4. UYGULAMA
4.3. TENS Yönteminin Modellenmesi
4.3.2. Bulanık mantık ile modelleme
4.3.2.1. Vallex – I bölgesine ilişkin modelleme
No período de luta pela anistia e pela redemocratização política no Brasil muitos militantes de esquerda se transformaram de atores em autores e, como tal, escreveram obras que têm a configuração de relatos-depoimentos vivos da experiência política vivida, em passado recente. Algumas dessas narrativas têm claro tom pedagógico - procuram expressar as experiências vividas no período de 1968-1974, as reflexões feitas pelos autores no momento dos fatos e, posteriormente, as suas ocorrências, e também buscam ensinar o leitor sobre esse passado.
Fernando Gabeira e Alfredo Syrkis fazem parte desse grupo de narradores do período acima referido. Como participantes dos seqüestros fazem, nos seus livros, relatos vivos da experiência política vivenciada e ressaltam os seqüestros em capítulos de suas obras, dando detalhes sobre essas ações.
É na narrativa desses dois atores/autores que procuramos entender como se processa a aprendizagem na ação política em situações- limite, no caso, situações de riscos de vida como aos de seqüestro, buscando compreender a interpretação feita por eles, do passado real, dos momentos de enfrentamento com o regime militar e das contradições entre necessidades imediatas e valores universais.
É nosso propósito situar em suas narrativas o sentido que conferem às experiências de seqüestros dos embaixadores Charles Burke Elbrick, Enfreid von Holleben e Giovanni Enrico Bucher ocorridos nos anos de 1969-1970 no Brasil, buscando identificar, nos relatos, pistas dos
processos de aprendizagem de valores vivenciados por esses sujeitos históricos em situações políticas-limite.
Consideramos as obras O que é isso, companheiro? e Os carbonários - memória da guerrilha perdida, como relato da experiência política dos seqüestros, como depoimento e como testemunho do vivido. Se não podem ser consideradas obras de valor literário, no entanto são valiosas como registro de experiências, que lançam luzes sobre as sombras do passado. Por se aterem na história próxima e miúda, os relatos acabam por permitir compreender a dimensão da experiência individual marcada pelas ambigüidades, pelas contradições, pelos paradoxos daquele cenário.55
Para Becker, o confronto de fontes dessa natureza quase sempre se traduz na melhor técnica, por permitir a compreensão de como as pessoas experimentam processos vitais e levantam questões sobre a natureza de suas experiências.56
Silviano Santiago, ao definir os traços do que chama de memorialismo dos anos 70-80 no Brasil, afirma que de modo geral o texto centra todo interesse no “envolvimento político, do pequeno grupo marginal, expressa a descoberta assustada e indignada da violência do poder”, tem preocupação de autoconhecimento e forte caráter de depoimento relatando de forma viva a experiência pessoal do ator/autor:
“A experiência pessoal do escritor, relatada ou dramatizada, traz como pano de fundo para a leitura e a discussão do livro problemas de ordem filosófica, social e política [...] a narrativa é o elemento que catalisa uma série de questões teóricas gerais que só podem ser colocadas corretamente por intermédio dela.”57
Como intérpretes entendemos que os narradores não se comportam como historiadores que “têm e devem ter a pretensão de
55
Ver a esse respeito o ensaio de SANTIAGO, Silviano. Prosa literária atual no Brasil. In: Nas malhas da Letra. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 24-37.
56 BECKER, Howard S. A História de vida e o mosaico científico. Métodos de Pesquisa em Ciências
oferecer a verdade sobre seu objeto”;58 o que fazem é registrar os seus olhares sobre certa situação vivenciada, ou sobre determinado acontecimento presenciado. Trata-se, portanto, de uma visão personalizada da história.
Cabe a nós, interessados no estudo das narrativas, desvendar como os narradores relatam a realidade, a diversidade de seus aspectos que ressaltaram, afinal que tipo de olhar lançaram sobre essa realidade, o que escolheram para nos mostrar e o que não nos mostraram.
No caso das obras aqui consideradas, encontramos uma grande liberdade com relação à descrição e à interpretação dos fatos. E ainda que tenham sido precedidas por algum tipo de pesquisa falta-lhes o rigor de um estudo histórico ou sociológico.
