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A criação das Irmandades se dá essencialmente pelo fenômeno da urbanização, sendo que em Minas, temos a presença de diversos grupos étnicos que de alguma forma adotaram as estruturas das irmandades para se inserir na sociedade.

Sua definição segundo Código do Direito Canônico, de 1917 na pesquisa de Salles (2007, p.49) “Can – 707 - § 1º - As associações de fiéis que tenham sido eretas para exercer alguma obra de piedade ou caridade se denominam pias uniões; as quais, se estão constituídas em organismos, chamam-se irmandades.”.

O mesmo pesquisador investiga a estratificação jurídica e étnica da sociedade colonial mineira e a partir disto criou uma periodização para o fenômeno confrarial baseado em quatro etapas:

• 1ª etapa (Entre 1700 a 1720):

Apresenta uma sociedade estratificada nos polos senhor/escravo; o período inicial denota o florescimento das matrizes do Santíssimo (que congregavam os homens brancos) e das capelas do Rosário (que reuniam os escravos); Vila Rica contava com as seguintes irmandades: Nossa Senhora do Rosário do Pilar, Rosário de Santa Efigênia de Antônio Dias (ambas de pretos), Rosário do Alto da Cruz (era de brancos, que dela saíram em 1743, a fim de se fixarem na Capela do Pe. Faria como Rosário dos Brancos) e as do Santíssimo Sacramento das matrizes (estas de brancos). Nessa fase, não havia irmandades de pardos, talvez em razão da sociedade mineira ainda não conhecer o resultado da intensa miscigenação, que a caracterizaria no período subsequente.

• 2ª etapa (Entre 1720 a 1740):

O aparecimento dos pretos forros e pardos e consequentemente o surgimento de novas irmandades (reunindo pretos, crioulos e pardos) que passaram a ocupar os altares laterais das matrizes; A partir da década de 1720 foram criadas irmandades pardas em altares laterais das matrizes do Ouro Preto e de Antônio Dias, localizadas em regiões prestigiadas de Vila Rica. Ao longo do século, porém, observa-se o abandono desses altares, a mudança de algumas irmandades pardas e a ereção de outras na capela de S. José, situada em área mais periférica. Esse movimento das irmandades em direção à capela de S. José tornou-a um polo aglutinador do segmento étnico dos pardos, algo semelhante ao que ocorreu no Hospício dos Pardos do Rio de Janeiro. A irmandade de S. José consistiu na única congregação parda a alçar cruz em capela própria na Vila Rica Setecentista, tornando-se um lócus de sociabilidade. Na expressão de Curt Lange,

a capela era o “centro de expressão do mulatismo religioso em Minas Gerais”. Em seu interior, gestou-se uma identidade étnica contrastiva e defensiva. Em torno da mestiçagem, da nacionalidade americana, da liberdade, das milícias, das artes liberais e dos ofícios mecânicos, os pardos procuraram forjar uma fronteira étnica capaz de diferi-los dos pretos e crioulos; Assim, os oficiais e mesários da irmandade, reunidos em “mesa plena” no consistório, debateram não apenas assuntos concernentes à contratação de obras para a capela, festejos do dia do Santo, realização de eleições, sufrágios das almas dos irmãos, pagamento de capelães, entre outros assuntos comuns a essas congregações religiosas, mas também soluções para problemas sociais e políticos que os afligiam enquanto grupo étnico. No espaço físico da capela (adro, nave, presbítero, sacristia, consistório e corredores laterais), os homens pardos debateram leis sobre as gentes de cor, estabeleceram laços profissionais e de parentesco sanguíneo e ritual, trocaram notícias de acontecimentos da colônia e do reino e redigiram as missivas que enviaram ao Conselho Ultramarino.

• 3ª etapa (Entre 1740 a 1780):

A fragmentação do grupo dos pardos e pretos forros em vários subgrupos e da camada dirigente em, pelo menos, dois subgrupos; a etapa demonstra a criação de inúmeras confrarias (de pretos, crioulos, pardos e brancos), consistindo ainda na fase em que as irmandades abandonaram os altares laterais e se lançaram às construções de suas capelas particulares.

