3. BÖLÜM
3.9. Veri Toplama Araçları
Muitos são os pesquisadores sociais que afirmam que a Revolução de 30 foi um marco para a história do Brasil, pois promoveu um movimento de modernização
política do país, ainda que muitas práticas econômicas e políticas continuassem vigentes por muito tempo na sociedade brasileira, mesmo após a chegada de Vargas ao poder69. Pode-se afirmar, no entanto, que, a partir da década de 1930, a preocupação do Estado brasileiro com a classe trabalhadora e com a valorização do trabalho tornou-se mais constante. Uma das primeiras iniciativas do Governo Provisório instalado foi a criação do Ministério da Indústria, do Comércio e do Trabalho, chamado de “Ministério da Revolução”, demonstrando a preocupação que havia tanto com a questão da industrialização, contemplando uma parcela da sociedade de crescente importância: os industriais, como com o problema do operariado.
Essa preocupação com os trabalhadores urbanos não surgiu como um ato de bondade do governo para com a população; a incorporação do tema na agenda política é fruto de experiências de décadas anteriores e da luta que os operários vinham travando por conquistas sociais. Pari passu com a promulgação de leis sociais e a ingerência do Estado no sistema de trabalho, o que, de início, não agradou aos industriais e, em algumas tantas vezes, também, aos trabalhadores, o governo promoveu uma campanha de valorização do trabalho, pela qual disseminou um discurso em que enfatizava o caráter moralizante do mesmo. Trabalho passava a ser sinônimo de obtenção de cidadania.
O trabalho desvinculado da situação de pobreza seria o ideal do homem na aquisição de riqueza e cidadania. A aprovação e a implementação de direitos sociais estariam, desta forma, no cerne de uma ampla política de revalorização do trabalho caracterizada como dimensão essencial da revalorização do homem. O trabalho passaria a ser um direito e um dever; uma tarefa moral e ao mesmo tempo um ato de realização; uma obrigação
69De acordo com Pandolfi e Grynszpan, apesar de concordar que a Revolução de 30 “não provocou alterações substantivas em termos de estruturas de classe, pode-se afirmar que são visíveis as transformações operadas a partir de então no País” (PANDOLFI, Dulce Chaves; GRYNSZPAN, Mario. Da Revolução de 30 ao Golpe de 37: a depuração das elites. Revista de Sociologia e
Política, n. 9, Curitiba, 1997. p. 8).
Também, segundo Werneck Vianna, o processo revolucionário de 1930 “refunda a República, impondo o predomínio da União sobre a federação, das corporações sobre os indivíduos, e a
precedência do Estado sobre a sociedade civil. Para tanto, foi influente o ideário positivista de muitas de suas elites políticas, especialmente as originárias do Rio Grande do Sul, [...], e as provenientes da juventude militar, congregada no Clube 3 de Outubro. São elas, nos primeiros anos da nova ordem, as principais personagens da sua institucionalização, em particular na deposição das oligarquias estaduais das suas posições de mando. São elas, também, a força que leva à frente o impulso da revolução no que se refere ao papel do Estado, passando a entendê-lo como condutor da
modernização, em franco dissídio com o liberalismo de mercado que dominou o cenário da Primeira República” (WERNECK VIANNA, Luiz. O Estado Novo e a “ampliação” autoritária na República. In: CARVALHO, Maria Alice Rezende de. (org.) República no Catete. Rio de Janeiro: Museu da República, 2001, p. 114).
para com a sociedade e o Estado, mas também uma necessidade para o próprio indivíduo encarado como cidadão.70
O esforço levado a termo por órgãos do governo em prol da valorização do trabalho e do trabalhador atingiu também setores da cultura nacional. A música popular era excelente veículo para a divulgação de uma nova moral aliada ao trabalho. Assim, o malandro cede lugar ao trabalhador dedicado ao seu ofício e à família.71
Se, na década de 1930, Wilson Batista idolatrava a malandragem na canção intitulada “Lenço no pescoço”, em 1940, regenerava-se com a canção “O Bonde de São Januário”, afinal de contas, os tempos eram outros e alinhar-se com uma ética do trabalho, assumindo-se enquanto tal, poderia render ao compositor mais benefícios do que ser identificado com a malandragem, ainda mais em tempos de ditadura.