Não estou segura de que as narrativas de Gabeira e Syrkis possam ser identificadas como documentos históricos, por isso não são analisadas como se ali estivesse registrada “a verdade dos fatos”. No entanto estou certa de que elas são, sim, um documento através do qual pessoas envolvidas com ações que assumem como históricas, interpretam o mundo e as suas relações sociais e que permitem, na esteira de seus relatos, que se levantem questões em torno do que consideram relevante ou irrelevante. Elas são um documento da experiência individual desses escritores em um determinado tempo, espaço e um quadro de valores com os quais se defrontaram. Por expressarem esses traços é que foram escolhidos para análise. São também traços dessa literatura:
“A exemplaridade e o decorrente tom pedagógico que a formula [...] O narrador autobiográfico assume a onisciência do foco narrativo num tom geralmente pedagógico, já que o móvel da narrativa se deve a fatos e situações de domínio público de que o
57
Op. cit. 1989. p. 31.
58 Costa Lima faz interessante distinção entre o que considera ser próprio do trabalho do historiador e
o do autobiógrafo. Ver esta distinção no livro Sociedade e discurso ficcional. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. p. 302.
autor-narrador participou. Realizando-se sob a forma de um discurso subjetivo de cunho avaliativo, o sujeito da enunciação inscreve-se no enunciado através de expressões lingüísticas de tom avaliativo fazendo com que a natureza axiológica da narrativa resulte na dicotomia bom/mau, geralmente construída com adjetivos, verbos e advérbios que veiculam juízos de valor”.59
Nas narrativas deparamos com o registro de “passagens do ser que simplesmente depõe ou conta a história da fração fundamental de
sua vida, ao ser que se interroga em busca do sentido que viveu”.60 A
interrogação introduz na narração um movimento oposto à trajetória descrita pela ação rumo ao dilaceramento do sujeito. Ela permite o surgimento de um novo ser em busca de sua identidade. O surgimento do ser que se interroga sobre o sentido da vida, depois que tudo se deu.
A estrutura de interrogação contida nas narrativas permite- nos acompanhar e reconhecer os elementos próprios aos processos de aprendizagem.
É nosso propósito abordar as narrativas através da análise temática e de conteúdo, “amplamente utilizados no campo das ciências sociais”; buscaremos nos deter em elementos de conteúdo, acompanhar possíveis indicações de traços explícitos ou implícitos no texto que nos permitam compor o que consideramos ser próprio de processos de aprendizagem de valores de natureza autônoma e heterônoma.
Reafirmamos que a aprendizagem de valores fica evidenciada quando deparamos com situações de alto grau de conflito, por isso definimos analisar as narrativas contidas nos livros relativas aos seqüestros dos embaixadores; é nesse sentido que privilegiamos o estudo
59 Para Sônia Salomão KHËDE o memorialismo autobiográfico dos últimos anos no Brasil tem como
valor não só a individualidade, mas também a expansão da técnica jornalística que ressalta a informação como elemento de extrema importância. In: Memorialismo e Identidade. O Eixo e a Roda. Belo Horizonte: Departamento de Letras da UFMG, v. 6, julho de 1988. p. 184-185.
60 ARRIGUCCI, Davi. Enigma e Comentário: ensaios sobre literatura e experiência. São Paulo:
dos capítulos referentes aos seqüestros, situando-os no contexto geral da obra.61
No livro O que é isso, companheiro?, buscamos ressaltar para a análise especialmente os relatos dos Capítulos XII, XV e XVI, ou seja, aqueles que narram as histórias pessoais de iniciação na vida da organização; a ação de seqüestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick; e a vida clandestina e nas prisões da ditadura brasileira nos anos de 1969 e 1970.
O livro Os carbonários - memórias da guerrilha perdida tem oito capítulos.62 Daremos especial atenção ao capítulo 4 - Astral/70 onde o narrador registra o impacto do seqüestro do embaixador americano nos grupos de esquerda; ao capítulo 5º relativo ao seqüestro do embaixador Von Holleben; o capítulo 7º, que relata o seqüestro do embaixador Bücher; e ao capítulo 8º que registra o seu desligamento da organização e a saída do Brasil rumo ao exílio.