• 4ª etapa (Entre 1780 a 1820):

De decadência econômica e reaglutinação da sociedade em três escalões – senhores, escravos e “camadas intermediárias”; engloba decadência das irmandades, que, abatidas pela perda da pujança econômica, permitiram o refortalecimento das matrizes.

Florêncio José Ferreira Coutinho era irmão na Irmandade de São José dos Bem Casados dos Homens Pardos desde 1770. Esta irmandade foi erigida na Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias16.

16 Sobre a criação da Irmandade de S. José: “Segundo o cônego Raimundo Trindade, a irmandade “[...] instituiu-

se [...] em Vila Rica, aí por 1725, aproximadamente”, quando os homens pardos enviaram uma carta ao vigário da vara, pedindo autorização para erigir a irmandade” (PRECIOSO, 2010, p. 98-99).

A Irmandade de São José contempla por seu padroado o matrimônio, um evento católico e religioso por excelência ligada a uma liturgia consagrada, e aos ofícios de pedreiro e carpinteiro sendo, estes últimos, atividades julgadas na região como “[...] impróprios ao gozo das deferências de um juiz de ofício ou de um louvado” (PRECIOSO, 2010, p.113). Logo, os pardos da irmandade adotaram como tema principal e sua “pregação imagética”, o matrimônio, anexando ao nome da irmandade o título dos “bem casados”. Portanto, utilizou- se de um dos pilares do cristianismo, o matrimônio, para afastar o status dos homens pardos daquela referida irmandade dos “impuros”17, podendo assim obter ascensão social e reconhecimentos dos “sangues puros”, haja vista que como pedreiros e carpinteiros não teriam oportunidade para tal.

Segundo a análise de Caio Boschi (1988), em Minas “[...] não houve aglutinamento de uma só profissão em determinada Irmandade”. Na irmandade de São José encontravam-se oficiais militares e civis, comerciantes, mineiros, fazendeiros, artesãos e outros profissionais. Portanto, a irmandade não tinha restrição profissional para o ingresso de irmãos e absorveu, segundo Boschi (1988), artesões e artistas liberais desenvolvendo um “surto artístico” em Vila Rica. (PRECIOSO, 2010, p.108).

A irmandade aqui referida integrava grande parte de membros, pois os requisitos para ingressar eram apenas:

enviar uma petição ao juiz, que, em mesa com os demais irmãos oficiais, averiguava a “capacidade” do candidato, aceitando ou não o pedido de ingresso. Caso fosse aceito, o “Irmão desta Santa Irmandade” deveria obrigar-se a guardar os estatutos do compromisso e pagar uma oitava e meia de ouro de entrada e uma oitava de anual, “paga no fim do anno”. Para se manter na irmandade era requerido o “bom comportamento, a devoção católica, o pagamento de anuidades e a participação nas cerimônias civis e religiosas”, os benefícios do ingresso era o “direito a enterro decente para si e membros da família, com acompanhamento de irmãos e irmãs de confraria, e sepultura na capela da irmandade (PRECIOSO, 2010, p.124).

Segundo a pesquisa de Marília Andrés Ribeiro (1986) encontrava-se uma maior parcela numérica dos artistas e artífices nas fileiras de confrades, bem como uma relação dos números de ofícios e sujeitos que atuaram na irmandade de São José18. Segundo Curt Lange

17 Na concepção de Raimundo Pessoa, o discurso em desabono do mulato decorria da suspensão do princípio do

partus sequitur ventrem. O autor se refere precisamente aos casos frequentes de filhos de português com

escravas que eram alforriados na pia batismal e não herdavam a condição social da mãe. Nesse sentido, os mimos da figura paterna despendidos à prole ilegítima (alforria e herança, sobretudo) teriam fomentado o discurso desabonador. Desse modo, a ascensão do mulato através do patrocínio paterno era vista como “desonesta” e “injusta”, pois ocorria à revelia das leis e dos costumes. PESSOA, 2007, p. 60 e 211, passim.

