Ao longo de toda sua história o homem percorreu caminhos em nome das mais variadas motivações. Essas movimentações em suas complexidades sempre exprimiram experiências materiais e não-materiais, tendo em vista as ideologias de cada ser, tornando-as de difícil esclarecimento. Atualmente, o Turismo é uma das mobilidades sócio-espaciais que mais vem merecendo discussão.
Afirma-se que o Turismo, reconhecidamente por este termo, surge na Inglaterra no século XIX ligado aos benefícios gerados pela Revolução Industrial, quando as pessoas passam a se deslocar em busca de lazer. Inicialmente, era uma atividade praticada pela aristocracia européia que utilizava o termo faire un tour (dar uma volta) para designar as viagens que faziam, geralmente, dentro do próprio continente (CASTILHO, 1999). Porém, é no século XX e nos primeiros anos do século XXI que o Turismo vem a se consolidar efetivamente, sendo executado em escala global.
O suíço Arthur Haulot acreditava que a origem da palavra Turismo tem alguma relação com a expressão hebraica Tur que aparece na Bíblia com o significado de viagem do reconhecimento (BARRETO, 1997). Oliveira (2003, p.117), fazendo uso do neologismo “turismonumentalidade”, reconhece que as raízes globais do Turismo estão diretamente relacionadas com o campo religioso, indicando que a explicação para isso
“[...] encontra-se na ampliação conceitual da idéia de santuário como um espaço-tempo,
contemporâneo e multifuncional, capaz de projetar a sacralidade e o mito do eterno retorno”.
Embora praticado há bastante tempo, o Turismo só se apresentou inicialmente para uma reduzida parcela da população. Foi considerada por longo período uma atividade exclusiva de países ricos ou das classes abastadas, já que em geral exigia boa
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Em título de curiosidade e complemento: Claval (1999) lembra que Yi-Fu Tuan, no que se trata de fenomenologia, preferia usar o termo abordagem humanista, acreditando que as preocupações humanísticas, em suas abrangências, dão conta de encerrar a questão de possibilitar “voz ao ser”. Tuan, por vez, traz em sua obra Topofilia (1980) um apanhado de casos fenomenológicos que demonstram como diversas culturas exprimem significados dos mais variados aos mais diferentes atributos simbólicos do espaço social.
condição econômica para ser realizado. Anunciado como resposta a uma necessidade de descompressão, resultante da própria dinâmica do sistema industrial, hoje, entretanto, estas viagens têm se tornado cada vez mais acessíveis às classes médias e baixas. As agências de viagem passaram a divulgar o Turismo como um meio para fugir da tensão cotidiana, difundindo-o como um misto de necessidade/status da sociedade contemporânea.
A expansão do Turismo está ligada a diversas conquistas trabalhistas, tais como: aumento do tempo livre, direito às férias remuneradas, crescimento do número de aposentados, maior poder aquisitivo etc. Outro fator que deve ser ressaltado neste sentido é a grande facilidade de locomoção e comunicação propiciada pelos avanços tecnológicos.
O desenvolvimento técnico tem possibilitado o intercâmbio de pessoas e o conhecimento de diversos lugares (SANTOS, 1998), corroborando para uma virtual diluição de fronteiras geográficas e culturais.
Pensar o turismo é, pois, inseri-lo em um processo global em que prevalece a ampla circulação de capitais e mercadorias, indivíduos e idéias e produtos culturais e símbolos e dentro do qual ganham relevo os apelos mercadológicos para a experimentação de novos lugares, sensações e diferenças culturais. Turismo é, sobretudo, fluxos e redes (ALMEIDA, 1998, p.124).
Por ser multifacetado, compreendido como um fenômeno econômico, social, político e cultural dos mais significativos da contemporaneidade, as tentativas de conceituação, definição e delimitação do que seja o Turismo, no entanto, até os dias atuais, não chegaram a um consenso, incrementando divergências entre as áreas do conhecimento científico que se detêm sobre seu estudo, oportunizando múltiplas visões.
