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SINIF ADI CĠNSĠYETĠ

3.4. Veri Toplama Araçları

Como vimos em 2.2.1, a versão atual do modelo modular considera as marcas linguísticas inadequadas para a caracterização dos tipos de discurso. Entretanto, essas marcas são reintegradas ao estudo das propriedades emergentes das sequências discursivas, uma vez que as diferenças perceptíveis entre sequências pertencentes a um mesmo tipo se devem, em grande parte, às diferenças na marcação linguística. Ainda que duas sequências narrativas, por exemplo, apresentem estruturas referenciais e textuais semelhantes, o estudo de sua marcação linguística pode revelar variações de superfície relevantes para a caracterização de cada uma delas.

Para investigar as especificidades linguísticas das sequências discursivas, Filliettaz (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001, p. 340) considera que, “independentemente da categoria tipológica a que pertençam, os segmentos de discurso apresentam efeitos

79 composicionais que especificam as suas propriedades emergentes”41. Buscando contribuições de diferentes estudiosos das propriedades textuais e linguísticas do discurso (BENVENISTE, 1976; DUCROT et al, 1980; JAKOBSON, 1963; ROULET,

et al, 1985; WEINRICH, 1973), Filliettaz observa que uma mesma sequência pode

apresentar uma quantidade maior ou menor de marcas referentes a três categorias de efeitos composicionais: os argumentativos, os autotélicos e os narrativos.

Os efeitos argumentativos se manifestam em sequências que apresentam, no plano linguístico, conectores argumentativos, contra-argumentativos e reformulativos, expressões modais, vocabulário axiológico e verbos flexionados no presente e no futuro do presente. Esses efeitos se manifestam também em sequências, cujos constituintes textuais se ligam por relações discursivas de argumento, contra-argumento, reformulação, clarificação e comentário42.

Já os efeitos autotélicos se manifestam em sequências que apresentam diferentes formas de paralelismos fônicos, lexicais, semânticos, sintáticos e textuais.

Por fim, os efeitos narrativos podem se manifestar em qualquer tipo de sequência e não só nas narrativas e se caracterizam, no plano linguístico, pela presença de organizadores e de conectores temporais e de verbos flexionados no pretérito perfeito, no imperfeito, no mais-que-perfeito e no futuro do pretérito. Esses efeitos se manifestam ainda em sequências, que, no plano relacional, apresentem constituintes textuais ligados por relações discursivas de preparação e de sucessão.

Para ilustrar como os efeitos composicionais especificam as propriedades linguísticas e textuais das sequências, retomo o exemplo da sequência narrativa estudada anteriormente. Essa sequência se caracteriza por manifestar, em maior medida, efeitos argumentativos e, em menor medida, efeitos narrativos.

41 A noção de efeito composicional substitui a de dimensões argumentativa e autotélica da proposta de

Roulet (1991, ver subitem 2.2). A substituição se deve ao problema da ambiguidade do termo dimensão nessa proposta. Nela, o termo designa, ao mesmo tempo, a marcação linguística das sequências e cada um dos sistemas de informações elementares que participam da organização do discurso (dimensão hierárquica, dimensão referencial, etc) (FILLIETTAZ, 1999).

42 O estudo das relações de discurso se faz na forma de organização relacional, que será apresentada

80 No plano linguístico, os efeitos argumentativos se manifestam na frequência de conectores argumentativos e contra-argumentativos (para, além disso, como, mas), de expressões modais (apenas, ainda, nem sequer), de vocabulário axiológico (estranheza,

sorvedouro de dinheiro público) e de verbos flexionados no presente (alegam, há, são)

e na forma passiva analítica (foram celebrados, foi fiscalizada, foi iniciada). Já os efeitos narrativos se manifestam apenas na frequência de verbos flexionados no pretérito perfeito (animaram, aumentou, tornou) e na presença de um verbo flexionado no futuro do pretérito (ligaria).

Para verificar os efeitos argumentativos e narrativos no plano das relações de discurso, é preciso analisar a estrutura hierárquico-relacional dessa sequência, cujo estudo se faz na forma de organização relacional.

Um dos objetivos dessa forma de organização é identificar as relações ilocucionárias e interativas genéricas entre os constituintes da estrutura hierárquica e informações da memória discursiva. A identificação dessas relações se baseia em uma lista reduzida de categorias, as quais são consideradas suficientes para descrever todas as formas de discurso, tanto dialogal como monologal.

