INSTITUIÇÃO
• Projeto de ação voluntária de um interno
A seguir apresento os dados sobre um projeto de ação voluntária de um interno, no período final da pesquisa de campo.
Quase no final do processo de grupo, o adolescente da Família 3 apresentou à diretora um projeto para ensinar capoeira aos outros internos, uma vez que havia feito aulas anteriormente. O projeto tinha todas as etapas de um projeto pedagógico, inclusive a justificativa – utilizar o tempo para atividades saudáveis ao invés de criminosas. O material foi mostrado à equipe de pesquisa pela direção, que se mostrou entusiasmada com a qualidade da proposta. O adolescente deu a pista de sua intenção, no final do encontro, quando disse a palavra projeto. Infelizmente, esse projeto não foi aprovado.
O fato de o adolescente ter elaborado um projeto de trabalho com outros jovens para ensinar capoeira pode ser considerado uma indicação de mudança positiva em seu relacionamento de rede.
• Entrevista com os professores dos adolescentes
Foram levantados, 15 dias depois do término do processo grupal – em entrevista com alguns professores do Centro de Estudos Supletivos que funciona no Educandário e com os técnicos responsáveis pela condução das oficinas profissionalizantes –, os seguintes dados sobre o impacto da proposta na instituição.
As reflexões dos seis professores, durante e após a realização da proposta dos jogos espontâneo-criativos, indicam que o desempenho escolar dos cinco
adolescentes foi melhorando até que se tornaram os melhores alunos da sala. Além de se empenharem mais nos estudos, passaram a colaborar, durante as aulas, com a aprendizagem dos colegas.Tornaram-se parceiros do professor. Os professores consideravam os cinco participantes prontos para o retorno ao convívio social.
• Entrevista com três técnicos responsáveis pelas oficinas profissionalizantes
Os técnicos afirmaram que, durante o tempo de duração do processo do grupo, não tiveram problemas com os adolescentes nas oficinas. Chamou a atenção do técnico de datilografia a mudança de atitude de um adolescente, irritado com a máquina de escrever porque essa não era sua escolha de curso. No início dava murros na máquina e reclamava muito. Depois ficou tranqüilo e terminou o curso normalmente.
Os dados levantados indicam que o processo de aprendizagem teve salto qualitativo, assim como o processo de autonomia (melhores notas, iniciativa de ajudar os colegas) teve avanços. Igualmente houve indício de que o processo de comunicação em rede (ensinar os colegas, ter boa relação com os professores) caminhou. Retomo as funções da família: da e na relação afetiva, do desenvolvimento do sentimento de PERTENCER (função materna) desenvolve-se o sentimento de SER (autonomia). Nesse contexto de pertencimento e de reconhecimento, enfatizo que os dados da pesquisa deram pistas sobre o princípio de que vivências de limite (função paterna) e de confronto (agressividade simbólica) potencializam melhoras no processo de aprendizagem, inclusive no desempenho escolar, como também abrem canais para a rede de relações.
4.5 ESTUDO DO IMPACTO DA PROPOSTA JOGOS ESPONTÂNEO-CRIATIVOS NOS PROCESSOS DE COMUNICAÇÃO, AUTONOMIA E INTEGRAÇÃO NA FAMÍLIA
Para refletir sobre a entrevista com a Família 3, um ano e meio após a finalização da proposta, relato agora o processo, realizado com a anuência e ajuda do Educandário.
O contato inicial foi feito por telefone pela equipe de apoio, que explicou o objetivo – levantar dados para melhorar a proposta. A família mostrou-se receptiva à entrevista, mas a avó ficou muito aborrecida porque viajaria um dia antes e não poderia comparecer. Assim, antes que viajasse, telefonei-lhe. A síntese de sua fala em resposta às questões foi: Achei muito legais os encontros das famílias. O que mais gostei foi das brincadeiras e a que mais gostei foi a brincadeira da bola. Ela mostrou tanto interesse pelo nosso encontro e estava tão mobilizada porque iria perder a entrevista que me encaminhou a planejar um miniencontro, com propostas que oportunizassem alguma aprendizagem para a família. Na realidade, organizei uma entrevista lúdico-reflexiva. Duas técnicas da equipe de apoio pediram para participar.
