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3. BİREYLER ve YÖNTEM

5.3. Vücut Asimetrisi ve Kozmetik Deformite Algılaması

Um apoio que sustenta o processo de produção das memórias, como se poderia esperar, é a capacidade de lembrar do escritor. Lembranças das vivências de sua infância junto da mãe (NAVA, BO, 2002, p.7-8); do que se ouviu na casa da avó materna sobre o pai e sua experiência na Maçonaria: “Para a cólera-que-espuma da sogra (‘Cachorrão! Coitada da minha filha...’), repugnância das cunhadas (‘Pobre de nossa irmã, casada com bode preto!’), consternação de minha Mãe (‘Nossa Senhora, que pecado!’) e escândalo da Cidade (‘Pobre moça! Também, casar com nortista...’)” (p.7); daquilo que ressurge devido ao contato com objetos deixados pelos parentes (p.17) vão sendo costuradas ao longo das Memórias. Às vezes, é necessário dar espaço a uma personagem incômoda para que, uma vez ressuscitada pela pena, ela saia da lembrança: “Já que se tratou de Dona Irifila, vamos logo a ela para que seu vulto ominoso se me espanque da lembrança. [...]” (p.20). Em outros momentos, ao contrário, mesmo tendo ganhado vida no espaço das Memórias, a lembrança de um tempo perdido permanece:

Se a batida do Ceará é uma rapadura diferente, a batida de minha avó Nanoca é para mim coisa à parte e funciona no meu sistema de paladar e evocação, talqualmente a madeleine da tante Leonie. Cheiro de mato, ar de chuva, ranger de porta, farfalhar de galhos ao vento noturno, chiar de resina na lenha dos fogões, gosto d’água de moringa nova – todos têm a sua madeleine. [...] Posso comer qualquer doce, na simplicidade do ato e de espírito imóvel. A batida, não. A batida é viagem no tempo. Libro-me na sua forma, no seu cheiro, no seu sabor. [...] Para mim, roçar os dentes num pedaço de batida é como esfregar a lâmpada de Aladim – abrir os batentes do maravilhoso. Reintegro imediatamente a Rua Aristides Lobo, no Rio; a Direita, em Juiz de Fora; a Januária, em Belo Horizonte – onde chegavam do Norte os caixotes mandados por Dona Nanoca com seus presentes para os netos. Docemente mastigo, enquanto uma longa fila de sombras vem dos cemitérios para tomar o seu lugar ao sol das ruas e à sombra das salas amigas: passam lá fora o Coronel Germano e Dona Adelina Corroti numa conversa de palavras sem som. Meu Pai entra sorrindo e seus pés não fazem barulho na escada. Minha Mãe chega em silêncio e tira duma jarra um molho de cravinas translúcidas para pôr no coque. A vida recomeça como a projeção (no vácuo!) de um filme do cinema mudo (NAVA, BO, 2002, p.26-27. O destaques em itálico são do autor.).

A madeleine tem o poder de disparar a memória, e, numa rede de interconexões, a cultura, os saberes da região em que viveu a família paterna de Pedro Nava aparecem. A tradição familiar também constitui as Memórias de Nava e se mescla com a cultura do narrador adulto. O escritor então, por meio de um jogo intertextual, característica fundamental da organização escrita de suas Memórias, (res)significa suas lembranças. No espaço memorialístico, literário, registra-se o conhecimento do escritor tanto da obra Em busca do tempo perdido de Marcel Proust, referência constante nas Memórias, como também das Mil e uma noites. Tanto Proust quanto sua obra foram grandes referências para Pedro Nava. Além da presente interlocução com o escritor francês, de características estéticas e estilísticas das Memórias que mostram a intertextualidade de Pedro Nava com o autor, como ele, Nava também elaborou uma “conjunção delicada entre autobiografia e ficção” (SOUZA, 2004, p.23).

Muitas vezes, para lembrar, é necessário que o escritor se apóie em objetos que marcaram a existência de certas personagens que povoam a sua narrativa. Porque as imagens e reminiscências não apresentam o contorno desejado pelo memorialista, são os registros da experiência que lançam luz sobre o que se deseja lembrar: “O proprietário de Santa Clara era o português Manuel da Silva Carneiro, íntimo de meu avô e padrinho de casamento de minha Mãe. A esfumada lembrança que tenho dele reaviva-se graças a velhas fotografias suas, tiradas em companhia de amigos, entre os quais meu tio Antônio Salles e meu Pai. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.263. Os grifos são nossos.).

