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Apresentamos um breve relato de algumas pesquisas que se relacionam com o tema Educação Financeira e que transitam no campo de pesquisa da Educação. Essas pesquisas foram encontradas no banco de teses da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), numa busca realizada em junho de 2010, e, novamente, em janeiro de 2012. Para minha surpresa, por se tratar de um assunto que considero de intensa relevância, poucos trabalhos foram achados, sendo a maior parte desses desenvolvidos na região sul do país.

Schneider (2008) tratou da importância dos conteúdos de Matemática Financeira para a vida dos alunos, principalmente no que diz respeito às decisões nas relações de consumo e de planejamento financeiro pessoal. Para esse estudo, o pesquisador utilizou dados obtidos através de questionários aplicados a alunos e professores, de análise de livros didáticos de matemática e de documentos oficiais da Educação Básica, de leituras de pesquisas sobre o tema tratado e de estudos de documentos que registram situações financeiras reais de compras, empréstimos e financiamentos oferecidos em estabelecimentos comerciais e instituições financeiras. Os questionários foram respondidos por 92 alunos da 8ª série do Ensino Fundamental e do 3º ano do Ensino Médio, e por oito professores de matemática, todos de escolas do município de Marau/RS. Schneider

procurou identificar, através do questionário aplicado aos alunos, a importância atribuída por eles aos conhecimentos da Matemática Financeira, os conteúdos que eram lembrados e o quanto participavam das decisões de compra familiar. Em relação às questões submetidas aos professores, o pesquisador obteve informações acerca da sua formação em relação aos conteúdos da Matemática Financeira, a importância atribuída a esses conteúdos e o interesse dos alunos por esse tema.

Fazendo uso de uma abordagem qualitativa, Schneider mostrou que os conhecimentos da Matemática Financeira são importantes para que decisões relacionadas às situações de compra, empréstimos e financiamentos sejam feitas de forma adequada e consciente pelo consumidor. Mostrou, igualmente, que esses conhecimentos também foram considerados importantes pelos alunos e professores participantes da pesquisa, e que os temas relacionados à Matemática Financeira constam nos documentos oficiais da Educação Básica, mas que, apesar disso, o aprendizado não se mostrou efetivo e esses conteúdos estão sendo tratados de forma superficial pelas escolas e pelos livros didáticos. De acordo com os seus dados, os conteúdos ensinados nas escolas estão distantes da realidade dos alunos e, por isso, não oferecem o embasamento necessário para que eles lidem de forma consciente e crítica com situações financeiras reais. Para ele, esses conteúdos deveriam ser abordados de forma contextualizada e relacionada com situações da vida real. Segundo Schneider (2008), sua pesquisa contribui com a educação, já que está

alertando sobre o importante papel da escola na preparação dos alunos para a vida no seu contexto social e econômico, como cidadãos consumidores mais conscientes, capazes não só de controlar seus gastos, mas, também, de planejar seu futuro, sabendo administrar melhor seus recursos financeiros (p. 90).

Marcus Stephanie (2004) analisou os efeitos que um projeto de Educação Financeira realizado de forma interdisciplinar promoveu na construção da autonomia de alguns de seus participantes. Esse Projeto, realizado na cidade de Ivoti, Rio Grande do Sul, e implementado em horário extraclasse, com alunos do 2º ano do Ensino Médio voluntários, era desenvolvido por um grupo interdisciplinar de professores de Matemática, Ética, História, Geografia e Informática. Nesse projeto, tendo a Educação Financeira como um elo entre essas várias áreas do conhecimento, os professores também abordavam assuntos relacionados ao planejamento financeiro pessoal e ao consumo consciente e tinham como objetivo

criar condições para que os estudantes, independente da idade, possam refletir a respeito da responsabilidade de cada um no planejamento e

administração econômica, aprendendo a dar importância ao hábito de economizar, gerando consciência de investimentos em qualidade de vida (STEPHANIE, 2004, p. 37).

Stephanie analisou entrevistas que foram realizadas com quatro estudantes e procurou extrair dessas entrevistas as ideias, impressões e representações desses alunos acerca do Projeto, identificando suas contribuições para a construção da autonomia desses alunos. O pesquisador se fundamentou em aspectos da Educação Matemática Crítica, segundo Ole Skovsmose (2001), na Pedagogia da Autonomia delineada por Paulo Freire (2003), em assuntos relacionados à Educação e à Emancipação segundo Theodor W. Adorno (2000), e na proposta de Interdisciplinaridade segundo Heloísa Lück (2002), Ângela B. Kleiman (2003) e Danilo R. Streck (2005), dentre outros.

Sua investigação mostrou que a abordagem interdisciplinar, as discussões e a análise de situações reais que foram adotados nesse projeto contribuíram positivamente para que os estudantes se tornassem mais críticos e autônomos, não somente em relação às suas escolhas financeiras, mas também, de uma forma mais ampla, em relação às suas vidas profissionais e pessoais.

