3.3. Niğde’de Gerçekleşen Göç Üzerine Değerlendirme
3.3.4. Veriler ve Değerlendirme
Sólo maduro.
Nosotras tenemos nuestras calabazas. Sólo nosotras.
A él no le gusta la hierba verde. Sólo amarilla.
Nosotras rompemos nuestros cuchillos. Sólo nosotras.
A él no le gusta la guayaba verde. Sólo dorada.
Nosotras cantamos a la madre caoba. Sólo nosotras.
A él no le gusta el caribe61 verde. Sólo plateado.
Nosotras jugamos con nosotras. Sólo nosotras.
O poema é um canto coletivo que tece um elogio às tarefas estritamente femininas, misto de elementos fálicos, femininos e eróticos, apresentando ao final inclusive jogos somente “femininos”, onde o homem perde lugar.
A primeira poeta precursora de Gioconda Belli, segundo nossa pesquisa, é Mariana Sansón Arguello, nascida em 1918, e que passa a ser conhecida na década de 50, dentro do espaço artístico criado pela luta pela autonomia e a renovação universitária em León (Nicarágua). Seus primeiros poemas foram publicados na revista Cuadernos Universitarios, número 14, em dezembro de 1959.
A autora começou a escrever tardiamente, aos 32 anos de idade e, provavelmente, o fato de ter perdido um filho com um aborto espontâneo foi o detonador de sua inquietude interior e se transformou em labor literário.
carne amarelada e escura, doce e aquosa, e uma semente grossa, negra e lustrosa. Está aclimatada nas províncias meridionais da Espanha. (T.A.) (Diccionario de la Real Academia - http://buscon.rae.es/draeI/) 61 Caribe: peixe de río caracterizado por sua voracidade, piranha. / Pimenta ou pimentão muito picante. T.A. (Diccionario del Español de América p. 128)
Mariana Sansón foi a primeira mulher a ser membro da Academia Nicaragüense de la Lengua (da qual hoje faz parte Gioconda Belli), faleceu em 6 de maio de 2002, em sua cidade natal. No ano seguinte a sua morte, foi criado um concurso nacional de poesia com seu nome, o Concurso Nacional de Poesía Escrita por Mujeres “Mariana Sansón”, que é convocado anualmente pela ANIDE (Asociación Nicaragüense de Escritoras).62
Segundo Ernesto Cardenal (1975:199), Mariana Sansón utilizava um tipo de escritura automática, próxima ao surrealismo, “autenticamente subconsciente”. Para Zamora (1992:29-30) essa escuridão e magia surrealista, na obra da autora é reveladora dos subterfúgios dos quais a mulher precisava valer-se na época para expressar-se. Ou seja, o “rosto de mulher” era visto ainda sob um véu: “rosto de mulher, mas oculto sob um véu espesso ou grosso de simbolismo e esoterismo. Nela ou com ela, o leitor não estabelece comunicação, unicamente são recebidos sinais, signos vagos, mensagens estanhas ou fantásticas.” Percebe-se em seus poemas, através de um simbolismo acentuado, a relação da poeta com a natureza, sob uma intensa cumplicidade (Zamora,1992:91):
Un cielo de paredes celestes me agrada, es cómodo. Un cielo de paredes rosadas Me agrada, es bello.
Un cielo de paredes De tierra,
Lo quiero. ¡Es el mío!
Simbolicamente, ao ter que escolher entre o céu em três aspectos cromáticos: azuis (celestes), rosado e marrom, a poeta elege o que representa a ligação da mulher com a mãe-terra, criadora, mágica e fecunda. O elemento terra será também em Belli referência fundamental para sua obra.
Claribel Alegría é uma das mais importantes precursoras de Gioconda Belli comentadas neste sub-capítulo. Seu caso é especial, nascida em 1924, na cidade de Estelí, na Nicarágua, mas criada em Santa Ana, na República de El Salvador, é uma escritora estudada muitas vezes como Salvadorenha. O motivo do exílio de sua família foi a necessidade da saída de seu pai (um médico liberal e ex-combatente do exército do general Benjamín Zeledón) do país natal por se opor à intervenção norte-americana na Nicarágua.
