Quando se trata da eficácia dos direitos fundamentais, está-se a referir acerca dos sujeitos que devem respeitá-los. É pacífica a vinculação do Estado aos direitos fundamentais - o que pode ser atribuído ao fato de que eles nasceram como medidas limitadoras ao poder estatal.695 Salienta-se que os poderes públicos estão vinculados a todos os direitos fundamentais.696 A celeuma cinge-se à vinculação ou não dos particulares aos direitos fundamentais, denominada eficácia horizontal dos direitos fundamentais, eficácia perante terceiros ou eficácia nas relações jurídicas interprivadas.
A expressão eficácia horizontal é utilizada para explicitar a vinculação de sujeitos que estão no mesmo nível – particulares - aos direitos fundamentais, opondo-se à expressão eficácia vertical, empregada para evidenciar a vinculação do Estado (posição de superioridade) aos direitos fundamentais dos cidadãos (posição de inferioridade frente ao Estado).697
693 Ibid., p. 106.
694 Ibid., p. 106.
695 AMARAL, Júlio Ricardo de Paula. Op. cit., p.52-53; STEINMETZ, Wilson. Op. cit., p. 59. 696 STEINMETZ, Wilson. Op. cit., p. 59.
697 AMARAL, Júlio Ricardo de Paula. Op. cit., p.57; LEDUR, José Felipe. Direitos Fundamentais Sociais: efetivação no âmbito da democracia participativa. Op. cit., p. 39.
Esta temática começou a ser ventilada em meados da década de 50, na Alemanha.698 Foi tratada pela primeira vez pelo jurista alemão Carl Nipperdey no seu
trabalho igualdade salarial da mulher. Sustentava a aplicação do princípio da igualdade no âmbito das relações de trabalho em virtude da assimetria existente e do enorme poder de que era detentor o empregador.699 As relações de trabalho foram, portanto, o palco para o início dos debates acerca da eficácia horizontal dos direitos fundamentais.
A eficácia dos direitos fundamentais em relação a terceiros está intimamente ligada aos diversos focos de poder espalhados na sociedade.700 Com o advento da sociedade de massas, verificou-se o fortalecimento de vários grupos - como empresas e conglomerados econômicos - que se situam entre o Estado e a sociedade. Estes poderes espraiados na sociedade passaram a ser vistos como ameaças aos direitos fundamentais e, a partir daí, cogitou-se acerca de sua vinculação a essa espécie de direitos.
A dicotomia entre público e privado cedeu espaço e se percebeu a necessidade de também os particulares estarem vinculados à observância dos direitos fundamentais, pois possuem enorme aptidão para vulnerar os direitos fundamentais.701 A partir daí e do momento em que foi reconhecida a eficácia horizontal dos direitos fundamentais, o Direito Constitucional assumiu posição de proeminência em relação ao Direito Privado, determinando que os conflitos entre particulares fossem solucionados, sob a orientação dos direitos fundamentais.702
Todavia, o tema ainda não se encontra totalmente delimitado. Wilson Steinmetz703 assevera que tal situação deve-se, em grande medida, ao fato de que na
698 STEINMETZ, Wilson. Op. cit., p. 33; AMARAL, Júlio Ricardo de Paula. Op. cit., p. 58. 699 AMARAL, Júlio Ricardo de Paula. Op. cit., p.58; LEDUR, José Felipe. Direitos Fundamentais Sociais: efetivação no âmbito da democracia participativa. Op. cit., p. 39, 40; SARMENTO, Daniel. Op. cit., p. 204.
700 STEINMETZ, Wilson. Op. cit., p. 91.
701 SARMENTO, Daniel. Op. cit., p. 25; AMARAL, Júlio Ricardo de Paula. Op. cit., p. 60;
STEINMETZ, Wilson. Op. cit., p. 87.
702 AMARAL, Júlio Ricardo de Paula. Op. cit., cit., p. 59.
maioria dos países não há regramento expresso no sentido de que os particulares estão vinculados aos direitos fundamentais e que, onde existe, é por demais fluido.
Adverte, outrossim, que a grande resistência gira em torno do receio de que haja uma enorme limitação à autonomia privada ou, até mesmo, a sua supressão e de que o direito privado deixe de ser relevante face à expansão constitucional.704
Na Constituição Federal de 1988 não há norma específica tratando da vinculação dos particulares aos direitos fundamentais. Entretanto, a eficácia dos direitos fundamentais em relação a terceiros pode ser extraída do sistema705 e do disposto no parágrafo 1º do art. 5° da CF 1988, o qual prescreve: “As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata”.
