A sociedade tecnocrática saintsimoniana-vebleniana pode ser apreendida pela primazia da eficiência técnica produtiva, pela utilização e aplicação racional dos recursos materiais e intelectuais, pela distribuição e redistribuição igualitária da riqueza produzida destinada ao consumo final. Pode ser apreendida ainda, pela valorização das atividades
63 Esotérico: doutrina secreta que só se comunica com os iniciados; aquilo que é secreto; conhecimento
reservado a poucos (BUENO, 1994, p. 442).
64 Exotérico: doutrina filosófica ensinada publicamente; aquilo que a pessoa comum conhece; o exotérico é a
inerentes ao devido exercício da autoridade profissional e pelos aspectos humanos com vistas a garantir, em plenitude, o bem-estar individual e coletivo de toda a sociedade.
Discutimos as características organizacionais e funcionais da preconizada sociedade tecnocrática assentada nas competências técnicas e científicas fundamentais para a sua instauração. Apontamos as perspectivas saintsimonianas e veblenianas de que o progresso da sociedade e a transformação de sua organização administrativa aconteceriam em função do ajuste de suas relações internas e externas, visto que o desenvolvimento da sociedade é causa e consequência da evolução das instituições, as quais se transformam, à medida que se adaptam às circunstâncias do contexto histórico em que estão inseridas, sendo consideradas do ponto de vista político-econômico.
A fisiologia social (Ciência Social) deveria tornar a política positiva e desvendar os aspectos fundamentais para a organização social, indicando os meios para a sua realização, isto é, a transposição dos problemas científicos e filosóficos para uma prática política, que garantiria a supressão do modelo vigente por meio de uma grande revolução, caracterizada pelo advento da sociedade industrial, entendida como a união dos homens consagrados a um esforço comum e considerados em suas relações sociais (SAINT SIMON, 1823, p. 36-39).
Ao examinar as concepções saintsimonianas sobre o campo educacional, pudemos explicitar as suas proposições para a organização de um sistema de ensino público, associado às transformações sócio-históricas que se processavam na sociedade ocidental, e que se constituiria em instrumento essencial para a definição da reorganização político-social tecnocrática, orientada para a promoção do bem-estar coletivo, mediante a divisão, distribuição e redistribuição das riquezas, de acordo com a capacidade produtiva de cada pessoa/trabalhador.
Especificamos a compreensão vebleniana acerca do sistema educacional assentado na disciplina escolástica, alinhada ao modo de vida da classe dominante e relacionada aos objetivos e métodos disciplinares fundamentais para estabelecer “os limites e a índole do sistema de conhecimentos que se pretende inculcar no dominado” (VEBLEN, 1965, p. 327-328). O fenômeno educacional que caracterizou os anos finais do século XIX decorreu das transformações econômicas, evidenciadas pelos anseios instintivos assentados no animal spirit e pelas ações racionais da classe dominante, orientada por uma categoria culta, no centro do modo de vida da sociedade industrial capitalista.
A não aplicação das teses de Saint Simon e de Thorstein Veblen nos contextos históricos que os envolveram não diminui a sua importância, uma vez que é possível assimilar e apreender os seus fundamentos como instrumentos para o exercício intelectual e como obra política, dedicada e comprometida com as questões de ordem social, e como proposição de edificação e estabelecimento de uma nova sociedade liderada e dirigida sob as racionalidades técnicas e produtivas de cientistas e industriais.
O conjunto das obras desses intelectuais estabeleceu os parâmetros e nos forneceu as bases teóricas para que pudéssemos realizar o estudo de seus fundamentos e de sua variação, bem como de sua apropriação, adaptação e utilização pela perspicácia capitalista na medida em que (re)orienta os caminhos e (re)estrutura o sistema econômico, especialmente em situação de crise, assegurando a sua existência e manutenção.