Como parece evidente, a experiência é uma das grandes peças da narrativa de Pedro Nava. Em outras palavras, ter vivido o momento; ter participado de determinadas situações; ter ouvido conversas, comentários, casos, conforme o que já exploramos no subtópico anterior; ter visto, conhecido pessoas e lugares apresentam-se como fortes elementos para a composição da narrativa memorialística. Assim, o vivido, também porque agrega espaços, pessoas e objetos importantes do passado para o autor, permite a ele se lembrar:

[...] Não venho forçando tipo de meu tio-avô.93 Conheci-o muito velho e estou a

ver-lhe a cabeça chata de cearense, os cabelos e a barba de prata [...] (NAVA, BO, 2002, p.38).

[...] A nossa sala de jantar era sempre alegre e cheia de sol. Dava, por duas janelas, para a horta de trás. Nunca me esqueço do café da manhã e do ar fixo e abstrato de minha mãe tomando-o em pequenos goles. [...] (NAVA, BO, 2002, p.224-225.).

[...] Outra lembrança que tenho de meu Pai, à Rua Direita 142, é a de sua figura cuidando da plantação de estramônio. [...] Quando nos mudamos para o Rio essa casa foi ocupada pelo poeta Belmiro Braga [...]. Várias vezes lá voltei com meu tio Antônio Salles, mas seus cantos já tinham comido os restos da sombra de meu pai. A casa, derrubada, persiste intacta dentro de mim [...] (NAVA, BO, 2002, p.226).

[...] Todas essas lembranças são inseparáveis da vinda da prima do Stella Matutina.94 Mas ela é que era a Estrela da Manhã e a mais linda figura de moça

em que pus meus olhos. [...] (NAVA, BO, 2002, p.238).

[...] Lembro bem sua cara proustiana parecida com a de Boni de Castellane. [...] Lembro depois da casa desamparada quando lá nos hospedamos, a pedido do Paletta, para meu Pai assistir dia e noite uma de suas filhas com uma infecção puerperal. [...] Guardo da Creosotagem95 a assustada lembrança da carreira que me deu um bezerro de que escapei cerca abaixo. Guardei também as gargalhadas divertidas do Paletta e do Antônio com a situação e do nenhum gesto esboçado em meu socorro. Eu tinha seis para sete anos [...] (NAVA, BO, 2002, p.274).

As reminiscências do escritor são povoadas por vidas que se desenrolam no espaço da sua memória. Desse modo, povoam, sua narrativa, pessoas, objetos e lugares, os quais se associam no texto e ganham características sinalizadoras do tipo de experiência que o escritor viveu em cada momento e da maneira como ele as reconstrói no espaço das Memórias:

[...] o caderno. Era grosso, de folhas pautadas, de capa alaranjada. Presente de tio Salles que fora comprá-lo comigo à Rua Haddock Lobo – provavelmente para que eu deixasse de me associar aos papéis de sua escrivaninha.96 Pelo capricho

da vida dos objetos, esse caderno ficou primeiro esquecido num caixote de livros de meu Pai. Quando ele reapareceu, fui aproveitando suas páginas em branco para novos desenhos que se superpuseram aos antigos como as camadas sucessivas de Tróia e onde só eu – Schliemann! – distingo o que é 1910, 1911, 1914 e 1918. Tornou a sumir sepultado numa dessas fundas canastras que só se abrem por acaso. Ressurgiu furado de traças, já tocado pelo tempo e começando a representar o passado. Foi sendo guardado e hoje eu o contemplo como coisa preciosa, “como um copo de veneno”, como bocado tangível de minha infância. Esse caderno traz nas suas páginas o pó de uma longa seqüência de casas cujo

94 O Pharol publicou vários anúncios a respeito do Colégio para meninas em Juiz de Fora. Também o Jornal

do Commercio apresenta anúncios do estabelecimento escolar em vários de seus números, na época em que Pedro Nava morou em Juiz de Fora (1903-1910, 1911-1913).

95 “[...] sítio do Paletta [marido de Berta, tia materna de Pedro Nava], na estação da Creosotagem, logo

adiante de Mariano Procópio. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.274).

