Uma das questões que marca a identidade em JoAs no sentido da reprovação é a oposição entre o puro e o impuro.
Quando José se encontra com Asenet, Putifar diz à filha para beijá-lo. José rejeita beijar Asenet. A oposição de José ao beijo revela uma repulsão à união com o estrangeiro. Podemos ver isso claramente no texto abaixo:
E Putifar disse à sua filha Asenet: ‘Vá beijar seu irmão’. Quando Asenet foi beijar José, ele estendeu sua mão direita e colocou-a no peito de Asenet, entre os seios, e seus seios estavam já na posição ereta como lindas maçãs. E José disse: ‘Não é apropriado a um homem que adora a Deus, que vai bendizer com sua boca o Deus vivo, comer o pão da vida abençoado, beber o cálice da imortalidade abençoado, e ungir-se com o óleo da incorruptibilidade abençoado, beijar uma mulher estrangeira que vai bendizer com sua boca ídolos mortos e mudos, comer de sua mesa pão do
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COLLINS, John J. Prefácio In: NOGUEIRA, Paulo A. S.; FUNARI, Pedro P. A.; COLLINS, John J. (Orgs.) Identidades fluídas no judaísmo antigo e no cristianismo primitivo. p. 7, tradução nossa.
estrangulamento, beber de sua libação um cálice da emboscada e se ungir com o óleo da destruição. 129
A boca de José é mostrada como pura. Ela bendiz ao Deus vivo, se alimenta do pão da vida e ele (José) se unge com o óleo da incorruptibilidade. Mas Asenet é exatamente o oposto. Sua boca não bendiz ao Deus vivo, não se alimenta do pão da vida e ela não se unge com o óleo da incorruptibilidade. Ela é impura.
Ao sugerir que Asenet beije José, Putifar está querendo criar um grau de parentesco com ele. É por isso que o pai diz a Asenet em 8:4: “Vá beijar seu irmão” (provselqe kai; katafivlhson ton; ajdelfovn)130. Ele chama José de irmão de Asenet. Há uma tentativa de estabelecimento de grau de parentesco. Mas a tentativa é fracassada, pois o puro não pode beijar o impuro.
Penn cita a literatura clássica no mundo grego-romano para dizer que aos parentes não só era permitido se beijarem, mas também era esperado que o fizessem. Ele afirma que os escritores latinos frequentemente se referiam a isto como o ius osculi (lei do beijo).
Como Putifar, fontes grego-romanas muitas vezes usavam o beijo familiar para criar parentesco fictício.131
Há uma ligação entre o beijo e o parentesco no texto. E enquanto Putifar sugere o beijo numa tentativa de inclusão familiar, José utiliza o beijo como um elemento de separação, mostrando as diferenças. Com essa atitude ele diz que só os adoradores do Deus verdadeiro é que podem ser considerados família. Em 8:6 ele diz: “Mas um homem que adora a Deus beijará sua mãe e a irmã (que é nascida) de sua mãe, a irmã (que é nascida) em seu clã e família, e a esposa que compartilha de sua cama, (todos) aqueles que bendizem com suas bocas o Deus vivo.” 132
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BURCHARD, Christoph. Joseph and Aseneth: a new translation and introduction. In: CHARLESWORTH, J. D. The Old Testament Pseudepigrapha. v. 2. 8:4-6. pp. 211-212, tradução nossa.
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Todas as citações do texto grego referentes a José e Asenet foram extraídas do texto crítico: BURCHARD, Christoph; BURFEINED, Carsten; FINK, Uta B. Joseph und Aseneth: pseudepigrapha veteris testament graece.
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PENN, Michael. Identity transformation and authorial identification in ‘Joseph and Aseneth’. p. 174. Penn cita as seguintes referências: Athenaeus 10.440-41 (LCL 235.496); Aulus Gellius 10.23.1.5 (LCL 195.278); Ovid, Amores 1.4.39, 1.4.63, 2.5.23-30 (LCL 041.331, 332, 394); Ovid, Epistula 20.145 (LCL 041.284); Ovid, Metamorphoses 9.560 (LCL 043.42); Pliny (the Elder), Naturalis historia 14.90.2 (LCL 353.246); Propertius 2.6.8 (LCL 018.134); Tertullian, Apologeticus 6.4 (CCL 1.97). Cf. Penn, Performing Family, pp. 159-60, e M.B. Pharr, ‘The Kiss in Roman Law’, The Classical Journal 42.8 (1946–47), p. 394.
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BURCHARD, Christoph. Joseph and Aseneth: a new translation and introduction. In: CHARLESWORTH, J. D. The Old Testament Pseudepigrapha. v. 2. 8:4-6. p. 212, tradução nossa.
A família é o grupo dos puros, que podem se beijar, pois suas bocas são puras. Quem não é puro não é da família.
O beijo indevido é associado no texto como um transmissor de impurezas. Se José beijasse Asenet, ele se contaminaria pelo beijo dela. Penn diz que neste ponto o romance se assemelha aos escritores do mundo grego romano, pois falam do beijo como transmissores de impurezas e doenças.133
Quando José se recusa a beijar Asenet, isso estabelece não somente barreiras físicas, mas também religiosas.
Ao invés de expressar primariamente erotismo, o beijo em JoAs é um indicativo de pureza ou impureza. Só se pode beijar os puros.
Em sua oração de arrependimento e confissão de pecados, Asenet fala da impureza de sua boca: “Minha boca está impura pelos sacrifícios dos ídolos e pelas mesas dos deuses dos egípcios”134 (memivatai to; stovma mou ajpo; tw:n qusiw:n tw:n eijdwvlwn kaiv ajpo; th:V trapevzhV tw:n qew:n tw:n Aijguptivwn.). A impureza de Asenet é confessada por ela mesma no momento em que ora ao Deus de Israel.
Assim, a pureza e impureza estão em confronto no texto e servem como fatores determinantes de uma identidade.
O judeu é aquele que não é impuro. Ele não bendiz aos deuses mortos e mudos, não come alimentos impuros das mesas de seus deuses e não é ungido com o óleo da corrupção.
Isto determina quem são o “nós” e os diferencia do “eles”. O puro é contrastado ao impuro, há elementos que caracterizam cada um deles. O impuro come das mesas impuras, bendiz coisas impuras e se unge com coisas impuras. O puro come das mesas da pureza, bendiz ao Deus santo e se unge com o óleo santo.
Ser judeu é pertencer aos puros e rejeitar os impuros.
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Por exemplo: Ele menciona que Sêneca fala que juristas declaram uma mulher inaceitável para ser sacerdotisa por causa que sua associação com cafetões e prostitutas faz seus beijos se tornarem impuros (Seneca (the Elder), Controversiae 1.2.1, 5, 7, 9, 10, 12, 16 (LCL 463.60, 66, 70, 72, 72, 74, 80). Outros autores citados como exemplo são: Lucan 2.114 (LCL 220.66); Pliny (the Elder), Naturalis historia 26.3.3 (LCL 393.266); Seneca (the Younger), De beneficiis 2.12.2.1 (LCL 254.72). PENN, Michael. Identity Transformation and Authorial Identification in ‘Joseph and Aseneth’. p. 175.
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BURCHARD, Christoph. Joseph and Aseneth: a new translation and introduction. In: CHARLESWORTH, J. D. The Old Testament Pseudepigrapha. v. 2. 12:5. p. 221, tradução nossa.
4.3.1.2 A construção da identidade no confronto entre o Deus de Israel e os deuses