Os resultados do desempenho dos participantes com relação à variável acurácia evidenciam diferença significativa entre os grupos (teste de Kruskal-Wallis). A acurácia em geral dos monolíngues (96,7%) foi superior à acurácia dos bilíngues (95,7%) e dos multilíngues (92,9%). O teste mostrou que a acurácia foi significativamente diferente entre os grupos de monolíngues e de multilíngues (p = 0,012). Os resultados, em geral, sugerem mais facilidade dos monolíngues em compreender frases quando a interferência é em outra língua; a menor interferência pode estar relacionada com o fato de não compreenderem, no caso, o Hunsrückisch. Dessa forma, os bilíngues e multilíngues têm um custo maior para eliminar essa interferência. Quando excluímos as condições de escuta dicótica bilíngue da análise, a diferença significativa desaparece.
Quanto à acurácia nos dois tipos de frases, canônicas (voz ativa) e não canônicas (voz passiva), os grupos apresentaram maior acurácia na compreensão de frases canônicas, mas a hipótese nula foi confirmada (Teste de Kruskal-Wallis), isto é, não houve diferença significativa entre os grupos. Quando analisamos somente a escuta dicótica bilíngue, encontramos uma diferença significativa (p = 0,008) entre os grupos de monolíngues (98,4%, DP = 3,4%) e multilíngues (92,1%, DP = 7,1%), o que demonstra que os monolíngues tiveram
desempenho superior ao dos outros grupos, sobretudo na compreensão de frases canônicas com interferência bilíngue. Na tabela 4, apresentamos os resultados do desempenho dos participantes na compreensão das frases canônicas.
Tabela 4 – Médias e desvios padrão para tempos de resposta (em milissegundos) e acurácia (em porcentagem) na compreensão de frases canônicas
Sem interferência Escuta dicótica monolíngue com interferência em português Escuta dicótica bilíngue com interferência em português Escuta dicótica bilíngue com interferência em Hunsrückisch
ACC TR ACC TR ACC TR ACC TR
Grupo (DP) (DP) (DP) (DP) (DP) (DP) (DP) (DP) Bilíngue 96,7 2676 93,9 3090 96,5 2969 94,7 3068 (6,8) (479) (10) (484) (7) (428) (8) (560) Monolíngues 98,2 2483 90,4 3062 98,1* 2723 98 2694 (5,3) (216) (11,5) (565) (5,4) (508) (5,5) (436) Multilíngues 99,1 2550 88,6 2945 90,3 2994 93,3 3084 (3,8) (443) (14,7) (443) (8,4) (513) (11,3) (587) Legenda: ACC = acurácia; DP = Desvio padrão; TR = Tempo de resposta; * p = 0,002
Com relação às frases não canônicas (Tabela 5), quando consideramos o resultado de todas as condições, houve uma diferença (p = 0,042) na acurácia entre os grupos monolíngue (96,1%, DP = 4,3%) e multilíngue (92,7%, DP = 56,4%). Isso sugere que o grupo monolíngue foi em geral mais acurado na compreensão de frases não canônicas que o grupo multilíngue e que o grupo bilíngue (94,8%, DP = 6,7%). Novamente, se retirarmos as condições de escuta dicótica bilíngue, a hipótese nula é mantida, não havendo diferença significativa entre os grupos.
Quando comparamos as condições com e sem interferência, verificamos que os participantes tiveram desempenho superior nas condições sem interferência (Tabelas 4 e 5). Nessas condições, todas em português, o desempenho foi comparável entre os grupos, de modo que a hipótese nula foi confirmada. Por outro lado, na acurácia das frases com interferência, a hipótese nula foi rejeitada pelo teste Kruskal-Wallis (p = 0,035). A diferença foi significativa entre monolíngues (95,5%, DP = 5,1%) e multilíngues (90,9%, DP = 6,2%). Quando consideramos a escuta dicótica monolíngue, no entanto, a diferença entre os grupos nos dois tipos de frase desapareceu. Dessa forma, quando os monolíngues escutam frases com
interferência na língua que compreendem, não há diferenças entre o seu desempenho e o dos outros grupos.
