Os objetivos desta pesquisa foram definidos considerando o relacionamento da tecnologia de EAD com os artefatos, agentes, práticas e impactos na competência tecnológica, que são as meta-categorias deste estudo.
O modelo conceitual pressupõe a inter-relação entre estas meta-categorias, uma vez que considera o processo cíclico de desenvolvimento da competência tecnológica da IES. Na explicação do modelo, considera-se que a tecnologia é projetada e desenvolvida pelos gestores e desenvolvedores e disponibilizada para utilização dos usuários (professores/tutores). A utilização da nova tecnologia leva ao desenvolvimento das práticas de EAD. As práticas vivenciadas pelo grupo (desenvolvedores, gestores e usuários) são integradas ao conjunto de competências do próprio grupo e influenciam o desenvolvimento posterior da tecnologia, que sofre alterações recorrentes em relação ao projeto original. Essa interação recorrente entre a tecnologia, os agentes humanos e a prática influencia o desenvolvimento da competência tecnológica da organização, que é, portanto, o resultado desse processo cíclico.
Em relação à tecnologia, a estrutura de comunicação disponível, por meio da Internet e da Transmissão Via Satélite, possibilita naturalmente uma interação maior entre os diversos agentes. No caso aqui estudado, notou-se que a tecnologia adotada é uma plataforma aberta (Moodle), o que pressupõe um envolvimento maior dos agentes pois é necessária uma customização. A escolha do AVA da instituição não foi fácil e, por essa razão, contaram com o auxílio de uma consultoria que apresentaram a IES diferentes plataformas, suas vantagens e desvantagens.
Além disso, observou-se que a tecnologia de EAD não se restringe ao ambiente virtual, incluindo outras meios de comunicação e armazenamento do conteúdo, e IES pesquisada ainda utiliza o recurso do material impresso.
A estrutura necessária para a implantação de cursos a distância é grande e cara, pois envolve a necessidade de contratação de profissionais de diferentes áreas de conhecimento, que irão trabalhar juntos para que o processo de aprendizagem seja efetivo.
A estrutura de hardware é robusta, pois são necessários servidores e outros tipos de tecnologias, como fibra ótica, que garantam a transferência de informações entre todos os envolvidos no processo de EAD. Além disso, existe a necessidade de investimento na
customização dos softwares para que são ajustados conforme as regras de negócio da própria IES.
No caso estudado, além do investimento em servidores e tecnologias de transmissão, também existe a necessidade de investimento no espaço físico dos polos, que recebem os alunos semanalmente e precisam ser adaptados com tecnologias que garantam a transmissão das aulas via satélite, além do investimento no estúdio em que os Professores-EAD ministram as aulas a distância.
Em relação aos agentes, o advento do estúdio traz novas competências para o professor que irá ministrar as aulas, além da necessidade de uma equipe de apoio, presente no estúdio e presente nos polos. O professor precisa ser treinado para saber agir em frente às câmeras e não trabalha mais sozinho, como o professor do ensino presencial. O aluno também precisa entender essa nova realidade, pois, para interagir com o professor que ministra a aula em outra localidade, precisará da interface tecnológica para fazer questionamentos, por exemplo.
A tecnologia de EAD traz a necessidade de treinamento dos agentes, pois todos precisam ter o conhecimento sobre a tecnologia, mesmo que seja em níveis de profundidade diferentes, precisam conhecer a legislação pertinente a esse novo cenário e as implicações legais que devem ser consideradas no desenvolvimento da tecnologia e no processo educacional.
O treinamento não se limita ao professor, mas deve envolver todos os usuários, incluindo os alunos. O gestor precisa saber como acompanhar, como treinar e como interagir com sua equipe. O desenvolvedor precisa saber como a plataforma deve ser desenvolvida para apoiar o aluno e o professor no processo de aprendizado e na interação entre eles. O professor precisa saber como disponibilizar o conteúdo aos alunos, como escrever a informação, como interagir com o aluno, como disponibilizar atividades, como acessar a informação enviada por seus gestores. O tutor precisa conhecer a melhor forma de interagir com os professores e com seus alunos, como fazer o acompanhamento deles, além de saber contextualizar o conteúdo ensinado. O aluno precisa saber como acessar o conteúdo, como submeter suas atividades e como interagir com os professores e tutores.
