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1. BÖLÜM

2.3. Vebanın Ortaçağ Edebiyatı ve Sanatında Yeri

O que perpassa a busca identitária dos narradores das histórias de Hatoum, como uma correnteza de inquietações, é a confluência das vozes requisitadas para o traçado, ainda que em esboço, dos respectivos perfis identitários dos narradores centrais dos romances, que carregam em suas memórias um feixe de muitas (e outras!) histórias. “Outras” histórias que povoam o imaginário de Nael e da narradora inominada, tanto que deslizam também sobre a superfície dos textos que produzem, à maneira de rios afluentes, como o Negro e o Solimões que deságuam no grande rio Amazonas.

Os portos de passagem, como pontos de comunhão entre as águas estrangeiras, por onde andaram igualmente os imigrantes de Dois irmãos e os de Relato de um certo Oriente são lugares por onde transitaram também a esperança e a melancolia. Esperança, diante da novidade de vida na terra estrangeira; melancolia, pelo peso da ausência da terra natal e dos entes queridos, objetos do desejo de retorno. Desejo que para muitos fica confinado ao imaginário, nos desvãos da memória.

Hatoum considera importante a noção de território como lugar de confluência de elementos díspares. Segundo ele, mais importante que a idéia de nação, como a concebida pelas revoluções modernas, é a noção de território de vivências que fica impregnada na concepção estética como uma forma de problematizar as relações de identidade:

A idéia de nação e de federação se ajusta, desde o advento das nações modernas, muito mais à política. No entanto, quando Mário de Andrade pesquisou aspectos da nacionalidade brasileira, ele ressaltou e aprofundou o estudo da pluralidade social (...). E às vezes, mesmo quando o país não é matéria do enredo, ou não é tratado explicitamente, tem alguma coisa da vida do escritor que é latente. (...) Um território, mínimo que seja, pode ser um mundo de muitas culturas, é um lugar que tem uma história, com suas relações de identidade. Uma casa num bairro de Manaus, as minhas viagens ao rio Negro, ao Amazonas, são esses os territórios onde vivem meus personagens, imigrantes e nativos, alguns em trânsito... (SCRAMIN, 2000, p. 7)

Em outro momento, Milton fala da própria condição amazonense, como natural e habitante de uma terra sem fronteiras, onde se mesclam línguas e culturas, saberes e concepções de mundo variados.

A brasilidade está presente na língua, mas não sei até que ponto está presente numa paisagem brasileira: porque não sei se se pode definir exatamente “paisagem brasileira” para quem é da Amazônia. A Amazônia não tem fronteiras; sim há uma delimitação de “fronteiras”, mas para nós não passam de fronteiras imaginárias. (...) E para nós, nascidos na Amazônia, a noção de terra sem fronteiras está muito presente... (HANANIA, 1993, p. 1)

Em ambas as obras hatounianas, além dos espaços domésticos, nos sobrados que abrigam os recônditos das famílias, as fronteiras imaginárias dessa Amazônia são representadas pelos restaurantes e portos, mercados e praças como pontos de encontro entre estes mundos dessemelhantes e ao mesmo tempo tão mesclados, marcando um lugar de confluência entre imigrantes de diferentes nacionalidades.

Segundo Bhabha, ao relatar sobre sua experiência de migração, o momento da dispersão transforma-se em um momento de reunião de povos de diferentes procedências na terra do outro,

(...) reunindo-se às margens de culturas ‘estrangeiras’, reunindo-se nas fronteiras; reuniões nos guetos ou cafés de centros de cidade; reunião na meia-vida, meia-luz de línguas estrangeiras, ou na estranha influência da língua do outro (...) reunindo o passado num ritual de revivescência; reunindo o presente. (BHABHA, 2005, p. 198)

A narradora do Relato observa esta aproximação entre a terra deixada pelo imigrante e a terra estrangeira adotada para uma nova vida:

Se algo havia de análogo entre Manaus e Trípoli, não era exatamente a vida portuária, a profusão de feiras e mercados, o grito dos mascates e peixeiros, ou a tez morena das pessoas; na verdade, as diferenças, mais que as semelhanças, saltavam aos olhos dos que aqui desembarcavam, mesmo porque mudar de porto quase sempre pressupõe uma mudança na vida (...). (Relato, p. 28)

O alemão Dorner, fotógrafo e pesquisador da flora amazonense, era também lembrado pela narradora como alguém que decidira viver em uma terra estrangeira:

Pensei também em Dorner, esse morador-asceta de uma cidade ilhada, obstinado em passar toda uma vida a proferir lições de filosofia para um público fantasma, obcecado pelo aroma das orquídeas, das ervas com folhas carnosas e das flores andróginas. Ele convivia há muito tempo entre os livros e um mundo vegetal, e era capaz de nomear de cor três mil plantas. Não posso saber se a solidão o dilacerava, se alguma morbidez havia na decisão de fixar-se aqui,

escutando a sua própria voz, dialogando com o Outro que é ele mesmo: cumplicidade especular, perversa e frágil. (Relato, p. 134, 135)