Nossa perspectiva de abordagem quer acentuar o entendimento das obras como voz, como fala narrativa. O narrador é entendido aqui no sentido benjaminiano, como aquele ser possuidor da
“faculdade de intercambiar experiências”63, capaz de dialogar consigo
mesmo e com o leitor para além de seu tempo e espaço. Como entender e estabelecer esse diálogo é o desafio desta pesquisa e, nesse sentido,
61 O livro “O que é isso, companheiro?” apresenta a seguinte estrutura: Parte I - O homem correndo da
polícia; Parte II - Fica conosco Aragão; Parte III - Engolindo Sapos; Parte IV - Desamando uns aos outros; Parte V - Caparaó, a guerrilha sobre o morro; Parte VI - O buraco é mais em baixo, monsieur; Parte VII - Somos todos cosmonautas?; Parte VIII - Sangue, gases e lágrimas; Parte IX - Um dia vão entender; Parte X - Ritual de Iniciação; Parte XI - Ser mãe; Parte XII - Retrato de família, com os homens; Parte XIII - As histórias da O; Parte XIV - Visita, só aos domingos; Parte XV - Babilônia, Babilônia; Parte XVI - Onde o filho chama e a mãe não ouve.
62
Tempo de passeatas; A geração/68; Sinal fechado; Astral/70; Seqüestro do alemão; Brasil ame-o ou deixe-o; Na infra do Tio; Passaporte.
63 BENJAMIN, Walter. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikolai Leskov. In: Magia e
afirmamos com Palmer que “a necessidade do diálogo com a obra é que
abre o universo da pesquisa”, e não a dissecação da obra literária.64
É tarefa hermenêutica recolocar o texto no presente vivo do diálogo e o primeiro passo para isso é o esforço do exercício pergunta- resposta. Todo texto coloca ao intérprete uma questão que ele busca responder através da interpretação. Para Gadamer, a interpretação contém sempre “uma referência essencial à pergunta que foi colocada”. Palmer adverte que a verdadeira interpretação terá de se relacionar com a “questão” colocada pelo texto, ou seja, “todo texto tem um lugar e um tema”. Cabe ao intérprete compreender que num certo sentido o texto contém a resposta a uma questão, “não a pergunta que lhe pomos, mas a pergunta que o tema
do texto lhe põe”.65
Partimos da premissa de que toda experiência relatada pressupõe uma estrutura de interrogação. Desse modo definimos, como condição para a compreensão dos relatos, a identificação das indagações feitas pelos atores/autores no momento vivo dos acontecimentos, bem como, no momento da escrita dos livros.
É nossa intenção, com esse procedimento, estabelecer com a narrativa e com seus autores uma relação de diálogo. A proposta requer atitudes fundamentais do intérprete: primeiro, que saiba ouvir e segundo, que, a partir do que foi ouvido, saiba indagar para poder dar continuidade ao diálogo.
Decidimos ouvir a fala dos atores/autores procurando acompanhar a descrição que fazem do vivido e, a partir daí, apreender o sentido conferido por eles aos fatos e acontecimentos experienciados.
64 PALMER, Richard E. Hermenêutica. Rio de Janeiro: Ed. 70, 1989. (O saber da Filosofia). p. 202. 65 GADAMER, Hans-Georg. A lógica da pergunta e resposta. In: Verdade e Método. Petrópolis:
Buscamos ouvi-los, inicialmente, através das indagações formuladas por eles mesmos no texto,66 em seguida, passamos a construir os temas que nos permitiriam acompanhar as significações impressas aos fatos vivenciados.
Situamos quatro campos temáticos nas narrativas. O primeiro: o seqüestro como ação planejada. O segundo: a justificativa das ações. O terceiro: as relações entre os atores sujeitos-políticos envolvidos na ação, acompanhados de subtemas de análise - a relação com o grupo de companheiros, a presença forte dos embaixadores, a presença do regime ditatorial e dos órgãos de repressão; e por fim, as conseqüências advindas da ação de seqüestro, enfocadas sob dois aspectos - o da clandestinidade/prisão/tortura e morte, e as indagações sobre a identidade.