Meu chapéu do lado Tamanco arrastando Lenço no pescoço Navalha no bolso Eu passo gingando Provoco e desafio Eu tenho orgulho Em ser tão vadio Sei que eles falam Deste meu proceder Eu vejo quem trabalha Andar no miserê Eu sou vadio
Porque tive inclinação Eu me lembro, era criança Tirava samba-canção Comigo não
Eu quero ver quem tem razão (Lenço no pescoço)
Quem trabalha É quem tem razão Eu digo
E não tenho medo De errar
Quem trabalha [...]
70 GOMES, Angela de Castro. Ideologia e trabalho no Estado Novo. In: PANDOLFI, Dulce (org).
Repensando o Estado Novo. Rio de Janeiro: FGV, 1999, p. 55.
71 Sobre o assunto ver: VASCONCELLOS, Gilberto. SUZUKI Jr., Matinas. A malandragem e a formação da música popular brasileira. In: FAUSTO, Bóris. (org.). História geral da civilização
brasileira. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1995. Tomo III – O Brasil Republicano. v. 4: Economia e Cultura (1930-1964), p. 501-524.
O Bonde São Januário Leva mais um operário Sou eu
Que vou trabalhar
O Bonde São Januário [...] Antigamente
Eu não tinha juízo Mas hoje
Eu penso melhor No futuro
Graças a Deus Sou feliz Vivo muito bem A boemia Não dá camisa A ninguém Passe bem!
(O bonde de São Januário)
Durante o governo de Getúlio Vargas, devido em grande parte ao desenvolvimento da indústria nacional, a população urbana começou a sofrer maior incremento numérico. Entretanto, até a década de 1940, a maioria dos habitantes do país concentrava-se ainda no meio rural, dedicando-se, portanto ao trabalho na agricultura e pecuária. Isso, em grande medida, fazia com que as relações de trabalho mantivessem, segundo Luca, “padrões herdados da escravidão”, pois a “mão de obra ainda era encarada como algo que deveria ser usado e abusado sem limites”.72
Para aqueles que viviam nas cidades, segundo a doutrina varguista, conforme indica Ferreira, só havia uma forma de alcançar a melhoria na condição social e um lugar como cidadão: o trabalho.
Segundo o projeto trabalhista, diz Angela de Castro Gomes, o trabalhador, embora pobre, era bom e honesto, merecendo por isso o amparo e a proteção do Estado. Como um direito e um dever, por meio do trabalho o operário seria elevado à condição de cidadão, com as garantias das leis trabalhistas. Cidadania e trabalho, portanto, tornaram-se expressões complementares. [...] o desempregado e o subempregado, categorias que não se beneficiavam das leis trabalhistas, estavam à margem dos valores pregados pelos governantes e, logo, dos direitos de cidadania. Participar do mercado de trabalho, assim, era a primeira meta dos indivíduos.73
72 LUCA, Tania Regina de. Indústria e trabalho na História do Brasil. São Paulo: Contexto, 2001, p. 27.
73 FERREIRA, Jorge. Trabalhadores do Brasil: o imaginário popular. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997, p. 31.
O Estado nacional, a partir de 1930, desenvolveu ainda mecanismos de enquadramento para a população urbana a fim de disseminar o valor positivo do trabalho e também de controlar a massa urbana, assim, forjando um pacto com as elites industriais. Uma forma de enquadramento, para o governo, e de obtenção de um papel social, para os trabalhadores, era a carteira de trabalho74. Dessa forma, temos aquilo que Wanderley Guilherme dos Santos denominou de a “cidadania regulada”75.
Só o trabalho podia constituir-se em medida de avaliação do valor social dos indivíduos e, por conseguinte, em critério de justiça social. Só o trabalho podia ser o princípio orientador das ações de um verdadeiro Estado democrático, de um Estado ‘administrador do bem comum’. Desta forma, conforme Severino Sombra sintetiza, o Estado devia ser ‘a expressão política do trabalhador nacional’; devia ser um verdadeiro ‘Estado nacional trabalhista’ que aplicasse a norma: ‘a cada um segundo o valor social do seu trabalho honesto, deverá deixar para seus filhos mais do que recebeu de seus pais’. A ascensão social, principalmente em dimensão geracional, apontava o futuro do homem como intrinsicamente ligado ao trabalho honesto, que devia ser definitivamente despido de seu conteúdo negativo.76
Esse período, que modernizou algumas instituições políticas e econômicas nacionais, deixou um legado social, especialmente nas questões relativas ao trabalho urbano, que somente no final do século começou a ser repensado para a má sorte dos trabalhadores nacionais.