica um emissor e um receptor. Depois, o que retemos na memória passam a ser apenas fragmentos, impressões do que foi dito. A escrita permite, assim, ultrapassar este problema, pois cristaliza o discurso. Idem, pp. 35-36. Devemos destacar, contudo, que discurso perene da escrita apresenta, de igual forma, as suas limitações. O que é transposto do oral para o escrito está marcado pelos filtros de quem redige; por outro lado, é certo que o texto traduz uma representação da realidade cristalizada, mas que não abarca o total da mesma.
48 Não é nosso objectivo apresentar a evolução do processo que culminou na invenção da escrita, nem
como esta se foi desenvolvendo ao longo dos seus primeiros séculos, pois tal iria implicar um desvio dos nossos propósitos. Acerca deste tema, vejam-se os capítulos «De l’aide-memoire à l’écriture» e «Écriture et dialectique, ou progrès dans la connaisance» contidos em Jean Bottéro, Mésopotamie…, pp.
132-165; 167-194. Acerca da relação entre a escrita e a arte nos finais do IV milénio a.C., veja-se Denise Schmandt-Besserat (ed.), When Writting met art- from Symbol to Story, Austin, University of Texas Press, 2007.
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Para a primeira metade do I milénio a.C., foram encontradas várias tabuinhas que indicam a “bibliografia” que um escriba deveria estudar, onde se elencam, para além dos já acima referidos, textos técnicos do âmbito da adivinhação, comentários eruditos e textos “filológicos”. O volume do curriculum para o ofício de escriba foi aumentando e sendo diferenciado, conforme o contexto. Cf. Jean Bottéro, Samuel Noah Kramer, op. cit., p. 47.
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jurídica, religiosa, etc.)50. A invenção da escrita promoveu a constituição de uma elite que, no limite, detinha o domínio sobre o que era ou não passado para o registo perene do cuneiforme. Não existindo quaisquer impeditivos para um indivíduo se tornar escriba, o facto é que só as famílias mais prósperas poderiam dispensar membros para os anos de formação especializada que este ofício exigia51. Assim, deparamo-nos com uma nova elite intelectual que provinha já dos grupos de topo da pirâmide social52.
Na viragem para o III milénio a.C., os Sumérios protagonizaram uma verdadeira revolução urbana, económica e cultural, apresentando um contributo vincado para a matriz civilizacional mesopotâmica. No campo cultural, para além da escrita, devemos somar a existência de um sistema religioso organizado, com um panteão definido, uma arquitectura religiosa específica, cultos realizados nos templos e/ou em público e mitos que respondiam a questões em torno do funcionamento da natureza e do cosmos, reflectindo, de igual forma, a sua visão do divino53.
Em jeito de conclusão, podemos afirmar que os Sumérios apresentaram-se como a força motriz primeira na criação da civilização mesopotâmica, sendo que vários dos seus traços culturais foram mantidos ao longo o tempo, como que relembrando uma época de ouro. Contudo, nos séculos vindouros, a herança suméria torna-se difícil de ser isolada, tal como se tornou difícil isolar um grupo populacional sumério, a partir dos finais do III milénio a.C. E porquê? Para responder a esta questão, somos obrigados a focalizarmos na empresa semita.
50 Cf. Jean Bottéro, «Religiosité et raison en Mésopotamie», in Jean Bottéro et al. (eds.), op. cit., pp. 44-
52.
51 Note-se que também não existia qualquer impeditivo institucionalizado para que as mulheres se
tornassem escribas, existindo alguns exemplos ao longo do tempo, onde se destaca a filha de Sargão de Akkad, Enheduanna (c. 2250 a.C.). No entanto, sendo um dos propósitos que as famílias estabeleciam para os seus elementos femininos contrair matrimónio, com vista a perpetuar a linhagem, as mulheres também não teriam a disponibilidade necessária para os anos de formação exigidos ao ofício. Enheduanna e outras mulheres escribas estavam dedicadas ao trabalho cúltico, pelo que, à partida, não iriam constituir família.
52 Cf. Jean Bottéro, Samuel Noah Kramer, op. cit, p. 48. 53
O sistema religioso mesopotâmico será alvo de análise detalhada no capítulo seguinte, pelo que nos escusamos aqui de caracterizar em profundidade este traço cultural.
41
A convivência de Sumérios e Semitas ao longo do IV milénio a.C. torna-se palpável com o advento da escrita: desde muito cedo surgem antropónimos semitas nas listas de trabalhadores das cidades-estado sumérias, em funções variadas (trabalho nos canais, no comércio, nos templos, no palácio, na guerra, etc.). O constante fluxo comercial norte/sul potenciou contactos cada vez mais profundos entre os dois grupos, que se traduziu numa troca sistemática a todos os níveis e nos dois sentidos. Os Semitas foram absorvendo os traços culturais sumérios, adaptando- os à sua realidade e dando, de igual modo, o seu contributo para os Sumérios.
Vejamos, por exemplo, a questão da sedentarização e do urbanismo, já aflorada acima. Tradicionalmente, identificamos o modo de vida sumério como sedentário e urbano, em oposição ao modo de vida nómada e tribal dos Semitas. Contudo, quando chegaram ao território mesopotâmico, estabeleceram-se em comunidades, mesmo que inicialmente pesasse o cariz sazonal. Progressivamente, este grupo foi caminhando para a sedentarização, sem nunca esquecer as suas raízes nomádicas. Quanto ao urbanismo, como já vimos, embora exista uma décalage de alguns séculos, entre a edificação das primeiras cidades-estado sumérias (que surgem, de pleno direito, nos finais do IV milénio a.C.) e as cidades semitas do norte (atestadas para o primeiro quartel do III milénio a.C.), o facto é que foram erigidas com traços próprios e respondendo às suas próprias necessidades, como Bertille Lyonet sumariou. Estes dois estilos de vida, nómada e sedentário, complementaram-se na esfera económica, desde muito cedo, sendo possível observar neste exemplo um dos casos onde os Semitas adaptaram o estilo de vida sumério, conforme as suas necessidades, imprimindo a sua própria marca e mantendo os traços gerais da sua identidade original.
Em relação à escrita, foi rapidamente adoptada pelos Semitas para transmitir a sua língua. O cuneiforme servia, então, a língua suméria e a língua semita, «deux langues aussi diferentes que le chinois et le français, soit dit en passant…54
». Contudo, os Semitas contribuíram activamente para o enriquecimento lexical sumério: para citar
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alguns exemplos, a palavra pastor, em sumério na.gada, provém do termo semita
nâqitu; sendo que dam.hara (combate) provém de tamaru55.
Se observarmos a literatura mítica, também aqui encontramos traços semitas. Aceitando a tradição literária suméria, os Semitas traduziram-na para a sua língua, adaptando-a à sua realidade, introduzindo pequenas ou grandes alterações, conforme o tema, contexto e protagonistas. Por outro lado, há que sublinhar o papel da oralidade na tradição mitológica: inicialmente os mitos foram sendo transmitidos oralmente, sendo que o advento da escrita permitiu a sua cristalização. No entanto, a transmissão oral não desapareceu, continuando a seguir o seu caminho, a par e passo com a tradição literária. Assim, torna-se lógico pensar que se os mitos sumérios foram transmitidos aos Semitas, ainda durante o IV milénio a.C. e que estes aceitaram, negaram e transformaram os mesmos, mediante as suas próprias concepções, também os Sumérios podem ter recebido contributos mitológicos semitas para as suas