Frederich August von Hayek inicia seu estudo de evolução e liberdade com a afirmativa de que o homem não se desenvolve em liberdade, uma vez que esta é fruto da civilização:
A liberdade foi possibilitada pela evolução gradual da disciplina da civilização que é, ao mesmo tempo, a disciplina da liberdade204.
Efetivamente, com a evolução da civilização, houve a necessidade de proteção da liberdade através de normas abstratas e impessoais. Estas normas protegem o homem da violência arbitrária dos demais, possibilitando a cada indivíduo planejar e atingir livremente os seus objetivos.
Como já foi dito, com o progresso dos pequenos grupos e o desenvolvimento do sistema econômico, foi necessário que os membros aprendessem a adquirir novas normas que, na concepção sopesada, não foram “inventadas”, mas adquiridas naturalmente e foram essenciais para reprimir as reações instintivas não mais admitidas na grande sociedade organizada.
Parece interpretar que uma economia aberta foi, por muitas vezes, obstada em diversas sociedades em virtude do pensamento remoto de profetas religiosos e filósofos que defendiam a manutenção dos desejos inatos dos indivíduos:
Temos de admitir que a civilização moderna se tornou possível em grande parte graças ao desprezo votado às injunções desses moralistas indignados. Como bem disse o historiador francês Jean Baechler, a
203
Sobre moral e direito, vale lembra as considerações de Celso A. Pinheiro de Castro: “Para Kant, a moral é interior, enquanto a lei é externa. À moral interessa a intenção reta, enquanto o direito preocupa- se com a conduta legal objetiva, isto é, a conduta considerada boa em sua concretização” (...)
“... saliente-se que moral e lei apresentam pontos em que se interseccionam e outras em que se distinguem. Há normas morais que contam com correspondente jurídico ou normas morais que se tornam jurídicas. A lei dispõe de instituições e de agentes especializados para formulá-la e controlar-lhe a aplicação, o que não acontece com a moral” CASTRO, Celso A. Pinheiro de. Op. cit., p. 103.
204
expansão do capitalismo tem sua origem e razão de ser na anarquia política205.
É preciso destacar que a primeira concepção de homem livre surgiu na Idade Média, devido aos ensinamentos dos antigos gregos que descobriam a liberdade individual e a propriedade privada.
Não se pode negar que o desenvolvimento da sociedade só foi possível devido à seleção cultural das normas, decorrente de um processo irracional206.
Assim, o desenvolvimento de uma tradição foi o que tornou possível a civilização, ou seja, o progresso da sociedade, na concepção de Frederich August von Hayek, sempre se baseou na tradição, uma vez que esta é produto do processo de seleção:
A tradição não é algo constante; é o produto de um processo de seleção orientado não pela razão mas pelo sucesso. Ela se modifica, mas raras vezes pode ser deliberadamente modificada”.
(...)
“E, uma vez que devemos a ordem de nossa sociedade a uma tradição de normas que só compreendemos imperfeitamente, todo progresso terá de basear-se na tradição. Somos obrigados a nos fundar na tradição, podendo no máximo fazer pequenas alterações em seus produtos207.
É inevitável a pergunta: quando, então, a tradição pode rejeitar uma norma ou retirar-lhe a legitimidade?
Somente outras convicções morais, que foram absorvidas espontaneamente pela sociedade, é que podem rejeitar uma norma. Ademais, uma nova norma só poderia ser aprovada pela sua crescente aceitação na sociedade208.
Fato é que o homem foi obrigado a aprender a conviver em uma sociedade de normas abstratas; a conviver em uma sociedade que não tem como fim atender aos interesses individuais, mas sim, interesses comuns e isto nem sempre trouxe satisfação:
As normas indispensáveis à sociedade livre exigem de nós muita coisa desagradável, como sofrer a concorrência dos demais, vê-los enriquecer mais do que nós, etc., etc209.
205
Idem, ibidem, p. 176.
206
Quando Frederich August von Hayek se refere à seleção cultural afirma que “a razão não é o seu guia e sim um produto seu”. Cf. HAYEK,F.A.,Op. cit., p. 177.
207
Cf.HAYEK, Frederich August von. Op. cit., vol. III, p.177-78.
208
“As normas que aprendemos a observar são fruto de evolução cultural”. Cf. HAYEK, Frederich August von. Op. cit., vol. III, p. 180.
Não é incomum o pensamento de que evolução e progresso são sinônimos, todavia, os termos são bem diferentes. A evolução foi – e sempre será – a condição necessária para o progresso.
É evidente que quando fala em evolução, trata da evolução espontânea dos membros da sociedade.
Mais do que isso, afirma que as normas aprendidas foram frutos dessa evolução cultural, que se tornou condição para fazer progredir a ordem em uma sociedade.
Este progresso, entretanto, nem sempre agrada os indivíduos, nesse sentido “o homem foi civilizado a contragosto”210.
A evolução, portanto, está intimamente ligada à aprendizagem espontânea das normas pelos homens; já o progresso – também econômico – é a consequência desta evolução.
Questão que merece destaque é a possibilidade de dosar o progresso econômico. Neste aspecto é categórico ao afirmar que o progresso pode ser mais rápido do que os indivíduos que compõem as sociedades gostariam:
Infelizmente, no entanto, o progresso não pode ser dosado (e tampouco o crescimento econômico!). Tudo o que podemos fazer é criar condições que o favoreçam e esperar então pelo melhor. A política pode estimulá-lo ou amortecê-lo, mas ninguém é capaz de prever com precisão os efeitos dessas medidas; imaginar que se sabe uma direção desejável do progresso parece-me o máximo da presunção. Um progresso conduzido já não seria um progresso. Felizmente, a civilização superou a possibilidade do controle coletivo; do contrário, provavelmente sufocaríamos211.
Sem dúvida, deter o progresso seria tentar impedir – ou limitar – a evolução do homem, verdadeira teratologia.
209
Cf. HAYEK, Frederich August von. Op.cit, p.181.
210
Idem, ibidem, p. 180.
211
Capítulo 8
Frederich August von Hayek e a tributação no Estado Neoliberal
“... toda a prática das finanças públicas foi desenvolvida numa tentativa de ludibriar o contribuinte, induzindo-o a pagar mais do que supõe e fazendo-o concordar com uma despesa na crença de que outrem será obrigado a pagar por ela”212.