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KURAMSAL AÇIKLAMALAR VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR

3.3 Veri Toplama Araçları

Eggers finalmente conseguira alcançar um dos seus maiores objetivos: compôs

uma ópera e ficou conhecido como compositor de “música erudita” em Porto Alegre –

ainda que o reconhecimento nacional não houvesse chegado. Aproveitou o ensejo e, em 1937, compôs uma opereta chamada A flor da felicidade. A opereta tinha texto de Érico Cramer, radialista e ator que atuava nas rádio-teatros com o pseudônimo de Roberto Lis, pois sua família não concordava com sua profissão. A opereta foi estreada no dia 18 de novembro de 1937, no Teatro São Pedro, como espetáculo beneficente ao Natal do

“Roupeiro dos Pequeninos”. A récita foi repetida no dia seguinte devido à lotação dos

lugares na estreia.307 Uma das canções da opereta, Saudades de Portugal, rendeu grande reconhecimento aos autores, tendo sido editada e gravada em 1950 pela gravadora Elite Special, interpretada por Maria da Luz.

Todos os anúncios e reportagens sobre a opereta na imprensa da época davam amplo destaque para Roberto Eggers. Sem dúvida, a expectativa em relação ao sucesso da opereta deveu-se ao sucesso alcançado pelo autor um ano antes com Farrapos. Obviamente Eggers aproveitou seu auge de reconhecimento como compositor para tentar ficar em cena.

Mas as coisas não aconteceram como esperava. Em 1940, por ocasião das comemorações do bicentenário de Porto Alegre, o cronista João de Souza Ribeiro (no

305 CONTREIRAS RODRIGUES, F. Farrapos. Jornal da Manhã. Porto Alegre, 25 set. 1936. Só foi possível saber que o nome riscado era de Elzner depois de verificar o mesmo exemplar no MCSHJC. 306

CORTE REAL, op. cit., p. 135-136.

mesmo artigo em que declarou que Eggers estava ensaiando O Guarani em português) reclamava da ausência de uma companhia lírica de alto nível como acontecera havia cinco anos, em 1935. Ao reclamar da falta de incentivo à arte local, pergunta: “porque não encenarmos Farrapos novamente?”. 308

O fato é que Farrapos não voltaria a ser encenada. Somente em 1977 foi apresentada em forma de concerto pela OSPA. Foram cantadas algumas árias em recitais de alunos de Eggers309 até os anos 1960 e provavelmente nas rádios quando Eggers trabalhava como maestro. No dia 19 de setembro de 1955, por ocasião da

Semana Farroupilha, a OSPA promoveu um “Concerto Sinfônico de Compositores Rio- grandenses”. Neste concerto, que ocorreu no Teatro São Pedro, sete compositores rio-

grandenses foram homenageados: Murilo Furtado, Radamés Gnattali, Armando Albuquerque, José de Araújo Vianna, Natho Henn, Walter Schultz Portoalegre e Roberto Eggers. No concerto foi distribuído aos presentes, além do programa, um prospecto em que constava uma breve biografia dos compositores e comentários sobre as obras executadas naquele dia. O repertório foi o seguinte: Preludio e Tarantella da ópera Carmela, de Araújo Vianna; Cavatina da ópera Sandro, de Murilo Furtado; Brasiliana nº 1 e nº6, de Radamés Gnattali, todas regidas por Pablo Komlós; Procissão de Nossa Senhora dos Navegantes de Natho Henn e Sinfonia Amazônica e Sinfonia da Paz de Walter Schultz Portoalegre, regidas pelo autor dessas duas últimas obras; ária da ópera Farrapos (Lusitânia, Lusitânia), de Roberto Eggers; Suite Breve, de Armando Albuquerque, regida pelo autor. No programa não constava o regente da obra de Eggers. 310

Anos depois ele diria em uma entrevista que, naquela ocasião, Pablo Komlós regera sua obra por estar ele muito ocupado com afazeres das rádios.311

