Os padrões e normas aplicados ao reúso de águas ainda são escassos no Brasil. Assim, os projetos e pesquisas desenvolvidos adotam os padrões da OMS ou da USEPA (Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos) que são definidos realmente para este tipo de atividade. Porém, no caso da piscicultura, a USEPA não apresenta padrões a serem seguidos, adotando padrões para outros usos como irrigação, recarga de aqüíferos e usos industriais diversos.
Além disso, pode-se ter como base os padrões do CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente), que classifica os corpos da água de acordo com os usos a que se destinam e no caso são considerados os padrões de qualidade da água referentes às atividades de aqüicultura e de pesca. Há ainda os padrões de qualidade de produtos de pescado da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) do Ministério da Saúde, que também pode ser aplicado para que possa ser analisado o uso dos produtos para consumo humano.
A necessidade de um indicador auxiliar surge da intenção de invalidar os coliformes como indicadores utilizados como critério na qualidade sanitária no reúso na piscicultura. Nesta intenção, Blumenthal et al. (2000 apud BASTOS et al., 2003b) indicam um padrão bem restritivo de qualidade microbiológica no valor de 50 UFC/g para esta atividade. Mas, este critério ainda é questionável porque em ambientes eutrofizados ou fertilizados as bactéria heterotróficas podem se desenvolver sem, entretanto, representar nenhum significado sanitário (EDWARDS, 1992).
2.1.6.1 Padrões segundo a WHO – World Health Organization (OMS)
Os padrões recomendados pela OMS (Organização Mundial da Saúde) são menos restritivos que os limites estabelecidos em países industrializados e são
resultantes de uma avaliação baseada em estudos epidemiológicos de populações expostas (ARAÚJO, 2000).
Algumas diretrizes sanitárias devido ao uso de esgotos sanitários em piscicultura são indicadas pela WHO (1989) tendo em vista os riscos associados à saúde humana, tais como:
• Quantidade menor que 103
CF/100 mL na água no tanque de piscicultura;
• Valores entre 103
e 104 CF/100 mL na água afluente ao tanque de piscicultura; e,
• Ausência de ovos de helmintos (trematóides).
Quanto ao risco da invasão dos músculos dos peixes por bactérias, a WHO (1989) indica que pode acontecer quando a concentração de coliformes é de 104 a 105/100mL.
Em síntese, as diretrizes com relação à qualidade microbiológica no reúso em aqüicultura estão indicadas na tabela 4:
TABELA 4 – Critérios preliminares de qualidade microbiológica para reúso de águas segundo a OMS
Tipo de processo de reúso
Ovosa viáveis de Trematódeos (Média Aritmética do nº de
ovos viáveis por L ou kg)
Coliformes Fecais (Média Geométrica d NMP/100 mL ou
100 g)b
Cultivo de peixes 0 < 104
Cultivo de macrófita aquática 0 < 104 Fonte: Mara; Cairncross, 1989 apud FELIZATTO, 2000, p. 76.
a
Especial atenção deve ser dada aos parasitas Clonorchis, Fascilopsis e Schistosoma, principalmente em áreas endêmicas.
b
Assume-se que haverá redução de uma unidade logarítmica de CF, restando na saída do sistema CF < 1000 NMP/100 mL.
2.1.6.2 Padrões segundo o CONAMA
O CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente) na resolução nº 357, de 17 de março de 2005, define o enquadramento dos corpos de água superficiais dispondo a classificação e as diretrizes ambientais a serem seguidas conforme os usos a que os mesmos se destinam. O objetivo da divisão em classes é garantir o uso da água de melhor qualidade em usos mais nobres e que exista uma garantia da qualidade. As águas doces, que possuem salinidade igual ou inferior a 0,5 ‰, a as águas salinas, com salinidade superior a 30‰, são classificadas em quatro classes, sendo uma especial e as outras enumeradas de 1 a 3. Já para águas salobras, com salinidade entre 0,5 e 30‰, há uma divisão apenas em classe especial e as classes 1 e 2. A tabela 5 indica alguns parâmetros para águas doces com relação às atividades de aqüicultura ou de pesca.
TABELA 5 – Critérios para águas doces recomendados pelo CONAMA.
Destino Tipo Classe Padrões
Aqüicultura e pesca Águas Doces 2 < 1000 CT/100mL* DBO5 a 20ºC ≤ 5 mg/L OD > 5,0 mg/L O2** pH de 6,0 a 9,0 SDT ≤ 500 mg/L*** Nitrogênio amoniacal: 3,7 mg/L N, para pH ≤ 7,5 2,0 mg/L N, para 7,5 < pH ≤ 8,0 1,0 mg/L N, para 8,0 < pH ≤ 8,5 0,5 mg/L N, para pH > 8,5 Pesca amadora Águas Doces 3 Não verificação de efeito tóxico
agudo**** < 4000 CT/100mL* DBO5 a 20ºC ≤ 10 mg/L OD > 4,0 mg/L O2** pH de 6,0 a 9,0 SDT ≤ 500 mg/L Nitrogênio amoniacal: 13,3 mg/L N, para pH ≤ 7,5 5,6 mg/L N, para 7,5 < pH ≤ 8,0 2,2 mg/L N, para 8,0 < pH ≤ 8,5 1,0 mg/L N, para pH > 8,5 Fonte: Adaptado do CONAMA (2005)
* CT – coliformes termotolerantes. E.coli poderá ser determinada em substituição de acordo com limites estabelecidos pelo órgão ambiental competente.
** Em qualquer amostra.
*** SDT – sólidos dissolvidos totais.
**** Comprovado pela realização de ensaio ecotoxicológico padronizado ou outro método cientificamente reconhecido.
2.1.6.3 Padrões segundo o Ministério da Saúde
Como no Brasil não há nenhuma norma que regulamente os padrões a serem seguidos no cultivo de peixes com a utilização de efluentes, alguns estudos se baseiam em critérios microbiológicos associados ao consumo direto do pescado. Desta forma, segundo a portaria nº 451/97 do Ministério da Saúde tinha-se os valores máximos permitidos de 100 NMP/g de coliformes fecais e a ausência de Salmonella em 25 gramas (FELIZATTO, 2000).
Esta portaria foi revogada com a Resolução RDC nº 12, de 02 de janeiro de 2001, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA que apresenta os padrões segundo a tabela 6:
TABELA 6 – Critérios de qualidade para alimentos recomendados pela ANVISA.
Grupo de Alimentos Microrganismo
Tolerância Para Amostra Indicativaa Estafilococus coagulase positiva/g 10 3
Pescado, ovas de peixes, crustáceos e moluscos cefalópodes "in natura", resfriados ou congelados não
consumido cru; Moluscos bivalves "in natura", resfriados
ou congelados, não consumido cru; Carne de rãs
"in natura", refrigerada ou congelada.
Salmonella sp/25g Ausência
Fonte: Adaptado da ANVISA (2001).
a
Amostra indicativa: é a amostra composta por um número de unidades amostrais inferior ao estabelecido em plano amostral constante na legislação específica.