A prescindir dos prefácios, que variaram sempre segundo as edições, a primeira menção à tradição em Verdade e Método encontra-se logo na introdução. Após esclarecer que a pesquisa que se segue concerne ao problema hermenêutico, o autor considera que a compreensão e interpretação de textos não é só objeto de uma ciência, isto é, de método, mas um aspecto da experiência humana do mundo no seu conjunto. Para expressar o conteúdo que nos é transmitido e que se torna para nós objeto de compreensão, ocasião de se adquirir idéias e conhecer verdades, emprega a palavra Überlieferung:
Na sua origem, o fenômeno hermenêutico não é, de forma alguma, um problema de método. O que importa a ele, em primeiro lugar, não é a estruturação de um conhecimento seguro, que satisfaça aos ideais metodológicos da ciência – embora, sem dúvida, se trate também aqui do conhecimento e da verdade. Ao se compreender a tradição não se
compreende apenas textos, mas também se adquirem juízos e se reconhecem verdades. Mas que conhecimento é esse? Que verdade é essa?105
Também emprega Überlieferung quando quer referir-se aos clássicos do pensamento filosófico que chegaram até nós e constituem um patrimônio histórico.
Explica que a sua pesquisa começa com uma crítica da consciência estética, a qual visa defender a experiência da verdade que se dá no encontro com a arte, contra a teoria estética que se deixa dominar pelo conceito de verdade da ciência. Tal como na experiência da arte, também nas ciências do espírito há que se lidar com verdades que ultrapassam as fronteiras de um método. Nelas, a transmissão histórica (Überlieferung) é objeto de pesquisa, mas também nos fala ela mesma na sua verdade:
Diante da tradição histórica da filosofia, a compreensão se nos depara como uma experiência meditada, que nos deixa distinguir facilmente o que há de aparente no método histórico que paira sobre a pesquisa filosófica e a histórica. (...)
Pode-se considerar uma fraqueza do filosofar atual, que se dedique à interpretação e à compilação de sua tradição clássica, confessando sua própria fraqueza. 106
Voltado para a compreensão como objeto de suas reflexões, Gadamer se guardará de criar dela uma doutrina técnica do compreender, pois tal artificialismo cria uma ilusória sensação de superioridade do produto do método sobre a verdade transmitida (Überlieferung). Além disso, os contextos em que nos situamos vêm chamados, pela primeira vez, tradições (Traditionen):
Se fizermos da compreensão o objeto de nossa reflexão, o objetivo não será uma doutrina artificial da compreensão, como o queria a hermenêutica tradicional da filologia e da teologia. Uma tal doutrina artificial ignoraria que, em face da verdade do que a tradição (Überlieferung) nos diz, o formalismo do saber artificial faz uma falsa reivindicação de superioridade. Se, a seguir, se passar a comprovar o quanto de acontecimento age em toda
compreensão e quão pouco, através da consciência histórica moderna, se
debilitam as tradições (Traditionen) em que nos vemos, não se procurará
105 Gadamer, H.-G. Verdade e Método, p. 31 [1]. 106 Idem, p. 32-33 [2].
com isso, por exemplo, baixar diretrizes para as ciências ou para a prática da vida, mas sim, corrigir uma falsa concepção sobre o que são.107
Ele se propõe manter viva uma forma de inteligência hoje ameaçada de tornar-se obscura e perder-se. Trata-se da permanência escondida daquilo que permanece sob as aparências das rápidas transformações. A lembrança dessa permanência escondida nos vem pela tradição (Überlieferung):
Não só tradição histórica e ordem natural da vida constituem juntas a unidade do mundo no qual, como seres humanos, vivemos; o modo como fazemos experiência uns dos outros, da tradição histórica, das determinações naturais da nossa existência, constitui um verdadeiro universo hermenêutico, no qual não estamos fechados como dentro de uma moldura intranscendível, mas ao qual estamos positivamente abertos. Uma reflexão sobre o que é a verdade nas ciências do espírito não pode deixar de manter-se numa relação viva com aquela tradição cujo alcance e cuja validade ela precisamente reconhece.108
Alerta para o afastamento da linha clássica do pensamento ocidental, a que chama tradição (Tradition), com sua gama de conceitos, por obra da consciência histórica. Afirma que todos fazemos parte de uma tradição histórica (Tradition):
O empenho filosófico de nosso tempo se diferencia da clássica tradição da filosofia pelo fato de não representar nenhuma continuação imediata e ininterrupta dessa última. Por maior que seja a comunhão com sua origem histórica, a filosofia está hoje consciente de seu distanciamento com relação aos seus modelos clássicos. Isso caracteriza-se, sobretudo, na sua relação, alterada, com o conceito. Por mais graves que tenham sido as conseqüências e por mais profundas que tenham sido as transformações do pensamento filosófico ocidental, as quais surgiram nas línguas modernas com a latinização dos conceitos gregos e a uniformização da linguagem conceitual latina, o surgimento da consciência histórica dos últimos séculos significa uma cesura de uma forma ainda mais profunda. Desde então a continuidade da tradição de pensamento do Ocidente vigora apenas e ainda de uma forma fragmentada. Pois perdeu-se a inocência ingênua, com a qual a gente tornava os conceitos da tradição úteis para os próprios pensamentos.109
107 Gadamer, H.-G. Verdade e Método, p. 34 [3]. 108 Idem, p. 25 [4]. Trad. nossa.
Merece atenção a distinção a ser feita entre as expressões aparentemente equivalentes: tradição histórica (geschichtliche Überlieferung) – no sentido de dados historicamente transmitidos, notícias de fatos históricos que chegaram até nós; e tradição histórica (geschichtliche Tradition) – no sentido de contexto em que se vive, o mundo lingüístico do qual se faz parte.