18 A pesquisadora arrolou 820 homens e 680 mulheres. Das 403 categorias profissionais encontradas, contaram

230 artesãos, 67 músicos, 44 militares, 30 padres, 17 músicos militares, seis artesãos militares, seis artesãos músicos, um músico padre e um advogado (PAIXÃO, 1986, p.78 apud PRECIOSO, 2010, p. 109).

(1979), “a irmandade reunia confrades que se dedicavam à arte musical, os quais tiveram participação marcante na vida associativa da Confraria, ainda que esta não tivesse estatuto corporativo”.

Portanto, através destas pesquisas apontadas anteriormente, a Irmandade de São José dos Bem Casados contemplava uma intensa atividade musical proporcionando, de certa forma, uma necessidade de manter esta prática fazendo com que os membros mais antigos, como por exemplo, Ignácio Parreira Neves (ca. 1730 - 1794), ensinasse aos novos membros o ofício já por eles interiorizados. Isto é descrito por Harry Lamott Crowl Jr. (1989) quando supõe que Florêncio José Ferreira Coutinho e Francisco Gomes da Rocha foram discípulos de Inácio Parreira Neves, todos membros da referida irmandade. Podemos também transpor esta mesma idéia para o caso de João José de Araújo, possivelmente discípulo de Florêncio José Ferreira Coutinho, tendo em vista que foi o sujeito que depois de um processo após a morte de Florêncio, adquiriu as partituras do falecido.

A Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula foi outra Irmandade em que Florêncio fora membro e na qual ingressou em 1811 com aproximadamente 61 anos de idade, ocupando cargo na mesa da irmandade como sacristão de 1811 a 1812, dado que consta no verso nº 278 do livro da dita irmandade (LANGE, 1979, p.447).

Esta irmandade foi erguida por mulatos no ano de 1780, mas entrou em plena atividade somente em 1800, tendo em vista também que a construção da igreja se deu apenas no início do séc. XIX. O primeiro assento da irmandade foi concedido ao músico Francisco Gomes da Rocha no dia 15 de fevereiro de 1782 junto com Antônio de Castro Lobo.

Partes dos músicos atuantes na Irmandade de São José dos Homens Pardos e Bem Casados migraram para a Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula “sem que saibamos concretamente quais as razões tão poderosas para estar simultaneamente nas duas ou abandonar essa central dos operários e artistas mulatos de Vila Rica” (LANGE, 1979, p.384).

Segundo Curt Lange (1979) os músicos ingressantes na irmandade de São Francisco de Paula tinham idade avançada. Na época de Minas durante o séc. XVIII e XIX, as pessoas viviam por volta de 60 anos, tendo em vista que as doenças eram o principal fator de seu falecimento. Logo, a irmandade aqui estudada teve atividade somente no séc. XIX, época já tardia, e que “dá a impressão de que homens e mulheres procurassem nela proteção no acaso de sua vida” (LANGE, 1979, p.386).

A Irmandade de Santa Cecília, patrona dos músicos, foi a última em que Ferreira Coutinho atuou.

No entanto, as irmandades de Santa Cecília no Brasil, ao que tudo indica, com exceção apenas do Recife, foram criadas já tardiamente, no início do século XIX. Não houve irmandades de Santa Cecília, por exemplo, em Minas Gerais, durante o ciclo do ouro. Este fato não deixa de conter em si uma contradição, já que os músicos atuantes no século XVIII - que talvez tivessem mais a ganhar com tal corporação, dado o maior volume de atividades profissionais – pertenceram a outras irmandades, justamente àquelas que levavam menos em conta os interesses específicos da profissão, já que se configuravam antes como agrupamentos étnicos ou de determinado segmento social (RICCIARDI, 2000, p.102).