Identificamos os fundamentos orientadores das propostas teóricas
saintsimonianas e veblenianas, para a instituição de uma sociedade administrada pela ação
racional da tecnocracia, considerada como uma alternativa política ao capitalismo, sob a perspectiva de uma organização científica do Estado, na qual e pela qual os interesses privados e as ideologias da classe dominante devem ser desprezados, em prol do bem-estar comum da população mundial, a saber:
1) Os cientistas, engenheiros, especialistas e técnicos, tanto por formação, atividade e experiência, quanto por competência e eficiência técnica compõem o staff geral da indústria. Portanto, é o único estrato de classe capaz de produzir as transformações necessárias à boa saúde da indústria e conduzir a sociedade em direção a uma vida mais digna e confortável;
2) A técnica deve substituir gradativamente a ineficiência da ação política dos legistas e metafísicos com vistas a evitar desperdício de recursos de qualquer ordem e, sobretudo, evitar a existência da corrupção;
3) O caminho a ser trilhado para formar e adequar a humanidade aos novos padrões morais e sociais é, sem dúvida, o da educação. Único campo capaz de garantir a formação e implementação de políticas públicas que atendam os interesses reais de toda a sociedade, em especial, da classe proletária, visando à promoção e garantia do bem-estar comum;
4) A tecnocracia deve zelar para que a pessoa humana tenha assegurada a oportunidade de acessar e completar a sua formação instrucional em uma instituição pública de ensino, sob a responsabilidade do Estado;
5) Os tecnocratas precisam atuar de forma hostil em relação aos políticos, às suas práticas e instituições, que, por sua vez, devem ser reduzidos a um simples problema técnico;
6) A tecnocracia deve desconfiar sempre da abertura e liberdade políticas preconizadas pela democracia, pois, no atual sistema capitalista, nem todos os indivíduos têm oportunidades iguais, que lhes assegurem ascensão social e nem tampouco são considerados igualmente capazes de tomar decisões racionais e científicas, dada a sua própria origem social;
7) A tecnocracia deve ser contrária a determinados critérios morais ou políticos instituídos pela religião e pela classe dominante, levando sempre em consideração que todo problema deve ser tratado de forma científica, racional e objetiva, pois, para qualquer problema social deve existir uma solução técnica e objetiva;
8) Somente o tecnocrata é capaz de enxergar de forma ampla e objetiva os problemas e os males da sociedade, visto que uma de suas responsabilidades está vinculada à racionalidade técnica, dada a probabilidade de resolução dos problemas em função de sua ampla e irrestrita utilização, sempre visando ao bem comum;
9) O comprometimento do tecnocrata com a produtividade material e com o desenvolvimento científico e tecnológico não pode estar desvinculado dos princípios de distribuição das riquezas produzidas e de justiça social;
10) A instrução deve ser aplicada como mecanismo de ensinamento permanente dos conhecimentos essenciais para a existência e manutenção das ações e relações entre os membros que integram a sociedade tecnocrática e o sistema produtivo.
3 SEGUNDO ESTÁGIO: BUROCRACIA E TECNOCRACIA
As transformações tecnológicas ocorridas na Segunda Revolução Industrial no final do século XIX e nos primeiros anos do século XX marcaram o início do capitalismo monopolista ou financeiro. As inovações da técnica e da ciência geraram mudanças substanciais no sistema social. A descoberta da eletricidade e a invenção do dínamo substituíram o vapor como força motriz, levando as indústrias a abandonarem a utilização de máquinas com grande potencial energético (DOBB, 1987).
A descoberta do petróleo, a invenção do motor a combustão interna de Nikolaus Otto, bem como a conversão do ferro em aço (Processo Bessemer), fabricado em larga escala e a baixo custo, possibilitou a sua aplicação em diversos segmentos da vida material. Novos meios de transportes (automóvel e avião) e de comunicação (telégrafo e telefone) foram criados e desenvolvidos, melhorando a qualidade da vida como um todo.
