BÖLÜM 3: YÖNTEM
3.3. VERİ TOPLAMA ARACI
Muito apropriadamente, Beauvoir (1949, vol.1) afirma que, quando crianças, tanto meninos quanto meninas são percebidos como seres indefesos que necessitam do cuidado materno, da atenção, da amamentação e do encontro com o outro. Entretanto, a partir do momento em que a criança percebe a alteridade no espelho, e se identifica fora de si, alienando-se, o próprio meio se encarrega de comandar-lhe a cisão, de mostrar ao homem e à mulher o papel que lhes é atribuído. Para a autora, a Psicanálise tenta destacar que a partir de então a mulher começa a sofrer, porque percebe o falo e ressente-se pelo fato de não possuí- lo, o que a torna submissa àquele que o possui. Beauvoir questiona essa concepção, visto que, a seu ver, essa distinção é uma construção histórica que é perpetrada no seio da sociedade e numa época específica, e não por uma suposta necessidade da mulher de ter um falo, um objeto externado com o qual possa brincar. É a sociedade que lhe inspira perceber a superioridade masculina e a submeter-se às regras sociais de docilidade, de coquetismo, de constrangimento social.
Se para o homem culturalmente reservam-se projetos concretos para a posteridade, sendo por isso necessário tornar seu espírito mais arrojado e destemido, para as mulheres guardam-se valores que a tornam objeto, que não lhe possibilitam a transcendência, que a façam sentir-se completa sempre na relação de dependência com o outro, e não plenamente realizada consigo mesma. Ainda hoje preserva-se a idéia da “solteirona”, que “ficou pra titia” porque ninguém a desejou como parceira e não porque fez uma escolha pessoal; e nessa esteira se diz da mulher mal humorada e ranzinza que assim o é por “falta de homem”, porque é “mal amada”.
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Para Beauvoir, sendo que na fase inicial da vida os dois sexos são tratados igualmente, se essa igualdade continuasse a ser respeitada como condição para a educação de ambos os sexos, com certeza a mulher demonstraria seu potencial para intervir na realidade da mesma forma que o homem.
[...] na mulher há, no início, um conflito entre sua existência autônoma e seu ‘ser outro’; ensinam-lhe que para agradar é preciso procurar agradar, fazer-se objeto; ela deve, portanto, renunciar a sua autonomia. Tratam-na como uma boneca viva e recusam-lhe a liberdade; fecha-se assim um círculo vicioso, pois quanto menos exercer sua liberdade para compreender, apreender e descobrir o mundo que a cerca, menos encontrará nele recursos, menos ousará afirmar-se como sujeito; se a encorajassem, ela poderia manifestar a mesma exuberância viva, a mesma curiosidade, o mesmo espírito de iniciativa, a mesma ousadia que o menino. (1949, p.22)
Se a premissa é a distinção, seria muita hipocrisia da sociedade exigir que a mulher apresente um desempenho superior ao que sua condição lhe permite. Não é possível exigir-lhe um outro tipo de realização, se não é encorajada a fazê-lo. Daí ser mais fácil expiar a culpa social, estigmatizando a mulher com um “complexo de castração” ou com uma suposta inferioridade biológica ou social qualquer.
Não queremos com essa discussão afirmar que a sociedade é um ente abstraído da realidade concreta e que haveria um complô contra a classe feminina, pois como afirma Sartre, são as mulheres “metade vítimas, metade cúmplices, como todo mundo” (apud BEAUVOIR, 1949, vol.1). Ou seja, a condição da mulher também precisa ser desmistificada pela própria mulher e a sua libertação precisa ser conquistada, subtraindo-se da cortina de fumaça ideológica na qual está envolvida. Se a mulher sempre se viu explicada enquanto ser pelo homem, deve começar a tecer as próprias malhas de sua história, deve buscar transcender a imanência que a imobiliza e se solidarizar com as conquistas e avanços de seu grupo social. Porque os grupos oprimidos tendem a buscar força na união, para superar a sua condição de exploração e subordinação, como ocorre com os negros, os proletários, os homossexuais e muito pouco com as mulheres. Não há uma causa que as une em torno do objetivo principal de superação de sua condição enquanto gênero, mas sim manifestações pontuais por causas
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que precisam, na maioria das vezes, da aceitação do restante da sociedade. Saffioti (1976, p.84) constata que:
[...] Na medida em que a mulher foi, em sua expressão, ‘o primeiro ser humano a sofrer a escravidão’, antes mesmo que esta existisse como fundamento de um modo de produção, a mulher carrega o pesado fardo da tradição de subalternidade. O passado se enraizou de tal modo em seu ser que suas condições de vida lhe parecem normais. Se é difícil tornar o trabalhador consciente do mecanismo pelo qual opera a ordem social competitiva, muito mais difícil será conscientizar na mulher sua determinação potenciada. Além do mais, a divisão da sociedade em classes sociais (totalidades parciais apresentando certo grau de autonomia) impede a solidariedade entre a totalidade das mulheres.
