3.5. Eğitim
3.5.3. Uzaktan Eğitim
Um tema muito presente na obra de Guerreiro Ramos é o da maneira específica, própria, endógena de produção da vida versus os modos colonizados de produção da vida. Este tema se apresentou, por exemplo, na discussão entre Guerreiro Ramos e o cânone da produção acadêmica no Brasil.
Guerreiro Ramos pretendia construir, coletivamente e institucionalmente, um saber sociológico em que o ponto de partida, seu caráter, seu espírito fosse específico do Brasil. Não se trata de tomar a contribuição de Guerreiro Ramos como a primeira, nem tampouco aquela que gozaria de maior reconhecimento nesse aspecto. Tanto que, o próprio Guerreiro Ramos encontrou fundamentação para a ideia de redução sociológica para além da fenomenologia.
No texto sobre Max Weber (RAMOS, 1946) Guerreiro Ramos apresenta ao público leitor algumas teses sobre a sociologia compreensiva de Weber.
É a partir de Max Weber que a sociologia se emancipa definitivamente do normativismo, se liberta de uma tendência reformista que a impelia a invadir, não sem os clamores das vítimas, os feudos da moral, da religião, da profecia e da filosofia (RAMOS, 1946, p. 3).
Há uma celebração de uma perspectiva relativista, compreensiva da sociologia weberiana, em contraposição a concepções explicativas, normativas de pensamento sociológico/social. Guerreiro Ramos se apresenta como um defensor da produção genuína do pensamento social brasileiro, talvez em oposição a um pensamento social no Brasil.
A dimensão política, de disputa de posições no meio acadêmico frente às elites intelectuais, as vozes que gozam de autoridade para dizer o que seríamos estava dada. E Guerreiro Ramos não hesitou em participar de tal disputa68. A fim de sustentar seu ponto de vista sobre Max Weber, ele se apoia
na ideia de que o momento histórico era o de um estranhamento entre uma consciência objetiva da sociedade e as personalidades particulares.
Tema recorrente em GR, a questão da possibilidade de conhecimento puro é apresentada em outros termos aqui. Vejamos que ele considerou Weber (e também Dilthey, entre outros) como quem levou a cabo a ideia de compreensão enquanto forma possível de apreender a realidade. Tal feito se faz presente no desenvolvimento da categoria “tipo ideal”. Em síntese, pressupõe-se que a realidade não pode ser apreendida em si, restando no máximo interpretações. Segue-se a impossibilidade de conhecermos e explicarmos o mundo em si, mas apenas de compreender, talvez, suas manifestações. Por manifestações, entenda-se aquilo que é pode ser percebido pelas ciências explicativas.
68 No texto evidencia-se que os enfrentamentos a que se propôs Guerreiro Ramos vão além da Teoria Social. Além de marxistas, ele também dialogou, em termos de enfrentamento, com as perspectivas que se inspiram nas Ciências da Natureza para explicar a vida social.
De algum modo, fica a ideia de que as leis científicas são fruto de presunção e arrogância acadêmicas, visto que a realidade operaria, no máximo, em termos de princípios. De maneira similar à impossibilidade de conhecermos as coisas em si, visto que a teoria é sempre representação, elaboração mental do(a) pesquisador(a), seria impossível determinar (e a ideia de lei é determinista) como as coisas – ou mesmo os fenômenos – seriam.
Mesmo porque, como elaboração mental do(a) pesquisador(a), os tipos ideais são frutos de seleções de interesse de quem os constrói. De acordo com Guerreiro Ramos
Para construir o ‘tipo ideal’ de uma conduta ou de uma instituição, por exemplo, não podemos simplesmente retratá-las ou copiá-las, mas devemos imputar-lhes um fim e anotar somente os aspectos que tomam sentido com referência a este fim, o que significa que devemos estropiar a expressão concreta da conduta ou instituição (Idem, p. 5).
Ao construir o tipo ideal, o(a) pesquisador(a) faz uso de critérios que são objetivos dentro de um escopo que é ou deveria ser a própria configuração social em estudo. Há, aqui, o caráter endógeno ou nativo do tipo ideal. Isso se faz coerente na medida em que a seleção dos aspectos mais relevantes a(o) pesquisador(a) deve levar em consideração, não aquilo que sua consciência individual destaca, mas os aspectos evidenciados objetivamente e com referência interna àquela configuração social em questão69.
Ainda que implicitamente, GR aponta para o lugar social para se compreender a racionalidade de uma ação. Refere-se a Weber e Mannheim ao escrever que
69 Também neste ponto, Guerreiro Ramos destacou que o modelo weberiano é antissocrático e anti-hegeliano, na medida em que estes modelos supõem desenvolvimento imanente da história, bem como supunham a ideia segundo a qual a ciência e o conhecimento estariam infusos no ser humano, supondo uma relação conatural entre indivíduo e universo.
sociologicamente toda conduta ou ocorrência que se integra numa conexão de sentido é racional com referência a este sentido. Na série de atos preparativos de um indivíduo que deseja suicidar-se, cada ato é racional com referência ao objetivo por ele intencionado e será irracional qualquer ato (a conduta de um amigo ou de um médico) visando que ele atinja o seu objetivo. Neste caso, uma racionalidade se contrapõe a outra (Idem, p. 7).
Seria incorreto e indevido, a despeito de possíveis projeções ingênuas, considerar que o modelo weberiano – e também o pensamento de Guerreiro Ramos – teria evitado explorar os conflitos de racionalidades. Isto foi desenvolvido, por exemplo, em A ética protestante e o espírito do capitalismo (2000). De certo modo, Guerreiro pautaria sua produção e sua trajetória em termos de conflitos de racionalidades.
Além do mais, uma utilidade do modelo de compreensão típico-idealista consiste em caracterizar permanências incoerentes com o desenvolvimento de um povo ou estágio histórico-social. Mais adiante verificaremos a referência à ideia de cultural lag apropriada por Guerreiro Ramos. Ali, ele opera com os tipos sociais, com vistas a observar possibilidades comparativas de desenvolvimento social, até o ponto de identificar permanências tipológicas em descompasso.