Muito estudado por economistas, merecendo destaque como atividade econômica que é, incorporando políticas afins, antes de qualquer tentativa de esclarecimento em termos de conceituação, ressalta-se que, a nosso ver, o Turismo não deveria ser chamado de indústria. Esse fato ocorre pela excessiva ênfase às implicações empresariais e lucrativas desta atividade, desconsiderando-se outras de suas interfaces. As operações de trabalho destas duas atividades divergem em seus manuseios. Quanto ao Turismo, “o que ocorre, na realidade, é uma agregação de valores aos diferenciais turísticos naturais e culturais, e não uma transformação tangível e concreta na matéria- prima original” (BENI, 2006, p. 35), como no caso da indústria.
Segundo a OMT (Organização Mundial do Turismo), um dos órgãos mais representativos em termos de discussão do fenômeno em apreço, o Turismo caracteriza-
se como as atividades realizadas pelas pessoas durante suas viagens e estadas em lugares distintos do seu entorno habitual, por um período de tempo consecutivo inferior a um ano, com fins de ócio, por negócios e outros motivos que não estejam relacionados com o exercício de uma atividade remunerada no lugar visitado.
Por vista, as finalidades prescritas na definição lançada acima acenam à amplitude de possibilidades presentes no Turismo contemporâneo. Ao mesmo tempo em que reconhecemos a importância desta posição para a regulamentação da atividade no mundo, algumas são as confusões conceituais que ainda persistem no momento de colocarmos a teoria em prática. Fatores como: entorno habitual, tempo de deslocamento, remuneração durante a viagem, ainda causam muitas dúvidas e controvérsias.
Novamente, e talvez de forma não tão nítida, a definição de Turismo sugerida pela OMT vai colocar em grande relevo os direcionamentos econômicos desta atividade. Avighi (2000, p.104), por ocasião, vai nos alertar que o olhar unicamente econômico oculta em muito os laços entre o Turismo e a pessoa do turista, “reduz o imaginário da viagem e artefatos culturais [...], oculta a imaginação e a cultura do turista, o que o turista é, ou poderia ser”.
Insatisfeito com a definição da OMT no que toca a não caracterização do Turismo enquanto um fenômeno sócio-espacial, Machado (2007, p.73) propõe uma definição de Turismo que julga mais adequada com as bases geográficas de atuação deste fenômeno na organização dos espaços:
O turismo é um fenômeno de caráter socioespacial que consiste no deslocamento espacial, temporário e voluntário, realizado de forma individual ou coletiva que apresenta como fator motivador fundamental a alteridade, alcançada na busca pela satisfação pessoal, podendo esta ser motivada pelo lazer, recreação, descanso, cultura e em casos específicos a saúde. Para isso, usufrui-se de uma localidade que apresenta em seus elementos espaciais condições de satisfazer seus desejos pessoais e alcançar a alteridade almejada, não exercendo nenhuma atividade lucrativa, nem remunerada, gerando múltiplas relações nas esferas social, econômica, cultural e ambiental no espaço onde o turismo se insere, seja espaço emissor ou receptivo.
O Turismo vem sendo considerado por muitos governos como a “tábua da salvação” para a economia de seus lugares, uma vez que pode favorecer a criação de empregos, tanto diretos, quanto indiretos (embora muitos desses sejam sazonais e informais). Muitas cidades têm apostado na “turistificação”16 de seus espaços. Todavia,
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Em termos de análise científica, Knafou (1986, p.70-71) expressa que há três fontes de “turistificação” dos espaços, que são: os turistas, o mercado e os planejadores e promotores territoriais. “Ignorá-las ou se esquecer de uma das três, expõe-nos a erros estratégicos e a decepções”.
ressalta-se que a geração de renda no Turismo não pode ser tida como sinônimo de distribuição de riquezas. A esse respeito, Castilho (1999, p. 34) enfatiza:
[...] a história mundial mostra claramente que o desenvolvimento sócio- espacial não se deu de forma homogênea em todos os lugares ao mesmo tempo, o que se deve ao fato de que a lógica de desenvolvimento (capitalista) continua muito seletiva, concentradora, segregadora e polarizada, privilegiando apenas alguns territórios e alguns grupos sociais e deixando muitos outros alijados dos seus benefícios.
Não podemos deixar de mencionar ainda os impactos negativos provocados pelo Turismo no meio ambiente, já que este representa, em parte, sua matéria-prima. Num momento em que se fala a todo instante em crescimento econômico, mesmo sendo este um assunto de muita complexidade, julgamos necessário que os órgãos que lidam direta ou indiretamente com o Turismo devem pensar o planejamento desta atividade da forma mais adequada possível, requerendo-se ainda muitas reflexões a esse respeito. Desse modo, acreditamos que os problemas ambientais creditados ao Turismo ocorrem, principalmente, pela falta de políticas públicas e privadas compromissadas com a realidade social, com a sábia utilização do espaço.