A autora realizou os estudos universitários na Universidade George Washington, nos Estados Unidos, onde foi discípula e aluna do poeta espanhol Juan Ramón Jiménez. Seu primeiro livro foi publicado em 1948, no México, Anillo de silencio, em uma seleção feita por J.J. Jiménez. Um dos temas que mais se repetem em na obra de Claribel Alegria é o do retrato, como percebemos no poema “Datos personales” (Zamora,1992:113):
Tengo un metro cincuenta de estatura. Ojos color castaño.
¿Me atreveré a reír, a preguntar,
a destruir la armadura que me han puesto y a gritar de vergüenza?
O auto-questionamento nesta autora é um dos passos que indica a ação transformadora través da poesia. Percebemos o contraste marcado entre a baixa estatura de mulher, “un metro cincuenta” e a força contestatória capaz de
“destruir la armadura”. Ainda dentro da mesma imagem, no poema “Auto-retrato” percebe-se um sujeito fragmentado, que se transforma e se questiona (Zamora,1992:114):
[...]Cuerdas tensas subiéndome del cuello. Bruñidas las mejillas
Sin facciones. Destrozada.
Sólo me quedan los fragmentos. Se han gastado los trajes de entonces. Tengo otras uñas,
Otra piel.
¿Por qué siempre el recuerdo? [...]
Observa-se a referência ao espelho, à busca por um outro rosto no qual mirar-se e, desta forma, poder construir uma imagem de si mesma:
[...] Tampoco me encontré. Seguí buscando
en las conversaciones con los míos, en los salones de conferencia, en las bibliotecas.
Todos como yo rodeando el hueco. Necesito un espejo.
No hay nada que me cubra la oquedad. Solamente fragmentos y el marco. (Zamora,1992:114)
Em sua tarefa de tentar constituir o semblante perfeito, a mulher que busca só conta com os materiais fragmentários e a moldura (“solamente fragmentos y el marco”). É preciso trabalhar com os estilhaços e um contorno (“marco”) que se apresenta desenhado socialmente, mas que não pode conter a expansão que a mulher alcançou. A presença constante da busca identitária, da necessidade de construir essa imagem que representa o sujeito, é recorrente também na obra poética e em prosa de Gioconda Belli. Desta forma as personagens de Belli também fogem ao padrão, buscando encontrar um rosto,
seja nas lutas sociais empreendidas por Lavinia ou na procura/ construção do território ideal liderada por Melisandra.
Em um de seus melhores poemas “The american way of death” (O caminho americano para a morte), Claribel Alegría nos leva inevitavelmente, com um ritmo in crecendo, a dois sentimentos: o de morte e o de revolta e rebeldia, justificando o risco pela justiça das causas apresentadas. Várias formas de luta, a não-violência, os protestos pacíficos, o amor fraternal, são motivo de castigo (Zamora,1992:124):
Si combates tu caos con la paz,
la no violencia, el amor fraternal,
las largas marchas sin fusiles con mujeres y niños
recibiendo escupidas en la cara, ten cuidado,
te matan.
Questões como o racismo, a pobreza de comunidades das periferias de grandes cidades americanas, que podem ser Manágua, México D.F, Lima, Buenos Aires ou Rio de Janeiro, aparecem marcadas nas duas estrofes seguintes:
Si tu piel es morena y vas descalzo
y te roen por dentro las lombrices, el hambre, la malaria: lentamente te matan. […] Si naces en el guetto O en la favela y tu escuela es la cloaca
o es la esquina,
hay que comer primero, luego pagar la renta
y con el tiempo que te sobra sentarse en el andén
y ver pasar los coches.
As referências às cidades nas estrofes subseqüentes apontam para a totalidade do espaço continental americano, uma vez que os problemas sociais e seu contraponto, a resistência, também aparecem em toda a extensão desse território:
[…] Si eres negro de Harlem y te ofrecen canchas de fútbol con el suelo de asfalto, un televisor en la cocina y hojas de marihuana: poco a poco te matan.
A “saída” que se apresenta, mais que alternativa, impõe-se como a única forma de fazer a dor do preconceito, da exploração e da miséria transfigurar-se em produção literária e transformação social. A poesia, aqui em seu aspecto de meta-literatura, surge como solução que exige ação:
[…]
Si padeces de asma Si te exaspera un sueño - ya sea en Buenos Aires o en Atlanta -
que te impulsa de Montgomery hasta Menfis
o a cruzar a pie la cordillera, ten cuidado:
te volverás obseso y sonámbulo y poeta.