A questão sobre a eficácia dos direitos fundamentais nas relações de trabalho não gera grandes divergências entre os doutrinadores.706 A maioria admite a incidência
dos direitos fundamentais nas relações entre trabalhadores e empregadores, haja vista que a relação entre estes é marcada por uma diferença de posições jurídicas.707
A aplicabilidade dos direitos fundamentais às relações trabalhistas justifica-se
não só pelo fato de o trabalhador estar inserido em um contexto organizacional de propriedade de outrem - controlada pelo empregador que, naquele local, é autoridade -, como também pela relação de dependência existente entre eles.708 Acrescente-se a isso que atualmente em face dos avanços tecnológicos o empregador possui inúmeros mecanismos que podem afetar os direitos fundamentais do empregado, especialmente, os de liberdade, privacidade, saúde e segurança.709
Nesse sentido manifestou-se a Corte Interamericana de Direitos Humanos, por
704 STEINMETZ, Wilson. Op. cit., p. 36. 705 Ibid., p. 97-101.
706 ALVES da Silva Carruesco, Adenir. Op. cit., p. 1194.
707 AMARAL, Júlio Ricardo de Paula. Op. cit., p. 80; LEDUR, José Felipe. Direitos Fundamentais
Sociais: efetivação no âmbito da democracia participativa. Op. cit., p. 41.
meio da opinião consultiva nº 18 de 17 de setembro de 2003, em consulta realizada pelos Estados Unidos Mexicanos, em seu parágrafo nº 140, “dispõe que em uma relação trabalhista regida pelo direito privado, deve-se ter em conta que existe uma obrigação de respeito aos direitos humanos entre particulares. Isto é, da obrigação positiva de assegurar a efetividade dos direitos humanos protegidos, que existe na cabeça dos Estados, derivam-se efeitos em relação a terceiros ('erga omnes)”.710
Ademais, a Constituição Federal no próprio art.7º estabelece a vinculação do empregador à proteção dos direitos dos trabalhadores. No artigo 8º há também a garantia da liberdade sindical, evidenciando a sua eficácia perante terceiros.711 Vale dizer, ainda, que o próprio artigo 225 da CF/88 quando alude à obrigação de controlar a produção, a comercialização e o emprego de técnicas, métodos e substâncias que comportem risco para a vida, a qualidade de vida e o meio ambiente, vincula os poderes públicos e os empreendedores.712
Entre os que aceitam a eficácia horizontal dos direitos fundamentais, outra
discussão se estabelece. Cinge-se à maneira de incidência destes direitos fundamentais, o que motivou o surgimento de algumas teorias a respeito. Daniel Sarmento, Júlio Ricardo de Paula Amaral e José Felipe Ledur713 defendem a teoria da aplicação direta e imediata dos direitos fundamentais aos particulares e, em especial, nas relações de trabalho. De acordo com esta teoria, as normas de direitos fundamentais geram direitos subjetivos oponíveis erga omnes714 e, em função disso, não necessitam da mediação do
legislador através da elaboração de dispositivos infraconstitucionais.
709 Ibid., p. 81.
710 Ibid., p. 82-83.
711 LEDUR, José Felipe. Direitos Fundamentais Sociais: efetivação no âmbito da democracia participativa. Op. cit., p. 41.
712
MARINONI, Luiz Guilherme. O Direito Ambiental e as ações inibitórias e de remoção do
ilícito. Op. cit., p. 2.
713 AMARAL, Júlio Ricardo de Paula. Op. cit., p. 66, 67; LEDUR, José Felipe. Direitos Fundamentais Sociais: efetivação no âmbito da democracia participativa. Op. cit., p. 41; SARMENTO,
De outra banda, há a teoria da aplicação indireta ou mediata dos direitos fundamentais, a qual é dominante na esfera do ordenamento jurídico alemão. Pode-se dizer que é intermediária entre as teorias da negação da vinculação dos direitos fundamentais aos particulares e a teoria da aplicação imediata.715 De acordo com esta
posição, cabe ao Estado estabelecer mecanismos de proteção aos direitos fundamentais, ainda que as ameaças sejam oriundas de particulares. Salientam, todavia, que esta proteção somente pode ocorrer através do direito privado.
Há ainda a teoria dos deveres de proteção. Segundo os defensores desta teoria, o Estado tem o dever não só de impedir a intervenção na esfera de liberdade dos particulares, mas também de evitar riscos aos direitos dos particulares, através da criação de proibições, medidas de proteção e de prevenção. Os direitos fundamentais deixam de ser concebidos como meros direitos de defesa para se transformarem-se em dever de proteção do Estado frente aos cidadãos.716
O STF717 já se pronunciou de forma explícita acerca da eficácia horizontal dos
714 STEINMETZ, Wilson. Op. cit., p. 168-169; AMARAL, Júlio Ricardo de Paula. Op. cit., p. 69. 715 SARMENTO, Daniel. Op. cit.,p.205; AMARAL, Júlio Ricardo de Paula. Op. cit., p. 66, 67;
LEDUR, José Felipe. Direitos Fundamentais Sociais: efetivação no âmbito da democracia participativa. Op. cit., p. 40.
