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“Quando se planta a bela canjica a bela canjica se planta é assim se planta é assim! Ai, a bela canjica é assim!”

(A bela Canjica)145

Nesse movimento de ir-e-vir das narrativas, dando conta dos processos formativos e

do que deles se pode depreender para uma ação em arte hoje ― precipuamente nas escolas

mas evidentemente que também fora delas (compreendendo que a educação não se faz num

locus, mas é um contínuo processo) ―, temos que considerar de desafio coletivo como um

princípio para os processos educativos pode ser determinante para o sucesso de uma

(auto)formação. Nesse sentido, a expansão para o interior do estado do Ceará do trabalho que

até então se fazia em Fortaleza não falhou nesse propósito.

Recorrendo às narrativas, temos com a de Regina:

O trabalho no interior foi tipo um desafio pra cada um. Porque a gente nunca tinha feito esse tipo de trabalho, com outras pessoas — sair de alunos pra professor. A gente dizia: Nininha, mas a gente vai conseguir? E ela: claro! Aí as preparações... (Regina Gadelha)146

Na de Deysa:

Acho que foi mais um ensinamento. Pra mim, nossa, foi um aprendizado ― porque aqui era com as crianças. E foi um aprendizado, porque pra cada 40 horas que a gente ia dar, era muito que a gente trabalhava. Teve um crescimento muito legal, como educador, muito grande. Eu viajei praticamente pra todas as regiões, porque eu substituía muita gente. (Deysa di Morais)147

O projeto de expansão dos Corais Infantis para o interior do Ceará, como se pode ver

145 Canção recolhida junto ao grupo de Crateús, quando da expansão dos Corais Infantis para o interior do

Ceará.

146Ciclo reflexivo/31.março.2015. 147Ciclo reflexivo/12.maio.2015.

de documento recolhido da ACIC (um folder do encontro sediado em Limoeiro do

Norte/Região do Vale do Jaguaribe), revisita a própria história do Canto:

“Um Canto em Cada Canto” é a história de um grupo de artistas educadores que queria fazer ouvir o canto das crianças da periferia de Fortaleza. Que queria trazer de volta o sonho, o gosto e o amor pela cultura do povo, expresso no ato simples de fazer música e cantar juntos. Virou um projeto, depois da associação, que conta hoje com 26 artistas educadores neste trabalho e acreditamos que cantar une as pessoas e os pensamentos das pessoas, resgata a alegria de ser brincante e o modo de ser, fazer, cantar e lutar do povo. (ACIC, 1994)

Nesse entretecer se entremeiam, respaldando essa ação, elementos relativos aos

direitos das crianças, mas igualmente ao que pode dar base à ação concreta, ou seja: as

parcerias.

Cantar e brincar é um direito da criança. Queremos por isso que cada canto tenha seu canto. Nesse caminho bonito da alegria temos os parceiros que apoiam: a SECULT, o UNICEF, a Comunidade, o Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Esse canto precisa chegar ao interior para, juntos, formarmos uma grande ciranda... Pensando num jeito de responder ao desafio de fazer com que esse caminho bonito da Arte chegue ao interior do Estado, juntaram-se: UNICEF/AMECE, Associação das 1as

Damas dos Municípios, Fórum dos Dirigentes de Cultura do Estado e os representantes da Associação de Corais Infantis “Um Canto em Cada Canto”. Eram os cantos das crianças que já se escutava, no desejo de fazer ouvir a voz do interior, suas alegrias, pelejas e canções. Como juntar esses cantares das crianças do interior na alegria de um Coral Infantil? (ACIC, 1994)

Questão posta, questão respondida:

FORMANDO ESSA CIRANDA...

Para formar essa grande ciranda, pensou-se juntar as cidades do interior em sete grandes grupos, para uma capacitação inicial de 40h. Cada município enviará para a cidade-sede do seu grupo 3 participantes para o pontapé inicial desse trabalho de formar regentes populares que assumirão, em equipe, o coral do seu lugar. Após a capacitação básica, haverá um acompanhamento desse trabalho, feito pelos regentes do “Um Canto em Cada Canto”. Durante 16h (um sábado e um domingo) os regentes de Fortaleza realimentarão esse trabalho de ideias, sonhos e muita alegria. (idem)

A ciranda, à qual se refere o texto do folder, envolvia, por parte da ACIC, equipes de

três pessoas para cada uma das regiões do Ceará, as quais depois de um grande planejamento

