• Sonuç bulunamadı

Uygulanmasına İlişkin Milli Eğitim Müdürlüğünden Alınan İzin

Além de Bourdieu, alguns estudiosos brasileiros contemporâneos, entre eles, Cláudio Batalha, Fernando Teixeira da Silva e Alexandre Fortes, vêm constituindo com pesquisas e reflexões teóricas com a preocupação central de compreender a cultura dos trabalhadores a partir de suas características multifacetadas e da tensão no processo de constituição da classe trabalhadora. A concepção de cultura dos trabalhadores nessa perspectiva seria definida como ação de sujeitos históricos que interferem, por meio de suas práticas culturais, na manutenção ou na contestação dos sistemas de poder.

Batalha, Silva e Fortes (2004) abordam o conceito de cultura como uma negociação permanente nos processos que envolvem dominação política. Hall (2004), por sua vez, destaca a criação, pelos trabalhadores, de novas formas de atuação e resistência. Essa definição de cultura de classes imprime aos trabalhadores uma cultura própria; porém, não descolada da relação entre as classes, que contém em sua gênese algo além da representação simbólica de integração de trabalhadores em resposta a pressões da classe dominante, assume uma identidade, constrói uma lógica própria de vida em sociedade.

Para Batalha, Silva e Fortes (2004), cultura associativa seria o conjunto de propostas e práticas culturais das organizações operárias, a visão de mundo expressa nos discursos, os valores compartilhados, bem como os rituais que regem a vida das associações. Para o autor, a cultura militante assume também alguns aspectos específicos a cada corrente ideológica, preservando, todavia, traços comuns a todas as correntes. Considera que da linguagem do movimento dos trabalhadores e sua visão de mundo é possível distinguir um projeto cultural, que se situa em uma relação dialética de atração e de repulsão com relação à cultura dominante (BATALHA, SILVA e FORTES, 2004).

Assim, a cultura dos trabalhadores deve ser investigada a partir de suas múltiplas facetas. A aproximação do fenômeno da cultura dos trabalhadores metalúrgicos do ABC, por exemplo, foco da presente pesquisa, procurou partir da observação das dimensões sobre a cultura desses trabalhadores, considerando as fronteiras e intersecções entre seu caráter associativo e militante, dando luz a um fenômeno complexo e heterogêneo, salientando que, para que as experiências a serem estudadas possam ser compreendidas como cultura de classes, é preciso respeitar suas nuances e atentar ao risco de tomarmos por condições objetivas aquilo que foi percebido em termos de experiência vivida.

Segundo Savage (2004), a formação da classe não se dá, exclusivamente, no processo de trabalho, nem no mercado de trabalho, ela também é constituída em função da “insegurança estrutural” à qual estão submetidos todos os trabalhadores que precisam pensar estratégias para lidar com a “incerteza da vida diária” da qual depende sua subsistência. Esse pressuposto teórico sugere que, para compreendermos a formação da classe, é tão importante nos aproximarmos da vivência dos trabalhadores e das relações estabelecidas nos bairros, em suas casas e nas escolas em que estudam quanto dos locais de trabalho.

As diferentes formas de lidar com a insegurança à que são submetidos vão desencadear processos culturais e “soluções” das mais variadas, o que para o autor significa dizer que a formação da classe é “um processo fluido e contingente por intermédio do qual coletividades estáveis podem constituir-se” (SAVAGE, 2004, p. 34), compreendendo esse fenômeno como muito além das estruturas de classes, sendo permeados por mediações compostas por elementos culturais, sociais e econômicos.

Savage (2004) se utiliza de uma importante categoria de análise para aprofundar a reflexão sobre esses processos: a mobilidade social. Aborda pesquisa coordenada por Andrew Miles, Marco van Leeuwen e Ineke Maas sobre as tendências de mobilidade social na Inglaterra e no País de Gales de 1835 a 1914 que constatam que 90% dos filhos de trabalhadores manuais permanecem trabalhadores manuais. Em meados do século XIX, havia uma tendência à formação de uma aristocracia operária, permanecendo apenas os filhos dos trabalhadores qualificados; já por volta de 1914, identificam uma mobilidade generalizada entre trabalhadores qualificados, semiqualificados e não qualificados. Os autores atribuem esse fenômeno ao início do fortalecimento do movimento sindical e ao surgimento do Partido Trabalhista.