Passamos à tarefa de trazer a experiência vivida, agora tematizada, para a ordem da significação, extraindo dos atos de fala o significado que esses atores/autores, através da narrativa, imprimem à experiência pessoal e coletiva em cada um dos temas abordados.
Em que sentido esses significados deixam perceber as tensões na aprendizagem dos fundamentos da moral prática? Dos fundamentos das racionalidades estratégica e comunicativa? Das exigências morais cabíveis sob condições dadas contrapostas à vontade fundada em princípios universais? Que associações e conexões faziam entre vontade empírica e vontade autônoma? Entre meios e fins?
66 O primeiro bloco de indagações - Íamos seqüestrar o embaixador americano... mas como?” “como
foi a ação deu algum problema?” - possibilitou-nos chegar ao tema do seqüestro como ação planejada e as justificativas da ação.
O segundo bloco de questões permitiu a tematização sobre os sujeitos envolvidos na ação - as organizações, os embaixadores e o regime ditatorial: “Éramos ou não sonhadores do absoluto?; “Que é isso companheiro?”, “Como julgá-los? Como acusar fulano de traidor? [se] até ontem era um grande quadro?” “Querido embaixador? Ao nosso prisioneiro?”, “Dormiu bem?” Por que não me deixam ir embora?”; “Será que chego vivo ao reveillon de 71?”; “E de quem eram aqueles gritos agora?”, “Afinal quem sou eu? Quem serei eu no futuro?”. As duas últimas indagações permitiram a tematização sobre as conseqüências advindas da situação de seqüestro.
Por fim, indagamos sobre as razões alegadas pelos autores para justificar o registro dessas experiências, os motivos que os levaram a escrever os romances. Teriam eles um projeto de construção de uma pedagogia sobre essa prática?
Interessa-nos demonstrar que é no processo de assimilação das tensões vividas que os horizontes do entendimento vão se alargando, possibilitando que a aprendizagem sobre os fundamentos da autonomia e da heteronomia cresça em complexidade, tornando possível a construção de uma pedagogia sobre essa prática.
A tese ganhou, assim, a seguinte estruturação: a introdução procura fundar um espaço de diálogo, definir inquietações teórico- metodológicas e encontrar caminhos que nos conduzissem à compreensão da experiência da aprendizagem de valores na ação política.
A Parte I, intitulada Compondo o cenário de luta da esquerda armada contém um capítulo. Nele buscamos compor o cenário histórico em que as ações de seqüestro se desencadeiam, a conjuntura brasileira após o golpe militar de 1964 e o período compreendido entre os anos de 1968-1970, período de realização dos seqüestros e, por fim, situamos a fase de transição brasileira para a redemocratização nos anos 79 a 82, quando foram escritas as narrativas.
A Parte II tem como título O presente vivo do diálogo com as narrativas de Fernando Gabeira e Alfredo Syrkis. No segundo, terceiro e quarto capítulos traçamos o horizonte do diálogo das narrativas de Fernando Gabeira e Alfredo Syrkis sobre os seqüestros dos embaixadores dos Estados Unidos da América (EUA), da Alemanha e da Suíça, buscando ouvir os autores e identificando em suas narrativas as significações conferidas à experiência da aprendizagem da autonomia e heteronomia.
A Parte III, denominada A essência da experiência narrativa: no horizonte da indagação a possibilidade de aprender e ensinar sobre os
valores fundantes da heteronomia e da autonomia, é estruturada em dois capítulos. No quinto capítulo buscamos, através da interpretação do significado textual, dar continuidade ao diálogo com as narrativas, procuramos não só compreender a experiência relativa ao processo de aprendizagem de valores em contextos de ação política, mas também identificar os princípios aprendidos naquela situação-limite. No sexto capítulo interpretamos as narrativas de Fernando Gabeira e Alfredo Syrkis como expressão da construção de uma pedagogia sobre a práxis.
Por fim, concluímos o trabalho refletindo sobre o percurso do nosso processo de aprendizagem. Novamente situamos as fontes e as hipóteses da tese, reconstruindo seu processo demonstrativo.
CAPÍTULO I