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Na intenção de investigarmos quais os impedimentos e as possibilidades de efetivação da avaliação formativa como regulação da aprendizagem na prática pedagógica dos professores do Ensino Médio de escola pública estadual, buscamos compreender e interpretar o significado da avaliação da aprendizagem a partir da visão dos docentes que atuam no Ensino Médio da rede pública estadual.

Considerando que Heidegger (2006) retém do método fenomenológico a ideia de que é preciso ir às próprias coisas, ir às coisas mesmas (o ser), buscamos

desvelar o significado desse fenômeno e de suas implicações a partir da fala dos professores sobre suas experiências de sala de aula.

Pasqua (1993, p. 08) nos adverte que o desígnio de Heidegger em Ser e

Tempo era se virar para a “questão do ser”, e não ficar apenas no ente, e, assim, atingir o

verdadeiro conhecimento do ser, haja vista que “O seu tratado apenas estuda o comportamento existencial do Dasein para melhor se interrogar sobre a dimensão Existencial, isto é, sobre o ser deste ente que se interroga. O questionamento de Heidegger vai do Dasein ao ser e do ser ao tempo”έ

Daí a necessidade de ouvirmos os professores, seus anseios, suas angústias, suas dificuldades e seus desafios presentes em sua cotidianidade mediana do contexto escolar no qual atuam, buscando compreender o modo como vivenciam o processo de avaliar constantemente seus alunos e de como o entendem.

Heidegger (2006, pέ 74) leciona que a fenomenologia consiste em “[έέέ] deixar e fazer ver por si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo”έ Sendo assim, na concepção do filósofo alemão, o que se mostra em si mesmo é o próprio fenômeno.

Assim, Heidegger (2006, p. 85) instrui que o Dasein tem tendência para compreender o seu próprio ser a partir do ente e que o “[έέέ] ente que temos a tarefa de analisar somos nós mesmos. O ser deste ente é sempre e cada vez mais meu. Em seu ser, isto é, sendo, este ente se relaciona com o seu ser”έ

Nesses termos, o referido autor nos revela que o ser é sempre o ser do ente, visto que o ser nos aparece necessariamente através do prisma do ente implicado no concreto, pois não se concebe o ser independente do ente, e o homem é o único ente que possui essa capacidade de questionar o ser, porque “só o homem existe” (HEIDEGGER, 2006, p. 562).

[...] Dizer que o homem existe não pode, pois, significar que o homem seja algo dado, porque aquilo que o homem tem de específico e que o distingue das coisas é justamente o facto de estar referido a possibilidades e, portanto, de não existir como realidade simplesmente-presente. O termo existência, no caso do homem, deve entender-se no sentido [...] ultrapassar a realidade simplesmente presente na direção da possibilidade (VATTIMO, 1996, p. 25).

Nessa dimensão, Pasqua (1993, p. 23) esclarece que,

Este ente, com o qual se relaciona essencialmente, é o mundo. Portanto, é preciso ter cuidado, se quisermos aceder ao ser do Dasein [...] Trata-se de pôr a descoberto as suas estruturas essenciais, não arbitrárias, que são

determinações do seu ser. Onde é que o Dasein se mostra assim? Na vida quotidiana. E a partir desta que se deve, pois, elaborar a analítica Existencial.

Desse modo, a nossa busca fenomenológica, com base no viés

heideggeriano, dá-se pelo fato de não pretendermos apenas descrever o fenômeno,

ficando só em sua aparência, mas por intencionarmos ir “[έέέ] ao que se mantém velado ou volta novamente a encobrir-se ou ainda só se mostra distorcido” (HEIDEGGER, 2006, p. 75), para, assim, desvelarmos o fenômeno da avaliação da aprendizagem, considerando que, ainda consoante Heidegger, “A presença se determina como ente sempre a partir de uma possibilidade que ela é e, de algum modo, isso também significa que ela se compreende em seu ser. Este é o sentido formal da constituição existencial da presença” (2006, pέ 87)έ

Nesse sentido, indagamos: como se dá a presença do ente professor por intermédio do processo de avaliar os seus alunos mediados pelas dificuldades e possibilidades presentes na cotidianidade mediana vivenciada no contexto da escola pública estadual?

Como já mencionamos no capítulo sobre metodologia, no item intitulado “Trabalho de campo e definição da amostra”, os sujeitos da pesquisa foram docentes do Ensino Médio que atuavam nas quatro diferentes áreas do currículo (Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas), os quais atenderam aos critérios de ser professor efetivo da rede estadual e já atuar no exercício da docência do Ensino Médio há no mínimo três anos.

Partindo desses critérios, realizamos inicialmente o contato com os gestores das escolas estaduais para solicitar autorização para a pesquisa junto aos professores. Em seguida, dirigimo-nos diretamente aos educadores das diversas áreas do Ensino Médio para que participassem da pesquisa. Eles assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido (TCLE) e responderam a um questionário individual apenas para conhecimento do perfil geral dos professores.

A partir das informações coletadas no referido questionário, elaboramos os quadros demonstrativos a seguir, os quais apresentam o quantitativo de professores participantes da pesquisa, com suas respectivas áreas e disciplinas de atuação, bem como o perfil dos docentes pesquisados por área.

Quadro 08 – Demonstrativo do quantitativo de professores do Ensino Médio pesquisados por área/disciplina*

Área Disciplina Quantitativo de professores

pesquisados Linguagens, códigos e suas

tecnologias

Língua Portuguesa 06

Arte 04

Língua Estrangeira 05

Ciências humanas e suas tecnologias História 04 Geografia 03 Filosofia 04 Sociologia 05 Formação Cidadã 05

Ciências da natureza e suas tecnologias

Física 03

Química 04

Biologia 04

Matemática e suas tecnologias Matemática 06

Fonte: Elaborado pela pesquisadora a partir dos dados coletados no questionário (2014).

