GEREÇ VE YÖNTEMLER
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Convencionou-se acreditar que a civilização grega guardou uma preponderância dos interesses públicos em detrimento da existência privada, privilegiando os atos da esfera pública que revelavam os cidadãos. Esse princípio demonstra não uma ausência do privado na Antiguidade, mas uma valoração da atividade pública. No mundo grego, a convivência entre as duas esferas manifesta o jogo dialético que acompanha a sociedade até hoje, em períodos distintos que ora registram o enriquecimento do caráter público, ora a ênfase nas expressões privadas.
Com a consolidação da polis, na Grécia, há o marco de um modelo societal baseado na participação. Esse modelo mantinha o princípio de plena publicidade aos temas tidos como importantes para o coletivo, de interesse comum, devendo ser expostos para que todos os conhecessem e sobre eles pudessem opinar, em geral, valendo-se da oratória, capacidade cultivada em um período em que a arte do discurso era importante no manejo dos temas públicos (VERNANT, 2002, p. 55).
Funari (2002, p. 48) qualifica como modernos os termos privacidade e individualismo. Antes, havia uma diferenciação entre os espaços público e privado, mas de outra maneira. A transcendência religiosa era uma área da esfera privada em ascendência na cultura greco-romana (VERNANT, 2002) e essa era uma possibilidade na cena privada muito mais reservada às mulheres – impossibilitadas de uma ação pública efetiva, já que não eram tidas exatamente como cidadãs.
A ideia de público e privado, conforme foi observada na Grécia, acabou sendo absorvida pelos romanos, que mantiveram a relevância da esfera pública. Sennet (1998, p. 16) demonstra que exemplo disso é a importância da oratória para os romanos, que a associavam ao conhecimento e à prática do Direito, considerando-se que os cidadãos deveriam estar preparados para defender seus pontos de vista, tendo as leis como embasamento. Como explica Veyne (2006, p. 113), naquele tempo, levar vida política – ou exercer funções públicas – não constituía uma atividade especializada: “era a realização de um homem plenamente digno desse nome [...]”. Não ter uma vida pública, portanto, era como ser um mutilado, um homem de baixa condição.
Levando em conta que a vida dos cidadãos pertencia à cidade-Estado, a esfera privada era pouco enriquecida e sofria alto controle, sendo o espaço público o setor onde era possível dar vazão às habilidades individuais. Veyne (2006) relata o sentido de “privado” à época:
Privado em oposição a público é um dos adjetivos mais empregados da língua latina, porém não delimita positivamente a vida privada; seu sentido é negativo: qualifica o que um indivíduo pode fazer sem atentar contra seus deveres e suas atitudes de homem revestido de uma função pública; não erige um santuário no interior do direito privado, que não se sentia obrigado a respeitar o que respeitava de fato (VEYNE, 2006, p.164).
A percepção de que essa maneira de viver começava a mudar, indicando uma gradual preponderância do privado que se confirmou com o tempo, pode estar no final da civilização romana, conforme observa Arendt (1997, p. 61). Nesse período, já existiam traços rudimentares de uma ideia de privacidade mais próxima da utilizada na contemporaneidade (dedicação à saúde pessoal, o hábito de trocar cartas, o luto como ritual de dor). Dacanal (2005) analisa que a ideia de privacidade foi legada ao Ocidente pela civilização judaica que uniu ética e religião, estabelecendo que o poder como tal ocupava função secundária, e não era autônomo.
A civilização de Javé era, por natureza e por definição, antitotalitária, pois, ao submeter a esfera do poder político e administrativo à esfera da ética e da religião, ergue em torno do indivíduo – independentemente de sua posição na sociedade – uma muralha intransponível ao arbítrio da autoridade secular, estabelecendo assim o princípio lógico ordenador das sociedades democráticas do Ocidente moderno: a separação entre espaço público e espaço privado (DACANAL, 2005, p. 96).
Outros autores observam que é na Idade Média que se revelam as indicações de uma existência efetivamente privada. Ariès e Duby (1997, p. 24) demonstram que, nas residências do período medieval, começam a haver necessidades mais relacionadas à individualidade, a ponto dos chefes de família contarem com um espaço reservado dentro da casa para redigirem suas memórias, de forma privada.