Entretanto, a pesar da força da poesia poder impulsionar uma luta, ainda que sonâmbula e obcecada, o poder destruidor da sociedade engole o poeta, o guerrilheiro, o enfermo. O tom do poema tem a cor de uma época e de um momento histórico:
[…]
Pero un día te llega la noticia, corre la voz,
te la da tu vecino porque tú no sabes leer o no tienes un cinco para comprar el diario o el televisor se te ha jodido. De cualquier modo te llega la noticia: lo han matado, sí, te lo han matado.
O final do poema, longe de parecer realmente pessimista, incita a um comprometimento consciente, não puramente panfletário, mas onde lutar com as armas feitas de palavras também se acreditava ser possível. Segundo Octavio Paz, em El arco y la lira (1998:13-14), a poesia seria capaz de romper barreiras e tocar um plano anterior aos tempos e fronteiras humanas. Um território ambíguo de individualidade e multidão. Como nos poemas e nos romances de Gioconda Belli, a cidade é o cenário onde se desenvolve a construção memorial e identitária. Essa urbe onde confluem miséria, pobreza, tecnologia, avanço e retrocesso simultaneamente, contribui para o caráter fragmentário da obra de arte.
Valores humanos, sentimentos e dores comuns a diferentes povos de países da América, têm na poesia o ponto de encontro. Unidos pelas incertezas
da história e as certezas da ideologia, artistas encontram-se em um território universal. A poesia, junto à íntima dor que lhe inspira, engendra-se na solidão, enquanto a criação adquire caráter universal.
A terceira poeta que citamos é Vidaluz Meneses, contemporânea de Belli, nascida em 1944, na cidade de Matagalpa, Nicarágua, e que aparece no cenário literário durante a década de 70, inserida no grupo chamado Presencia, na cidade de Diriamba. Com a vitória da revolução sandinista, Vidaluz fez parte do governo em diversos cargos ligados ao Ministério da Cultura, assim como Gioconda Belli.
A poesia de Vidaluz Meneses centra-se especialmente no simbolismo dos elementos naturais: ar, fogo, terra e água. Segundo Danielle Raquidel63, professora nicaragüense especialista em literatura centro-americana, “existe em sua poesia uma superposição de imagens elementais com alta representação metafórica”.
Em dois dos mais representativos poemas dessa autora os elementos opostos e complementares, terra e água, confluem no texto literário para construir imagens relacionadas ao feminino, ao passado histórico e à memória. O primeiro é “La tierra recobrada”, no qual o título nos remete ao elemento terra e a seu resgate:
Esta es la tierra recobrada Donde ahora entonamos nuevos cantos.
Me despierta una lluvia nocturna
63 Raquidel, s/d “Mirada hacia los elementos en la poesía de Vidaluz Meneses” Revista Dariana –Sobre Vidaluz
Que habla de renovaciones, De la hierba que crece
Verde, dándole fondo de esperanza a cada gota que cae. […]
(Zamora,1992:202)
A terra, sendo fecundada pela chuva, traz a possibilidade de renovação, de “nuevos cantos”. Esta correlação representa, entre outros aspectos, limpeza, maternidade, vida, emoção (estudamos em outros capítulos, detidamente, o simbolismo da água). Também em “Mujer Cakchiquel64”, a memória histórica é o que permite transformar o presente e construir novos caminhos para o sujeito feminino:
He palpado los surcos de los siglos En tus mejillas, mujer cakchiquel. La desconfiada ceremonia Comercial del regateo, Tu impasible
Posición de tejedora,
Ghandianas rodillas contra el suelo Y las manos como rápidas ardillas Entrecruzando los hilos del mantel, Del delantal o la alfombra
Que hablarán de vos,
Morena Penélope, en otras latitudes.
Percebem-se vários aspectos: intertextuais, simbólicos e históricos. O poema coloca no centro da cena essa mulher, descendente dos maias, exímia tecelã, não só de fios e cores, mas de um passado e uma memória. Ao tocá-la, seu rosto desvela as marcas seculares que sua simples e complexa presença pode evocar.
64 Cakchiquel: etnia indígena de origem maia que habitava especialmente o oriente da Guatemala, e que provavelmente estendeu-se à Nicarágua em alguns pequenos grupos.