Para a autora, a divisão social em classes é mais significativa para a mulher do que sua própria inferioridade social, diante do universo masculino.
[...] Assim, a consciência de classe suplanta a consciência que eventualmente uma categoria de sexo possa alcançar de sua situação. Se as mulheres da classe dominante nunca puderam dominar os homens de sua classe, puderam, por outro lado, dispor concreta e livremente da força de trabalho de homens e mulheres da classe dominada. A solidariedade entre os elementos de uma categoria de sexo subordina-se, pois, à condição de classe de cada um. Mesmo as relações entre os sexos variam em função, pelo menos parcialmente, da classe social a que pertençam os elementos envolvidos. (op.cit., p.85)
Beauvoir questiona inclusive o pretenso “instinto materno” das mulheres, visto que desde tenra idade a menina assume a postura de mãe com as bonecas que lhe são dadas, como lhe é ensinado a fazer. Assume com a boneca, muitas vezes, a mesma atitude assumida por sua mãe, que é quem lhe dispensa cuidados no lar, para consigo. Por isso acalenta, briga, ralha, defende, maltrata, enfim, imita seu alter ego.
É farta a literatura que trata da divisão do trabalho entre os sexos, desde as sociedades primitivas56. O homem sempre foi o indivíduo responsável pela caça, pela guerra e
pela garantia da segurança da tribo, enquanto à mulher cabia cuidar: das crianças, dos velhos, dos animais domésticos, da casa, mas sempre cuidar. A esfera da vida pública foi, assim, constituindo-se como um espaço tipicamente masculino, enquanto à mulher cabia aprender a administrar a economia doméstica, o espaço da vida privada. No período colonial do Brasil,
56 Cf. Heleieth Iara Bongiovani SAFFIOTI (1976), Friedrich ENGELS (1991), Mary Del PRIORE (1997),
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por exemplo, as moças de família passavam grande parte de suas vidas restritas ao ambiente da fazenda, saindo poucas vezes nos dias santos para as missas; nasciam, cresciam, casavam- se e morriam sem conhecer outras distrações, a não ser aprender as prendas e garantir o trabalho doméstico, para onde voltava-se o homem em seus momentos de descanso: o eterno “descanso do guerreiro”57.
Para o mundo ocidental, tradicionalmente, os papéis foram definidos quanto ao sexo e se arraigaram no seio da sociedade e na cultura. Assim que, ao homem, se designa o papel de guerreiro, enquanto a mulher estaria destinada a exercer o papel de mãe.
Esta dicotomia fue en sus remotos orígenes complementaria y estuvo indisolublemente ligada a la conservación de la especie. Com el paso del tiempo, aquella primitiva división del trabajo, basada en la diferenciación sexual, fue orientándose, más que al mantenimiento global de la especie, al de determinada organización social, generando, en su entorno, um sistema de valores que, com todas las matizaciones requeridas, há llegado a nuestros días. (VARGAS, 1991, p.45)
É dessa forma que a atividade do homem se orientou para a esfera da vida pública, enquanto que a mulher ficou reduzida à vida privada. É claro que esta análise simplificadora não pode deixar de considerar aquelas mulheres que rejeitaram essa condição ou que se viram obrigadas a transpor o batente de seu lar e se lançar também em direção a uma atividade laboral remunerada, que na maioria das vezes somava-se às suas tarefas domésticas e duplicava suas funções58.
Mas, de um modo geral, tendo o homem controlado a economia familiar e garantido a sua segurança, este tipo de organização social foi criando uma série de estereótipos, sendo o mais arraigado aquele que identifica
57 Sobre a situação da mulher no Brasil colonial, cf. DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no
Brasil. 1997. Especialmente os seguintes trabalhos: Emanuel ARAÚJO, Mary DEL PRIORE, Ronaldo
VAINFAS, Luciano FIGUEIREDO e Renato Pinto VENÂNCIO.
58 Cabe destacar que os estudos feministas evoluíram para os estudos das questões de gênero, da perspectiva
dicotômica entre as características masculinas e femininas para uma atitude mais relacional, onde tanto homens quanto mulheres podem desempenhar vários papéis na sociedade e não apenas atividades definidas em função de determinadas características que seriam exclusivas de um gênero ou de outro. No nosso entendimento, as relações de gênero são permeadas por relações de poder, de disputas e embates que definem a identidade social do homem e da mulher, e que não podem ser interpretadas por meio de um ponto de vista estanque, engessado e unificador. Ehrenreich (s.d.) destaca que algumas feministas americanas têm substituído a ideologia do feminismo por uma atitude de suspensão das hostilidades.
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todos los valores relacionados con el ejercicio de la fuerza como específicamente masculino. Como colofón se puede señalar que la permanencia en el Ejército, institución que ostenta la delegación legal de la utilización de la fuerza de una nación, há sido uno de los derechos masculinos por excelência. (op.cit., p. 46)