Os professores e tutores não têm muita interação com a equipe de desenvolvimento e o gestor de EAD que é o responsável por conectar essas áreas diferentes e buscar um resultado que promova o processo educacional, comtemplando as vantagens advindas da tecnologia.
No caso estudado, todos os envolvidos são treinados considerando o conhecimento sobre a tecnologia, sobre o processo educacional e legislação de EAD. Existe um programa de treinamento de docentes e funcionários, que são operacionalizados por ferramentas de tecnologia a distância. Os alunos também recebem treinamento para nivelamento do conhecimento, pois muitos alunos não tiveram contato com esse tipo de tecnologia antes de se matricularem no curso EAD.
Além de treinamento, existe um incentivo da organização para que a equipe de desenvolvimento participe de eventos promovidos pelas comunidades que atuam no EAD em IES’s como uma forma de melhorar a capacitação destes profissionais em relação as tecnologias de EAD.
Todo esse processo de aprendizado contribui para o desenvolvimento da tecnologia, pois os usuários sempre buscarão uma forma de facilitar o uso da ferramenta. Os usuários aprendem com o uso da tecnologia e modificam a tecnologia a partir desse uso, conforme apontado no modelo conceitual.
No caso aqui estudado, as entrevistas foram realizadas com os diferentes agentes envolvidos no processo de EAD da IES com o objetivo de captar as diferentes visões dos participantes no seu convívio diário com a tecnologia de EAD e no desempenho de suas atividades.
Em relação à interação entre os agentes usuários (professor e tutor), notou-se que nos cursos semipresenciais ainda existe a interação em sala de aula entre o tutor presencial e o aluno. Essa forma de interação já não acontece com o professor de EAD e o tutor on-line, que apenas interagem com aluno por meio da tecnologia. Nesse sentido, exige-se do tutor (on- line) e do professor o conhecimento efetivo do ambiente digital para acompanhar e motivar a participação do aluno durante o curso.
Em relação às práticas, a introdução de tecnologias no setor de educação trouxeram mudanças nas práticas de ensino, pois o professor precisa dialogar com seus alunos sem estar no mesmo espaço físico. Esse diálogo não se limita as aulas, mas também ocorre através do material disponível no AVA e o aluno poderá acessá-lo sempre que quiser e quando for mais conveniente. A nova tecnologia alterou o papel do professor, criou novas práticas, como apontado no modelo conceitual. Não só o professor, mas todos os usuários tiveram suas atividades alteradas, além de novas funções que surgiram com o EAD, como os tutores e o designer instrucional.
A nova tecnologia contribuiu para uma reflexão sobre o conteúdo ensinado, como apresentá-lo, como escrevê-lo, como torná-lo mais dinâmico. A forma de gestão também foi impactada, uma vez que a equipe está espalhada por todo o país e o conteúdo deve ser ministrado com a mesma qualidade nas diferentes localidades, para alunos de contextos diferentes. Tanto os professores, tutores, desenvolvedores e gestores precisam trabalhar de forma sincronizada e alinhada para garantir um bom resultado no serviço prestado.
No caso estudado, as ferramentas tecnológicas de EAD não se limitam ao processo de aprendizado, mas também são utilizadas em todo o processo de gestão, comunicação e capacitação destes profissionais. Neste sentido, a tecnologia contribuiu para o processo de gestão, ligando todos os profissionais envolvidos, como os coordenadores, professores e tutores.
O processo de implantação do EAD na IES traz a necessidade de adequação de toda a organização por conta das mudanças. A introdução do EAD traz mudanças na estrutura, uma vez que será necessária a realocação de recursos e adaptação dos processos internos; traz mudanças organizacionais, pois toda a IES deverá ter condições de prestar um serviço de qualidade por meio de uma nova metodologia, considerando que seus alunos podem estar fisicamente em qualquer lugar do mundo; traz a mudança cultural, pois todos os envolvidos devem deixar de lado o preconceito e trabalhar para que o EAD tenha tanto prestígio quanto o ensino presencial. Para isso, todos os envolvidos devem repensar sua forma de trabalho. A equipe multidisciplinar deve trabalhar unida, buscando as melhores soluções para garantir o processo de aprendizagem. A comunicação entre todos os envolvidos deve ser constante, seja por reuniões, seja por e-mail ou outro tipo de ferramenta tecnológica que facilite a interação.