Ela própria vive a experiência de sentir-se estrangeira em sua terra natal, ao passear pelas ruas e bairros afastados da cidade. Sente-se estranha (unheimlich) sob o olhar de estranheza de outros nativos:

Havia momentos, no entanto, em que me olhavam com insistência: sentia um pouco de temor e estranheza, e embora um abismo me separasse daquele mundo, a estranheza era mútua, assim como a ameaça e o medo. E eu não queria ser uma estranha, tendo nascido e vivido aqui. (Relato, p. 123)

Ao chegar à terra amazônica, o patriarca inominado do Relato compreendeu, “com o passar do tempo, que a visão de uma paisagem singular pode alterar o destino de um homem e torná-lo menos estranho à terra em que ele pisa pela primeira vez.” (Relato, p. 73).

Em Dois irmãos, o restaurante Biblos é o lugar de encontro de estrangeiros, onde as diferentes histórias e memórias da terra natal se cruzam. Este restaurante representa, assim, o lugar de “reunião de povos de diferentes procedências”:

Desde a inauguração, o Biblos foi um ponto de encontro de imigrantes libaneses, sírios e judeus marroquinos que moravam na praça Nossa Senhora dos Remédios e nos quarteirões que a rodeavam. Falavam português misturado com árabe, francês e espanhol, e dessa algaravia surgiam histórias que se cruzavam, vidas em trânsito, um vaivém de vozes que contavam um pouco de tudo: um naufrágio, a febre negra num povoado do rio Purus, uma trapaça, um incesto, lembranças remotas e o mais recente: uma dor ainda viva, uma paixão ainda acesa, a perda coberta de luto, a esperança de que os caloteiros saldassem as dívidas. Comiam, bebiam, fumavam, e as vozes prolongavam o ritual, adiando a sesta. (Dois irmãos, p. 47, 48)

Essa experiência de fixação na terra estrangeira e as misturas exóticas resultantes, bem como a miscelânea gastronômica, que marca o encontro entre as culturas, ficam expressas em Galib, pai de Zana, o dono do restaurante. Nesse espaço babélico por excelência, perpassa a consciência do imigrante, de sua errância, que sabe que está em outro lugar, em um espaço movediço onde se cruzam esperança e angústia, o sentimento de estar e de não pertencer. Assim, nas reflexões de Brandão Santos,

A voz do imigrante está sempre entre outras vozes. Uma margem que está entre outras margens, que é a ramificação da própria margem. A travessia da língua do imigrante se dá no interior de uma outra língua. A fronteira da nação do imigrante está dentro de uma outra fronteira de nação: é a cisão da própria fronteira. O imigrante é aquele que traz à tona a

intensidade da certeza de que estar aqui é estar em outro lugar, ou ainda, que estar é sempre uma mediação entre dois espaços, átimo que separa e une o estático e o dinâmico. (SANTOS, 2000, p. 53 – grifos do autor)

A porosidade existente entre as fronteiras culturais nos espaços de reunião de imigrantes e destes com os nativos, imprime a formação de uma “nova” identidade, de natureza híbrida, revelando que os costumes são intercambiáveis fazendo surgir um novo conceito de sujeito nacional. Aquele que se deslocou de sua terra acalenta um desejo íntimo de retorno à casa, à terra de origem. Porém, o sujeito que vive ou viveu a experiência da diáspora, ou mesmo do auto-exílio, não se encontra nem como o mesmo, nem como o outro. Deve, portanto, investir em uma “negação necessária de uma identidade”, de acordo com as observações de Bhabha:

O Outro deve ser visto como a negação necessária de uma identidade primordial – cultural e psíquica – que introduz o sistema de diferenciação que permite ao cultural ser significado como realidade lingüística, simbólica, histórica. Se, como sugeri, o sujeito do desejo nunca é simplesmente um Eu Mesmo, então o Outro nunca é simplesmente um Aquilo Mesmo, uma frente de identidade, verdade ou equívoco. (BHABHA, 2005, p. 86 – grifos do autor)

Esse golpe dramático encaminha a um sentimento de alienação constante que talvez nunca possa ser superado. Esse sentimento pode ser exemplificado por uma passagem relatada por Edward Said na qual descreve um momento singular em que um amigo poeta, recitando alguns versos, parece ter se “esquecido” do sentimento alienante marcado pelo exílio político em que vivia:

Ver um poeta no exílio – ao contrário de ler a poesia do exílio – é ver as antinomias do exílio encarnadas e suportadas com uma intensidade sem par. Há vários anos, passei algum tempo com Faiz Ahamad Faiz, o maior dos poetas urdus contemporâneos. Ele foi exilado de seu Paquistão nativo pelo regime militar de Zia (...). Somente uma vez, quando Eqbal Ahmad, um amigo paquistanês e colega de exílio, foi a Beirute [onde havia sido acolhido], Faiz deu a impressão de superar seu sentimento de alienação constante. Certo fim de noite, nós três nos instalamos num restaurante encardido e Faiz recitou poemas. Depois de algum tempo, ele e Eqbal pararam de traduzir os versos para mim, mas com o avançar da noite, isso deixou de ter importância. Não era preciso tradução para o que eu observava: era uma representação da volta para casa expressa por meio de desafio e perda, como se quisessem dizer: “Zia, aqui estamos”. Evidentemente, Zia era quem estava, de fato, em casa e não escutaria suas vozes exultantes. (SAID, 2003, p. 47, 48)

Essa poesia arraigada no poeta parece atestar o sentimento do exilado de desejo de retornar à casa. Neste episódio pode-se divisar um curioso posicionamento, referido por

Bhabha, do sujeito que encena “na escrita dos poemas” um jogo metonímico questionando a própria identidade. Assim, “articula-se naquelas instâncias interativas, que simultaneamente marcam a possibilidade e a impossibilidade da identidade, a presença por meio da ausência.” (BHABHA, 2005, p. 87)

Para Galib, a expectativa pela viagem ao Líbano ensejou a despedida de Manaus, comemorada com sua arte culinária:

Ele preparou e serviu o último almoço: a festa de um homem que regressa à pátria. Já sonhava com o Mediterrâneo, com o país do mar e das montanhas. Sonhava com os Cedros, seu lugar. Para lá voltou, reencontrou partes dispersas do clã, os que permaneceram, os que renunciaram a aventurar-se em busca de um outro lar. (Dois irmãos, p. 55)

De volta à terra natal, Galib celebra o sentimento de júbilo pelo regresso à cidade que dera nome ao estabelecimento em Manaus, à Biblos no Líbano, onde reencontrara parentes e “festejava a volta cozinhando acepipes amazônicos: o pirarucu seco com farofa, tortas de castanha, coisas que levara do Amazonas.” (Dois irmãos, p. 56). A arte culinária de Galib parece trazer para si um pouco da casa brasileira que se misturava ao lar libanês.

O sentimento de júbilo experimentado por Galib é experiência compartilhada por ele por meio de cartas à filha. Para Galib, o ansiado regresso ao lar tornou-se, para Zana, a experiência marcante de perda do pai, à distância, ferida pela impossibilidade do ritual de sepultamento, obrigada a enterrá-lo no jazigo do esquecimento. Drama expresso nas palavras de Halim:

“Voltar para a terra natal e morrer”, suspirou Halim. “Melhor permanecer, ficar quieto no canto onde escolhemos viver.” (...) “O oceano, a travessia... Como tudo era tão distante!”, lamentou Halim. “Quando alguém morria no outro lado do mundo, era como se desaparecesse numa guerra, num naufrágio. Nossos olhos não contemplavam o morto, não havia nenhum ritual. Nada. Só um telegrama, uma carta... A minha maior falha foi ter mandado o Yaqub sozinho para a aldeia dos meus parentes”, disse com uma voz sussurrante. “Mas Zana quis assim... ela decidiu.” (Dois irmãos, p. 56, 57)

Halim suspira, lamenta, sussurra e expressa ao narrador os sentimentos que são reavivados ao recordar o sofrimento da esposa pela perda do pai. Suas reflexões sobre a condição estrangeira o levam a constatar que é preferível “o lugar onde escolhemos viver” a

morrer na terra natal para a qual sonhara retornar. Há um oceano que separa as duas terras. A distância entre os territórios impõe sobre esses sujeitos uma verdade inamovível, mais da ordem psíquica que da topográfica: sair de casa, para nunca mais voltar.

Nas conversas entre o narrador e o avô, a seringueira, árvore natural da Amazônia, fixa-se como um elemento imponente marcando a ambigüidade do lugar de onde brota a narrativa. Halim é de origem libanesa, sua terra natal encontra-se do outro lado do oceano, onde nascem os cedros resistentes às intempéries do clima do oriente. Halim é árvore enxertada em solo estrangeiro, em Manaus, onde escolheu viver. A seringueira marca, para esse velho, a passagem do tempo: do “leito de folhas” da juventude com Zana e seus arroubos de paixão e prazer incontidos, ao silêncio da “árvore velha, meio morta”, entregue às lembranças dos anos da conquista amorosa:

“Ali mesmo, debaixo da seringueira”, apontou com o indicador da mão enrugada mas firme. “Era nosso leito de folhas. Dava uma coceira danada, porque aquele canto do mato era cheio de urtigas. Foi assim até o nascimento dos gêmeos.” (...) Certa vez tentei fisgar-lhe uma lembrança: não recitava os versos do Abbas antes de namorar? Ele me olhou, bem dentro dos olhos, e a cabeça se voltou para o quintal, o olhar na seringueira, a árvore velha, meio morta. E só silêncio. Perdido no passado, sua memória rondava a tarde distante em que o vi recitar os gazais de Abbas. (Dois irmãos, p. 69, 90)