A entrevista-encontro durou 50 minutos e foi realizada na instituição, na sala destinada ao atendimento das famílias, com a presença da mãe, grávida de 8 meses, um neto de 5 anos, uma filha de 9 anos e o adolescente, que está cumprindo um outro período de internamento por ato infracional.
A mãe chegou disponível e deu algumas notícias da família. Dona Alice, a avó, mudou para o interior do Paraná, onde reside outra filha, grávida também. Nilce – que tem o marido e a filha mais velha – diz que sua irmã precisa muito mais da mãe. O adolescente permaneceu bem distante ao me cumprimentar. Aproximei-me dele e pedi um abraço. Ele se emocionou. Comecei com o jogo da bola. Ele repetiu o comportamento da maioria dos internos no começo dos encontros, passando a bola para as mãos da mãe. O jogo seguinte foi o de ritmo e limite, que eu havia feito no nono encontro. Fiz outra variação, de modo que aprendessem a fazer esse jogo na mesa, só com as mãos. Depois pedi um jogo da família – parecia, no início, que não queriam. Pedi que escolhessem um material. Havia bolas pequenas de espuma, arcos e tubos. Acabaram escolhendo o jogo de bater com o tubo na bola, em duplas – mãe e filha, adolescente e sobrinho – por proposta do adolescente e da mãe. No segundo momento ofereci os mesmos materiais utilizados nas montagens do primeiro e do décimo encontro e solicitei que fizessem a montagem da família. O menino pediu para o tio fazer um carro. A mãe sentou no chão e começou a construir. O adolescente disse que não ia fazer a montagem, e sim o carro.
Aos poucos foram se envolvendo, e cada um fez sua montagem: a mãe fez um sítio com criação de porcos; o adolescente disse que tentou construir uma casa e, como achou que não sabia fazer casa, fez uma garagem para o sítio da mãe. A menina e o menino fizeram garagens (retângulos apertados) para seus carros. De novo, pedi que olhassem a construção e tentassem deixá-la mais confortável. Então a menina ampliou a garagem, a mãe transformou o sítio em casa, e o adolescente fez uma casa com espaços diferenciados.
No momento seguinte fizemos uma reflexão sobre o funcionamento e objetivo da proposta vivenciada por eles havia um ano e meio. A mãe afirmou que as aprendizagens mais importantes foram sobre limites e sobre brincar sem machucar. Disse que o material, horário, duração, objetos, sala e condução da proposta estavam bons. Sugeriu que esse trabalho fosse oferecido a todas as famílias. O adolescente disse que era para privilegiar as que mais precisavam. Sobre a aprendizagem, disse que aprendeu muito, mas não colocou nada em prática e chorou. Eu disse que acreditava nele, em seu potencial, em seu retorno a uma vida de qualidade.
Tanto eu como as técnicas presentes contamos o que aprendemos com esse trabalho. Em seguida, mostrei as três fotos das montagens como vemos nossa família, realizadas no primeiro e no décimo encontro. Comparei-as, relacionando-as com a última montagem. Contei sobre as hipóteses levantadas nessa comparação, sobre os possíveis ganhos no desenvolvimento da família, os quais davam pistas sobre um processo de autonomia (diferenciação). Em sinal de agradecimento e também para serem possíveis referências das possibilidades, criatividade e da potencialidade dessa família, entreguei a eles, em seguida, mais algumas fotos da família nos vários encontros. Eles gostaram muito de recebê-las.
Contaram que a filha de 15 anos está com problemas de limites. Forneci à mãe informações, inclusive o telefone de instituição que realiza trabalho social em terapia familiar, para buscar ajuda. Finalizamos com abraços e agradecimentos.
