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Vimos que, quando ocorre a colaboração do ouvinte, o falante pode agir de dois modos: (i) de forma positiva ao ouvinte - aceitando a colaboração e a incorporando a seu enunciado; ou (ii) de forma negativa ao ouvinte - refutando a colaboração e concluindo seu turno sem o auxílio. Ao aceitar a colaboração, o falante atua positivamente na manutenção do

contrato pré-estabelecido na conversação, já que preserva sua imagem e ajuda seu interlocutor a fazer o mesmo, pois evita o confronto. Ao negar a colaboração, o falante demonstra que a expressão do ouvinte não era a buscada por ele, assim, evidencia que o ouvinte não está compreendendo o que ele diz, pelo menos não da forma como ele (falante) gostaria. Nesse momento, o falante retoma o tópico para solucionar o problema de compreensão.

Essas atitudes são refletidas nos atos do falante no Move de avaliação ou

feedback. Dessa forma, a aceitação ou não aceitação da colaboração do ouvinte pode ser

observada, em termos de graus de aceitação e graus de negação. Hilgert (2002) propõe uma escala para medir os níveis de aceitação/não aceitação da colaboração pelo falante, que vai desde a repetição dela até o seu desconhecimento, vejamo-la a seguir:

Figura 12 - Graus de aceitação/não aceitação da colaboração

Alto grau de aceitação Não aceitação

●________________________●_________________●____________________●____________________________●_

Repetição > paráfrase > correção > negação > desconhecimento nível 1 nível 2 nível 3 nível 4 nível 5

Fonte: Hilgert (2002).

Assim, o nível maior de aceitação seria a repetição por F1 (falante que produzia o enunciado interrompido) e integração da colaboração feita por F2 (ouvinte que colaborou com alguma expressão linguística que serve para designar aquilo que o F1 quis dizer), como no exemplo (22), a seguir, em que o falante, representado por (L1), aceita a colaboração do ouvinte (L2) por meio da repetição do termo economista:

Ex (22):

L1 – não inclusive eu estava respondendo para você:: colega... o o o:: fato de eu ter escolhido a profissão do do...

L2 – economista...

L1 – economista né?(R)... então realmente:... eu fiz o ginásio estava fazendo o

ginásio...(p. 101)

No segundo nível de aceitação, o L1 retoma, por meio de uma paráfrase, isto é, um enunciado linguístico que reformula o enunciado anterior, mantendo com este uma relação de equivalência, a contribuição de L2 e a integra em seu enunciado, tal como em (23), em que o falante (L1) aceita a colaboração do ouvinte (L2) por meio da reformulação da expressão

Ex (23):

L1 – sei lá estão falando muito nisso viu? Poluição do ar agora é:: L2 – é tema do momento né?

L1 – é a moda mesmo...

L2 – é... é a moda...(p. 102)

O uso de paráfrase, como vemos em (23), ocorre com a finalidade de assegurar a intercompreensão entre os interlocutores. Assim, o uso de tal procedimento foi usado pelo falante como uma forma de precisar a colaboração do ouvinte, o que torna possível a certificação de que os objetivos comunicativos estão sendo atingidos. Ademais, permite observar se a compreensão desejada está sendo aceita, se o falante deve prosseguir ou retomar o tópico que estava sendo discutido; se há ―solidariedade discursiva‖63 entre os interlocutores,

estimulando a produção textual.

Hilgert (1989) caracteriza a paráfrase dependendo de quem parafraseia o enunciado e de quem é a iniciativa deste parafraseamento. Assim, se o falante parafraseia seu próprio enunciado, caracteriza-se uma autoparáfrase; caso o seu ouvinte o faça, tem-se uma heteroparáfrase. As paráfrases ainda podem ser autoiniciadas, se é o próprio falante que toma a iniciativa da reformulação; ou heteroiniciada, se é o ouvinte quem toma a iniciativa de parafrasear o enunciado do falante.

Como estamos tratando as colaborações do ouvinte no turno do falante, em relação ao nível de aceitação dela, vale lembrar que só poderemos observar as heteroparáfrases heteroiniciadas, uma vez que é o falante quem parafraseia quem heteroparafraseia a colaboração, no Move de avaliação ou feedback.