A mecanização do sistema produtivo capitalista transformou quase todos os setores da vida em sociedade. Na estrutura socioeconômica efetivou a separação entre o capital e o trabalho e estabeleceu as bases de relações para a sua existência e preservação, ao conquistar a humanidade e assegurar, em consequência disso, a sua posição como sistema econômico hegemônico mundial.
Os grandes conglomerados industriais passaram a dominar o mercado em detrimento das médias e pequenas empresas. As máquinas e equipamentos industriais tornaram-se mais custosos e a organização no interior da fábrica passou a exigir técnicas cada vez mais complexas e dinâmicas de planejamento, coordenação, fiscalização e controle dos processos de administração e produção (DOBB, 1987).
Emergia a exigência da criação de um modelo tecnocrático de administração da sociedade adequado à inegável legalidade imanente de sua evolução determinada pelo desenvolvimento técnico-científico responsável pela produção material assentada numa orientação política, submetida à contemplação das necessidades funcionais do sistema econômico propriamente dito (HABERMAS, 2009, p. 73).
Tendo em vista identificar os fundamentos teóricos que concorreram para a satisfação das necessidades organizacionais administrativas das instituições capitalistas na passagem do século XIX para o XX, recorremos, primeiramente, aos estudos histórico- sociológicos da teoria da burocracia de Max Weber, assentada na divisão racional do trabalho,
na exigência de especialização e diferenciação das funções exercidas por cada trabalhador, classificadas de acordo com critérios técnicos, subordinadas a uma autoridade (chefia), hierarquicamente organizada e altamente especializada.
Apoiamo-nos, também, na Administração Científica de Frederick Taylor e na Administração Industrial de Henri Fayol, movidas pelo propósito explícito de construir um conjunto de princípios para racionalizar tempos e movimentos do trabalhador no desempenho de suas atividades produtivas, e instituir uma organização estrutural geral da empresa, tendo em vista operacionalizar a organização burocrática, analisada por Max Weber, para alcançar a mais elevada eficiência industrial possível. A Administração Clássica de Taylor e Fayol vislumbrava um sistema de coordenação de atividades, baseado na simplificação das tarefas e na intensificação do trabalho, tendo em vista a otimização da produtividade no chão de fábrica, orientado por uma inovadora fundamentação técnica e científica.
O questionamento que orienta as discussões contidas neste capítulo é o de saber quais princípios tecnocráticos delinearam a organização político-administrativa do Estado e das instituições privadas e públicas, no interior da sociedade, no contexto do capitalismo monopolista-financeiro.
Os objetivos específicos definidos para esta segunda etapa do estudo são: 1) Apontar e explicitar os fundamentos da teoria da burocracia administrativa estudada por Max Weber, os princípios da administração científica de Frederick Taylor e a teoria de organização administrativa clássica de Henri Fayol; 2) Discutir a influência da administração clássico- burocrática para a organização e adaptação da educação e da escola em conformidade com as demandas do capital.
Na primeira seção deste capítulo, tendo como referência a pesquisa de Max Weber abordamos a teoria da administração burocrática, fundamentada na definição de critérios racionais para organizar as instituições e atividades produtivas capitalistas. Na segunda seção, apontamos as experiências realizadas por Frederick Taylor sobre a racionalização de tempos e movimentos do trabalhador, base para a constituição teórica dos seus Princípios de Administração Científica.
Na seção seguinte, tratamos da organização departamental de Henri Fayol, fundamentada na rígida divisão do trabalho e na utilização de um planejamento administrativo, previamente concebido. Na quarta seção, discutimos brevemente a imbricação da teoria da burocracia weberiana aos fundamentos clássicos taylorianos-fayolianos. Na
quinta seção, apresentamos a organização do campo educacional na medida em que procurou adequar-se às demandas requeridas pelas transformações do mundo produtivo, por meio da exemplificação contida nos escritos de João Querino Ribeiro. Na sexta seção, apontamos algumas similaridades entre a tecnocracia político-social (proposta por Saint Simon e Thorstein Veblen) e a tecnocracia fundamentada na administração burocrática.