Tabela 5 – Médias e desvios padrão para tempos de resposta (em milissegundos) e acurácia (em porcentagem) na compreensão de frases não canônicas
Sem Interferência Escuta dicótica monolíngue com interferência em português Escuta dicótica bilíngue com interferência em português Escuta dicótica bilíngue com interferência em Hunsrückisch
ACC TR ACC TR ACC TR ACC TR
Grupo (DP) (DP) (DP) (DP) (DP) (DP) (DP) (DP) Bilíngues 98 2988 92,5 3104 92,1 3372 89,5 3155 (5,5) (445) (12,7) (422) (11,6) (506) (14,9) (515) Monolíngues 99 2865 97 3119 91,2 2950* 97,2 2992 (3,9) (325) (6,5) (520) (6,3) (487) (6,4) (338) Multilíngues 97,5 2762 95 2998 87,5 2848** 90,8 2848 (6,1) (344) (6,1) (502) (13) (477) (10) (457) Legenda: ACC = acurácia; DP = Desvio padrão; TR = Tempo de resposta; * p = 0,040; ** p = 0,008
Quanto ao tipo de interferência, houve uma diferença significativa entre o desempenho de monolíngues (98,1%, DP = 5,4%) e multilíngues (90,3%, DP = 8,4%) na compreensão de frases canônicas em Hunsrückisch com interferência em português (p = 0,002). Isso demonstra que a interferência em português atrapalhou mais o grupo multilíngue e que na compreensão de frases canônicas em Hunsrückisch eles não foram tão eficientes quanto os bilíngues (96,4%, DP = 7%). No entanto, é importante salientar que os monolíngues responderam sobre a frase em português, ignorando a frase em Hunsrückisch, não sendo necessária a inibição de algo que eles possam compreender, mas sim, a inibição de uma sequência de sons de fala em outra língua. A diferença entre os grupos multilíngue e bilíngue não foi significativa, mas notamos que os bilíngues tiveram melhor acurácia na compreensão de frases canônicas com interferência em português.
Apresentamos abaixo um gráfico que mostra a porcentagem da acurácia dos três grupos nas quatro condições de compreensão de frases canônicas. Além disso, ele revela o desempenho superior dos monolíngues nas condições de escuta dicótica bilíngue. Chama-nos a atenção que na escuta dicótica monolíngue a superioridade é perdida; nesta condição, a diferença entre os grupos não é significativa (Gráfico 3).
Gráfico 3: Acurácia na compreensão de frases canônicas nas quatro condições experimentais (porcentagem)
Legenda: * p = 0,002.
Por outro lado, na compreensão de frases não canônicas, de processamento mais custoso, a dificuldade foi generalizada (Gráfico 4). Não houve diferença significativa entre os grupos, mas novamente os monolíngues tiveram mais acurácia que os outros grupos. Isso sugere que eles apresentam mais precisão na compreensão de frases com interferência.
Gráfico 4: Acurácia na compreensão de frases não canônicas nas quatro condições experimentais (porcentagem)
Os resultados indicam diferenças entre os grupos na acurácia, sobretudo quando as frases são canônicas. As diferenças gerais são principalmente entre monolíngues e
0 20 40 60 80 100 120
Sem interferência Escuta dicótica monolíngue Interferência em Hunsrückisch Interferência em português ACUR ÁCIA (%) Tipo de interferência Monolíngues Bilíngues Multilíngues * 0 20 40 60 80 100 120
Sem interferência Escuta dicótica monolíngue Interferência em Hunsrückisch Interferência em português ACUR ÁCIA (%) Tipo de interferência Monolíngues Bilíngues Multilíngues
multilíngues. Além disso, podemos visualizar as diferenças entre o desempenho dos grupos de bilíngues e multilíngues nas condições de escuta dicótica, que não foram significativas, mas são notáveis. Os multilíngues erraram quase sempre mais que os outros grupos, sobretudo na compreensão de frases canônicas frente à interferência linguística.
