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Şekil 1.1 V-Diyagramı ve Bölümler

1.15 V-Diyagramları ile İlgili Olarak Yapılan Çalışmalar

A cartografia enquanto estratégia metodológica de pesquisa-intervenção se conecta às infinitas possibilidades de acompanhar processos de produção desejante, absorvendo, na intensidade das afecções, a multiplicidade de linhas de força multiplicadoras de processos de subjetivação imanentes na micropolítica das relações. Traça alguns mapas, delineia composições de territórios-paisagem habitados e em permanente agenciamento, transmutando-se por linhas de fuga em processos de reterritorialização. Nesse movimento, destacamos a fundamental importância no habitar o território cartografado para nele reconhecer e analisar as implicações em curso e delas nutrirmos os próximos caminhos a se seguir no transcorrer do trabalho.

Atrelado a esse processo, o conceito de implicação (Lourau, 1983) nos trouxe vitalidade para pensar nesse momento do trabalho. De acordo com Coimbra e Nascimento, a:

...implicação permite mostrar as diferentes forças presentes em nosso campo de atuação, fazendo, em muitos momentos, emergir acontecimentos e propiciando análises.

A proposta de analisar nossas implicações é uma forma de pensar, cotidianamente, como vêm se dando nossas diferentes intervenções. (2007, p. 29)

Dizendo de forma direta, ao habitar o território-pesquisa nos entre-tempos do entrevistar para produção dos dados, fui atravessado por uma experiência onde um reencontro “inusitado” com P se configurou como um ponto de transformação na mudança de rota dessa pesquisa. Reencontro-intervenção que reinstaura carona em passeio por outros processos e planos de produção desejante em andamento.

Ao contrário de apostar numa posição-pesquisador supostamente neutra, onde suas zonas de conforto se protegem na assepsia das muralhas do controle das variáveis apresentadas no campo pesquisado, objetivando “descobrir”, “revelar” a verdade científica, escolhemos o avesso. Nossa aposta cartográfica se abriu ao plano de imanência, suas conexões e agenciamentos em multiplicidade, transversalizando-me enquanto devir pesquisador. Sendo assim, absorvemos, do reencontro com P, efeitos do processo de pesquisa. Mais do que isso: uma intervenção de P em agenciamento com o pesquisador e a pesquisa. Vamos ao reencontro.

Ao sair da entrevista, atravesso a porta, ando alguns passos e me deparo com P. Imediatamente, ele abre um sorriso tranquilo e espontâneo e diz com entusiasmo:

- E aí!? Olha quem tá aí!

Na sequência, caminhamos um em direção ao outro, eu estendo minha mão esquerda para cumprimentá-lo (lembrando o leitor que ele possui sua mão direita amputada) e, surpreendentemente, P abre seus braços e me dá um forte e abraço e me pergunta:

- Como você tá? Tá trabalhando ainda lá no hospital?

Respondo que está tudo bem, porém eu estava agora trabalhando em outra unidade de saúde mental do município. P diz que estava tranquilo, frequentando o CAPS quase diariamente para se cuidar, que morava perto dali, numa casa com outras pessoas.17 Em seguida, fala:

- Hoje eu vim para o grupo de rap. A gente faz as letras, depois coloca as batidas pra fazer as músicas. Quer participar?

Disse que gostaria, mas que naquele momento não poderia, embora o convite me fosse tentador. Adiante, P refaz sua proposta:

- Então venha quando puder. O grupo acontece toda quinta-feira, das dez ao meio-dia. E, assim, P lembrava, com afeto e bom humor, de fatos, pessoas e lugares do período em que esteve internado e que se atualizavam em meio ao nosso despretensioso bate-papo. Impossível dizer o que esse reencontro comigo produziu em P, dado minha incapacidade imaginativa de adivinhar sua opinião ou mesmo de realizar uma interpretação sobre ele. Sobrou um rastro, certa pista, alguma espécie de canal ambivalente, de continuidade na descontinuidade relacional produzida por P através de seu inusitado convite. Abriram-se possibilidades, outros processos de produção expressiva que se anunciavam em mim via convite-grupo-rap, alimentando minha curiosidade mergulhada nos mares mentaleiros da saúde coletiva, que, naquele momento, se faziam presentes nas marés da produção acadêmica. Proposta a gente em sintonia com a composição criativa de suas letras contestatórias, de protesto e denúncia social quase sempre entrelaçadas pela sua trágica história de vida,

17 É importante destacar o local onde P reside. Não se trata de uma casa convencional, tampouco uma pensão,

mas sim um salão de beleza onde mora, com ele, mais um casal. Segundo relatos da equipe do CAPS, o usuário é tratado nesse local de forma afetiva, participativa e inclusiva, o que contribui muito para a manutenção do seu tratamento no CAPS.

harmonizadas melodicamente e ritmada pelas batidas marcantes que o rap proporciona enquanto expressão artística. Autêntica usina inventiva. Pensei... : É “nóis” mano!18

Comigo, a ressonância desse reencontro pulsava em íntima ligação com o meu estar ali, até então efetivado quase exclusivamente pelo pesquisar. Meu olhar, que a essa altura se encontrava colonizado pelas forças molares ditadas pelo fazer-pesquisador, estremeceu diante dessa nova paisagem composta no reencontro desse final de manhã, gerando vibrações intensivas nas vontades de alterar as rotas nos planos de produção dessa pesquisa. Dito de outra forma, o reencontro com P constitui-se como fator fundamental desse/nesse novo momento do trabalho, intervindo diretamente nos próximos passos do meu navegar pesquisador-cartógrafo.