No ano de 1967 havia planos de se encenar Farrapos no Rio de Janeiro por intermédio de Milton Calasans, o mesmo músico que assinara o ingresso de Eggers no Centro Musical em 1925. Calasans agora morava naquela cidade e sua intenção era promover a apresentação dessa ópera por lá. Em junho daquele ano escreveu a Eggers anunciando uma visita sua a Porto Alegre e contando ao amigo sobre os preparativos:

308RIBEIRO, João de Souza. “Farrapos”. A Nação. Porto Alegre, 30 out. 1940.

309 No recital de Felippo Barani cantando Romanza da saudade no ano de 1963, em Porto Alegre e Pelotas, tendo Eggers o acompanhado ao piano; num concerto lírico em Ijuí e Santo Ângelo, em 1957, Serenata da ópera Farrapos, por Mário Oliveira; em 1943, por Luiz Waldemar Blanck, Serenata de Paulo e por Renaud Jung Lusitânia, Lusitânia num concerto vocal e instrumental de autores brasileiros no Teatro São Pedro (conf. programas de concerto dos eventos - MHVSL).

310

Programa de concerto do evento - MHVSL.

Em minha estadia ai desejo passar uma tarde contigo, para conversarmos sobre FARRAPOS, já que, espero, vê-la encenada aqui no Rio ainda este ano, e estou fazendo força para ver se isso acontece em setembro, ao ensejo do transcurso de mais um aniversário do feito farroupilha.

Os ensaios vão transcorrendo com entusiasmo, porém sem grande persistência, porque nem sempre consigo reunir todos os elementos, já que compromissos outros, ás vezes os afastam, mas o que te posso garantir é que todos estão sinceramente encantados com tua partitura e a estudam com grande animação e carinho, o que me faz prever um êxito retumbante e merecidíssimo. Já fundei até uma Sociedade Coral, para participar do evento e que já estou ensaiando, e a qual dei o nome do saudoso FRANCISCO BRAGA. Reunimo-nos semanalmente na Associação Cristã de Moços às 2as- feiras á noite, e o Coro feminino do 1º está quase sabido. O número de participantes masculinos ainda não é muito numeroso, mas vai melhorar. Além disso conto com inúmeros cantores de outras sociedades que irão colaborar conosco.

Peço-te que providencies fotografias ou desenhos dos cenários e do guarda- roupa da ópera, para eu trazer, afim de começar a providenciar a sua confecção. 312

Não foi possível apurar se aconteceu essa encenação. É bastante provável que não, pois certamente haveria registros da imprensa no acervo. Chama atenção que, pela descrição feita, a sociedade fundada por Calasans era formada por cantores amadores. Mais uma vez Farrapos seria encenada por amadores, caso isso tivesse realmente acontecido.

Em 1971, família, amigos e alunos de Eggers lhe prestaram uma homenagem pela passagem de seus 72 anos. Ney Gastal, jornalista do jornal Correio do Povo, foi entrevistá-lo e saber um pouco sobre sua história. Nessa entrevista Eggers faz um apelo:

“Eu gostaria que essa obra [Farrapos] fosse gravada em disco (...), não quero

nenhuma remuneração. A verdade é que já estou velho e qualquer dia desapareço de cena. E não quero que Farrapos desapareça comigo, acontecendo como aconteceu com as obras de Araújo Vianna. (...) E então todos os anos, no Vinte de Setembro, a obra teria sua encenação, para comemorar a epopéia Farroupilha.313

A gravação aconteceria somente em 1977. Mais uma vez Baldino, que agora morava em Buenos Aires, mas vinha à capital gaúcha com frequência, tomou a iniciativa de trazer Farrapos de volta à cena porto-alegrense. Em parceria com Eggers conseguem, quarenta e um anos depois de sua estreia, que a ópera fosse executada novamente. Desta vez, porém, em forma de concerto.