Em sua pesquisa, Kern (2009) promoveu uma reflexão acerca da responsabilidade da escola na preparação dos alunos para lidarem com questões relacionadas ao mundo financeiro, verificou se conteúdos da Educação Financeira foram trabalhados durante a trajetória estudantil dos alunos – sujeitos de sua pesquisa – e discutiu sobre a importância de incluir a Educação Financeira no currículo das escolas e a possibilidade desse tema ser estudado a partir da realidade desses alunos, com atividades práticas e significativas.

Para a realização de sua pesquisa, Kern fez um levantamento teórico sobre a Educação Financeira e sobre o trabalho interdisciplinar; estudou o plano de estudos da escola em que foi realizada a pesquisa a fim de verificar se o mesmo contemplava assuntos relacionados com a Educação Financeira; aplicou um questionário para identificar o perfil dos alunos e os seus conhecimentos prévios sobre o tema; implementou um trabalho de intervenção pedagógica e avaliou, através do estudo de entrevistas realizadas com um grupo de oito alunos da turma investigada, a forma de abordar e a importância de se incluir a Educação Financeira na escola.

O trabalho de intervenção foi realizado de forma interdisciplinar, durante 12 encontros semanais de uma hora e quarenta minutos cada, com os alunos de uma turma do 3º ano do Ensino Médio de uma escola pública estadual do município de Ivoti – RS.

Nesses encontros, a pesquisadora desenvolveu atividades em que foram abordados temas tais como a história da moeda, impostos, economia doméstica, orçamento familiar, produtos bancários, consumo, aproveitamento total de alimentos, reciclagem como forma de trabalho e preservação do meio ambiente. Em suas atividades, ela utilizou a observação de situações de consumo do dia a dia, a análise de reportagens, artigos e charges, e atividades de pesquisa, reflexões e discussões sobre a organização financeira, utilização do software Excel da Microsoft para organização das finanças, apreciação de palestras, documentários e de uma visita a uma instituição bancária.

Seu trabalho teve uma questão norteadora:

Os alunos do 3º ano do ensino médio de uma escola pública, no decorrer de sua trajetória de estudantes, tiveram algum contato com assuntos relacionados com uma Educação Financeira? Trabalhar na escola de forma que se possam relacionar os conteúdos curriculares com aspectos que dizem respeito ao “mundo financeiro” é possível? (p. 100)

Essa questão foi analisada segundo os dados referentes ao plano de estudos da escola, das aulas desenvolvidas e das apreciações das entrevistas.

Segundo Kern, assuntos relacionados com a Educação Financeira deveriam ser trabalhados desde a pré-escola e, apesar de os currículos das escolas públicas contemplarem conteúdos que podem ser relacionados com a Educação Financeira, muito pouco tem sido trabalhado. Para ela, é importante que se realize “uma análise mais profunda de cada realidade escolar onde se pretenda incluir Educação Financeira” a fim de que sejam observadas suas reais necessidades e, assim, se criem

condições para que os professores aprendam sobre como trabalhar esses conteúdos de forma que possam relacioná-los com as vivências dos alunos, possibilitando que desenvolvam um conhecimento capaz de ajudá-los a lidar com questões do seu ‘mundo financeiro’ (p. 115).

Em sua pesquisa, Strate (2010) se fundamentou teoricamente no conceito de qualidade de vida, em assuntos relacionados com a educação e a organização financeira e ao uso da tecnologia no ensino para propor um curso de organização financeira e analisar as mudanças promovidas por ele na vida de alguns de seus participantes.

Através do estudo de diferentes concepções acerca do significado da expressão “qualidade de vida”, ela concebeu a sua definição particular, que se constitui como uma consequência da junção de alguns fatores, dentre os quais se destaca a organização financeira.

Um bom planejamento financeiro e um devido controle orçamentário podem proporcionar ao indivíduo condições particulares de qualidade de vida, como poder aderir a um bom plano de saúde, poder usufruir de um cardápio saudável na alimentação, poder dar uma boa educação para os filhos, ter casa própria, automóvel, telefone móvel, internet, poder sair de férias com a família, enfim, ter poder de consumo suficiente para levar uma vida confortável (STRATE, 2010, p.29).

Para a realização de seu trabalho, Strate verificou que assuntos relacionados à Educação Financeira não eram contemplados diretamente nos documentos oficiais de educação e das escolas de sua região e propôs um curso de organização de orçamento de gastos tendo em vista a percepção da sua relação com a melhoria da qualidade de vida. Esse curso contou com a participação de 11 alunos voluntários do Ensino Técnico do Instituto de Educação Cenecista General Canabarro, do município de Teutônia – RS e foi desenvolvido no período de férias, com duração de 16 horas. Além desses alunos, outras três pessoas participaram da pesquisa como colaboradoras e formularam previamente seus orçamentos familiares ou pessoais para que fossem utilizados como fonte de dados para os estudos durante o curso. Esse curso contemplou discussões e reflexões sobre o orçamento familiar e sobre o planejamento financeiro; a utilização do software ProFamilia11; a análise e a realização de atividades envolvendo orçamentos familiares reais; e a proposta de um orçamento financeiro para cada um dos participantes.