Não que ele soubesse e agisse de forma deliberada, voluntária e ciente do seu lugar na pesquisa de um ponto de vista óbvio e formal. Mas a intensidade de seus registros de sensibilidade ativadas por partículas dispersas em seu território existencial se agenciaram de forma plástica e habilidosa na astúcia de seus devires-outros, colocando-o como multiplicidade ativa em plano de simetria com o pesquisador e a pesquisa. Em outras palavras: P também se faz cartógrafo.

Logo, no intermezzo da pesquisa, conforme vamos localizando pontos de referência marcantes nas transformações de nossas rotas de navegação, uma mudança se efetua nesse caminhar e, sendo assim, renomeamos P. Essa mudança, mais do que indicar uma alteração no nome de referência de nosso guia, produz outros planos de análise do trabalho em curso, visando à desconstrução em ato das técnicas de subjetivação atreladas ao campo psi (psicologia, psiquiatria e psicanálise, por exemplo) em seus modos de narrar casos clínicos. Com isso, decidimos que, a partir de agora, ao invés de chamá-lo P, ele se chame Bentinho.

A escolha desse nome se inspirou no personagem Bentinho do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis. Em linhas gerais, o acontecimento trágico na história de vida de P se sintoniza com o enredo instaurado pelo autor na trama do livro através da dúvida produzida no leitor: “Capitu traiu ou não traiu Bentinho com Escobar?” Com P, a dúvida era: “P matou ou não matou sua mãe?” Assim, por muitas vezes, essa dúvida instalada se manifestava em alguns cuidadores das unidades de saúde mental, capturando-os e produzindo bloqueios de ordem moral, impedindo-os de contribuir com avanços no tratamento de P. Aqui, nossa intenção é convidar o leitor a relacionar-se com outra possibilidade de narrar um caso.

18 Expressão de gíria muito utilizada nos meios da cultura hip hop. Basicamente, significa um aceite. Neste

Nessa perspectiva, a imanente produção de processos de subjetivação coletivizados no agenciamento B< ≈ >P19 (pesquisador) pedem passagem e expressão. As linhas de forças

que operam em ato nas zonas de afecção dos infinitos mapas cartografados nos movimentos das multiplicidades em devir produzem criação de mundos, compõem outros territórios de existenciação em reterritorializações de outras paisagens do cuidado em movimento. Com isso, um exercício de síntese do nosso fazer-saber reposiciona o agir comum20 crucial na captação intensiva dessa micropolítica dos afetos, multiplicando a expansão da vida transvalorada no perspicaz artifício do desejo como produção de real social.

Na paisagem do cuidado, Bentinho é uma força forte. Como tal, produz intensa capacidade de afecção no plano de imanência, mutabilizando seus platôs existenciais, fabricando processos de subjetivação em intensa ativação na multiplicidade dos agenciamentos que seu “corpo-aranha” captura, agrega e dispara em suas linhas de fuga vitais. Segundo Merhy:

Deleuze fala das aranhas. Procura mostrar que esses animais tem um corpo constituído pelas clássicas estruturas como cabeça, corpo e membros, que genericamente reconhecemos no senso comum, mas também por suas teias. Que esses animais tem um corpo vibrátil, uma lógica maquínica que se afeta pelo encontro de qualquer coisa com esse corpo como um todo, um corpo sem órgãos, inclusive.

[...]

A aranha tem uma máquina de apreender signos e agir perante eles, reconhecendo e agindo, seja para capturar outros bichos, seja para construir seu território existencial, seja para transar, seja para criar novos filhotes, seja para um monte de outras coisas que todos fazemos com nosso corpo-aranha. (2013, p. 5)

O trilhar de Bentinho nos absorve na sedução do gingar de seu bailado cadenciado em seu caminhar nômade pelas redes de cuidado, sejam elas alojadas nas moradas do SUS ou em quaisquer outras formações de real social. Sua potência no devir possibilita a criação de uma realidade habitável em singularização imanente ao plano de consistência desejante, bem como torna-se combustível na composição de sua intensidade e espessura, formando estratégias e montagens finitas, porém em permanente desconstrução. De acordo com Rolnik:

...não existe sociedade que não seja feita de investimentos de desejo nesta ou naquela direção, com esta ou aquela estratégia e, reciprocamente, não existem

19 Utilizei este recurso gráfico para expressar o conceito de agenciamento entre Bentinho e Pesquisador, que

opera em plano de simetria. As setas indicam a direção de forças em agenciamento e o símbolo de semelhança no centro remete à simetria como posição.

20 Aqui, o comum designa a comunicação entre singularidades manifestada via processos sociais de produção e

investimentos de desejo que não sejam os próprios movimentos de atualização de

um certo tipo de prática e discurso, ou seja, atualização de um certo tipo de

sociedade.

[...] o desejo em seus movimentos corresponde às estratégias de formação de

cristalizações existenciais que vêm a ser, exatamente, o desenho de novas

configurações no campo social. Produzem-se assim as formas da história em sua mutação descontínua.

Ainda outro passo: o desejo é a própria produção do real social. (2011, p. 58)

Para nós, sua vibração molecular movimenta a multiplicidade-pesquisa e a multiplicidade-pesquisador em constante processo de nomadização. Mobilizados nessa perspectiva, nosso agir cartógrafo pede passagem aos afetos presentes que anseiam por outras formas, expressões em processos de existenciação.

Mais do que nunca, abandonemos nossos sedentarismos epistemológicos fincados nos mapas de nossas “zonas-de-conforto” para, de forma visceral, acompanhar as linhas vitalistas que compõem os mundos da multidão Bentinho em nós.

Convite aceito, nossa implicação se transmuta: pesquisador e pesquisa nomadizados! Agora, vejamos pelos clarões flashbacks a trecheirização de Bentinho no agenciamento B< ≈ >P...

6. TRECHOS EM NOMADISMO DO ACONTECIMENTO BENTINHO EM NÓS