312 CALASANS, Milton. [Carta] 28 jun. 1967, Rio de Janeiro [para] EGGERS, Roberto, Porto Alegre. 1f. Comunica viagem a Porto Alegre e informa preparativos para encenação de Farrapos no Rio de Janeiro.

As apresentações aconteceram nos dias 22, 24 e 26 de setembro de 1977 no auditório da Assembléia Legislativa do Estado. Foram intérpretes da obra: Vera Campos e Denise Lahude (Eleonora), Betty Böelter e Marta Nóbrega (Dona Maria), Mario Oliveira (Paulo), Franklin Dias (Alano), Luiz Ramirez (Comendador Figueira), Fernando Bertaso (um amigo de Figueira) Amâncio Bica (recitador). Com orquestra e coral da OSPA, foram maestros do coral Hans Rottman e Armando Baraldi; Vicente Taveira e Roberto Eggers, maestros da orquestra; e Emilio Baldino, o coordenador e diretor geral. As apresentações tiveram patrocínio da Assembléia Legislativa do Estado e entrada franca.314

Baldino ao falar sobre essa apresentação ainda mostra reflexos de ideais de 1936:

A finalidade dessa realização é fazer algo nosso, completamente gaúcho. Seria muito mais fácil contratar cantores no exterior, e traze-los para cantar. Mas nossa intenção foi valorizar o elemento daqui, e por isso teremos apenas cantores gaúchos, mesmo que isso tenha exigido mais trabalho e mais empenho de nossa parte.315

Figura 25 - Roberto Eggers regendo Farrapos em 1977 (Correio do Povo, 14 dez. 1980).

A imprensa dedicou algum espaço ao evento, mas obviamente nada que se comparasse à estreia de 1936. Algumas notas no Jornal Zero Hora e duas reportagens sobre autor, intérpretes e organização da apresentação no Jornal Correio do Povo. O que

314 WEYER, op. cit.

315DEPOIS de 41 anos ópera gaúcha “Farrapos” volta com seu criador. Correio do Povo. Porto Alegre, 22 set. 1977.

de melhor aconteceu foi a gravação da obra. Hoje temos, mesmo que com qualidade deficiente, a possibilidade de escutar a composição.

Figura 26 - Capa do LP de Farrapos (DPNH).

Figura 27 - Capa interna do LP de Farrapos (DPNH).

É preciso considerar, no entanto, que Farrapos foi algumas vezes, nos anos que se passaram, vista de forma não tão receptiva. Como vimos, somente em 1977 houve a

oportunidade de escutá-la novamente; fora isso, ficou esquecida. Os comentários de Celso Loureiro Chaves sobre a ópera, citados anteriormente, demonstram evidente desfavor. Até mesmo Corte Real, embora tenha dedicado três páginas à ópera e ao autor

em seu livro “Subsídios para a história da música do Rio Grande do Sul” (considerando-

se o ostracismo do compositor na década de 1980, essas três páginas podem ser consideradas um espaço notável) diz que “não possui ela [Farrapos] a auréola que torna

imperecível determinadas obras de arte”.316

Há que se considerar que foi a primeira obra desse porte do autor. Essa consciência de que não era uma obra magnífica fica clara quando se leem os comentários feitos sobre ela em 1936, ainda que todos salientassem o seu caráter promissor. Penso que Farrapos, além de uma gravação com mais qualidade do que a única hoje existente, mereça ser reexaminada à luz de novas perspectivas musicológicas e culturais.

O que faltou a Eggers, sobretudo, foi continuidade. Por alguma razão, o compositor passou a dedicar a maior parte de seu tempo às rádios gaúchas. Fez muitos arranjos, musicou poemas gauchescos, compôs para programas radiofônicos, e com isso a composição de obras eruditas foi escasseando. Veremos agora como foi a vida de Eggers nesse período e conhecer um pouco da sua produção para as rádios.

Benzer Belgeler