(geral e entre as equipes) desciam

148

simultaneamente para as sete regiões em que se dividiu

o estado a princípio:

148Usava-se o verbo “descer” para a ida das equipes ao interior, tomando como referência a posição geográfica

Figura 1. Parceiros na expansão dos Corais Infantis para o interior e regiões/folder de 1994

Em 1998 a expansão para o interior do estado ampliou-se, tanto em termos de alcance

quanto de parcerias, incluindo o envolvimento dos CREDES

149

― de modo que assim como

em Fortaleza, o trabalho com os Corais Infantis no interior começou a ser realizado em

espaços escolares e não escolares, mas depois centra-se mais na escola como foco do trabalho.

Uma outra característica com a ampliação da expansão foi que não mais em sete, mas

agora em oito regiões o estado era dividido, acrescentando-se às iniciais a região de Crateús.

De uma maneira geral, se eu tiver, a partir de uma recomposição com excertos de documentos

encontrados, uma aproximação do que de fato se deu, foram estas as regiões e os municípios

alcançados pela expansão para o interior:

1.Regĩo Metropolitana: Horizonte, Maracanaú, Queimadas, Pacajus, Maranguape,

Itaitinga, Ocara, Chorozinho;

2.Regĩo do Maci̧o de Baturité: Guaramiranga, Pacoti, Pernambuquinho, Palmácia,

Baturité, Mulungu, Aratuba, Aracoiaba, Capistrano, Itapiúna;

3.Regĩo Vale do Curu/Paraipaba: Itapajé, Paraipaba, Itarema, Pentecoste, São

Gonçalo do Amarante, Itapipoca, Uruburetama, Santana do Acaraú, Massapê, São Luis do

Curu, Sobral;

4.Regĩo do Vale do Jaguaribe: Beberibe, Fortim, Aracati, Icapuí, Itaiçaba, Palhano,

Jaguaruana, Jaguaribe, Russas, Limoeiro do Norte, Morada Nova, Jaguaribara, Jaguaretama,

Pereiro, Tabuleiro do Norte;

5.Regĩo Centro-Sul: Iguatu, Jucás, Cedro, Icó, Quixeré, Quixel̂, Cariús, Várzea

Alegre, Lavras da Mangabeira;

6.Regĩo Sert̃o Central: Senador Pompeu, Milhã, Solonópole, Piquet Carneiro,

Quixadá, Quixeramobim, Solonópole;

7.Regĩo de Crateús: Crateús, Nova Russas, Independência, Parambu, Novo Oriente,

Tauá, Monsenhor Tabosa;

8.Regĩo do Cariri: Crato, Juazeiro do Norte, Jardim, Barbalha, Milagres, Missão

Velha, Brejo Santo, Tarrafas, Pena Forte.

Reiterando, então, o que se vem dizendo sobre o Projeto de expansão para o interior,

este a princípio se chamou “Ciranda de Arte” (1994) e “Ciranda de Arte na Escola” (1998).

Contava-se com o compromisso das prefeituras, entidades ligadas a gestores/as e com as

149CREDES é sigla de Coordenadorias Regionais de Desenvolvimento da Educação, a partir das quais a

Secretaria de Educação do Estado do Ceará atua para a coordenação das escolas da rede pública estadual de educação.

Secretarias de Educação (municipais e estadual) para apoiar as equipes locais, financiando

transporte e alimentação de professores/as e/ou artistas para o município-sede das

capacitações a cada mês, bem como, dentro do processo contínuo de formação, acolhendo

pelo menos uma vez todo o grupo (professores/as e artistas dos municípios circunvizinhos),

garantindo além da alimentação o local para hospedagem ― da qual compartilhava também a

equipe da ACIC. Na segunda fase do trabalho no interior, a partir de 1998, havia já sessenta e

dois (62) municípios envolvidos. De modo que de 1994 a 1999 houve este trabalho “colado”

de capacitação atenta e contínua ao interior do estado.