Quanto à segunda variável dependente, os resultados de uma ANOVA unifatorial mostram que os grupos tiveram desempenho comparável na média global dos TRs, pois o teste não revelou diferença significativa entre os grupos de monolíngues (2777 ms, DP 279 ms), bilíngues (2979 ms, DP 314 ms) e multilíngues (2842 ms, DP 312 ms), embora os monolíngues tenham sido em geral um pouco mais rápidos. Além disso, as médias dos TRs revelaram que os três grupos foram mais lentos ao compreenderem frases não canônicas e ao compreenderem frases com interferência. Não houve diferença significativa entre os grupos nas médias globais, considerando o tipo de frase e presença ou ausência de interferência.
Se considerarmos somente a escuta dicótica bilíngue, houve diferença significativa entre os grupos (F(3,334), p = 0,043) de monolíngues (2793 ms, DP = 371 ms) e bilíngues (3094 ms, DP = 316 ms), mas não entre monolíngues e multilíngues (2895, DP = 375 ms). Desse modo, os bilíngues demoraram mais com a presença da interferência linguística que os multilíngues. Além disso, bilíngues (3215 ms, DP = 394 ms) foram mais lentos ao compreenderem frases não canônicas que os multilíngues (2984 ms, DP = 424 ms). Uma ANOVA unifatorial revelou diferença significativa entre os grupos (F(4,868), p = 0,016).
Se considerarmos a escuta dicótica monolíngue, em comparação com a escuta dicótica bilíngue, podemos verificar que a média do TRs dos monolíngues foi consideravelmente maior na condição monolíngue (3091 ms, DP = 485 ms). Por isso, aplicamos um Teste-T nos dados dos monolíngues, e a diferença foi significativa (t(16) = 4,943, p = 0,0001). Isso sugere que os monolíngues levaram mais tempo na condição na qual eles compreendiam a interferência, em comparação à condição na qual eles não compreendiam a interferência. O desempenho dos outros grupos foi semelhante nas condições monolíngue e bilíngue.
Ao analisarmos cada condição separadamente, constatamos que os multilíngues foram mais rápidos ao decidirem os agentes das frases não canônicas, que são mais difíceis. Houve uma diferença significativa na escuta dicótica bilíngue, na compreensão de frases não canônicas com interferência em português, entre os grupos de multilíngues e de bilíngues (F(5,932), p = 0,008). Nessa mesma condição, encontramos, além disso, uma diferença significativa entre monolíngues e bilíngues (F(5,932), p = 0,040). Essa diferença reflete a não necessidade de inibição por parte dos monolíngues e o desempenho superior dos multilíngues em comparação com os bilíngues. Com relação às frases não canônicas, apresentamos o
gráfico 5, que mostra as diferenças entre os grupos. Na compreensão das frases canônicas, não houve diferença significativa de nenhuma natureza nos TRs entre os grupos. Por esse motivo, consideramos supérflua a apresentação de um gráfico.
Gráfico 5: Médias dos TRs na compreensão de frases não canônicas nas quatro condições
Legenda: * p = 0,040; ** p = 0,008
Desse modo, os grupos não diferiram significativamente ao responderem sobre as frases não canônicas em português, em todas as três condições. No entanto, quando responderem sobre a frase em Hunsrückisch, com interferência em português, houve diferença significativa entre todos os grupos: os multilíngues foram significativamente mais rápidos, tendência que se confirma em todas as condições com frases não canônicas.
Numa segunda análise, calculamos os efeitos de inibição entre os grupos. Comparamos as médias dos TRs na escuta dicótica monolíngue e as médias dos TRs na compreensão de frases sem interferência. Aplicamos, então, uma ANOVA unifatorial. Não constatamos diferença significativa entre os grupos de monolíngues (378 ms, DP 325 ms), bilíngues (278 ms, DP 216 ms) e multilíngues (304 ms, DP 379 ms). Contudo, podemos verificar que os monolíngues parecem ter sofrido mais com a interferência linguística, devido ao TR mais alto no efeito de inibição.
0 500 1000 1500 2000 2500 3000 3500 4000
Sem interferência Escuta dicótica
monolíngue Interferência emHunsrückisch Interferência emportuguês
RT ( em m s) Tipo de interferência Monolíngues Bilíngues Multilíngues * **