96 A compra do caderno ocorreu, segundo o que se verifica em Baú de Ossos, em 1910. Nessa época, Pedro

ambiente tornou-se dele inseparável. Impregnou-se dos ares do Rio Comprido, do mofo de Juiz de Fora, da luminosidade de Belo Horizonte. Esteve na Floresta, na Timbiras, na Serra e Padre Rolim... Tem poeira carioca e poeira de Minas. Foi folheado por dezenas de mãos agora mortas, cujo suor vivo e cujas impressões digitais deixaram nele – para sempre! – seu traço. É desses objetos mágicos, embebidos de gente – gente falecida – cujo resto material é sentido pelos cães que uivam aos mortos ou pelos bruxos que os invocam. Esse caderno lembra sobretudo meu período de realeza em Aristides Lobo 106. [...] (NAVA, BO, 2002, p.340-341. Os grifos são nossos; os destaques em itálico, do autor.). [...] Lembro-me dos postais que ele97 mandava a meu Pai. Sobretudo de um,

fantástico, representando crepúsculo no Tâmisa e a silhueta da Tower Bridge recortando-se em céus de sangue. [...] (NAVA, BO, 2002, p.268. O grifo é nosso.).

[...] Lembro-me do escritório do Dr. Duarte, numa cena cuja data posso precisar: junho de 1909, porque eu folheava uma revista, parece que a Careta, com uma série de fotografias tiradas na câmara-ardente e no enterro do Presidente Afonso Pena, falecido no dia 14 daquele mês.98 O corpo do velho político deitado no caixão. Os florões dos ornatos, as flores de pano, os tocheiros acesos. O Dr. Duarte sentado e calado, meu Pai muito agitado e andando dum lado para o outro a dizer sem cessar – o Pena foi traído! o Pena foi traído! traído! traído! – e o Dr. Duarte fazendo que sim. Guardei indelevelmente a cena, ajudado por esta palavra inédita – traído – que eu não conhecia e que liguei à idéia funerária do Presidente, de mistura com imagens fluviais na dependência da homofonia – traíra – e sugestões adejantes, nascidos do nome Pena. [...] (NAVA, BO, 2002, p.268-269. Os grifos são nossos; o destaque em itálico é do autor.).

Tal como revela nossa análise no subtópico anterior, a lembrança das palavras ouvidas por Pedro Nava, além da recordação de pessoas, dos objetos, nesse caso, a revista Careta, ligada ao mundo da escrita, e dos lugares guardados na memória do escritor, em muitos dos episódios das Memórias, aparece como material decisivo na composição da narrativa.

É importante notar ainda que, no processo da escrita das Memórias, também têm lugar, ao lado da lembrança, os vazios e lacunas: “[...] Foram meus padrinhos a mãe e o padrasto do meu Pai. Não guardei lembrança, mas devo ter conservado no recôndito de

97 Trata-se de Sílvio Weguelin de Abreu, oficial da marinha que estagiava na Armada Inglesa na primeira

década do século XX, filho do Dr. Duarte de Abreu, amigo do pai de Pedro Nava. Juntos, os dois (o Dr. Duarte e José Nava) aparecem em notícias nos jornais de Juiz de Fora (O Pharol, Jornal do Commercio), relacionadas a serviços prestados à população da cidade à época da enchente de 1906, a maior das inundações que a cidade sofrera na primeira década do século XX, segundo os jornais. O Jornal do Commercio, em 14 de janeiro de 1906, quando noticiava as conseqüências da enchente causada “pelo transbordo do Parahybuna, que transformou toda a parte baixa de Juiz de Fora numa cidade lacustre”, assim se referiu à atuação dos dois médicos em Juiz de Fora: “Em sua visita aos pontos que mais têm soffrido com a inundação, o dr. Duarte de Abreu tem sido acompanhado pelo Dr. Lustosa, engenheiro municipal e Nava, director de hygiene”.