O cenário, qualificado como “ceremonia comercial del regateo” pode ser visto como um dos tantos exemplos de compra-venda de índios como escravos, presentes nas cidades coloniais hispano-americanas e brasileiras. Assim como os escravos africanos, os indígenas foram anteriormente a mão de obra empregada. Segundo a historiadora Rita Cáceres, em entrevista à agência BBC, para o especial sobre escravidão na América Latina, “Esclavitud: el comienzo del fin” (2007)65 :
A escravização dos indígenas foi a primeira. De fato, na América temos dois momentos de escravidão. Sempre esquecemos a primeira, que foi a dos indígenas, e isso ocorre nos primeiros 100 anos. Desde a chegada de Cristóvão Colombo, em 1492, até 1542, temos uns 50 anos aproximadamente de exploração indígena e de um armado e estruturado mercado de mão de obra de indígenas, que eram vendidos a diferentes regiões. Particularmente grave era o caso da Nicarágua e do México. Eram vendidos à ilhas do Caribe ou ao Peru. (T.A.)
Assim, a mulher cakchiquel poderia ser a “protagonista” de um desses episódios. Outra interpretação seria a de que essa indígena do poema, a “Morena Penélope”, tenta vender seu trabalho minuciosamente realizado, provavelmente a ínfimos preços, como fazem tantos representantes de diferentes etnias indígenas por todo o território Latino-americano.
O que realmente fica claro, é que a condição de tecelã é fundamental para a estruturação do poema. A conotação que adquire a mulher é impassível e
65 Cáceres, “Esclavitud: el comienzo del fin”- artigo digital. Rita Cáceres é professora da Universidade de Costa Rica e coordenadora do projeto “Del Olvido a la Memoria” da UNESCO, um programa educativo para as comunidades afro-descendentes da América Central.
“ghandiana”, já que, como o líder indiano, ela também é uma representação da não-violência, da não submissão, e da resistência homérica. Também homérico, helênico, é o epíteto que se lhe imprime: “Morena Penélope”. Semelhante à grega que tecia enormes mantos à espera de Ulisses, nossa Cakchiquel tece não só para esperar o amado, mas também como uma forma de liberação. É a própria tessitura do poema.
Na segunda e última estrofe outros símbolos concorrem para o estabelecimento do ambiente:
Silente compañera que tejiste
los cabellos del amado bajo la luna que aullando
quisieron atrapar los viejos lobos. Vientre preñado que abortó rubios hijos de conquistadores.
Sabemos então o que realiza a tejedora: tece os cabelos do seu próprio amado. Como na voz indígena dos poemas miskitos comentados no início deste sub-capítulo, a recriação dessa voz nos revela que o companheiro não é esperado, mais tecido no imaginário. E o local dessa atividade não poderia ser outro: sob a luz tênue de uma lua também feminina, cercada por lobos, animais simbolicamente lunares, que anunciam ao mesmo tempo perigo e intuição.
Os últimos versos desse emblemático poema nos remetem a outro fato histórico: as mulheres indígenas, que muitas vezes sofreram abusos por parte dos conquistadores e geraram filhos frutos da violência e do horror. Por outro lado, os abortos e a utilização de meios de contracepção foram o resultado da repulsa por engendrar filhos que seriam escravizados pelo dominador, elemento
também retomado por Gioconda Belli em seus poemas e romances. Em “Nicaragua agua fuego”, publicado pela primeira vez em De la costilla de Eva (1986) e posteriormente na antologia El ojo de la mujer (2005:221), percebe-se a imagem da mulher violada:
[...] venas de índios repiten historia: No queremos hijos que sean esclavos flores salen de ataúdes
nadie muere en Nicaragua
Nicaragua mi amor mi muchachita violada levantándose la falda
caminando detrás del asesino siguiéndolo montaña abajo montaña arriba
No romance La mujer habitada, a voz da personagem indígena Itzá recria o episódio histórico da negação dos filhos de espanhóis:
Nos negamos a parir.[…] Yo recibí noticias de las mujeres de Taguzgalpa. Habían decidido no acostarse más con sus hombres. No querían parirles esclavos a los españoles. […] no queríamos hijos para las encomiendas, hijos para las construcciones, para los barcos; hijos para morir despedazados por los perros si eran valientes y guerreros. [...]Esa noche lloramos abrazados, conteniendo el deseo de nuestros cuerpos, envueltos en un pesado rebozo de tristeza. Nos negamos la vida, la prolongación, la germinación de las semillas. (1996:159)
Outra contemporânea de Belli é Michèle Najlis66, filha de imigrantes franceses, nascida em Granada, Nicarágua, em 1946. Najlis foi militante ativa na Frente Ventana e no movimento literário de Manágua nos anos 70. Durante a
66No governo sandinista, após a revolução, Michèle foi assessora no Ministério de Educação e diretora de
Cultura da Universidad Centroamericana de Manágua. Foi poseriormente Cadetrática da Universidad
luta sandinista colaborou com revistas e suplementos culturais, ofereceu recitais de poesia individuais e coletivos, proferiu conferências.
