A natureza humana é a condição que nos é fornecida a partir de nossa existência no mundo, mas é no contato com o outro que essa natureza vai se modificando. É no contato com o mundo da cultura que os humanos transformam a sua natureza mais enraizada no biológico, buscando o cultural.
A autonomia do sujeito não diz respeito a uma individualidade para si, mas à possibilidade de se superar para se autorrealizar na relação com o outro. Uma educação para a autonomia vislumbra a construir espaços de ruptura com o estabelecido como normalizador, porque autonomia pressupõe a possibilidade do sujeito se auto conduzir, mas na educação ninguém está sozinho. A autonomia pressupõe sempre a relação com o outro.
Aprendizagem não é um fenômeno isolado, ninguém aprende sozinho, pois está sempre mediado pelo mundo e por outros indivíduos. Ou por objetos, artefatos, ideias construídas por outros humanos que se acumulam, transformam e são socializadas para as novas gerações. A educação foi a forma que os humanos encontraram para transmitir, apropriar-se e construir novos conhecimentos considerados por eles necessários. Cada geração assimila a herança cultural dos antepassados e estabelece projetos de mudança. Ou
seja, estamos inseridos no tempo: o presente não se esgota na ação que realiza, mas adquire sentido pelo passado e pelo futuro desejado (ARANHA, 2006).
A autonomia não se dá no isolamento, mas na relação com o outro. Esse outro pode não estar presente materialmente, mas de alguma forma estar sim através de objetos, de ideias. Então, não existe uma autonomia total, absoluta, pois ela ocorre sempre na relação com o outro, o que exige uma posição, pressupõe ação do sujeito para gerir a própria vida, de se colocar no mundo dando rumo à sua dinâmica de vida.
Exige uma postura diante do mundo, de dar direção à sua práxis. Trabalhar a práxis educativa requer uma postura também diferenciada dos educadores e educandos. O educador não ocupa a postura daquele que sabe e os alunos os que não sabem. Educadores e educandos vão cooperando no exercício de compartilhar saberes, de construir uma prática em que todos sejam corresponsáveis pelo processo educativo.
É no exercício da práxis que as pessoas exercitam aprendizagens que exigem a fundamentação nas teorias, reconhecendo que elas em si não bastam, mas que sua riqueza ocorre na relação possível com a prática. A prática e a teoria não coincidem em absoluto, não são lineares, mas uma deve estar ancorada na outra.
As teorias deveriam servir para que possamos fazer com que nossas práticas melhorem e que daí decorra num mundo que seja para todos e todas. Essa é uma utopia que continua nos perseguido. Precisamos de utopia, mas como ideal a ser buscado, sempre buscando uma aproximação entre teoria e prática, mesmo reconhecendo que elas não se encontrarão em absoluto, mas é preciso ter um algo a atingir que não pode ser igual à realidade, caso contrário não tem sentido lutar.
A perspectiva de transformação em função de algo é o que nos mobiliza, nos faz vivos a enfrentar os desafios que pareciam intransponíveis. Aquilo que aparentemente parecia absolutamente impossível num tempo histórico, poder ser absolutamente possível no tempo atual e o impossível da contemporaneidade pode se tornar possível num tempo histórico posterior. Então não existe uma utopia que seja absolutamente impossível de vir a se transformar em concretização, mas aí ela já deixa de ser utopia. A capacidade humana de sonhar não pode ser negligenciada como algo de uma segunda categoria, mas algo a ser cultivado, pois sonhos mobilizam os sujeitos a realizarem o impossível.
O sonho historicamente construído seria o ponto de partida para a mobilização do sujeito a realizar as transformações possíveis em suas vidas. Para isso precisa estar movido
pela esperança ancorada na prática, não na passiva espera. Porque a falta de esperança tenciona como algo imobilizador do sujeito que não acredita na capacidade de transformação. A ideologia fatalista, imobilizante, que anima o discurso neoliberal anda solta no mundo. Com ares de pós-modernidade, insiste em convencer-nos de que nada podemos contra a realidade social que, que de histórica e cultural, passa a ser ou a virar “quase natural” (Freire, 1996, p.19) Um educador sem esperança pode imobilizar a capacidade criadora e transformadora de seus educandos.
Reconhecer o humano como um ser aberto à transformação sócio-histórica é reconhecer a possibilidade de ocorrer transformações permanentes, num movimento contínuo durante toda a existência humana. E essas transformações são decorrentes de influências, inclusive de ideias, de pensamentos, de sonhos que já vêm sendo tecidos mesmo antes de nossa própria existência material.
[...] é o homem como sujeito histórico real, que no processo social de produção e reprodução cria a base e a superestrutura, forma a realidade social como totalidade de relações sociais, instituições e ideias; e nessa criação da realidade social objetiva cria ao mesmo tempo a si próprio, como ser histórico e social, dotado de sentido e potencialidades humanas, e realiza o infinito processo da humanização do homem. (KOSIK, 1976, p.51)
O pensamento aparentemente racional é decorrente não do sujeito em si, mas de uma relação de sujeitos que construíram historicamente um conhecimento que vai passando de geração a geração. É a herança cultural que vai sendo construída e deixada para os que virão, inclusive as heranças utópicas, os sonhos de justiça social, de liberdade, de autonomia, de equidade social, de emancipação humana, de respeito à vida e de tantos outros que são enfrentados por aqueles que ousam dizer não ao estabelecido e construir cultura.
A acumulação de invenções humanas anteriores e atuais possibilita avanços que são decorrentes do material cultural historicamente acumulado nas coisas concretas, nas ideias e pensamentos. Isso permite não apenas mudanças nas coisas, mas nas pessoas.