Análise e Integração dos Componentes Trabalhos de Campo
Observações em campo Registros fotográficos Certificação/correção Elaboração de perfis Coleta de informações Levantamentos bibliográficos e cartográficos Escala de Análise Imagens de Satélite Bases Cartográficas Bibliografia Legislação Fluxos de matéria e energia Evolução da planície costeira População/
demografia Infraesetrutura Economia
Sistemas ambientais Condicionantes geoambientais Meio Socioeconômico Uso e ocupação Meio Físico
3 COMPARTIMENTAÇÃO DOS SISTEMAS AMBIENTAIS: CONTEXTO REGIONAL E LOCAL
A paisagem se apresenta como resultado da relação entre os processos passados e os atuais, onde os processos passados foram os responsáveis pela compartimentação regional da superfície, enquanto que os processos atuais respondem pela dinâmica atual das paisagens (AZIZ AB’SABER, 1969). Com base nesse entendimento, neste capítulo foram apresentados de forma sucinta os processos regionais e locais que atuaram na formação da zona costeira cearense, com ênfase para os processos recentes que determinam a dinâmica atual das paisagens, tais como: a evolução morfoestrutural da zona costeira cearense, a determinação dos fluxos de matéria e energia que atuaram na evolução da planície costeira a nível local, a dinâmica comandada pelos processos costeiros, bem como os componentes geoambientais que caracterizam o quadro físico-natural.
3. 1 Evolução da planície costeira cearense
A zona costeira cearense evoluiu na escala geológica, como resultado da ação simultânea de processos internos (tectônica e isostasia) e processos externos (variações do nível do mar, ondas, correntes litorâneas, marés, ação fluvial, precipitações e ventos), constituindo uma região que se entende desde o nível das praias até o seu limite interior representado pelos depósitos do Grupo Barreiras (CLAUDINO SALES, 2007).
O processo de formação da margem continental do estado do Ceará e Nordeste em geral, data do Mesozoico, quando iniciaram os processos de fragmentação do supercontinente Pangea. A fase inicial dessa ruptura ocorreu através de movimentos dispersivos que provocaram a abertura do Atlântico Sul seguindo em direção ao norte, simultaneamente, esforços distensivos atuaram na direção SE-NW (CLAUDINO-SALES E PEULVAST, 2007 apud MATOS, 1992).
No litoral cearense ficaram evidentes na paisagem as marcas desse processo, através da compartimentação topográfica das superfícies litorâneas, das mudanças de orientação da linha de costa e da presença de pontas rochosas cristalinas como as pontas do Iguape, Mucuripe, Pécem e Jericoacoara que correspondem a eixos de ruptura do Gondwana e exercem papel relevante na transferência de sedimentos (CLAUDINO-SALES, 2007).
Com a gradual abertura do oceano Atlântico a margem continental recém-formada passou por um processo de resfriamento que conduziu ao aumento da densidade e subsidência
desse setor. Por outro lado, o interior do continente foi soerguido, dando origem ao processo conhecido como “flexura marginal”. O rebaixamento do seguimento costeiro fez surgir os primeiros indícios de uma zona litorânea – faixa de terra baixa banhada por marés (CLAUDINO-SALES, 2007). Por volta do Terciário Superior e Quaternário Inferior os sedimentos provenientes da ação erosiva do setor montanhoso foram transportados e depositados na zona costeira por influência da flexura marginal e da ação fluvial que passou a denotar movimentos catastróficos em meio às mudanças climáticas. O depósito resultante desse processo originou o atual Grupo Barreiras.
- Flutuações do nível do mar e mudanças climáticas
As oscilações do nível do mar associadas às mudanças climáticas globais durante o Quaternário deram continuidade ao processo de formação da zona costeira tal como se encontra atualmente, resultando na diversidade de morfologias e ecossistemas recentes.
Suguio (1985) explica que as flutuações do nível relativo do mar resultam das variações reais dos níveis marinhos (eustasias) e das modificações do nível dos continentes (tectonismo e isostasia). Portanto, quando são realizadas reconstruções de antigos níveis marinhos, referem-se a posições relativas e não absolutas já que tais condicionantes podem atuar a nível global, regional ou local.
Os eventos de transgressão (subida do nível do mar) e regressão marinha (descida do nível no mar) estão relacionados, sobretudo aos fenômenos glacioeustáticos (clima), tecnoeustáticos (movimentos terrestres) e geoideustáticos (gravidade e rotação). No litoral brasileiro, a glacioeustasia é a principal causa da formação de extensas planícies costeiras.
As glacioeustasias correspondem às variações do nível relativo do mar em função dos fenômenos glaciais, ou seja, de natureza climática (SUGUIO, 2003). Ao longo da escala geológica, em diferentes períodos, as massas continentais estiveram recobertas por calotas de gelo, isso porque por diversas razões naturais as temperaturas diminuíram provocando a solidificação das águas que circulam na natureza, a qual, em última instância, sempre alcança os oceanos, dando origem às glaciações (CLAUDINO – SALES, 2007). Dessa forma, durante as glaciações a retenção de grandes volumes de água promoveu a regressão ou recuo do nível do mar e ampliação da zona costeira por meio da formação de planícies litorâneas. Por outro lado, nos períodos interglaciais, a diminuição dos volumes de água retidos nos continentes
resultou em transgressões marinhas ou avanço do nível relativo do mar e desaparecimento da zona costeira.
A atuação de movimentos crustais, como a tectônica de placas refere-se a tecnoeustasia. Esse evento apresenta um caráter global, mas pode atuar no nível regional e local, onde os efeitos são mais perceptíveis. Quando ocorre a aglutinação dos continentes há uma diminuição da plataforma continental envolvente e por consequência gera o aumento da capacidade das bacias oceânicas. Por outro lado, as constantes rupturas da crosta acabam por produzir transgressões generalizadas e diminuição da capacidade das bacias oceânicas, refletindo na subida do nível do mar (MEIRELES, 2005).
Suguio (2003) aponta ainda entre outros fatores associados às variações do nível do mar os fenômenos geoideustáticos relacionados à força gravitacional terrestre. As modificações da superfície do geoide em função da interação de forças internas e externas são responsáveis pelas deformações do geoide terrestre e pelas rápidas modificações no nível dos oceanos.
Considerando a influência de tais fatores na determinação dos eventos eustáticos, várias pesquisas têm se dedicado ao estudo da evolução das planícies litorâneas brasileiras como: Martin & Suguio (1975); Suguio & Martin (1976); Martin et al (1979); Bittencourt et al (1979); Dominguez et al (1982); Meireles (1991); Meireles & Maia (1998) e Meireles et al (2005).
No estado do Ceará, indicadores geoambientais relacionadas a esses eventos podem ser evidenciados com a presença de terraços marinhos holocênicos e pleistocênicos, plataformas de abrasão marinhas escalonadas, gerações de dunas e eolianitos, antigos corais sobre a berma e estirâncio, depósitos de mangue acima do nível do máximo das marés e submersos na plataforma continental proximal, falésias mortas e complexos sistemas representados por deltas de marés e lagunas costeiras (MEIRELES, 2005).
Assim, com base nos estudos realizados para o litoral brasileiro foram detalhadas as etapas dos processos evolutivos que conduziram a formação das extensas planícies costeiras no estado do Ceará.