* Foram pesquisados 24 professores do Ensino Médio das quatro áreas do currículo, entretanto, há docentes que lecionam ou já lecionaram mais de uma disciplina na mesma área de atuação.

A partir desse quadro, verifica-se que foram investigados professores de todas as áreas do currículo do Ensino Médio das escolas estaduais pesquisadas, sem excluir nenhuma disciplina, tendo em vista que nossa intenção não se limitava a uma área específica de modo mais detalhado. Pretendíamos analisar a prática avaliativa de um modo geral dos educadores de Ensino Médio atuantes na rede pública estadual.

Pelos quantitativos demonstrados, percebemos que há professores que atuam ou atuaram em mais de uma disciplina dentro da mesma área, como é o caso da área de Linguagens e Códigos e da área de Ciências Humanas. Mas também evidenciamos que havia docentes que atuavam em mais de uma área, como a situação de alguns profissionais que ministravam aulas na área de Ciências da Natureza e na área de Matemática.

Esse fenômeno, entretanto, atualmente, ocorre com menor incidência do que anteriormente, quando os professores eram lotados em diversas disciplinas da mesma área ou em áreas diferentes, a fim de se suprir a carência de lotação em áreas mais específicas, como a de Ciências da Natureza e Matemática. Atualmente, os docentes, em sua maioria, são lotados nas disciplinas específicas nas quais se licenciaram.

Quadro 09 – Demonstrativo do perfil dos professores pesquisados por área Área Tempo de docência Carga horária de trabalho no estado

Trabalha em outra instituição escolar Formação Total de professores Linguagens, códigos e suas tecnologias 05 anos – 01 06 anos – 01 10 anos – 02 11 anos – 01 15 anos – 01 20h – 01

40h – 05 Sim – 03 Não – 03 Especialização – 06 Mestrado – 0

Doutorado – 0 06

(Continuação)

Área Tempo de docência Carga horária de trabalho no estado

Trabalha em outra instituição escolar Formação Total de professores Ciências humanas e suas tecnologias 10 anos – 01 12 anos – 01 15 anos – 02 18 anos – 01 22 anos – 01 20h – 02

40h – 04 Sim – 03 Não – 03 Especialização – 05 Mestrado – 01

Doutorado – 0 06 Ciências da natureza e suas tecnologias 04 anos – 01 06 anos – 01 07 anos – 01 10 anos – 01 15 anos – 01 21 anos – 01 20h – 02 40h – 04 Sim – 03 Não – 03 Graduação – 02 Especialização – 03 Mestrado – 01 Doutorado – 0 06 Matemática e suas tecnologias 04 anos – 01 05 anos – 01 07 anos – 02 14 anos – 01 21 anos – 01 20h – 0 40h – 06 Sim – 05 Não – 01 Graduação – 02 Especialização – 04 Mestrado – 0 Doutorado – 0 06

Fonte: Elaborado pela pesquisadora a partir dos dados coletados no questionário (2014).

* Foram pesquisados 24 professores do Ensino Médio das quatro áreas do currículo, entretanto, há docentes que lecionam ou já lecionaram mais de uma disciplina na mesma área de atuação.

Observamos que, dos professores participantes da pesquisa, o tempo de docência no Ensino Médio varia entre quatro a vinte e dois anos de experiência, sendo que nove docentes possuem menos de dez anos de atividade docente e quinze professores, ou seja, a maioria, possuem acima de dez anos de magistério. A carga horária de trabalho efetivada pela grande maioria se concentra em 40 horas de trabalho na rede estadual, representada por dezenove professores, com apenas cinco profissionais com 20 horas de trabalho no estado, complementando as demais horas com outras atividades profissionais.

Percebemos ainda que a maioria dos professores pesquisados – quatorze dos vinte e quatro – trabalha em outra instituição de ensino, o que significa possuírem uma sobrecarga de trabalho. Essa situação é justificada por eles pela necessidade de complementarem a renda, tendo em vista a desvalorização profissional da categoria. Assim, os baixos salários levam os docentes ao multiemprego ou até mesmo ao abandono da profissão, como alertam Pimenta e Anastasiou (2010).

Essa carga horária excessiva de trabalho, aliada a outros fatores

intervenientes, justifica o fato de que nenhum professor pesquisado possui pós- -graduação em nível de doutorado. Apesar disso, no entanto, há dois docentes com

mestrado e dezoito com especialização, incidindo uma maior concentração neste nível; apenas quatro professores detêm apenas a graduação. Essa justificativa da falta de tempo em virtude da sobrecarga de trabalho e demais fatores foi revelada pelos próprios profissionais através de seus discursos.

É relevante destacarmos que, durante os contatos com os sujeitos participantes, identificamos um clima de confiança e abertura com a maioria dos professores. Apenas uma professora negou a participação na pesquisa, mediante a justificativa de que era muito tímida e de que não ficaria à vontade com o fato de ser observada em sala de aula. Acreditamos que esse clima favorável foi proporcionado por compormos também o corpo docente da rede pública estadual e fazermos parte desse universo educacional dos professores participantes. Outro aspecto que favoreceu a boa acolhida foi a postura que utilizamos para conduzir as entrevistas por meio do método fenomenológico e da escuta sensível, respeitando a fala dos sujeitos, sem direcioná-los para respostas intencionais, e fazendo os esclarecimentos que julgávamos necessários.

Desse modo, foram realizados os passos metodológicos descritos anteriormente no capítulo sobre metodologia, que foram fundamentais para a coleta e a análise dos dados qualitativos que buscamos compreender e interpretar, os quais serão apresentados adiante.

Benzer Belgeler