No caso aqui estudado, por se tratar de uma estrutura ampla, a equipe envolvida no processo educacional também sofreu alterações, pois surgiu a necessidade da união da equipe responsável pelo desenvolvimento da tecnologia com a equipe pedagógica. A forma de pensar dessas equipes também sofreu alterações. O professor não pode considerar sua atividade sem conhecer a tecnologia e como trabalhar com ela. O profissional de TI não pode focar apenas no processo de desenvolvimento da tecnologia, mas também precisa considerar o resultado efetivo da ferramenta, que deve contribuir para o aprendizado do aluno. O próprio aluno precisou se adaptar à nova realidade, mais dinâmica e interativa, assimilando a rotina de auto estudo, sendo mais focado, controlando seus prazos, acessando o conteúdo antes das aulas, participando ativamente do processo de aprendizado.
A mudança na forma de pensar de toda a equipe envolvida com o EAD da IES estudada fez com que a plataforma criada no início fosse totalmente alterada, sofrendo, portanto, influência das ações humanas, que uma vez em contato com a tecnologia e entendendo melhor a forma de utilizá-la para prestar o serviço de EAD, fizeram inúmeras customizações.
Em relação ao impacto da tecnologia de EAD na IES, ressalta-se que o desenho de um modelo EAD deve ser projeto executado com muito cuidado, pois envolvem várias preocupações que devem ser consideradas desde seu princípio para que o serviço seja prestado com qualidade e efetivamente contribua para o resultado da IES. O estudo deve considerar uma estimativa de número de alunos e demais usuários e a localização física de todos os envolvidos. A análise que opta pela aquisição de polos, ou não, deve ser feita. Ainda existe a necessidade de aquisição de todo o aparato de estúdio, onde serão ministradas as aulas, transmitidas via web ou via satélite.
Todas essas mudanças fazem com que a organização analise sua estratégia, uma vez que a introdução do EAD é cara, pois o investimento em tecnologia e capacitação dos profissionais é alto e constante. A introdução do EAD muda a IES em vários aspectos e deve garantir a receita e o aumento da participação de mercado da organização, considerando a abrangência e expansão da marca. O processo de desenvolvimento de tal competência tecnológica deve ocorrer sempre, para garantir que os alunos sejam atendidos com qualidade, com ferramentas tecnológicas sempre atualizadas e com profissionais altamente capacitados.
No caso estudado, nota-se o investimento constante e já planejado no futuro da IES. Já existem cursos presenciais que deixaram de serem ministrados na forma presencial e só existem na modalidade EAD. Contempla também, a aquisição de novas empresas para aumentar ainda mais a abrangência territorial e de marca desta IES.
O investimento em propaganda também é identificado, focando os cursos EAD e as vantagens desta modalidade de ensino. O aumento de interessados nos cursos EAD da IES pesquisada gerou a necessidade de contratação de novos colaboradores, pois foram criadas novas turmas para comportar a nova quantidade de alunos matriculados. O aumento no número de usuários também fez com que a área de desenvolvimento buscasse uma solução que garantisse o bom desempenho da plataforma, que deve funcionar com qualidade mesmo quando muitos usuários acessarem simultaneamente o AVA. A solução foi a adoção do conceito de cloud computing que garante o acesso de qualidade a todos os usuários da plataforma.
O estudo proposto mostra o processo cíclico de desenvolvimento da competência tecnológica desta IES. A partir do desenvolvimento e da introdução das tecnologias de EAD, foram criadas novas práticas, com novas formas de interação e com novas formas de pensar nos membros da equipe. A própria tecnologia sofreu alterações por conta das ações, ao ponto do próprio Desenvolvedor afirmar que a plataforma atual é totalmente diferente da plataforma original. O desenvolvimento da competência tecnológica em EAD da IES pesquisada tem contribuído para a abrangência e expansão da marca e a organização tem respondido a esse novo cenário com novos investimentos que irão garantir o crescimento do EAD nesta organização.