Logo após a entrevista, conversei com a psicóloga responsável pelo adolescente dessa família. Ela informou que Cláudia, a irmã de Ênio, tinha estado recentemente no Educandário e disse-lhe que diminuíra as visitas ao irmão porque
precisava cuidar mais de seus dois filhos; estava trabalhando e esperava proximamente alugar um espaço para ela e os filhos.
Reflexão sobre a Entrevista com a Família 3.
O processo dessa entrevista me levou a traçar algumas considerações. O pedido de autorização à instituição, o planejamento, a preparação, a interação com a família para convidar e marcar data, local e horário dessa entrevista proporcionaram um processo de mudança no conceito e procedimento de entrevista como instrumento desta pesquisa, além da construção de um procedimento na metodologia da pesquisa. Talvez, de novo, eu pudesse me referenciar na afirmação de CURY & SZYMANSKI (2004, p. 362), para quem pesquisa em ambiente natural e inserida numa situação de intervenção psicoeducacional obriga o pesquisador a desenvolver novos métodos de pesquisa, muitas vezes inspirando-se na prática profissional. O procedimento de sempre devolver ao grupo multifamiliar nossas reflexões e informações sobre o seu caminhar parece que auxiliou na configuração de um novo modo de entrevistar. Assim, o processo preparatório da entrevista colaborou para um novo procedimento, uma nova forma de entrevista para a metodologia da pesquisa.
Descrevo a seguir o processo de parcerias na construção da entrevista. Solicitei à diretora do Educandário permissão para entrevistar o adolescente da Família 3, que estava em segundo período de internamento na instituição. Pensava ser impossível entrevistar a família.
A diretora ofereceu a possibilidade e o auxílio da instituição para entrevistar a família, caso esta concordasse.
O processo de interação com a família me motivou a refletir e elaborar uma entrevista na qual a família fosse incluída também como protagonista.
No processo de vivência dos jogos, no segundo tempo da entrevista, o que marcou a minha postura foi a total abertura para os movimentos e comunicação da família e a ausência de expectativas ou objetivos de levantamento de dados para a pesquisa durante o tempo dedicado ao jogo. O objetivo era que tivessem um espaço/tempo para trabalhar suas inquietações, um espaço de contenção afetiva, de
limite, de prazer de movimentos e de confronto. No terceiro momento eu faria as perguntas sobre a proposta, vivenciada quase dois anos antes.
O movimento da família, tendo como base os sentimentos de ações e reflexões vivenciados durante a proposta, dinamizou-me a construir um novo paradigma de entrevista – que vê o entrevistado também como protagonista –, um novo procedimento de pesquisa construído a partir da família. Tal entrevista possibilita contexto de levantamento de dados para a pesquisa e, ao mesmo tempo, possibilita à família vivenciar um contexto potencializador de desenvolvimento da comunicação, autonomia e integração:
1- Momento de acolhimento afetivo (função materna).
2- Jogo de preparação e vivências das funções da família: jogo da bola. Observei que, nesse jogo, mesmo estando em sete pessoas (quatro da família, duas técnicas e eu), o adolescente passa a bola para as mãos da mãe (no contexto parece busca de relação).
3- Jogo da família: bater com o tubo na bola. Atende às expectativas da família: Ênio e Juarez, em tudo o que faziam, indicavam necessidade de expressar a agressividade simbólica.
4- Jogo da montagem: tinha como objetivo oferecer oportunidade de a família refletir sobre ela mesma e talvez levantar dados para a pesquisa no estudo da fotografia. Nesse procedimento, indicam a confirmação não só do valor da foto como a possibilidade de reflexão, mas muito mais o valor da interação no contexto da entrevista.
Apesar da indicação de que existe continuidade no movimento de diferenciação dessa família aponto que, pelas dificuldades com a filha de 15 anos e pela reincidência do adolescente, necessitam, na seqüência, de um processo de terapia familiar.
4.6 REFLEXÃO TEÓRICO-PRÁTICA CONSTRUÍDA NO PROCESSO DE