O desenvolvimento da alfabetização, ao lado de outros fatores, figura como um dos elementos importantes na constituição do privado. Ao adquirir a capacidade de ler, os indivíduos se tornavam aptos a uma leitura individual, silenciosa, particular. A aquisição gradual da escrita também serviu para inaugurar outra forma
de relação social. A difusão da capacidade de escrever promoveu novas possibilidades sociais e serviu para embasar a construção do Estado moderno, que passa a ter, na escrita, uma nova maneira de “proferir justiça e dirigir a sociedade” muito provavelmente em prejuízo à expressão pública, que era exercida através da oratória (ARIÈS e DUBY, 1997). O novo papel do Estado é outro fator que deve ser considerado na ampliação da esfera privada. O Estado passa a interferir com maior frequência no chamado espaço social e nos assuntos que, antes, eram de alçada exclusiva das comunidades. Dessa forma, público começa a ser considerado como tudo o que é passível da ação do Estado e privado revela-se como o que está de fora dessa ação. Também a reforma religiosa, ampliando as possibilidades de credos, além da vida paroquial coletiva católica, acabou por estimular a prática, pelos laicos, da oração como meditação, contribuindo para a separação entre os espaços público e privado (CHARTIER, 1997).
Habermas (2003) mostra que mesmo que a ideia de privacidade possa ter avançado durante a Idade Média, a consagração e a aproximação com o modelo atual definiram-se adiante. No período medieval europeu, conforme Habermas (2003, P.17) “a contraposição entre publicus e privatus, embora corrente, não tinha vínculo de obrigatoriedade”. É a partir do século XVI que se encontra, em alemão, a palavra privat, significando privado, ou seja, aquilo que está excluído do aparelho do Estado, na medida em que Estado e público eram equivalentes.
No caminho para a consagração da esfera privada contribuíram os eventos dos séculos XVIII e XIX, com transformações sociais, políticas e econômicas na Europa, como a Revolução Francesa e a consolidação da Revolução Industrial. Esses fatos repercutiram nos hábitos sociais da população, além das alterações demográficas, pelas quais os antigos burgos transformaram-se em cidades superpopulosas, contribuindo para a adesão às novas formas de levar a vida, sugerindo expressões mais interiorizadas.
Como observou Benjamin (2006) foi o século XIX o período de cultivo da esfera privada: uma alternativa à vida nas cidades que se tornavam populosas. Incapaz de adaptar-se por completo ao novo mundo, o homem se refugiou na solidão e na exploração do “eu”. Para Sennet (1998, p. 35) foram mesmo os traumas do capitalismo do século XIX que levaram os indivíduos a “se protegerem de todas as maneiras possíveis contra os choques de uma ordem econômica que nem
vitoriosos nem vítimas entendiam”. Com a turbulência social provocada pela industrialização, o desejo de todos era o de estar protegido do público e de se refugiar cada vez mais em uma esfera privada segura. No século XIX, ao contrário dos séculos anteriores, em que os temas privados eram de certa forma assunto de todos, entrou em voga a ideia de que era necessário promover o espaço para o resguardo. Assim, há a separação das áreas da casa e do trabalho, a proposição da família enquanto um santuário do mundo, atitudes que ajudaram a garantir a ascensão da esfera privada (GAY, 1999; SENNET, 1998).
É correto afirmar, como assegura Arendt (1997, p. 61), que, a partir de uma constituição de ideia de privacidade, tudo o que era tido como natural que viesse a público passou a ganhar nova conotação. Com o advento de um senso do privado, o fato de uma atividade se dar em particular ou em público mudava completamente o seu caráter e o da esfera na qual essa ação se inseria. Com relação à atuação na cena pública, o enriquecimento da esfera privada tornou obsoleta a ideia de dedicar uma vida ao coletivo, como faziam os antigos. Entrou em desuso o princípio promovido na Roma antiga de que “não adiantava nada um romano ser rico se não estava entre os ‘primeiros de nossa cidade’, se não se projetara na cena pública” (ARIÈS; DUBY, 1997, p. 113).
O enriquecimento do espaço privado de certa maneira relegou à esfera pública um caráter de opacidade, quando o tema em questão é a participação cidadã nos assuntos relativos a essa esfera. É assim que ações que anteriormente eram esperadas dos cidadãos, e até mesmo exigidas, deixam de ser assunto do homem comum e passam às mãos de especialistas (políticos, por exemplo), designados para discutir e decidir o que é melhor para o grupo. Nesse sentido a esfera pública passa a ser a esfera do poder público (HABERMAS, 2003, p. 31). Ao se retirar da cena pública, dedicando-se cada vez mais ao território privado, o cidadão contabilizou perdas e ganhos, houve o enriquecimento de tudo o que diz respeito ao homem e seu meio privado, mas também ocorreram mudanças que apresentaram, por fim, uma nova organização social e política, dando conta dessa “ausência” do cidadão na esfera pública. Assim, há a estruturação de uma esfera de poder público (representativo) e a constituição de uma opinião pública (essa sim formada pelos cidadãos) associada, a partir do século XVIII, à atuação da imprensa. A força dos meios de comunicação e da opinião pública fica por conta da
capacidade de legitimar ou não os atos dos representantes. “Por um lado, o exercício do poder político, por estar ‘sujeito a uma série de tentações’, necessita do controle permanente através da opinião pública [...]” (HABERMAS, 2003, p. 115).