Para o início dos Corais Infantis, como já dito, planejava-se uma semana de quarenta

(40) horas de capacitação em música e demais formas expressivas para professores/as ou

artistas populares, que deveriam, em cada escola e/ou localidade/comunidade ter uma equipe

de no mínimo duas, mas idealmente de três pessoas trabalhando conjuntamente. A

continuidade do trabalho se fazia com um acompanhamento mensal de dezesseis (16)

horas/aula, em que se monitorava e se retroalimentava as equipes dos municípios que se

reuniam num município-sede diferente a cada encontro, de modo a possibilitar o

compartilhamento de saberes do Canto com os municípios e dos municípios entre si e com o

Canto:

Este trabalho tem como linhas mestras:

- A capacitação direta dos professores (e/ou artistas) que trabalharão com as crianças;

- O acompanhamento mensal desse trabalho, em capacitações de 16 horas/aula; - O trabalho com as várias formas expressivas (literatura/artes plásticas e dramáticas/o brincar e o brinquedo), tendo como principal o trabalho com a música, especificamente o canto coral, considerando ao mesmo tempo o processo e o produto na consecução desta ação. (ACIC, documento digitado, 1998)

Dessas duas pessoas (professores/as da rede pública de ensino ou artistas populares),

pelo menos uma deveria ser afinada, mas ambas deveriam ter afinidade com a infância de

modo a poder conduzir o trabalho, inclusive musical, sem prejuízo para as crianças:

Quanto aos critérios básicos de seleção do pessoal a ser mandado para as capacitações, sugerimos que das 2 (duas) pessoas enviadas por cada escola, pelo menos uma seja minimamente afinada (entoada), e que ambas gostem do trabalho com crianças, com contação de estórias, artes plásticas, brincadeiras, entre outros, a fim de não acontecerem equívocos ou impedimentos quando da formação dos corais infantis nas escolas. (ACIC, documento digitado, 1998)

Manu Kelé, por sua vez, assim se refere ao trabalho, do Canto e da expansão para o

interior:

A experiência do Canto não deixa você, musicalmente falando, uma pessoa “mecânica”, mas uma pessoa que a música penetra na alma, como eu já 'tava falando anteriormente. A música penetra na alma ― você sente, você vive, você faz! É tanto que, essa história de fazer o trabalho no interior ― que assim que eu entrei no

Canto, eu não sabia praticamente nada, eu fui pro interior, trabalhar com as pessoas.

E ali, embora “verde verde”, sem saber praticamente quase nada, dentro da metodologia do Canto eu fui fazendo, fui vivendo, fui aprendendo com aquilo tudo. Então ao mesmo tempo que eu estava participando da formação, eu estava me formando ― eu estava vivendo aquilo! Foi muito importante ― e ainda é. (Manu Kelé)150,

e, dando conta de como os processos de auto, hetero e ecoformação se presentificavam numa

só ação:

Pois é, porque esse fazer era realmente fazer com os professores. Era, por exemplo: ensinar uma canção de roda ― e fazer a roda! E sentir a música! E cantar! E, digamos, separar essa música: dizer a letra, perceber o ritmo da música, cantar a música, sentir a sua melodia ― e aprender a cantar. E isso repetidamente ― fazendo. Cantar trecho por trecho cada parte da melodia. Quando tinha uma segunda voz, todo mundo aprendia as duas vozes ― e depois se fazia as duas vozes cantadas junto, com as pessoas. Era essa a vivência. Os professores iriam trabalhar com os alunos ― e eles viviam a música e depois é que eles iam trabalhar com os alunos. Eles cantavam, eles aprendiam essa música. Isso foi superimportante, porque ao mesmo tempo que a gente estava passando para os professores, a gente estava aprendendo. (Manu Kelé)151.

Aqui vale colocar, na emblemática colocação de Manu, que se vivenciava as

atividades como adultos e no nível complexo de apreensão de um educador ou educadora tudo

o que de modo simples se ia fazer com as crianças. Assim é que do ponto de vista de processo

e de metodologia:

Eu acho que a outra coisa interessante era a interação entre as pessoas, que se criava. Da harmonização. Nos encontros sempre tinha esse espaço da gente se conhecer, de falar, de se tocar, de criar essa harmonia. Porque a música pode ser o caos mas pode ser também harmonia ― a música pode principalmente ser essa história de levar você pra você estar melhor. Eu acho que era isso que a gente procurava ― antes de tudo! Não só com os professores, porque a gente 'tá falando do interior, mas com as crianças ― porque no trabalho do Coral tinha o primeiro momento que era o primeiro momento da gente, de cada um falar: da sua vida, da sua experiência, sei- lá, da casa, de dizer como era que estava, e tudo o mais! Quer dizer, isso era uma coisa que possibilita você estar lá e se sentir à vontade e fazer parte daquele todo, não é?, do que você está fazendo. Não estar distante, mas se sentir à vontade, harmonizado, de ser, fazer parte, de ser integrante. De pertencer! ― essa história do pertencimento.(Manu Kelé)152.