Diante de seu crescimento, admitindo novas descobertas espaciais e (re)definindo a realidade geográfica de lugares, paisagens, territórios e regiões, o Turismo vem fomentando um amplo campo de investigações geográficas, refletindo discussões que podem contribuir para um melhor planejamento e uso dos espaços turísticos. Rodrigues (2001, p.22) complementa este nosso raciocínio afirmando que o Turismo “[...] é um importante tema que deve ser tratado no âmbito de um quadro interativo de disciplinas de domínio conexo, em que o enfoque geográfico é de fundamental importância”.
O Turismo tem uma dimensão espacial que precisa ser investigada. O espaço turístico, entendido como a “[...] porção do espaço geográfico cuja produção está sendo determinada por uma participação mais significativa do turismo em relação a outras atividades” (CRUZ, 1998, p. 33), deve se fazer identificado pelos geógrafos. Barros (1998, p.8), assim, explica:
O centro de interesses da Geografia pelo Turismo, de uma forma geral, está nas formas, nas dinâmicas e nas representações das paisagens derivadas do exercício das atividades turísticas e nas diferenciações areais ou regionais, que estimulam a atividade turística, ou que se criam, por conta da função turística. A evolução do pensamento geográfico vai denunciar uma ciência que sempre esteve tecendo preocupações acerca das singularidades espaciais. Deste feito, pode-se
dizer que, mesmo de forma principiante, lançam-se por esses momentos as primeiras nuanças para o estudo geográfico do Turismo (ASSIS, 2003). A busca pelo conhecimento de novos espaços, ainda na época dos viajantes, é indicada como um dos importantes elos entre Geografia e Turismo.
As primeiras relações da Geografia com o Turismo se respaldam nas práticas das viagens e no interesse pelo conhecimento de novos lugares. As viagens são práticas geográficas clássicas que estão no cerne dos estudos das diferenças espaciais existentes na superfície terrestre. Os precursores dessa proto- Geografia são os “viajantes” que, através dos seus relatos e compêndios de curiosidades sobre lugares exóticos, instigaram os Estados a incentivarem as expedições científicas para a catalogação sistemática de dados e informações sobre os continentes e os países descobertos (ASSIS, 2003, p.108).
O autor citado acima cumpre ainda a tarefa de esclarecer que os viajantes aos quais se refere não estavam preocupados em formular os princípios da disciplina Geografia e que tampouco podemos comparar as suas “viagens de descobertas” com o que hoje entendemos como viagens turísticas. Salienta ainda que, até o final do século XVIII, não se podia falar da Geografia como ciência, com seu objeto, princípios e métodos definidos e particularizados; o que existia eram conhecimentos geográficos dispersos, principalmente, de práticas e relatos de viagens. A sistematização do conhecimento geográfico só ocorre no início do século XIX.
Durante muito tempo, a agricultura e a indústria foram as principais atividades econômicas responsáveis pela (re)organização do espaço geográfico, entendido como
“um conjunto indissociável, solidário e também contraditório, de sistemas de objetos e
ações” (SANTOS, 1997, p. 51). Grande parte dos estudos geográficos, até meados dos anos de 1970, privilegiou, no Brasil, os estudos do campo e, especialmente, da cidade. O terciário (no qual se insere o Turismo), por longo período, foi considerado um setor de pouca relevância econômica que não merecia a atenção científica. O Turismo, de certa forma, foi então preterido pela Geografia, só ganhando maior expressão em termos analíticos a partir das duas últimas décadas. Atualmente nota-se um crescimento desses estudos.
A geografia passa a se interessar pelo turismo quando percebe neste um novo modelo de deslocamento, motivado por fatores alheios ao cotidiano habitual, que eram os principais motivadores das viagens. Além disso, a geografia passa a se interessar pelas importantes repercussões que o turismo gera no espaço onde o mesmo se insere. Estas repercussões, destacadas como efeitos multiplicadores do turismo, envolvem a esfera econômica, mas também a social, cultural, política e ambiental (MACHADO, 2007, p. 73).