Na compreensão de Savage (2004, p. 18), as análises da mobilidade social nos dão dicas dos percursos ocupacionais previsíveis: “Por serem previsíveis, tais trajetos podem dar forma ao contexto das expectativas individuais e, assim, moldar sua percepção, identidade e – mesmo – sua consciência de classe”.

Kirk (2004) analisa duas vertentes teóricas da história do trabalho que, a partir da década de 1960, defendem diferentes posições sobre as culturas de classe: a primeira marxista e a segunda revisionista.

Enquanto a ênfase da abordagem marxista recai sobre a mudança, o conflito, e a classe, a segunda é animada pela atração à continuidade, estabilidade e consenso, e também por todo tipo de divisões arraigadas no meio operário, aquelas referentes à qualificação profissional, ocupação renda, gênero e ponto de vista (entre uma perspectiva “de classe” e outra “populista”, por exemplo) (KIRK, 2004, p. 49 ) Apesar de não estarmos, no presente trabalho, abordando exclusivamente os aspectos políticos relacionados à vivência cotidiana desses jovens trabalhadores, suas experiências fatalmente nos vão encaminhando para essa reflexão, uma vez que o lazer ou as práticas culturais nos dão pistas de suas posições pela continuidade ou rupturas das tradições políticas que os cercam, assim como sua visão de mundo.

Diferenças de opinião a propósito de aspectos da cultura operária – especialmente a natureza e a confrontação dessas forças que promovem a unidade e o conflito, assim como os padrões de mudança e continuidade entre os trabalhadores – têm sido parte constituinte importante do debate mais amplo estabelecido entre marxistas e revisionistas. (LEAL, 2011, p. 388)

Nesta pesquisa, procuramos abarcar esses elementos de mudança e de continuidade que acreditamos estarem presentes na complexa configuração dessas vivências.

Leal (2011), em sua obra sobre metalúrgicos e têxteis em São Paulo, explora uma série de elementos da constituição da cultura dos trabalhadores da época, relacionados ao trabalho, mas também à vida em comunidade, moradia, lazer e lutas políticas. O autor nos permite compreender mais sobre isso num período histórico anterior à comunicação em massa e ao lazer comercializado, tendo na TV sua mais forte representação. Seu estudo revela que os trabalhadores se reuniam para piqueniques, excursões, bailes, atividades, em grande medida, promovidas por associações de bairros, mas também pelos sindicatos. Na época, entre os homens, o futebol era a principal forma de diversão e entre as mulheres, os concursos de rainhas, algo próximo dos concursos de beleza que conhecemos atualmente.

O autor discute que havia uma luta pela atribuição de significado (LEAL, 2011) de algumas dessas atividades com explicações ideológicas, assim como valores diferentes.

Assim, uma primeira constatação é que, nas sociedades modernas, não constituindo as classes configurações fechadas – ainda que se verifique segregação espacial e social –, não podemos encontrar uma cultura de classes autônoma. As “culturas de classes” são relativamente ambíguas, verificando-se – como já foi analisado para outros contextos – circularidades: assim como o Primeiro de Maio sofreu apropriação pelo Estado e empresariado, os concursos de miss encontraram sua versão proletária. (LEAL, 2011, p. 394)

Ainda assim, esses acontecimentos, encontros e vida em coletividade, por meio da diversão e do lazer, pareciam permitir que a identidade como trabalhadores fosse sendo construída com a experiência vivida em comunidade.

Na análise do autor, no entanto, a partir de 1950, as condições materiais iriam dificultar a consolidação de uma cultura com contornos mais específicos, em função da “desestruturação das possibilidades objetivas de preservação e reinvenção” (LEAL, 2011, p. 399) daquilo que ele considerava ser a cultura operária e popular nos anos que se seguiram.

Por sua vez, o avanço da indústria cultural, transformando o tempo de lazer em tempo de consumo de entretenimento ou mercadorias, solapou a outra parte. A derrota da classe trabalhadora diante da ascensão do projeto de “modernização conservadora” implementado pela ditadura civil-militar de 1964 foi, assim, no sentido mais profundo, também uma derrota cultural. (LEAL, 2011, p. 400)

Essa leitura de Leal (2011) nos insere em uma discussão sobre o significado das atividades realizadas no tempo livre dos trabalhadores a partir de uma perspectiva mais crítica e contextualizada.