98 Os jornais de Juiz de Fora noticiaram, durante vários dias de junho, no ano de 1909, a morte do político. O

Jornal do Commercio de 18/06/1909, por exemplo, trouxe, em sua primeira página, detalhes do funeral do “Conselheiro Affonso Penna”, das homenagens prestadas a ele pelos “chefes de Estado”.

minhas células a influência profunda das frutas da terra que, para terror da minha Mãe, minha avó me deixava comer até perder a respiração. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.35. O grifo é nosso.). Ainda que Pedro Nava afirme não ter guardado lembrança desse evento, fazer lembrar tal acontecimento, no momento da escrita do passado, é importante. Não se poderia deixar seu batismo no esquecimento, visto que nele estiveram envolvidos parentes por quem Nava nutria afetividade e respeito. Há também outros eventos em que o esquecimento está presente, e, nem por isso, tais eventos são excluídos do material que alimenta as Memórias:

Não me lembro da cara nem do nome de um só colega, de uma só colega do Andrès. Vejo-os, sem detalhe fisionômico ou contorno físico – esvanescidos no ar da sala de jantar ou no recreio, diluídos ao sol, como as figuras de confete da arquibancada do Circo de Seurat. [...] (NAVA, BO, 2002, p.256. Os destaques em itálico são do autor.).

[...] Também não tenho lembrança nítida da casa da Rua Direita, esquina de Imperador. Sei que nela morreu a “minha filha”. Sim, minha filha, pois de tanto o ouvir de minha tia, era assim que eu chamava minha prima Alice, Cecinha. Vulto indistinto e que é um dos fantasmas amáveis de minha infância. Mal o vou configurando na lembrança que logo some na distorção do fumo que se esvai ou nas ondulações do ectoplasma que não chega a se materializar. Alice. [...] apendicite supurada [...], a coisa terminou em septicemia e morte. Não tenho disso senão o conhecimento do que contava minha Mãe [...]. Cirurgia de 1905 (NAVA, BO, 2002, p.223. Os grifos são nossos.).

Embora o ato de recordar seja motivado por pessoas, objetos e espaços da experiência passada; ainda que a escrita de Pedro Nava esteja permeada por tais elementos, as Memórias se fazem, em grande medida, como se pôde observar, daquilo que o memorialista ouviu. Assim, no intuito de se conhecer, o que a memória o impede de lembrar, de refigurar, de dar corpo, ganha vida novamente pela lembrança do que o sujeito- narrador escutou quando menino, quando adulto, de quem pôde contar-lhe o que se passou. Logo, é aglutinando as falas de amigos e parentes, de seus mortos, que o escritor materializou na forma de palavras escritas outros elementos que também configuraram sua história, a história dos seus e de várias personagens que estiveram relacionadas a sua própria vida. Portanto, mais do que a imagem de pessoas, mais do que o contato com objetos, mais do que a (re)visita a lugares ou a sua (re)criação mental, é a voz de outros – rememoradas ou ouvidas no momento da escrita – que ajudou Pedro Nava a empreender sua aventura de saber de si. A voz de outrem o leva, enfim, à reconstrução do passado.

3.5. (As ciladas da) Memória: lembranças desencadeadas por sensações e impressões

Não só objetos e lugares fazem disparar a memória. Em busca do passado, e, por muitas vezes, mesmo sem se desejar o encontro com a vida de outro tempo, a memória é capaz de trazer de volta as sensações e impressões de antigamente. Nas Memórias de Pedro Nava, eventos e objetos, pessoas e espaços se tornam reais para o escritor graças também a seu contato diário com os cheiros da sua vida: “esse cheiro especial de drogas e de cânfora [...]: cada vez que o sinto recaio no gabinete médico de meu Pai [...]” (NAVA, BO, 2002, p.224).

Para o memorialista, os fatos passados não são apresentados a ele voluntariamente, ou de uma maneira sobre a qual ele pudesse ter controle. Lugares, acontecimentos, tempos se misturam numa cadeia de lembranças:

Não é bem como eu disse antes, que anoitecia aqui, para acordar ali. A memória é que suprimia os intervalos e permitia que eu passasse sem interrupção, da noite da Rua Direita aos terreiros ensolarados de secar café, em Santa Clara; da primavera da chácara do seu Carneiro ao verão do Rio Comprido e aos frios do Paraibuna. Na vida ubíqua da infância, as perspectivas do tempo variavam como as do espaço e tudo ficava simultâneo, coexistente, como que superposto, entretanto transparente e visível [...] (NAVA, BO, 2002, p.227).

Na escrita, os fatos vão ganhando a ordem que a memória possibilita – e, por vezes, quer desviar. Logo, nas Memórias, podemos encontrar Pedro Nava em lugares muito distantes entre si, por causa do tempo e do espaço que os separam, juntos. No ato de recordar, o escritor transita com facilidade entre o espaço rural e o espaço citadino das Minas Gerais. No lugar do calor do Rio de Janeiro, passa a sentir repentinamente os ventos frios de Juiz de Fora.