Os músicos membros das irmandades de São José dos Homens Pardos ou Bem Casado e Francisco de Paula no início do século XIX tornaram-se membros da Irmandade de Santa Cecília de Vila Rica.

No ano de 1812, em Ouro Preto, Florêncio José Ferreira Coutinho, mestre de música e timbaleiro do Regimento de Cavalaria de Linha, junto com alguns trombetas e soldados músicos pediam ao seu comandante autorização para assinar um pedido para a criação da Irmandade de Santa Cecília (LANGE, 1983, p.253).

Segundo Leoni (2007) tem-se um ofício retirado dos manuscritos do Museu da Inconfidência em Ouro Preto, onde consta que:

Dizem Florêncio José Ferreira Coutinho e outros professores de música desta vila que de comum acordo querem requerer a sua Alteza Real a concessão de uma irmandade de Santa Cecília ereta na matriz do Ouro Preto e como se costuma fazerem funções gratuitas tanto da Igreja como do oratório em prejuízo dos suplicantes bem como os benefícios [...] querem todos assinar um termo perante Vossa Senhoria para não irem a semelhantes funções gratuitas e enterros e outros ajuntamentos de música para o que obtiveram a sua licença (Códice 270, auto 5253, 1º ofício, 1812 – M. Inconfidência, fl.2 apud Leoni, 2007, p. 123).

Em 29 de novembro de 1815, pouco tempo antes de sua morte, Florêncio tornou-se um dos quarenta músicos de Vila Rica filiados à Irmandade de Santa Cecília, com o título de “Professor da Arte da Música” (MONTEIRO, 1997 apud CASTAGNA, 2004, p.7).

A música, juntamente com outras artes como a arquitetura, pintura e artesanato, estavam presentes no cotidiano das cerimônias religiosas servindo também como distinção de qualidade artística entre as diversas irmandades, e por isto criavam-se conjuntos de profissionais de intensa atividade em Vila Rica, que segundo Salles (2007, p.33) “[...] principalmente as ordens terceiras religiosas e irmandades de leigos os maiores aglutinadores (ou, como diríamos moderadamente, patrocinadores) de toda ou quase toda a atividade artística da capitania”.

Os sons ouvidos por toda a capitania eram diversos e variados, sintomáticos do viver em colônia. A prática musical em Minas gerou todo um conjunto de profissionais, organizados em corporações e que se punham a serviço das câmaras municipais e das irmandades (FURTADO, 2008 p. 25).

Florêncio José Ferreira Coutinho trabalhou em irmandades e ordens terceiras locais como vemos nos títulos de várias de suas composições. As irmandades nas quais atuou são descritas por Castagna (2004, p.7):

Florêncio atuou em irmandades e ordens terceiras locais, como a Irmandade de Nossa Senhora das Mercês da Freguesia de Nossa Senhora do Pilar (Mercês de Cima) entre 1791-1792 (LANGE, 1979:324 e 343), a Irmandade de Nossa Senhora das Mercês da Capela do Bom Jesus dos Perdões da Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias (Mercês de Baixo) em 1795 (LANGE, 1981:114), a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos entre 1803-1804 (LANGE, 1979:278-279 e 294) e a Irmandade de Nossa Senhora do Pilar entre 1813-1815, para a qual dirigiu, em duas ocasiões, a música da festividade de Corpus Christi (LANGE, 1979:75 e 99), lá podendo ter executado o Gradual da Missa desse dia existente em seu arquivo.

Vemos que sua atuação enquanto músico permeava todas as camadas sociais e étnicas, como por exemplo na Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos exclusivamente de negros, Irmandade de Nossa Senhora do Pilar exclusivamente de brancos, sendo ele um músico membro de irmandades exclusivamente de pardos. Isto nos exemplifica a atuação de um músico que busca sobrevivência financeira na capitania, bem como status, que segundo Daniel Precioso (2010) para se distanciar cada vez mais “do cativeiro vivenciado ou herdado pelo sangue”. (PRECIOSO, 2010, p.50).

Benzer Belgeler