Em sua poética encontramos também elementos simbólicos da natureza, como a água e a terra, e, especialmente, a contestação social, o comprometimento político e a possibilidade de transformações. Em “Las viejas tribus están aquí”, Michèle traça um elogio aos antigos povos, habitantes do território nicaragüense pré-colombiano. O poema anuncia, como um arauto iluminado, a volta de deuses, conjuros, magias, atabaques e lendas:
Las viejas tribus están aquí con sus mitos palúdicos,
sus guerreros apoyados en las armas y los ancianos secretamente vigilantes. La leyenda – lejana voz de sueño – Regresa hecha conjuro
Y profundos atabales retumban en las venas Congregando distantes rebeliones.
Apesar de reivindicar o “regresso” das vozes passadas, as tribos não pedem a volta dos homens ao momento passado, e sim que empreguem seus conhecimentos, sua memória, para construir o presente. Percebe-se, na composição poética, uma nova forma de ver a história e sua relação com a atualidade, menos nostálgica e dicotômica:
Las viejas tribus regresan
no como quien llama hacia el pasado, sino como el arma que palpita,
como el jefe que habita en el rebelde,
como la voz conjunta que nos viene desde dentro. (Zamora,1992:262)
O mesmo aspecto é tratado em “Escrito ante una tumba índia”, de Gioconda Belli (2005b:79), onde elementos dos mitos indígenas concorrerem
para a temática que mais tarde aparecerá em La mujer habitada, o renascimento do guerreiro Yarince e o da guerreira Itzá, fio condutor da narrativa:
Puede que estés enterrado en ese túmulo vegetal de cuatro lajas,
puede que estés consumido, reducido a un conjunto de huesos tu cuerpo de guerrero,
cazador de jaguares, hombre ancestral.
A possível presença do corpo do guerreiro enterrado, traz em si a força da memória que o passado pré-colombiano representa e a imagem da mulher atual, que possui os elementos tanto do indígena quanto do conquistador, o crisol onde a mescla dará forma à construção do novo ser nicaragüense:
Puede que estes allí,
que seas nada más que un recuerdo blanco y polvoso, un conjunto de memorias.
Yo te traigo en el tiempo hacia mi nueva reencarnación mestiza
y aúllo de dolor porque te he perdido. Indio salvaje,
me haces señas a través de los siglos, a través de todos los descubrimientos, vuelves a vivir en mis ansias de monte […]
Sabe-se, inclusive, que a voz distante faz-se próxima porque provém de algum tipo inconsciente coletivo67 e transformador. É a mesma voz que fala de dentro de Lavinia, pela consciência de Itzá, em La mujer habitada, de Gioconda Belli e a que leva Melisandra a buscar e construir a terra prometida, em Waslala.
67 O inconsciente coletivo é um conceito empírico e operativo criado por Carl Gustav Jung. O histórico pessoal não basta para explicar determinados processos, problemas e sintomas e seus conteúdos psíquicos; assim, existiriam instâncias psíquicas dependentes mais da humanidade em conjunto que do indivíduo.
Também Daisy Zamora é uma das escritoras de grande importância no cenário literário nicaragüense do século XX. Nasce em 1950, e inicia sua trajetória ainda muito jovem, pois em 1968 começava a participar na “Prensa Literaria”. Em 1978 foi combatente da insurreição popular contra o ditador Somoza e, durante os meses de luta até o triunfo da revolução, foi responsável pela programação da Radio Sandino, órgão clandestino de divulgação guerrilheira. Com o governo sandinista ocupou durante vários anos o cargo de Vice-Ministra de Cultura.
A poética de Zamora apresenta um tom de rebeldia e de jogos verbais, conferindo um matiz diferente a experiências da vida cotidiana, e a temas