Porém, apesar da superposição e da simultaneidade, a memória, na perspectiva do escritor, pode apresentar, em alguns momentos, os eventos claros e as águas de sua vida transparentes. Uma suposta (e desejada) nitidez dos fatos possibilitaria, portanto, sua narração. A lucidez, entretanto, parece presente mais no texto escrito, controlado pela pena, pelas reflexões, pelo trabalho de quem pensa para escrever, do que propriamente nos movimentos da memória, sempre envolta por uma névoa. É o texto lúcido, pois, que permite ao memorialista iluminar o passado, as perdas:

Mal a família se separara, teve que se juntar outra vez para o funeral de tio Chiquinhorta. Morreu a 28 de maio de 1908, dois meses depois das bodas. Enterrou-se num adorável dia de sol, tanto quanto posso reconstruir, pelas quatro

da tarde. Os grandes tinham ido para o velório e ficáramos sob a guarda da Rosa e da Deolinda. De janela, esperando o saimento. Foi meu contato inicial com a Morte. [...] De repente estourou aquele mundo de homens de negro saindo pela porta estreita, logo se alargando e ocupando toda a rua. [...] No meio, e carregado à mão, o objeto horrendo que eu via pela primeira vez. [...] (NAVA, BO, 2002, p.251. O destaque em itálico é do autor.).

Revive-se a morte, que ganha significado no ato de reconstrução dos acontecimentos. Perde-se o parente, e o menino, na visão do adulto que narra a sua própria história, tem a vida modificada pela morte; vida perpassada e entremeada de alegrias e tristezas.

Muitos episódios das Memórias são (ou se tornam na escrita) marcantes para Pedro Nava por causa da tensão que trouxeram (ou trazem no ato de escrevê-los) para o sujeito- narrador. Ao lado da felicidade, graças a um jogo de antagonismos, de antíteses, sempre podemos encontrar episódios que fazem referência à morte, ao poder devastador do tempo, à decadência dos seres humanos. Se recordar é (re)viver, o impacto do momento vivido no passado é experimentado de novo, quando narrado no presente: “Uma das fortes impressões guardadas da minha infância era a de quando eu acordava e ficava calado, de minha cama, assistindo a meu Pai em luta com sua asma. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.261).

Se a morte e a ameaça das perdas trazem impressões fortes, também as experiências boas despertam, na memória de quem lembra, associações que traduzem a felicidade já experimentada: “[...] Na Rua Aristides Lobo, mesmo a noite guarda cintilações de alvorada. Só consigo evocá-la, dentro de massa luminosa e pontilhada como a dos quadros de Signac, Cross, Bonard e Seurat. [...]” (NAVA, BO, 2002, p.299). Em relação a esse trecho, destaca-se o fato de ser essa a rua da casa em que Pedro Nava parece ter sido mais feliz durante a infância, mais feliz do que em Juiz de Fora, na casa da avó materna. Sendo assim, nada mais coerente do que evocar tal rua dentro de uma “massa luminosa”, de modo que a memória o leve à felicidade experimentada em Aristides Lobo, rua associada ao seu amor, de longa data, pela pintura. Nas Memórias, forma e conteúdo das palavras se entrelaçam e se reforçam no arranjo do texto na página. Aos conhecimentos adquiridos ao longo da vida, como é o caso daqueles referentes às artes plásticas, associa-se aqui a rua em que o escritor viveu momentos felizes.

A memória, contudo, como se destacou anteriormente, costuma não obedecer aos desejos de quem recorda. Assim, novamente, ao lado das alegrias de menino, os momentos tristes também têm lugar nas lembranças (e no texto) do escritor:

Guardei ainda outras recordações do pátio cimentado de frente de nossa casa. Nele fazia correr meu prodigioso trem de ferro, sobre os trilhos que eu articulava em curvas caprichosas, juntando fim e princípio para que a viagem jamais se interrompesse. Vagão de passageiros, tender e a fabulosa máquina a vapor-locomotiva de verdade, funcionando com água que uma lamparina de álcool fazia ferver. Corria, apitava, deitava fumaça e atravessava os desertos americanos quando foi atacado e destruído pelos índios sioux. Eram os moleques da casa-de-cômodos instalada no 104, que tanto o fizeram, instigados pelo