As relações ilocucionárias caracterizam as intervenções que constituem as trocas. Essas relações podem ser iniciativas ou reativas, dependendo do lugar da intervenção na estrutura hierárquica. Roulet distingue três categorias genéricas de relações ilocucionárias iniciativas (interrogação, pedido e informação) e duas categorias genéricas de relações ilocucionárias reativas (resposta e ratificação) (ROULET; FILLIETTAZ; GROBET, 2001)43.

As relações interativas, por sua vez, caracterizam os constituintes das intervenções. Na forma de organização relacional, distinguem-se oito categorias genéricas de relações interativas: argumento, contra-argumento, reformulação, topicalização, sucessão, preparação, comentário e clarificação. O estabelecimento das categorias genéricas de relações interativas se justifica pelo fato de que, ao produzir intervenções complexas, o locutor pode realizar diferentes manobras linguageiras, tais como introduzir argumentos

43

Diferentemente da teoria dos atos de fala (AUSTIN, 1962; SEARLE, 1965), as relações ilocucionárias iniciativas e reativas no modelo modular não caracterizam atos isolados, mas as intervenções constitutivas das trocas, intervenções que, como costuma acontecer com as sequências discursivas, podem assumir configurações complexas.

81 para reforçar um ponto de vista, rejeitar uma ideia com a apresentação de contra- argumentos, comentar partes de seu texto, reformular idéias, tornando-as mais claras para seu interlocutor, enumerar os sucessivos acontecimentos de uma história, etc (ROULET, 2002, 2006).

As categorias de relações genéricas podem ser explicitadas por marcadores linguísticos, como os conectores e as construções sintáticas. Assim, a relação interativa de contra- argumento pode ser marcada por conectores, como mas, porém, embora, etc. Da mesma forma, a relação ilocucionária de pedido pode ser marcada por uma construção sintática imperativa, e a relação de topicalização pode ser marcada por deslocamentos de segmentos linguísticos para a margem esquerda e por estruturas clivadas44.

A estrutura a seguir constitui o resultado do estudo da forma de organização relacional da sequência narrativa em análise45.

44

Maiores esclarecimentos sobre essa forma de organização podem ser obtidos em Marinho (2002, 2004a, 2006), Cunha (2011, 2012) e Marinho e Cunha (2012).

45 Nessa estrutura, as indicações acerca das relações de discurso – argumento (arg), contra-argumento (c-

a), comentário (com) e preparação (prep) – são inseridas sob os constituintes textuais da estrutura hierárquica. Completo as informações da nota 39, informando que ato = A.

82 Ip (01-02) Em 1998, mineiros...

Ip

Is As (03) que ligaria o norte...

prep com

Is (04-05) Para pavimentar... arg

I Ip (06-09) Nos três, o TCU...

Is

Is arg As (10) Uma estranheza atrás da outra.

arg com

Ip (11-12) Como a obra se tornou... Ip

I (13-14) Hoje, há apenas...

As (15) Outros 27 quilômetros...

Ip I c-a

Ap (16) mas ainda não receberam...

I (17-18) Nos 46 quilômetros restantes...

FIGURA 7 - Estrutura hierárquico-relacional

Nessa estrutura, os efeitos argumentativos se manifestam na presença de relações de discurso argumentativas, contra-argumentativas e comentativas. É interessante observar que as intervenções que expressam a complicação (Is 06-10), a resolução (Ip 11-12) e o

estado final (Ip 13-18) da sequência se articulam por meio de relações de argumento.

Assim, a complicação, informando um conjunto de irregularidades na obra de construção da rodovia, funciona como argumento para o pedido de paralisação dessa obra pelo TCU, o que é informado na resolução. Da mesma forma, a intervenção que expressa a complicação e a resolução funciona como argumento para justificar o estado

83 Os efeitos narrativos, por sua vez, se manifestam somente pela presença de uma relação de preparação, por meio da qual o autor liga o estado inicial (Is 01-05) ao restante da sequência. Nesse sentido, esse episódio, situando o mundo representado no tempo e no espaço, prepara o leitor para as informações expressas nos episódios subsequentes.

Como essa rápida análise permite notar, o estudo dos efeitos composicionais que podem caracterizar, em diferentes graus, as sequências discursivas resulta da combinação de informações da forma de organização sequencial (sobre a definição das sequências discursivas), dos módulos lexical e sintático (sobre as marcas linguísticas) e da forma de organização relacional (sobre as relações de discurso).

Benzer Belgeler