Retornando à narrativa de Regina, temos o aspecto da metodologia sob uma outra

abordagem:

Eles queriam saber por que a gente senta em círculo. As pessoas perguntavam: por

150Entrevista em 19.março.2015. 151Idem.

que a gente senta em círculo? E aí a gente perguntava: como é na sua escola? Como é o seu primeiro dia na escola? Aí elas diziam: não, eu conversei, perguntei o nome dos meninos ― e depois a gente começou a aula! Aí eu disse: mas não precisava de mais alguma coisa? ― O quê, por exemplo? E eu: pelo menos uma brincadeira, uma coisa assim que as crianças despertassem assim de uma hora pra outra e que você pudesse dar uma aula onde as crianças estivessem ali, presentes. Eu disse: o

que a gente faz aqui neste círculo é nos igualar uns aos outros. Por que os índios sentam em círculo? Aí já fui falando essas coisas todas e com o decorrer do tempo, as professoras já chegavam nos próximos encontros e diziam: Regina, pois olha,

ajudou tanto na nossa sala de aula, só esses toques, essas coisinhas pequeninhas que a gente não enxergava. Quer dizer, foi uma coisa que veio, que é como se fosse

assim: bateu uma palma [faz o gesto] e você acordou! Agora a gente 'tá trabalhando

melhor! Tinha escola que não queria que ninguém desarrumasse a sala. No momento

da aula você tinha que entrar, dar a matéria e ir pra casa! Aí depois de tudo isso, alguns fizeram uma reunião pra dizer à diretora como é que estava sendo ― e como que deveria ser na sala de aula. (Regina Gadelha)153

Da narrativa de Ada, temos os desafios postos para um trabalho que envolvia uma

articulação muito bem concertada entre sociedade civil e poder público, nem sempre realizada

a contento:

Agora a grande dificuldade também é porque, por exemplo, este mês vinha uma equipe “x” de tal município ― no outro mês já era outra equipe. Então na minha região 'tava sempre vindo gente nova. (Ada Melo)154,

mas relavitizada diante do contexto maior de compartilhamento de saberes e da reciprocidade

necessária por parte dos sujeitos em um processo de formação:

Mas era assim um pessoal tão interessado em aprender uma coisa ― acho que 'tava adormecido um monte de coisa que a gente acordou! Não era nada, com certeza, que eles não soubessem fazer. Era a maneira como fazer ― e lembrar que podia fazer! (Ada Melo)155

Na narrativa de Marcos Rocha temos de maneira muito nítida o que o trabalho de

expansão proporcionava aos municípios, comunidades e escolas onde chegava ― e a

igualmente grande perda que significa a não continuidade desse tipo de atuação:

gigi: e o interior pra ti, Marcos, o que foi?

marcos: foi maravilhoso! Foi excelente! Taí: foi aquilo ali que se perdeu! Que não

era pra ter parado! A gente chegou a abranger o Ceará inteiro! Um trabalho grandioso ― e aquilo ali 'tava enchendo lugares onde não se tinha acesso à formação musical, mas agora a partir dali as crianças já podiam cantar sem prejuízo pra voz! Porque as professoras não tinham formação nenhuma. E cantavam em qualquer tom! E as crianças ficavam igual ao programa da Xuxa, aos gritos! E aquilo 'tava mudando muito aquela realidade! Apesar da gente da gente não ser um grupo, todos nós, de especialistas, mas todos nós tínhamos uma base sólida de respeito à voz das crianças, à tessitura, essas coisas. Todo mundo tinha um trabalho muito sério em cima disso. E afinados! Todos eram afinados! E isso alcançando todo o Ceará: isso era uma revolução! Além do Coral, a flauta doce, e até criação de instrumentos, outras coisas, mais interessantes. E se perdeu! Isso foi um absurdo! Um absurdo.

153Ciclo reflexivo/31.março.2015. 154Idem.