Adotando uma abordagem qualitativa e através de uma comparação entre as situações financeiras de cada participante antes e dois meses após a implementação do curso, Strate analisou as mudanças que foram promovidas na vida financeira desses alunos e das colaboradoras e constatou mudanças significativas na gestão financeira dessas pessoas e melhora em relação às situações de endividamento.

Almeida (2004) apresentou um levantamento e uma análise das potencialidades e limitações da tentativa de ensinar a Matemática Financeira através da utilização de problemas contextualizados, situações reais, reportagens de jornais e revistas para uma turma do Ensino Médio de uma escola pública.

A pesquisadora apresentou uma fundamentação pautada, principalmente, na investigação e na dinâmica da sala de aula (PONTE; 1997,2002), na Educação Matemática crítica (SKOVSMOSE, 2001), no papel dos e na relação entre os sujeitos do processo de

11 ProFamilia é um recurso tecnológico freeware desenvolvido exclusivamente para elaboração e análise de

ensino e de aprendizagem (SILVA, 1996; FREIRE, 1996, 1992,1975; FIORENTINI, 2000), e nos PCNEM.

Ela assumiu o papel de professora de uma turma de 1º ano do Ensino Médio em uma escola pública de Campinas e desenvolveu o seu trabalho juntamente com a professora efetiva, durante 20 aulas, sendo três aulas por semana.

Norteada pela questão de investigação −

Quais reflexões, tensões e aprendizados emergem na tentativa de desenvolver um projeto com abordagem diferenciada de alguns temas de Matemática Financeira numa sala de aula do Ensino Médio de uma escola pública estadual? −

e baseando-se em sua fundamentação teórica e registros obtidos através de questionário, vídeo, áudio e diário de campo, sob uma abordagem qualitativa, a pesquisadora não se dedicou à análise do ensino e da aprendizagem da Matemática Financeira, bem como ao seu papel na formação do cidadão, mas sim às reflexões e tensões que surgiram durante suas aulas. Ela se colocou como uma professora-investigadora de sua própria prática e avaliou suas concepções e ações em relação à Educação.

No trabalho “Matemática Financeira – um enfoque da resolução de problemas como metodologia de ensino e aprendizagem” –, Hermínio (2008) aborda o ensino da Matemática Financeira por meio de uma metodologia baseada na investigação e na construção de conceitos usando a resolução de problemas, em um ambiente em que reais questões sociais, políticas, éticas, de direitos e deveres podem ser levantadas e discutidas.

Seu trabalho de campo foi desenvolvido durante nove encontros com uma turma de alunos do 2º ano do Ensino Médio de uma escola da rede pública do estado de São Paulo. Para a elaboração de seu projeto de ensino, Hermínio (2008) se baseou na Metodologia de Resolução de Problemas proposta por Romberg (1992) e se fundamentou na Educação Matemática Crítica de Skovsmose (2001), nos documentos oficiais da educação, no exame de livros didáticos e em referenciais teóricos que discutem a formação de cidadãos críticos e conscientes do seu papel na sociedade. Além disso, utilizou dados de questionários aplicados aos alunos, pais, professores, coordenadores pedagógicos e docentes universitários onde questionou a importância atribuída por eles à Matemática Financeira tratada nas escolas.

Adotando uma abordagem qualitativa, Hermínio (2008) analisou as reflexões e discussões que emergiram durante os encontros, as vantagens em se adotar uma metodologia pautada na resolução de problemas, na qual os alunos se tornam coconstrutores de seu próprio conhecimento, e a importância de se ensinar a Matemática Financeira de forma baseada no dia a dia dos alunos. Através de sua pesquisa, Hermínio (2008) concluiu que a metodologia de ensino utilizada, bem como o uso de problemas relacionados à vida real dos alunos, proporcionaram a reflexão crítica sobre o meio social em que eles estão inseridos e despertaram alguns aspectos de cidadania, inferindo mudanças de postura e conduta. Para ele, um dos objetivos do seu trabalho de campo, que foi alcançado, consistiu em “oferecer um impulso inicial para que os alunos se tornassem mais críticos e aprendessem a ponderar sempre em todas as situações de sua vida, onde se apresentasse um problema” (p. 226).

2. METODOLOGIA DA PESQUISA

Este capítulo é composto por cinco seções, nas quais abordamos os aspectos metodológicos relacionados ao trabalho de campo desta pesquisa. Na primeira seção, tratamos dos procedimentos metodológicos e dos instrumentos que foram utilizados. Na segunda seção, apresentamos a escola e os sujeitos desta pesquisa. Detalhamos, na terceira seção, como se deu o contato com o campo e os sujeitos participantes. Na quarta seção, mostramos alguns dados sobre esse grupo de alunos e finalmente, na quinta seção, expomos detalhes sobre os assuntos abordados, as atividades desenvolvidas e os encontros realizados.

Benzer Belgeler