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A Terra é formada, aproximadamente, por 77% de água. Deste total, 97,5% do volume é representado por água salgada presente nos mares e oceanos, e apenas 2,5% constitui o volume de água doce. Do montante total de água doce, 68,9% está situado nas calotas polares e geleiras, 29,9% são águas subterrâneas, 0,3% estão nos rios e lagos e 0,9% em outros reservatórios (REBOUÇAS, 2006).

A água é um elemento imprescindível na dinâmica da Terra, pois é responsável direta ou indiretamente por processos naturais e sociais. O desenvolvimento da vida ocorreu na água. Posteriormente, as formas de vida evoluíram nos ambientes terrestres, sem deixarem de necessitar da água para a sobrevivência. Pode-se afirmar que água é vida!

O homem, por sua vez, possui uma necessidade orgânica de água, tendo em vista que cerca de 70% do corpo humano é composto por esta substância, distribuída entre os órgãos. Além disso, a água na forma de recurso hídrico é um elemento essencial para a realização de uma quantidade significativa de atividades sociais (RIBEIRO, 2008).

O desenvolvimento humano foi realizado por meio de processos bastante relacionados à água no tempo, nos territórios e de acordo com os modos de produção vigentes. Na Pré-História, o homem em seu período nômade procurou estar próximo dos corpos hídricos, facilitando o consumo de água, a caça, a pesca e a orientação geográfica.

Com a sendentarização humana na Revolução Neolítica, marcada pelo domínio das práticas da agricultura e da pecuária, os vales dos grandes rios foram progressivamente ocupados, a exemplo do crescente fértil na Mesopotâmia, dando origem às civilizações (REBOUÇAS, 2006). Estes processos se deram no modo de produção primitivo.

Na Idade Antiga, as grandes civilizações passaram a utilizar a água sistematicamente mediante a construção de diques, canais e reservatórios com a função de controlar as cheias dos rios, potencializar a agricultura e a pecuária e garantir o abastecimento das aldeias e das cidades, como novas formas de organização territorial da sociedade. Essas civilizações passaram por períodos de

ascensão e declínio, destacando-se os mesopotâmios, os egípcios, os palestinos, os persas, os fenícios, os gregos e os romanos (BEZERRA, 2002). Esta conjuntura ocorreu nos modos de produção asiático e escravista.

O abastecimento e gestão de águas na Roma Antiga foi um caso emblemático. Durante séculos, a água utilizada na cidade era proveniente de retiradas diretas do rio Tibre, de fontes e de poços. A partir do ano 312 a.C., os romanos iniciaram uma política de construção de aquedutos e reservatórios, resultando no decorrer do tempo em uma vasta rede hidráulica para o abastecimento urbano.

No ano 97 d.C., o Comissário de Águas de Roma, Julius Frontinus VI, aprimorou o modelo de gestão hídrica, designando funções aos agentes do império, tais como inspetores, engenheiros, mensuradores e bombeiros. Além disso, classificou os usos da água em: nomine Caesari, destinadas ao palácio imperial e às edificações controladas diretamente pelo imperador; privatis, direcionadas aos usos particulares através de concessão do imperador e pagamento de taxa; e usus publici, designadas aos prédios públicos, termas, balneários, instalações militares, fontes coletivas e reservas de emergência (CAMPOS, 2001).

Na Idade Média, após a desestruturação do Império Romano do Ocidente, a sociedade europeia foi marcada por um processo de ruralização, culminando com o modo de produção feudal, baseado em uma organização territorial fragmentada em feudos. A água foi utilizada especialmente na agricultura e na pecuária, cuja criação de moinhos hidráulicos para a moagem de grãos se deu ao longo do século X. Do ponto de vista ideológico e cultural, o uso da água para a higiene pessoal foi desestimulado pela Igreja Católica durante grande parte deste período, contribuindo para a proliferação de doenças e pestes.

No decorrer do século XIII, no seio do Renascimento Cultural, os banhos foram incentivados pela medicina como forma de se evitar doenças. Com isso, foi frequente a construção de equipamentos individuais semelhantes às banheiras pelas classes dominantes em suas casas e equipamentos coletivos (termas e saunas) nas cidades para o restante da população. O estabelecimento das primeiras relações entre o uso compartilhado da água e a propagação de enfermidades, fez com que os banhos coletivos fossem paulatinamente condenados.

No final da Idade Média, a produção de excedentes e a ampliação das práticas comerciais impulsionaram o crescimento urbano, de modo que as cidades

passaram a concentrar o dinamismo social, econômico e político, estimulando o surgimento da classe burguesa e do modo de produção capitalista. Isto resultou no aumento da demanda hídrica (SPOSITO, 2005).

Na Idade Moderna, ocorreu o amadurecimento do capitalismo. Em sua fase mercantil-comercial, a partir do século XIV, os processos de colonização foram engendrados principalmente na América, ocasionando o genocídio e escravização das populações autóctones, a exploração de metais preciosos, a produção de gêneros primários, a introdução de trabalho escravo africano e a formação gradual de núcleos rurais e urbanos, que necessitaram de água para as atividades sociais.

Na Europa, a concentração e comercialização das riquezas oriundas das colônias estimularam o desenvolvimento da rede urbana, que com o incremento de novas atividades produtivas e de contingentes populacionais advindos do campo, demandaram maior volume hídrico (CAMPOS, 2001).

Na fase industrial do capitalismo, desde meados do século XVIII, houve uma modificação substancial no uso da água. A revolução industrial impulsionou a produção fabril, a urbanização e a mecanização do campo, tornando a água um insumo produtivo fundamental e gerando uma demanda crescente. Ao mesmo tempo, o crescimento demográfico e as mudanças socioculturais se acentuaram e contribuíram para o aumento do consumo hídrico.

Os problemas relacionados à poluição das águas atingiram patamares mais elevados a datar deste período, haja vista as deficiências nos sistemas de saneamento ambiental das cidades e o crescimento da emissão de efluentes pelas atividades produtivas rurais e urbanas.

Na Idade Contemporânea, delimitada a partir da revolução francesa (1789), se configurou a transição do capitalismo industrial para o monopolista- financeiro. No final do século XIX e no decorrer do século XX, profundas transformações caracterizaram a humanidade, com destaque para o imperialismo, as guerras mundiais, a ordem bipolar, a revolução técnico-científica-informacional, a nova ordem mundial e a globalização.

Na transição do século XX para o XXI, a questão ambiental tomou projeções globais em meio a um novo panorama. A hegemonia capitalista no cerne das crescentes trocas globalizadas tem suscitado uma demanda hídrica e problemas de poluição como nunca visto na história, revelando a importância estratégica da água e a magnitude da sua crise, no mundo e no Brasil.

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