(Marcos Rocha)156

Ter-se-ia mesmo se perdido? Esta pesquisa certamente não logrará êxito em responder

a essa pergunta, mas há muitos elementos a aprofundar, quando se puder ir ao interior em

busca de compreender os mecanismos pelos quais essa ação se enraizou e que frutos ainda

dela se pode colher.

Elencando, pois, aquilo que foi trazido pelas narrativas, documentos e levantamentos

feitos do trabalho de expansão para o interior do estado do Ceará, tem-se como elementos

para um trabalho com arte, tendo a música como eixo:

- do ponto de vista de trabalho com o grupo de artistas-educadores/as, o desafio como

um elemento metodológico, no sentido de fazer avançar o grupo a partir do compartilhamento

dos saberes de cada um/a na equipe, que deve fazer avançar não só o grupo de educandos/as

como o de educadores/as;

- do ponto de vista da organização das equipes, garantir que a diversidade de saberes

se faça a partir dos diversos níveis de formação e de experiência, estimulando a solidariedade

e a cooperação como princípios do trabalho, tanto entre os Regentes Populares do Canto que

coordenam o processo formativo quanto dos/as que se vão constituindo durante o processo;

- do ponto de vista da formação, ter como estratégia metodológica a vivência de todos

os processos, de modo a estabelecer liames contínuos entre teoria e prática, criando um

círculo virtuoso que retroalimenta de forma criativa o trabalho com as crianças;

- do ponto de vista metodológico, ancorar-se nos três momentos: a amorização, a

música, o brincar/o brinquedo;

- do ponto de vista do desenvolvimento da criança, o respeito às suas singularidades e

especificidades, configurado nos cuidados com a voz, no trabalho com as várias dimensões

expressivas em arte e na seriedade com que se planeja, monitora e avalia todo o processo de

formação no interior.

Quanto a números mais precisos no sentido da quantidade de Corais Infantis ou de

crianças que se conseguiu alcançar a partir desse trabalho, é uma tarefa, quem sabe, para o

doutorado. Isso porque exigiria uma pesquisa muito mais aprofundada e para a qual não

houve recursos, nem de tempo, nem materiais, nem humanos, nesta pesquisa.

A grande questão relativa a fontes ao pesquisar o Canto é que hoje não se tem uma

sede ― e boa parte do material documental da ACIC foi se perdendo ao longo das mudanças

de sede provisórias. O que há hoje está guardado na casa de Ideusa Monteiro, Regente

Popular, que acolhe toda uma memória institucional sem as mínimas condições adequadas

mas num gesto de imensa generosidade proporcionou ao Canto o acolhimento de sua

memória. O que há do acervo do Canto se espalha pelos ĉmodos de sua casinha. Visitando

esse acervo vi que há escritos soltos que apontam desde 100 a 300 Corais Infantis. Fato é que

foram criados e mantidos esses Corais Infantis ― mas aos poucos isso foi, quando da “saída”

do interior, ficando cada vez mais impreciso. Segundo Marcos, uma vez mais:

Eu me lembro de se falar de 2.000 crianças no Ceará inteiro. A gente fez um cálculo, dava aproximadamente 2.000 crianças no Ceará inteiro. Me lembro disso. Me lembro da gente fazer apresentação aqui em Fortaleza com 800 crianças, lá no Parque do Cocó. E esse processo de transportar essas crianças pra esses lugares era perfeito! Era muito bem feito! Era muito cuidadoso, era todo mundo ligado, todo mundo preparado! Tinha regras rígidas pra segurança das crianças! Era muito bem feito, isso aí! Tenho o maior orgulho de ter participado disso! (Marcos Rocha)157

Os números aventados por Marcos dizem respeito ao primeiro período da expansão.

Aprofundando um pouco, vi num documento de 2002 que se chegou a alcançar cerca de

dezesseis mil, trezentas e cinquenta (16.350) crianças no estado todo, com algo em torno de

trezentos (300) corais e cento e oitenta e três (183) municípios nos quais os Corais Infantis

chegaram.

Quaisquer que sejam esses números, no entanto, eles são emblemáticos da difusão do

trabalho para o estado todo. E revelam as inúmeras possibilidades de se trabalhar com a

infância desde uma perspectiva coletiva, no sentido de considerar o sujeito criança a partir do

cuidado, do respeito e do conhecimento necessário para uma intervenção que de fato engendra

um/a professor/a formador/a é estudo e trabalho, processo de criação e ensino de uma arte que

emancipa.

Benzer Belgeler