No terceiro nível da escala de aceitação/não aceitação, L2 corrige a denominação dada por L1 e este faz a integração da correção ao seu enunciado. Vejamos uma ocorrência disso em (24), em que o L1 dá sua colaboração, mas L2 a corrige:

Ex (24):

L1 – a... classe não é grande... dos procuradores do Estado com quantos estão agora?

[

L2 – estamos mais ou menos... L1 – uns mil e poucos? L2 – não uns oitocentos

L1 – oitocentos é nem chega a mil

63

Solidariedade discursiva diz respeito à ―estreita colaboração entre os interlocutores‖, no processo de construção de uma unidade conversacional (discursiva) (HILGERT, 1989, p. 310).

[

L2- (é) (p. 103)

A correção ocorre quando o conteúdo formulado é tido como não adequado e, por esse motivo, deve ser substituído por uma nova opção linguística (HILGERT, 1989). Dessa forma, no exemplo anterior, o falante (L2) deixa clara a inadequação da informação dada pelo ouvinte (L1) para colabora uns mil e poucos? Vejamos que a colaboração é uma expressão interrogativa que pode ser interpretada como uma sugestão ao falante. Mesmo assim, L2 corrige a informação dada.

No quarto nível, L1 nega a colaboração de L2, ou seja, a colaboração não é aceita e, nesse nível, temos uma situação de conflito, já que a sugestão do interlocutor é explicitamente refutada. Vejamos um exemplo desse tipo, a seguir:

Ex (25):

L1 – (...) e faz um movimento assim como estivesse caval/cavalgando L2 – ahn (ri)

L1 – e agarra a máquina assim ( ) ((ri)) L2 – queria estar num cavalo

L1 – por quê? analogia... ele está cavalgando né? então ele é o::... o::... L2 – ((ri)) o rei do oeste ahn

L1 – não tem oeste aqui... (ri)

L2 – não tudo bem:: eu sei entendi (p. 103)

E, como último nível de não aceitação, proposto por Hilgert (2008), temos o não reconhecimento da colaboração pelo falante, que a ignora, mesmo estando passando por problemas na formulação de seu enunciado. Vejamos uma ocorrência desse nível, no exemplo (26), em que o ouvinte nota a dificuldade de formulação do falante e tenta colaborar com o seu enunciado, mas essa atitude não é tida em consideração pelo falante, que ignora completamente a colaboração daquele:

Ex (26):

L1 - sei lá... nós estaremos... diferentes né? L2 – oi?

L1 – nós estaremos diferentes assim... posição::... atitudes... L2 – mais estabilizados preferivelmente né?

[

L1 – em esquemas um pouco diferentes... (p. 104)

As ações de aceitação ou não aceitação da colaboração podem ser evidenciadas pela presença ou ausência de um marcador específico. Esses podem ser de afirmação, no caso de aceitação, como no exemplo (27), ou de negação, no caso de não aceitação da colaboração.

Tais marcadores podem não ocorrer, sendo a colaboração integrada diretamente ao turno do L1, como no exemplo (28):

Ex (27):

L2 – mas parece que não vai dar nada porque::... L1 – já...

L2 – já::... ( ) [

L1- expirou o prazo

L2 – é já expirou o prazo mas está havendo ainda eles estão... eles têm uma

esperança (p.107) Ex (28):

L2 – ele joga? L1 – ele joga L2 – ah

L1 – ele gostaria de:: jogar no:: L2 – no dente de leite

L1 – no dente de leite... mas o horário pra mim era ruim... (p. 113)

Com relação à natureza sintático-semântica da colaboração, mais precisamente, a sua integração no contexto sintático do enunciado interrompido, podemos notar uma forte influência do termo que a precede, fazendo com que o segmento colaborador, quase sempre, dê continuidade à estruturação do turno de onde ele foi interrompido, sem que haja necessidade de alguma adequação, como podemos observar no exemplo citado em (28). Mas, algumas vezes, há uma retomada de parte do turno, ou seja, o falante, antes de fazer a incorporação da colaboração, retoma parte do turno, como em (29), quando usa novamente a expressão ele segue os:

Ex (29):

L1 – e:: ele segue os L2 – ahn ahn

L1 – salários dos:: L2 – jogadores

L1 – ele segue os salários dos jogadores... através da:: revista Placar... (p. 106) Em nossa análise, verificamos os níveis de aceitação/não aceitação da colaboração, observando esse dado em relação ao participante que colabora e à recorrência de aceitação ou refutação da colaboração, em cada um desses níveis.

Benzer Belgeler