Em sua obra referencial sobre o tema esfera pública, Habermas (2003) reconstitui o processo ocorrido na Europa e que deu conta da estruturação de elementos de representação para os cidadãos nas sociedades que se tornavam cada vez mais complexas e populosas. Assim, tem-se a organização, na Inglaterra, em um primeiro momento (século XVIII), da representação parlamentar e, posteriormente, na França, através da Revolução Francesa. O mesmo gênero de transformações na esfera pública foi evidenciado com a criação, ainda, de clubes partidários e a organização de uma imprensa política diária, com a tarefa de informar, e por que não, influenciar, os cidadãos sobre os fatos políticos ocorridos na esfera pública de caráter representativo que se sedimentava. Na ocasião, tratava-se de uma mudança satisfatória e necessária da esfera pública, uma vez que contava com a possibilidade de tornar públicos os atos políticos, hipótese não vislumbrada pelos governos absolutistas que trabalhavam com a ideia do segredo na manutenção do poder.
Como se vê, desde sempre o princípio de esfera pública em que a participação cidadã é vislumbrada como necessária prevê a publicização dos atos que dizem respeito ao coletivo. Somamos a isso a possibilidade de debater nesse espaço público todos os temas que dizem respeito ao social. No entanto, com a vida cada vez mais complexa, tornou-se difícil ao cidadão conhecer os aspectos políticos que compõem o coletivo, acompanhando-os e emitindo opiniões sobre eles, de forma a influenciar, enquanto opinião pública, os representantes eleitos.
Quanto mais a cidade como um todo se transforma numa selva dificilmente penetrável, tanto mais ele se recolhe a sua esfera privada, que passa a ser levada cada vez mais avante, mas que finalmente vem a sentir que a esfera pública urbana se decompõe, não por último porque o espaço público se perverteu no sentido de uma superfície mal-ordenada de um trânsito tirânico (HABERMAS, 2003, p. 188-189).
Conforme Habermas (2003, p. 202) essa tendência se agravou com a atuação dos meios de comunicação de massa que não permitiram aos cidadãos a possibilidade de emancipação sobre o que é dito nesses meios. O cidadão ficou impossibilitado de dizer e contradizer sobre os temas apresentados nos programas
de rádio, por exemplo. Assim, observou-se a atuação dos meios comunicacionais muito mais como uma ferramenta que trabalha para influenciar a opinião pública a respeito dos temas de interesse público do que para, simplesmente, informar ou promover debates. O que se assiste é a alienação do cidadão em relação aos assuntos do coletivo.
A crescente integração do Estado com uma sociedade que já não é, enquanto tal, uma sociedade política, exige decisões em forma de acordos temporários de grupos, portanto num intercâmbio direto de favorecimentos e indenizações particulares, sem passar pelo processo institucionalizado da esfera pública política (HABERMAS, 2003, p. 233).
Na interpretação habermasiana para a alienação cidadã no trato dos temas públicos está a evidência do esfacelamento da esfera pública de caráter participativo, sendo substituída, enquanto território de debates, pela discussão que é promovida no campo da Comunicação e dos partidos, que se estabelecem como verdadeiramente “esfera pública”. “Ao invés de uma opinião pública, o que se configura na esfera pública manipulada é uma atmosfera pronta para aclamação [...]” (HABERMAS, 2003, p. 254). Nesse sentido, o papel dos meios de comunicação de massa enquanto território para expressão de opiniões e de debate fica desmerecido em detrimento de uma conjuntura que faz crer que a imprensa tem assumido, muitas vezes, o papel de condutor de uma massa passível de manobra. O entendimento de esfera pública enquanto campo de livre debate fica suprimido ou passa a ocorrer de forma setorizada, na instância dos partidos políticos ou no que tratamos como interlocutores intermediários: sindicatos, movimentos sociais e organizações similares. No entanto, acreditamos que, atualmente, há uma retomada da palavra proferida pelo cidadão em um espaço de debate que se constrói em território virtual. Considerando o conceito de esfera pública apresentado por Habermas (1997, p. 92) – algo natural e elementar que se relaciona com a ação, o ator, o grupo ou a coletividade – e a capacidade comunicacional que promove o conhecimento de múltiplas opiniões, apontamos as TICs como propulsoras dessa nova possibilidade de atuação para o cidadão comum, acrescentando que esfera pública é também o território da ordem/desordem social, no sentido de revelar-se como o espaço onde se promovem os debates que corroboram para as mudanças que movem o social.