716 AMARAL, Júlio Ricardo de Paula. Op. cit., p. 73; SARMENTO, Daniel. Op. cit., p. 217. 717 “SOCIEDADE CIVIL SEM FINS LUCRATIVOS. UNIÃO BRASILEIRA DE
COMPOSITORES. EXCLUSÃO DE SÓCIO SEM GARANTIA DA AMPLA DEFESA E DO CONTRADITÓRIO. EFICÁCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES PRIVADAS. RECURSO DESPROVIDO. I. EFICÁCIA DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS NAS RELAÇÕES PRIVADAS. As violações a direitos fundamentais não ocorrem somente no âmbito das relações entre o cidadão e o Estado, mas igualmente nas relações travadas entre pessoas físicas e jurídicas de direito privado. Assim, os direitos fundamentais assegurados pela Constituição vinculam diretamente não apenas os poderes públicos, estando direcionados também à proteção dos particulares em face dos poderes privados.. II. OS PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS COMO LIMITES À AUTONOMIA PRIVADA DAS ASSOCIAÇÕES. A ordem jurídico-constitucional brasileira não conferiu a qualquer associação civil a possibilidade de agir à revelia dos princípios inscritos nas leis e, em especial, dos postulados que têm por fundamento direto o próprio texto da Constituição da República, notadamente em tema de proteção às liberdades e garantias fundamentais. O espaço de autonomia privada garantido pela Constituição às associações não está imune à incidência dos princípios constitucionais que asseguram o respeito aos direitos fundamentais de seus associados. A autonomia privada, que encontra claras limitações de ordem jurídica, não pode ser exercida em detrimento ou com desrespeito aos direitos e garantias de terceiros, especialmente aqueles positivados em sede constitucional, pois a autonomia da vontade não confere aos particulares, no domínio de sua incidência e atuação, o poder de transgredir ou de ignorar as restrições postas e definidas pela própria Constituição, cuja eficácia e força normativa também se impõem, aos particulares, no âmbito de suas relações privadas, em tema de liberdades fundamentais.(...)” (Rel.Min. Gilmar Mendes, 2a Turma, RE 201819; DJ 27-10-2006 PP-00064)
direitos fundamentais, asseverando que eles são aplicáveis nas relações interprivadas. O TST tem aplicado de forma imediata os direitos fundamentais às relações trabalhistas, embora em suas decisões não faça alusão expressa à teoria da eficácia horizontal dos direitos fundamentais.718 No entanto, ainda são incipientes estas decisões, especialmente
no que concerne ao meio ambiente laboral.
No caso do direito ao meio ambiente do trabalho equilibrado que tem por escopo assegurar a tutela da saúde, da vida do trabalhador, cabe ao empreendedor manter o meio ambiente do trabalho seguro e saudável, já que é ele quem assume os riscos da atividade econômica. Trata-se aqui de hipótese em que a relação de assimetria está presente e onde se visualiza de forma clara a importância de atribuir-se a eficácia dos direitos fundamentais perante os particulares, como forma de promover a igualdade material e de limitar os excessos do empregador contra a dignidade do trabalhador.
Diante da disposição contida no inciso XXII, do art. 7º no sentido de que é direito de todos os trabalhadores a redução dos riscos inerentes ao trabalho, a norma deve incidir de forma imediata e direta, não necessitando da interferência do legislador ordinário. Tal fato justifica-se em face do conteúdo social da Constituição que colocou com um dos seus objetivos a construção de uma sociedade mais justa e igualitária e como fins da ordem econômica os ditames da justiça social. Estes objetivos jamais serão alcançados, como já se evidenciou em outras passagens deste estudo, se não forem conferidas condições adequadas e seguras para o exercício do trabalho.
Caberá ao Poder Judiciário deixar para trás a idéia tradicional de que os direitos fundamentais vinculam apenas o Estado, principalmente nas relações assimétricas como as de trabalho, onde estão em permanente conflito o poder diretivo do empregador e os
718 Decisões do Tribunal Superior do Trabalho atribuindo eficácia horizontal imediata aos
particulares: E.g., TST, 2a Turma, Recursos de Revista 512.905/98.0, Rel. José Pedro de Camargo (juiz Convocado), DJ 7.2.2003; TST, 2a Turma, Recurso de Revista 470.904/98, Rel. Min. José Luciano de Castilho Pereira; E.g. TST, 2a Turma ; Embargos em Recurso de Revista 217.792/95-3. Rel. Min. Vantuil
direitos fundamentais do empregado.719
4.1.2.2 Interpretação conforme os direitos fundamentais e que conduza à