Tradicionalmente, os estudos geográficos do Turismo se detêm pelos serviços e distribuição da infra-estrutura turística, sobressaindo-se os aspectos desempenhados pela oferta dos lugares, seguido das atrações paisagísticas. A ampliação de possibilidades investigativas veio amadurecendo com a própria evolução disciplinar da Geografia. Hoje, por exemplo, já existem trabalhos de geógrafos que seguem uma abordagem humanística, fazendo, muitas das vezes, uso do método fenomenológico no trato do espaço envolvido pelo Turismo em seus estudos de caso.
O Turismo vem sendo estudado pela Geografia de diversas maneiras, constituindo um campo de estudo conhecido como Geografia do Turismo17, para designar o ramo da Geografia que se ocupa da análise do fenômeno turístico no espaço (RODRIGUES, 1997). Dado o processo de reformulação teórico-metodológica da Geografia e pelas aplicações que investe nos lugares, o Turismo vem ganhando destaque crescente no conhecimento geográfico.
Faz-se necessário, no entanto, distinguirmos Geografia do Turismo do que se denomina Geografia turística. A primeira estaria focada sobre uma reflexão geográfica do Turismo nas suas múltiplas dimensões espaciais, enquanto a última estaria preocupada em simplesmente repassar informações descritivas dos lugares, sem exprimir quaisquer preocupações analíticas sobre as realidades interferidas pela atividade turística.
Ao consultarmos a clássica obra “Geografia do Turismo: fluxos e regiões no
mercado de viagens” de Douglas G. Pearce, lançada em 1987, atualizada na seqüência e
traduzida em diversos idiomas, tida como uma grande referência na área de estudos posta, onde o autor apresenta uma gama de modelos espaciais de análise do Turismo, logo da sua introdução podemos retirar a seguinte consideração:
O turismo é uma atividade que diz respeito essencialmente a pessoas e lugares: a lugares que um grupo de pessoas deixa, visita ou que nele está de passagem; a outro grupo de pessoas, as que tornam possível a viagem, e outras ainda, aquelas com as quais cruzará pelo caminho [..] Em termos geográficos, uma diferença fundamental entre turismo e outras formas de lazer , como aquelas praticadas em casa (por exemplo, ver televisão) ou dentro de um perímetro urbano (por exemplo, freqüentar a piscina do clube local), é o componente viagem (PEARCE, 2003, p.25).
Com efeito, percebemos o destaque que Douglas Pearce remete a dois tipos de espaços em sua conceituação de Turismo: a) o lugar que é deixado; e b) o lugar visitado
17 A expressão Geografia do Turismo aparece pela primeira vez no início do século XX, onde um dos trabalhos mais antigos a realizar esta citação foi escrito por J. Strander, em 1905, na Áustria (RODRIGUES, 1997).
ou que se está de passagem. Assim, “o lugar que se está de passagem” pode não ser indicado como o lugar onde acontecerá a estada, embora seja também visitado, ampliando ainda mais o enredo em nota, pois o próprio caminho percorrido durante a viagem é visto como um espaço envolvido pelo Turismo. Dessa forma:
O mais importante é reconhecer e buscar captar a complexidade do espaço do turismo como campo de investigação da Geografia, concentrando-se o foco de análise nas relações sociais materializadas territorialmente nas zonas de emissão, de deslocamento e de recepção de turistas que resultam no processo de produção e reprodução do espaço (ASSIS, 2003, p. 109).
Em termos nacionais, o ENTBL (Encontro Nacional de Turismo com Base Local) cumpre um importante papel na discussão dos efeitos e transformações que o Turismo exerce na sociedade em suas diversas estâncias, dentre estas a espacial, seguindo uma ótica científica interdisciplinar para tanto. Este é um evento que acontece circulando os Estados federativos do país e que registra uma presença significativa de geógrafos, demarcando um momento de avanço teórico no campo da Geografia do Turismo do Brasil.
A contento, é salutar que a Geografia do Turismo consiga não só fazer render as análises científicas sobre o Turismo, como também possa atingir os próprios espaços turísticos em suas concretizações, obtendo uma validade ainda maior como uma prática social legítima, servindo de suporte a outros campos científicos e a toda sociedade. Para isso, é preciso que os estudos geográficos afins se detenham a estudar as diversas modalidades turísticas.